segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

OS CUS DE JUDAS, ANTÓNIO LOBO ANTUNES


I – AUTOR:


António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942, na chamada Zona de Benfica. Cursou Medicina e especializou-se em Psiquiatria, por esta apresentar semelhanças com a Literatura (temia cursar Letras e tornar-se um professor).

Serviu como médico durante a Guerra Colonial em Angola (1961-1974). Ao retornar a Portugal, passou a clinicar em vários lugares para sua sobrevivência e paralelamente, escrevia para o seu prazer.
Sua estréia data de 1979 com a publicação de “Memória de Elefante” e a partir de 1985, dedicou-se exclusivamente à Literatura.
Seu nome foi indicado várias vezes para o Prêmio Nobel da Literatura e considerado um dos escritores portugueses mais traduzidos, em especial nos países do norte da Europa.
Em 1987, conquistou o Prêmio Franco-Português com a obra “Os cus de Judas”.
Viveu dois casamentos dos quais teve 3 filhas. Lobo Antunes vive em Lisboa, mas não dá entrevistas para a imprensa portuguesa e seus livros são publicados em outros idiomas, exceto em português. É em Paris, que se encontra seu editor oficial.
Considerado um autor cíclico no plano temático, pois suas obras andam em círculos (abordam o mesmo tema), enfoca principalmente:
- A Guerra Colonial de Angola;
- O caráter problemático do ser humano (seus medos, sua mediocridade, seus desejos frustrados) geralmente por uma educação enganosa, promovida pela sociedade portuguesa;
- A