terça-feira, 30 de novembro de 2010

A baronesa, Contos de Aprendiz





“A BARONESA”




Trata-se da história de uma baronesa que “era antiquíssima”, uma boa senhora, embora chata que numa noite “sem qualquer incômodo para os da casa, tinha-se finado”.

A velha senhora da época do Império, chamava-se Ana Clementina de Soromenho Pinheiro Lobo e Figueiredo Moutinho..., inclusive com as reticências, descendente de “família de fino trato”. Já estava surda, tinha dificuldades de se locomover, esquecida e vivia remoendo-se, vivendo do passado e recordando-se bailes idos e casos antigos.





Vivia num “estranho apartamento, se juntarmos em sua representação os móveis modernos aos objetos remotos, o duco ao bolor (invisível, mas eterno) que envolve as caixas de madrepérola onde se guardam fitas e broches de antigamente. O living – aquela maravilha de claridade, sbre a baía. Mas no fundo do corredor, a porta do quarto da baronesa marcava o limite de uma região de sombra, rapé, reumatismo, pigarro, bolinhas de cânfora, gorgorão presidido pelo ceticismo do senador, que vinha dos velhos tempos e não se integrava aos novos, porém derramava sobre todas as épocas, raças, religiões e costumes, uma indulgência plenária não isenta de desprezo.”
Luís vivia nesse apartamento há um mês, porém só vira a baronesa quatro vezes. Ao ser notificado sobre a morte da baronesa, imediatamente, foi buscar Renato, o sobrinho neto da mesma. Seus interesses longe de respeito, carinho e afeição com a baronesa estavam centrados na possibilidade de usufruírem de seus pertences, suas jóias de um século e convertê-las em um bom dinheiro ou transformá-las em algo moderno.
 Essa herança aos poucos estava esvaindo-se, algumas dadas de presente de casamentos e batizados e outras perdidas pelo apartamento e desaparecendo inexplicavelmente...

 Chegaram tarde: “os braços da baronesa estavam nus, os dedos vazios”, restando-lhes, apenas, os brincos que depois de arrancá-los de suas orelhas com muitas dificuldades, abandona o quarto deixando o corpo da velha caído descuidadamente.

 Em seguida, Renato comenta com Luís que acredita que a causa mortis da baronesa foi o seu colar:





“Acho que ela morreu foi do colar...Você se lembra que ele dava três voltas folgadas? Cada vez que um da turma precisava de grana, chegava perto da velha, no sono, e arrancava uma conta. O colar foi diminuindo, diminuindo. Na última vez que eu vi a baronesa, ele dava só uma volta, e olhe lá.”



 
Dirigem-se ao banheiro, fazem a partilha justa da “herança” e depois, Renato retorna aos braços de uma de suas amadas.

Dessa maneira, a viúva do barão “cujo patrimônio sobrevivera á corte”, morre e tem seu corpo violado por seus próprios familiares que almejam lhe roubar as jóias.

A baronesa metaforiza o tradicional, o conservadorismo, o antiquado.

Sua morte é o fio condutor do conto e simboliza de forma alegórica o fim do Segundo Reinado, como afirma o narrador: “Assim acabou o Segundo Reinado”.

O conto se desenvolve através do dualismo entre a tradição versus a ruptura.

A descrição do ambiente, um apartamento que, por si, é uma representação do moderno já que o Rio de Janeiro da época do Império é mais conhecido por suas construções horizontais já evidencia essa ruptura.


  “(Estranho apartamento, se juntarmos em sua representação os modernos aos objetos remotos, o duco ao bolor (invisível, mas eterno) que envolve as caixas de madrepérola onde se guardam fitas e broches de antigamente. O living - aquela maravilha de claridade, sobre a baía. Mas, no fundo do corredor, a porta do quarto da baronesa marcava o limite de uma região de sombra, rapé, reumatismo, pigarro, bolinhas de cânfora, gorgorão de seda, pentes de monograma, conversa de bailes idos. Tudo presidido pelo ceticismo do senador que vinha dos velhos tempos e não se integrava nos novos, porém derramava sobre todas as épocas, raças, religiões e costumes, uma indulgência plenária, não isenta de desprezo.”
 Esse fato é confirmado quando o narrador reflete, inclusive, sobre a dificuldade de se morrer em apartamento:

“Impossível conceber enterro saindo de um edifício de apartamentos, onde os mortos são intrusos.”

 Outra característica importante a ser ressaltada é quanto à linguagem que permeia o conto. Carlos Drummond de Andrade contrapõe o estilo linguístico conservador, purista e clássico nas falas do senador (tradição) com o coloquialismo nos diálogos do sobrinho neto da baronesa (ruptura).

O autor representante do modernismo sem apresentar posição ideológica em favor de uma língua mais clássica ou mais coloquial utiliza-se desse recurso literário para expressar sua consciência crítica, característica da modernidade literária e atribuir um caráter alegórico ao conto.

 “ – Luis, avise a Renato que a baronesa faleceu.
Luís, hóspede da casa, estava de costas, debruçado sobre xícaras e pratos.
Apenas voltou a cabeça.
- Visp’rou, senador
- Como, visp’rou?
- Quer dizer, bateu o 31, esticou...”






segunda-feira, 29 de novembro de 2010

MARINA ABRAMOVIC

PERFORMANCE



"Para mim só existe performance se existe vida. Documentação não é necessária, livros com registros não são vida. Por isso criei a série Seven Ease Pieces (Sete Peças Fáceis), uma seleção de trabalhos da década de 70 que posso refazer eu mesma ou que artistas pedem autorização para interpretá-las", diz.
Marina Abramovic nasceu em Belgrado, em 1946. É uma performer que começou sua carreira no início dos anos 70. Ativa por mais de três decadas, ela recentemente começou a se descrever como a “Avó da arte da performance".
Tendo atingido o ápice de sua carreira, Marina Abramović é descrita por James Westcott, que prepara sua biografia, como a mais importante performer atual. Seu diferencial, segundo Westcott, é ser parte artista e parte atriz. “Tanto quanto ser uma performer carismática, Marina também possui um apurado senso estético. Ela é uma mestra em criar imagens intensas que irão permanecer por muito mais tempo do que a duração das performances.” declara Westcott.


OBRAS:

Blending-In Coats (jalecos brancos de algodão)

Time Energizer (estruturas de alumínio com ímãs)

Soul Operation Table (alumínio, neon, telas de algodão colorido)

Rejuvenator of the Astral Balance (cadeira, metrônomo)

Black Dragon (quartzo azul, quartzo rosa, hematita, quartzo verde, quartzo hialino)

Reprogramming Levitation Module (flores de camomila desidratadas, banheira de cobre, quartzo)

Waiting Room / Room for Departure (ferro, quartzo negro, lapis-lazúli, quartzo hialino, crisocola)

Inner Sky (ferro, geodo de ametista)

Chair for Departure (ferro, ametista)

Red Dragon (cobre oxidado, quartzo rosa)

White Dragon (cobre oxidado, obsidiana)

"A performance é um elemento básico da minha obra, ela pode acontecer em diferentes níveis. Nessa exposição, me importa a experiência do público, ele não estará como um voyeur, usará sua concentração e energia para interagir com os trabalhos".
O trabalho de Marina Abramović subdivide-se em duas partes: “Corpo do Artista”, em que a performance é executada por ela mesma, e “Corpo Público”, no qual ela pede ao público que participe da performance.

“Nós não ensinaremos só os artistas; nós também queremos educar o público.”
O trabalho da Abramovic explora a relação entre a performer e o público, os limites do corpo, e as possibilidades da mente colocando em risco a própria vida em algumas obras como: em “Rhytm” (1974), trabalho no qual a artista se deita sobre uma estrela de cinco pontas em chamas e “House” (2002), no qual permaneceu 12 dias sem comer na galeria Sean Kelly, em Nova York.
Na segunda metade da década de 1990, afetada pelos conflitos dos Balcãs, sua terra de origem, para as questões da Sérvia e Montenegro, realiza a obra que lhe rendeu o Leão de Ouro em Veneza, “Balkan Baroque” (1997), no qual sentada sobre uma pilha de ossos de vaca, a artista, durante 6 horas de quatro dias seguidos, limpa-os com água, sabão e uma escova de metal, arrancando-lhes os últimos pedaços de carne e entoando algumas canções originárias da Sérvia e das ex-repúblicas Iugoslavas.

“Uma das razões por que faço essa performance de longa duração no século XXI, é também uma reação à geração mais nova, porque ela se tornou uma espécie de vítima da vida apressada. Tudo tem que ser produzido para esse ideal da vida corrida, de forma que possa ser rapidamente consumido. E eu acho que nos tornamos vítimas também, a arte, o corpo, esse tipo de coisa, porque a arte é consumida rapidamente como qualquer outro produto, como qualquer outra mercadoria.”


Na primeira parte da performance realizada em 1973, a atriz, Marina Abramovic, utilizou 10 facas e um gravador. Sempre que se cortava a atriz trocava de faca. No final, Marina escutou a gravação prestando atenção em seus erros (momentos em que se cortou), e no ritmo em que usava a faca, identificáveis pelos sons. Repetiu então, a sua performance, na segunda parte, no mesmo ritmo cometendo os mesmo erros que cometeu na primeira parte. Assim, os erros cometidos no passado voltam a ser cometidos no presente.



“Balkan Erotic Epic” (2005) é parte da grande retrospectiva, “Balkan Epic”, apresentada pela primeira vez em Janeiro de 2006, no Hangar Biccoca, em Milão. Em “Balkan Epic”, a cultura pagã da região balcânica é foco central da investigação de Abramovic. A mostra revela como o erotismo, por meio de rituais descobertos pela artista em manuscritos dos séculos 14, 15, 16 e início do 19, estava profundamente enraizado na cultura sérvia desde os tempos medievais.


Esses textos apontam como os órgãos sexuais femininos e masculinos representavam para os camponeses instrumentos de cura, de prevenção de doenças, de fertilidade, uma forma de comunicação com os Deuses.

“Pensei que seria bem interessante encenar estes rituais que nunca foram encenados anteriormente - existem apenas descrições - para compreender como os observamos atualmente, e tentar conectar este entendimento bastante primordial da sexualidade à compreensão atual”, ressalta Abramovic.
“Balkan Erotic Epic” é formado por uma instalação de sete vídeos, nos quais a artista retoma esses rituais pagãos sob um olhar contemporâneo. Há homens vestidos em trajes tradicionais, com ereção, olhando para a câmera.

“São imagens que falam de orgulho nacional, energia muscular e energia sexual, como uma causa para a guerra, para desastres, mas também para o amor”, assinala.
Há homens copulando com a terra, como se fossem amantes, mulheres massageando os seios enquanto contemplam o céu, encharcadas pela chuva, cobertas de lama, com a vagina abertamente exposta para a terra.




Em “Ulay e Marini” dois artistas estão nus, junto a uma porta, na qual os visitantes tinham que passar por eles. Temos o limite da resistência do corpo e a relação com a sexualidade, com a orientação sexual e com o toque.


A performance foi apresentada pela primeira vez em 1977 em Bolonha, Itália, por Marina e o então marido Ulay.




   Em “The lips of Thomas” (“Os lábios de Tomás” 1975-1997) a artista faz um corte em seus lábios e fica sangrando, representando o símbolo da Ioguslávia.




Marina Abramovic performing Gina Pane's The Conditioning (1973).









   Durante a performance Abramovic fica sentada em uma cadeira, intacta, imóvel, em silêncio, com poucos movimentos e/ou expressões. O visitante é convidado a sentar-se em frente à artista, por quanto tempo desejar ou suportar. A única troca é o olhar profundo de Abramovic. Os visitantes são parte integrante desta performance, cada pessoa é fotografada, deixando registrada sua expressão e também o tempo que ficou diante da artista. O resultado é uma experiência única da sensibilidade humana, alguns demonstram derradeira emoção, chegando a chorar, outros são atônicos ou simplesmente acham graça da situação e soltam um sorriso.





   “Você está lá, e esquece o tempo - essa é a razão principal.”



A performance contemporânea mudou muito em relação ao seu surgimento nos anos 70?


Sim. Sofreu uma mudança cultural e tecnológica muito grande. Nos anos 1970, tínhamos uma forte influência da arte conceitual e nos anos 1980 esse tipo de arte sofreu um estresse por uma pressão do mercado da arte. Muitos a abandonaram para fazer uma arte mais “tradicional”. Eu sou uma das poucas da minha geração que continuaram atuando dentro dessa área. A performance, ao contrário da fotografia e do vídeo, só entrou para o circuito dos grandes museus recentemente. O MoMA e o Guggenheim são dois exemplos, ocorridos há pouco tempo, de espaços que tiveram mostras dedicadas à performance. A performance está se tornando uma arte “mainstream”.




Em que medida vivemos uma “sociedade da performance”?

Com o avanço das tecnologias, as pessoas têm um interesse pelo voyeurismo intensificado. É como se estivéssemos sempre olhando uns aos outros, e a televisão também teve um papel nisso. Sim, vivemos uma sociedade performativa nesse sentido.

Como foi sua relação direta com o grande público no MoMA?

Foi uma experiência que mudou a minha vida. Por causa desse trabalho cheguei à conclusão de que a simplicidade é um dos elementos mais importantes dentro da arte. Esse trabalho é um dos mais coesos e simples que fiz, são apenas duas cadeiras e eu. Foi um momento de reflexão muito grande. Além do mais, acho que foi uma das minhas performances que mais envolveram a participação do público.

A arte da performance sobreviverá ao corpo, através de reencenações e de documentações?

De certa forma isso já acontece. Temos, por exemplo, artistas performáticos que trabalham apenas em ambientes virtuais. Eu, inclusive, concedi permissão para esses artistas reencenarem minhas performances dentro do Second Life. Mas a experiência do corpo em sua essência vai continuar, apesar de ela ganhar novos elementos como, por exemplo, as novas tecnologias.






domingo, 28 de novembro de 2010

MADAME BOVARY

REALISMO PORTUGUÊS
GUSTAVE FLAUBERT
Rouen, 1821 – Croisset, 1880

I - AUTOR:
Filho de um médico de família abastada, GUSTAVE FLAUBERT é considerado um dos maiores artistas de toda a história da ficção em prosa.

Em 1836, conhece Elise Schlésinger, mulher quinze anos mais velha que ele, casada e com um filho, objeto da grande e insatisfeita paixão da sua vida, que lhe inspira “A Educação Sentimental”.

Em 1840 transfere-se para Paris para estudar Direito, mas acaba entrosando-se no mundo das Letras. Pouco depois, por causa de uma grave doença nervosa, regressa a Rouen.

Quando da morte do pai instala-se com a mãe e a sobrinha na casa de campo de Croisset. Nela vive o resto da sua vida.

Em 1846 conhece a escritora Louise Colet, com quem manteve uma abundante correspondência até 1855.

Em 1857, ano em que o seu livro MADAME BOVARY foi publicado, houve na França um grande interesse pelo romance, levando-o aos tribunais, acusado de ofensa à moral e à religião. O governo francês moveu um processo contra o autor e também contra Laurent Pichat, diretor da revista “Revue de Paris”, em que a história foi publicada pela primeira vez, em episódios e com alguns pequenos cortes.

A Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena absolveu Flaubert, mas o mesmo procedimento não foi adotado pelos críticos puritanos da época, que não o perdoaram pelo tratamento cru que ele tinha dado ao tema do adultério no romance.

Após a Revolução Liberal de 1848 empreendeu viagem pela África do Norte e Oriente Próximo passando por Malta, Egito, Palestina, Líbano, Constantinopla, Grécia, Itália.

Retirou-se depois para seu sítio em Croisset, dedicando seus últimos trinta anos de vida à produção literária em solidão quase total.

Flaubert, segundo alguns críticos, era contra tudo aquilo que ele mesmo representava, pois sendo filho de um provinciano rico e vivendo de rendas em sua idade adulta, sua obra teria sido fruto da tensão que o autor tinha com a sua própria condição de burguês.

O autor foi um grande estudioso da estupidez humana e para ele, o lugar onde a estupidez mais abundava era a província. E é a província o pano de fundo de seu romance mais famoso, “Madame Bovary”.

O que leva tais críticos a essa conclusão são afirmações feitas pelo próprio Flaubert como, por exemplo, durante o seu julgamento no Tribunal do Sena: “A orgia dos interesses equilibrava-se com os delírios da miséria”, a respeito da sociedade francesa que ele retratou em seus romances e de que ele próprio fazia parte.

O autor levou cinco anos para concluir a obra e foi acusado de ofensa à moral e à religião, por abordar o adultério, o desejo e os caprichos femininos dentro da rotina do casal entre uma bela donzela e um médico emergente.

O suicídio após adultério cometido na Normandia por uma mulher de um oficial de saúde serviu de tema para Flaubert em "Madame Bovary" em 1856, na Revue de Paris, narrativa que se transforma em livro em 1857 (1857/1993).

Após a absolvição do autor no processo em que foi acusado de "ofensa à moral pública e religiosa" em resposta à pergunta de quem teria sido o modelo da personagem, Flaubert pronunciou a frase histórica: "Madame Bovary c'est moi!”

Flaubert, embora, cresceu dedicando-se a leituras românticas, fez sucesso com livros que podem ser entendidos como anti-românticos, oferecendo um panorama do realismo em diversos campos: "Madame Bovary" e "Bouvard et Pécuchet" movem-se no campo do realismo burguês; "Salammbô", no realismo histórico; "Os Três Contos" caracterizam-se pelo seu realismo imaginativo e "A Educação Sentimental" (narra uma relação platônica entre um jovem e uma mulher mais idosa) mostra um amplo realismo vital.

Flaubert morreu em 8 de maio de 1880.

II – CARACTERÍSTICAS:

Flaubert leva à perfeição o romance realista e consegue a mais completa harmonia entre a arte e a realidade.

Dois pré-requisitos são necessários para iniciar a leitura da obra de Flaubert: paciência e envolvimento.

A linguagem extremamente trabalhada e descritiva faz com que a narrativa se torne lenta, principalmente ao detalhar a paisagem bucólica, os objetos, os caprichos femininos, o comportamento do homem apaixonado etc. Afinal, a obra é realista e comprometida com a realidade, evitando deixar “brechas” para a imaginação do leitor, o autor traça uma descrição minuciosa do espaço, do comportamento e da sociedade de sua época.

Para ele, a verdade e a beleza vão unidas; por isso põe tanto cuidado na sintaxe e na escolha do vocabulário, e concede tanta importância à estrutura.

Na sua obra literária, não muito extensa, Flaubert aspira à criação de um conjunto harmônico, à elaboração de toda uma trama simbólica que une as diferentes personagens. A sensibilidade do autor chega a cair no sentimentalismo e, nesses momentos, entrega-se a vagas reflexões rousseaunianas; mas quando se recupera destes “desvios”, parte para uma ânsia de perfeição e equilíbrio entre a harmonia e a realidade.

Flaubert buscava de forma obsessiva, o ideal de uma literatura em que a mão do autor desaparecesse. Esse ideal realista notabilizou o romance dos romances como a obra mais representativa do Realismo francês.

III – OBRA:
MADAME BOVARY, 1857.

Emma, jovem de treze anos, é internada pelo pai no convento de Rouen. Logo, nos primeiros capítulos, a protagonista apresenta uma convulsão em inventar histórias (pecados) e a criar um mundo imaginário encarnado de personagens romanescas que a literatura tem o poder de construir.

O autor com uma postura antiromântica critica o heroísmo dos cavalheiros românticos, utilizando-se de uma feroz ironia, acusando que esse tipo de leitura era “um forte perigo para a moral, especialmente a das mulheres e moças”.

Acrescenta que a leitura desses romances excita o desejo e o contato com cenas pecaminosas e estimula a identificação com personagens envolvidas em situações reprováveis para a sociedade e para a moral.

Embalada pela leitura, Emma sonhou “outra vida” para ela e cultivou suas heroínas com fervor.




Em vez de assistir à missa, contemplava no seu livro as vinhetas piedosas, bordadas de azul, e amava a ovelhinha enferma, o sagrado coração trespassado de flechas agudas (...)” (p.46); “À tarde, antes da oração, era feita na classe uma leitura religiosa. (...) Como ela ouvia, nas primeiras vezes, a lamentação sonora das melancolias românticas repercutir em todos os ecos da terra e da eternidade! Se a sua infância tivesse transcorrido no fundo de alguma loja de bairro comercial, ter-se-ia talvez aberto às invasões líricas da natureza, que comumente não chegam ao nosso conhecimento senão pela tradução dos escritores. Conhecia, porém perfeitamente o campo. (...) Acostumada aos aspectos serenos, voltava-se, pelo contrário, para os acidentados (p. 47).
O narrador revela o caráter perturbado, idealista e sonhador da personagem que transporta para a sua vida real os sonhos vivenciados pelo romance.
   Em seguida, é mencionada uma mulher nobre decadente, que a visita no convento (Emma era interna) para ensinar-lhe serviços de costura, e que a informava dos acontecimentos, levava recadinhos para fora, emprestava algum romance, “do qual ela (Emma) devorava capítulos inteiros nas horas vagas”.

  
Era só amores, amantes, damas perseguidas que desmaiavam em pavilhões solitários, pontilhões assassinados nas estações de muda, cavalos rebentados em todas as páginas, florestas sombrias, perturbações do coração, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis no arvoredo, cavaleiros bravos como leões e mansos como cordeiros, virtuosos como já não há, sempre bem postos e chorando como chafarizes (p.48).

   Compreende-se que um convento não é o local mais adequado para se dar vazão às excitações de uma moça que, como se diz, está na flor da idade.
   A permanência de Emma no convento se encerra após a morte da mãe, seguida de curto período de luto teatralizado, que parece, na verdade, dar ocasião ao surgimento de uma rebeldia e indisciplina que levaram Rouault, o pai, a retirá-la do internato.
   Quando deixou o convento, porque aquele espírito, positivo no meio de seus entusiasmos, que amava a Igreja por causa das suas flores, a música pela letra dos romances e a literatura pelas suas excitações apaixonadas, insurgia-se ante os mistérios da fé (...) "(p.51)

   A volta para casa, lança Emma na depressão: “ela se considerava grandemente desiludida, nada mais tendo para aprender, não tendo mais nada para sentir.” (p.56)

   “Emma havia lido Paulo e Virgínia, tinha sonhado com a cabana de bambus, com o negro Domingos, com o cachorro Fiel e, sobretudo, com a suave amizade de algum irmãozinho que lhe colhesse frutos maduros em árvores mais altas que torres de igreja ou que corresse descalço pela areia, para lhe trazer um ninho”.


   Assim inicia o capítulo, em que Flaubert descreve os sonhos de Emma, uma leitora romântica em plena época realista.
    Mas, é justamente aqui que aparece Charles Bovary na vida de Emma, para salvá-la, como o fará tantas outras vezes.
   Charles é chamado à casa dos Bertaux para atender Rouault, pai de Emma, após ter uma perna quebrada e a partir daí, desperta a atenção de Emma.
   Emma entedia-se com a vida simples e monótona do campo e necessita de uma paixão para mover seus impulsos.
   Charles era um homem sem grandes atrativos, tanto físicos quanto espirituais, um homem comum; na verdade, chegava a ser medíocre sob muitos aspectos. Emma vê nele a sua própria paixão, que se torna, então, o Outro de quem virá ser seu grande amor.
   O médico era casado com uma viúva que acaba prematuramente falecendo, oferecendo-se, assim, a oportunidade para a aproximação definitiva de Emma, com quem se casará.

“(...) a expectativa de uma nova situação, ou talvez a excitação causada pela presença daquele homem, pareceram-lhe suficientes para finalmente julgar-se atingida por aquela paixão ...”(P.51)

   “Antes de casar ela julgara ter amor, mas como a felicidade que deveria ter resultado daquele amor não viera, ela deveria ter-se enganado, pensava. E Emma procurava saber o que se entendia exatamente, na vida, pelas palavras “felicidade”, “paixão”, “embriagues”, que lhe haviam parecido tão belas nos livros” (p.51).
Emma que de início ficou reclusa num convento; em seguida, substituiu o lugar da mãe, cuidando da casa e de seu pai, agora, ocupará o lugar de uma morta e, novamente, se comprazerá em cuidar da casa e em comandar os empregados.
   Porém, logo após a noite de núpcias, a expectativa não se cumpre e ao confrontar-se com a mesmice de sua vida num povoado provinciano, começou a inquietar-se.
   A protagonista, então, ocupa-se com afazeres domésticos, dando um toque de requinte na arrumação da casa, da mesa, na comida e na vestimenta.

   “Se Charles o tivesse desejado, todavia, se o tivesse suspeitado, se seu olhar por uma única vez tivesse ido ao encontro de seu pensamento, parecia-lhe que uma abundância súbita ter-se-ia destacado de seu coração como cai a colheita de uma espaldeira ao ser sacudida. Mas, à medida que se estreitava mais a intimidade de suas vidas, realizava-se um afastamento interior que a desligava dele” (p.58).
 Charles era gentil e atencioso com Emma, mas era um homem comum demais, muito distinto dos heróis dos romances que Emma havia lido.
Mesmo assim, Emma empenha-se em se apaixonar por seu marido.

   “Todavia segundo teorias que julgava boas, quis entregar-se ao amor. Ao luar, no jardim, recitava todas as rimas apaixonadas que sabia de cor e cantava, suspirando, alguns adágios melancólicos; mas sentia-se em seguida tão calma quanto antes e Charles não parecia nem mais apaixonado nem mais perturbado.” (p.60) “Emma repetia para si mesma: - Por que, meu Deus, eu me casei?” (p.61)

   A paixão para Emma era o seu alicerce de vida e no Outro, que, por não se personificar no marido, tornou-se tão desinteressante e insuportável quanto sua própria vida e até a si mesma.
   Até que em um fim de semana passado num castelo de Vaubyessard, a convite do Marquês d’Andervillers, nobre que fora paciente de seu marido, despertou-lhe sonhos de uma vida glamorosa totalmente distinta da mediocridade que a cercava.


      Naquele ambiente requintado, cercada de damas e cavalheiros, ela esquecia-se do tédio e da depressão ao valsar nos braços de um Visconde:
    Passou a sonhar com Paris.
“Diante das fulgurações da hora presente, sua vida passada, tão nítida até então, desvanecia-se lá; além disso, ao redor do baile não havia mais do que sombra estendida sobre todo o resto” (p.69).

     Emma passa a ter vaidades, caprichos domésticos, imitar os comportamentos e a “vida” parisiense.
“Comprou um mapa de Paris e, com o dedo, percorria a capital. (...) Assinou a Corbeille, jornal de senhoras, e a Sílfide dos Salões. Devorava, sem perder uma palavra, todas as notícias das primeiras representações, das corridas e das sessões de gala, interessando-se pela estréia de uma cantora e pela abertura de uma casa de modas. Estava a par do último figurino, sabia o endereço dos melhores costureiros e quais os dias de passeio ou de ópera. Estudou, em Eugênio Sue, descrições de mobiliário; leu Balzac e George Sand, procurando satisfações imaginárias para os seus apetites pessoas. Até para a mesa levava o livro, do qual ia virando as folhas, enquanto Charles comia e conversava. A lembrança do visconde voltava sempre em suas leituras. Ela estabelecia relações entre ele e os personagens inventados” (p.72).

      Contudo, a insatisfação de Emma persistia e, já não encontrando o que pudesse saciá-la e preencher seu vazio, o tédio e melancolia persistiam acompanhá-la. Então, apegava-se á lembrança do baile, reformou seus vestidos, comprou berloques, dois vasos de vidro azul para a lareira, um estojo de marfim com um pouquinho de prata dourada, mas nada a completava.
“Ela o encantava com grande número de delicadezas; ora era uma nova maneira de fazer arandelas de papel para as velas, um babado que mudava em seu vestido ou o nome extraordinário de um prato bem simples que a empregada não acertara, mas que Charles engolia até o fim com prazer. Viu em Rouen senhoras que usavam um feixe de berloques presos ao relógio; ela comprou berloques. Quis para a lareira dois grandes vasos de vidro azul e, algum tempo depois, um estojo de marfim com um pouquinho de prata dourada (p. 77).

   A literatura que na adolescência excitara seus sentimentos e contribuíra para forjar uma alma sonhadora, agora, embora um tipo diferente daquela experimentada no convento, continuavam a fornecer-lhe alimento e fuga para o espírito e, ao mesmo tempo, imagens e ideias que tenta reproduzir no seu dia a dia, mas que acabam por torná-la ainda mais insatisfeita, aumentando o desânimo e o desespero.
   Emma com sua volatilidade está sempre enfastiada de tudo e todos, e a sua rotina a corrói. O seu dia a dia não lhe pertence. Seus desejos enxergam a sua realidade como algo ínfimo e inferior demais para ser vivido. Ela sonha com príncipes, riquezas, ostentações, status, bailes...
      “Agora negligenciava tudo em casa e a Sra. Bovary mãe, quando foi passar em Tostes uma parte da quaresma, surpreendeu-se muito com aquela transformação. Era, realmente, tão cuidadosa outrora e tão delicada, ficava agora dias inteiros sem se vestir, usava meias de algodão cinzentas e alumiava-se com uma vela.” (p.82)
   Emma buscava um caminho diferente daquele em que foi preparada para percorrer. O seu tédio vai além da falta de graça e da vida de seu marido, porque nada a satisfaz por muito tempo. Vaidosa, cheia de vontades, uma verdadeira mulher de fases, que ora alterna o ímpeto da paixão pela vida, ora entra em estado de letargia desconsolado com a existência.
   Então o corpo começou a falar:


   Com as reclamações frequentes que Emma fazia de Tostes e, após a recomendação de mudança de ares feita pelo antigo mestre que Charles consultou em Rouen, decidiram se instalar em Yonville, Neufchâtel. Nessa época, Emma estava grávida e desejava ter um filho do sexo masculino.

   “Empalidecia e tinha palpitações; Charles administrou-lhe valeriana e banhos de cânfora. Tudo o que se tentava parecia irritá-la ainda mais. Certos dias conversava com uma abundância febril; àquelas exaltações sucediam, de repente, torpores em que permanecia sem falar, sem mover-se. O que a reanimava, então, era derramar nos braços um frasco de água de Colônia.” (p.83)
  
“A partir de então, ela começou a beber vinagre para emagrecer, contraiu uma tosse seca e perdeu completamente o apetite.” (p.84)
 
  “...ele seria forte e moreno e se chamaria Georges; e a ideia de ter um filho homem era como a esperança de compensação de todas as suas impotências passadas. Um homem pelo menos é livre; pode percorrer as paixões e os países, atravessar os obstáculos, agarrar a mais longínqua felicidade. Mas uma mulher é continuamente impedida.” (p.106)
Quando dá a luz a uma menina, Emma virou a cabeça e desmaiou.
   A única razão que a animava, foi ter conhecido Leon, um jovem escrevente com quem compartilhava o gosto pela leitura dos romances.
  
“ – Minha mulher pouco faz jardinagem, disse Charles; embora se lhe recomende fazer exercícios, prefere sempre ficar no quarto lendo.
   - É como eu, replicou Leon; que há de melhor, realmente, do que ficar à noite do lado do fogo com um livro, enquanto o vento bate nos vidros, enquanto a lâmpada queima?...” (p.101)
   Leon apaixona-se por Emma e ela não esconde o seu interesse pelo rapaz. Dá-lhe muitos presentes e passeiam juntos, às vistas de todos.
   Charles porta-se com indiferença, mas os amigos e vizinhos tecem comentários maldosos.
   Emma ora se entregava ora se afastava de Leon, articulando um jogo de sedução e culpa.
   Nessa época, Emma demonstra zelo com a casa, com o marido e com a filha Berthe.
   “Ele se torturava para descobrir como poderia fazer-lhe sua declaração; e, sempre hesitando entre o temor de desagradar-lhe e a vergonha de ser tão pulânime, chorava de desânimo e de desejo.” (p.118)

   “Declarava que adorava crianças (...) e (...) quando Charles voltava, encontrava suas pantufas aquecendo-se junto às cinzas...” (p.124)
   Embora Emma lutasse contra seus sentimentos e na medida em que todo seu amor se voltava para Leon, seu ódio alcançava Charles, a quem culpava por sua infelicidade e insatisfação.
   Quando Leon partiu para Rouen; “teve vontade de correr para alcançá-lo, para atirar-se em seus braços e dizer-lhe: sou eu, eu sou tua!”.
  “(...) não conseguia frear seus sentimentos nem abdicar de sua paixão sofrida, (...), os apetites da carne, a ambição do dinheiro e as melancolia da paixão, tudo confundia-se num mesmo sofrimento...” (p.126)
   Emma procurou um padre local, confessou-se, mas o sacerdote foi totalmente insensível aos seus sentimentos. 
    Leon, por sua vez, apavorado por seus sentimentos, sentindo-se coagido diante da mulher que amava, decide fugir para esquecê-la.
    Em seguida, Emma conhece Rodolphe Boulanger, um “bom-vivant” que morava num castelo recém adquirido nas proximidades da vila.
   “(...) estava cansado de amar sem resultado.” (p.135), até “um dia escarrou sangue.” (p.142)
   Rodolphe aproveitando-se de um comício que se realizava em Yonville, aproxima-se de Emma dizendo-lhe frases insinuantes, queixando-se de amargura e solidão, e tenta seduzi-la.

  “(..) Ah! Se tivesse tido uma finalidade na vida, se tivesse encontrado um afeto, se tivesse encontrado alguém.” (p.156)
   E segurando as mãos de Emma, dizia: “ – A senhora é boa! Compreende que lhe pertenço! Permita que a veja, que a contemple!” (p.165)
   Rodolphe em seguida, ausenta-se temporariamente da casa de Emma e quando retorna, sugere um passeio a cavalo, que é incentivado pelo próprio Charles. Durante a cavalgada, ele consegue o seu intuito e Emma entrega-se.
  
“(...) em prantos, com um longo frêmito e escondendo o rosto, ela se abandonou. Depois, como se estivesse, finalmente, realizando as fantasias da puberdade, lembrou então das heroínas dos livros que lera e a legião empírica daquelas mulheres adúlteras pôs-se a cantar em sua memória com as vozes das irmãs que a encantavam. Ela mesma tornava-se como uma parte real daquelas imagens e realizava o longo devaneio de sua juventude vendo-se como aquele tipo de amante que tanto desejara ter.” (p.178)
   Então, Emma passa viver as aventuras adúlteras tantas vezes lidas e torna-se amante de Rodolphe.
    
“(...) Tenho um amante! Um amante!” (p.178)
    Seus encontros tornaram-se frequentes. Amavam-se na casa de Rodolphe e até mesmo sob o caramanchão da casa de Emma, enquanto Charles dormia.
   Emma tornou-se uma mulher romântica, prestativa e sentimental. Conversavam sobre seus passados:
    
“(...) falava-lhe de sua mãe e da mãe dele. Rodolphe a perdera havia vinte anos, consolava-o com linguagem afetada como se teria feito com um menino abandonado e dizia-lhe mesmo às vezes, olhando a lusa: - Tenho a certeza de que, lá em cima, elas aprovam nosso amor.” (p.185)
   Com o tempo, Rodolphe passou a desinteressar-se por Emma, “o grande amor de ambos em que ela vivia mergulhada, parecia diminuir como a água de um rio que era absorvida em seu próprio leito, e ela percebeu o todo.” (p.186)
   A frieza de seu amante fez renascer os impulsos maternais de Emma, aproximando-a de sua filha.

  
  “(...) fez mil perguntas sobre sua saúde como se voltasse de uma viagem e enfim, beijando-a mais uma vez e chorando um pouco, recolocou-a nas mãos da criada muito admirada diante daquele excesso de ternura.” (p.188)
   Humilhada e abandonada, Emma volta-se para Charles na tentativa de transformá-lo em outro homem.
   Na época, havia um aleijado em Yonville, o Sr.Hippolyte.
   Emma convence o marido a fazer uma arriscada cirurgia na perda de Hippolyte, sonhando com o sucesso da operação, com a glória do esposo e automaticamente, com sua própria glória e felicidade.
   Infelizmente, a operação foi um fracasso, arruinando a carreira de Charles. Emma sentindo-se uma “aleijada” perante seus sonhos é lançada novamente nos braços de Rodolphe.
   Emma e Rodolphe voltam a encontrar-se, mas esses encontros fortuitos já não a completavam.
   Ela precisava de mais: romper com a sua vida medíocre e encontrar a felicidade integral. Queria ser única, ter status, fugir com Rodolphe e ser plenamente completa.
   O amante percebendo a voracidade de Emma temia ser dominado por ela.
   Emma para impressioná-lo, comprava-lhe presentes caros.
    
“ (...) além do chicote com castão de prata dourada, Rodolphe recebera um sinete (...), tais presentes o humilhavam. Recusou vários; ela insistiu e Rodolphe acabou por obedecer achando-a tirânica e por demais invasora.” (p.205)
   Emma convence-o a fugir. Agendam a data e ela impulsivamente, compra vários vestidos novos e acessórios para sua viagem tão sonhada, através de promissórias de um inescrupuloso comerciante chamado Lheureux.
   No dia da partida, Rodolphe parte sem Emma, deixando-lhe somente uma carta.

   “Estarei longe quando você ler estas tristes linhas” (p.217)
   Emma desesperada, enganada e endividada, desmaia. A morte seria sua salvação. No entanto, o marido, abnegado, salva-a e ampara-a durante o longo tempo em que ela, de certo modo, morrera.
  
“Durante quarenta e três dias Charles não se afastou (...), pois ela não falava, não ouvia nada e parecia mesmo não sofrer, como se seu corpo e sua alma descansassem juntos de todas as suas agitações.” (p.223)
   Passada essa crise, Emma sobrevive e entrega-se a um curto período de religiosidade.
   O marido dedicado tentando reanimá-la, a leva a Rouen para assistirem à ópera. Lá reencontram Leon. A troca de olhares foi fatal e reacendeu a paixão entre os dois.
   Com a desculpa que desejava assistir à segunda parte da ópera, Emma fica em Rouen sob os cuidados de Leon, enquanto Charles, para cumprir com seus compromissos, retorna a Yonville.
   Leon havia amadurecido e adquirido autoconfiança durante sua estada em Rouen. Narra seus sofrimentos e amarguras; sua vontade de morrer e acaba declarando-se: “(...) porque eu a amei muito!” (p.251)
   Durante um passeio de carruagem, entregam-se totalmente. A partir desse dia, instalam-se, num quarto de hotel em Rouen e, enquanto Charles atende seus pacientes, Emma delicia-se com o seu amante.
  
“Estavam tão completamente perdidos na posse mútua que se sentiam em sua própria casa como se lá tivessem de viver até a morte como dois eternos jovens esposos. Ela lhe dizia: - Criança tu me amas? E quase não ouvia sua resposta na precipitação com que seus lábios lhe procuravam a boca.” (p.281)
   Emma vivia os seus sonhos desejados, “ela riu, chorou, cantou, dançou, mandou buscar sorvetes, quis fumar cigarros.” (p.290)
   Leon vê-se totalmente entregue àquela criatura dominadora e assusta-se com tal situação.
  
“(...) O que o encantava outrora assustava-o um pouco agora. Aliás revoltava-se contra a absorção, cada vez maior, de sua personalidade.” (p.297)
  Emma, por sua vez, também não era feliz, nada a completava, sempre desejando mais.
  
“(...) Ela não era feliz, nunca o fora (...) cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, qualquer prazer um desgosto e os melhores beijos deixavam nos lábios apenas um irrealizável desejo de uma maior volúpia.” (p.298)
   Outro agravante virá tirar-lhe o sono. Os grandes gastos, as prestações, as promissórias que ela adquiriu durante esse período, vieram à tona e o comerciante que sempre alimentou suas fantasias, torna-se arredio e passa a cobrá-la, inclusive, ameaçando-a.
   Desesperada pelas ameaças de Lheureux, que passara suas promissórias para outro comerciante, o qual pretendia executá-las e apropriar-se de sua casa, Emma confessa a Leon sobre a sua situação financeira e sugere que ele, roube o cartório em que ele trabalhava.
   Diante da negação de Leon e das propostas libidinosas do notário da cidade que propunha “comprá-la”, Emma responde-lhe:

   “Sou digna de pena, mas não estou à venda!” (p.318)
   Abandonada e sem saída, nega-se a render a Charles.
  
“A ideia da superioridade de Bovary em relação a ela a exasperava.” (p.319)
   Até que procura o preceptor Binet e oferece-se a ele. Ela só tinha o seu corpo a oferecer e até ele, foi rejeitado:
“ – Senhora! Como pode pensar!” (p.321)
   Como última opção, ela procura Rodolphe. Ele havia voltado recentemente afortunado para o seu castelo.
  
  
“(...) Eu ter-te-ia dado tudo, teria vendido tudo, teria mendigado nas estradas, por um sorriso, por um olhar!...depois, quando volto para ele, para ele que é rico, feliz, livre! Para implorar um socorro que qualquer pessoa daria, suplicando e trazendo-lhe toda a minha ternura,ele me repele, porque isso lhe custaria três mil francos! (p.326)
   Diante da insistência dela, Rodolphe enjoa-se e despreza-a.
   Perante toda rejeição, Emma procura no arsênico o seu fim. Somente a morte preencheria a sua busca incessante.  Mesmo a respeito da morte, Emma não se completava.
   “- Ah! A morte é bem pouca coisa, pensava ela: vou dormir e tudo estará acabado!” (p.329)
   
   Através da morte, esperava encontrar a paz, a plenitude e a satisfação do não-desejar.
   Mas, diferentemente do que ela desejava, sua morte foi marcada de dores e sofrimentos.
  
“(...) punha-se a gritar horrivelmente. Amaldiçoava o veneno, injuriava-o, suplicava que se apressasse.” (p.333)
                        

 Até que “uma convulsão abateu-a sobre o colchão. Todos se aproximaram. Ela não mais existia.” (p.340)
IV - ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA:
    Emma Bovary é uma mulher que vive sob forma literária. Para suportar a mediocridade, a falta de entusiasmo e a inspiração de sua vida, busca nos romances e nas publicações, o que precisa, para lhe permitir imaginar um mundo mais emocionante do que o oferecido por seu enfadonho marido.
   A paixão que Emma precisa, é aquela que dá sentido à sua vida, dela ela depende. E é pela falta dela, no casamento com Charles, que esta relação definhará. 
   Observe-se, ainda, que além dos livros, Emma lê revistas e jornais ditos “femininos”, isto é, consumindo um tipo de “literatura de massa” destinada às mulheres que tem suas sucedâneas nas revistas femininas do século XX, também sempre criticadas como “leitura perniciosa” ou “não apropriada”, ou, ainda, de baixa qualidade, indigna dos “verdadeiros leitores”.
   Ao procurar desesperadamente fazer sua realidade mais parecida com suas fantasias inspiradas pela literatura, Emma subverte a lógica do seu mundo prosaico e caminha para a tragédia. Gustave Flaubert cria uma personagem leitora cujas leituras a levam, efetivamente, àquela “perdição” denunciada pelos guardiões da moral e dos bons costumes da época.
   No trecho, “Ao voltar para casa, Emma comprazeu-se no comando dos empregados, em seguida, desgostou-se do campo e sentiu falta do convento” (p.56) Emma conclui que seria melhor voltar para o seio da Santa Madre Igreja a substituir o lugar da mãe, embora o conflito edipiano e a culpa sejam intoleráveis. 
   A morte como solução para os problemas é um desfecho tipicamente dos românticos, aqueles que vivem ideologicamente uma utopia de vida. Portanto, este final trágico é uma crítica do autor Realista à postura dos romancistas românticos.
   Emma sempre buscou no Outro à sua completude e Charles representava para ela, os seus fracassos e suas deficiências.
   No início da obra, Flaubert narra um fato que humilhou o pequeno Charles ao ingressar na escola: o seu acanhamento e castração diante da gozação dos alunos durante o episódio do boné, antecipando dessa forma, o perfil psicológico de Charles.
   Se a personagem Charles é desenhada como alguém de temperamento calmo. Emma representa seu oposto, pois quando criança, já demonstrava curiosidades e impulsividades.
  Com sua pretensão de superioridade e domínio, Emma procurava diminuir a todos, tratando, inclusive, os seus amantes como seres inferiores ou como crianças tolas, objetos.
   Nesse ponto, apresenta os elementos ou aspectos mais evidentes da estrutura da histeria na obra de Flaubert, que é a insatisfação. A protagonista buscava a felicidade e deparava-se sempre com a castração que aparecia nos Outros quando estes não correspondiam às suas expectativas. Inclusive, relatado simbolicamente com o nascimento de sua filha. Vê-se que a ideia que Emma tem do homem é a do falo potente e não a do simples macho, inversamente proporcional à imagem de castrada que faz de sua filha quando esta nasce.
   Lacan afirma que “ (...) o neurótico satisfaz quando sofre. Eles satisfazem algo que vai sem dúvida ao encontro daquilo com que eles poderiam satisfazer-se, ou talvez melhor, eles dão satisfação a alguma coisa. Eles não se contentam com seu estado, mas, estando nesse estado tão pouco contentador, eles se contentam assim mesmo.” (Lacan, 1964/1990, p.158).
    Em “Madame Bovary” realizou-se o que poderia se chamar de um “estudo de caso” no qual, nos utilizamos dos conceitos psicanalítico inaugurados por Freud e, desenvolvidos por Lacan. Foram identificados traços estruturais da histeria enquanto categoria clínica tais como: a insatisfação enquanto sintoma e, ao mesmo tempo, como forma de gozo relacionado ao desejo característico da histeria que é, o desejo mesmo de um desejo insatisfeito na forma de um mestre (pai-ideal) que se busca encontrar mas, que nunca satisfaz a exigência histérica que, na verdade, se remete à Coisa (materna) da qual o pai, é mais uma substituição metonímia do que, uma metáfora bem sucedida. Noutras palavras, o que se viu em “Madame Bovary” foi o drama de uma mulher histérica que nunca conseguia satisfazer-se com o que era e, com o que possuía, buscando no casamento e, em relacionamentos extra-conjugais, através do amor, a realização egoísta de seus desejos que com a desconsideração de sua condição material, levou-a e a sua família, à ruína financeira e, ao suicídio. Ou seja, o que se revelou assim, foi outro traço característico da estrutura histérica que é a não aceitação inconsciente da castração simbólica e, conseqüentemente, da diferença entre os sexos o que nos leva, a outro traço estrutural da histeria que é o do “fazer o homem” que marca, especialmente, a patologia histérica. Como conclusão podemos citar o fato de que, tanto ao nível teórico, quanto ao nível clínico. “Madame Bovary” mostrou-me como uma útil e bela ilustração da estrutura histérica, o que se espera, sirva de auxílio na compreensão de casos reais, o que viria a confirmar o adágio de que o artista nos precede ou, de que é a arte que se aplica à psicanálise e não o contrário.
   Perante isso, até a morte para Emma, representa o gozo de sua castração.
   
EMMA BOVARY, personagem principal do livro, é a alegoria de como alguém pode tornar-se o resultado de uma completa estupidez. Ela é o retrato fiel da incapacidade intelectual, emocional e da insensibilidade moral que, para Flaubert, eram os principais componentes das sociedades provincianas. Sociedades nas quais, em nome de um pseudoromantismo, as pessoas emprestavam a si mesmas personalidades fictícias e desempenhavam um papel que não se reunia com as suas verdadeiras naturezas.
“Madame Bovary” representa a metáfora da literatura como criadora de ilusões. Ao procurar fazer sua realidade mais parecida com suas fantasias inspiradas pela literatura, Emma subverte a lógica do seu mundo prosaico e caminha para a tragédia. Flaubert cria uma personagem leitora (Emma Bovary) cujas leituras a levam, efetivamente, àquela perdição denunciada pelos guardiões da moral e dos bons costumes.
   Flaubert colaborou com a verdade, deu a palavra certa em literatura e criou o Naturalismo. Com  aparente imparcialidade retratou a completa desilusão com os seres humanos e com a humanidade.
                      

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

“CONTOS DE APRENDIZ”, 1951



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


“FLOR, TELEFONE, MOÇA”







“Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
– Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
– Mas você não vai acreditar, juro.”

O conto é iniciado com a observação de que a história foi contada oralmente ao narrador por uma amiga, acompanhado pela negativa de que o texto seja conto. Dessa forma, o narrador se exime de todas as responsabilidades sobre tal estória e das possíveis críticas a esse respeito.
A amiga do narrador vai desenrolando o “caso de flor” pausadamente e acrescenta que a história a ser narrada é “triste”, além de levantar a dúvida sobre sua própria narrativa, antecipando o insólito.

– Mas você não vai acreditar, juro.”

O recurso narrativo de se contar a história para um “destinatário” permite que amplie o campo ficcional, pois transfere a posição de narrador para um passivo ouvinte.

“Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.”

Em seguida, a “emissora” apresenta a sua protagonista recorrendo às descrições dos aspectos físicos do ambiente real – o Rio de Janeiro urbano e comportamentais da personagem.

“– Era uma moça que morava na Rua General Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro.”

Nessa passagem, evidencia o caráter documental que a amiga do narrador pretende dar a sua narrativa, inserindo digressões e opiniões próprias na tentativa de persuadir o ouvinte. Entretanto, quando questionada pelo narrador, ela não possui respostas exatas e contra argumenta que são informações secundárias.

“– Mas a moça era de Botafogo.
– Ela trabalhava?
– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, "deslizar" pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma.. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas.”

Até que um dia, a moça durante seu passeio pelo cemitério, arranca inconsequentemente, uma flor de um túmulo e, a partir desse acontecimento, sua vida transforma-se num caos.

“– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
– Aloooô...
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?”

A moça, desde então, recebe insistentemente, estranhos telefonemas. Ela não consegue identificar a voz, se de homem ou de mulher, vinha longínqua como num interurbano, que reivindicava a flor que lhe fora “furtada da cova”.
Inicialmente, pensou tratar-se de um trote e chegou até desafiar a “voz”:

”Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
– Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.”


A moça não se lembrava de ter visto nenhum conhecido. Com certeza se tratava de voz disfarçada. “Esquisito, uma voz fria” e, a moça começou ter medo.
A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.”
Nessa passagem, surge á possibilidade de tratar-se de uma pessoa morta, uma história de assombração ao modo do fantástico tradicional. A moça desesperada resolveu desabafar com o irmão e depois com o pai que depois de ouvirem às súplicas da “voz”, concluíram que se trata de um trote de algum desocupado.


O interessante é que quando se referiam a ele, diziam “a voz”.
Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a frequentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?”
A moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas.
A família sentindo-se ameaçada foi queixar-se à polícia.
Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...
– Mas é a tranquilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?”
A moça não se lembrava de qual sepultura havia furtado a flor, então, a mãe comprou “cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.”
Mas, nem esse procedimento saciou “a voz” que insistia ter de volta a sua flor e não outras que “não brotavam de seu estrume”.


Sobrou-lhe a última opção: procurarem auxílio através do espiritismo, “mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos?”
A voz não parou de atormentá-la sistematicamente e a tal ponto que a moça morre “no fim de alguns meses”, exaurida pela insistência das ligações do suposto “fantasma”.


O conto “Flor, telefone, moça” é narrado por insistência realística do testemunho da emissora aliado a ausência de descrições precisas que colocam em cheque a verossimilhança da narrativa, operando a dicotomia entre o real e o metafísico.
A linguagem, assim, não será do autor, mas a dos sentimentos pessoais, fermentados, cristalizados e expressos segundo os meios de comunicação de cada personagem.
O autor está, portanto, fora do texto: nada sabe, nada viu; apenas tece, nos seus pressentimentos, a débil teia ficcional. Preferiu que as personagens falassem em diálogos e como ponto de sustentação da trama, elegeu uma sondagem psicológica e moral.
O título do conto já traz uma carga significativa e sugestiva.
A moça é disposta numa determinada situação cotidiana e tem o seu perfil avaliado pela emissora. Ambientado num cenário urbano o lado absurdo do dia a dia apresenta uma aparente simplicidade no tocante ao desenvolvimento da trama, porém, que é interrompida pelos telefonemas misteriosos e anônimos. Esse suspense deixa no leitor a hesitação, a incerteza, em relação a essa voz, pois não é desvendado no desfecho, se ela era um fenômeno do além-mundo ou algum trote de alguém que tivesse visto a moça despretensiosamente pegar a flor do túmulo.
O conto torna-se ímpar em relação a outros contos fantásticos mais tradicionais; pois “a voz” ameaçadora vem pelo telefone, ou seja, um objeto da modernidade. Pode-se dizer que, nesse conto, o insólito não está no fato fantástico em si, mas também no fato de uma “assombração”, fazer do uso do telefone para aterrorizar sua vítima. Por essa razão, há, em alguma medida, o deslocamento do terror para o humor, o que provoca um efeito parodístico e carnavalizado no conto e comprova uma intenção do autor de experimentar e o de fazer, evidenciando a recorrente dupla face do criador e do crítico.
Dessa forma, o homem “normal” torna-se objeto do fantástico por excelência e o fato fantástico passa a ser a regra e não a exceção.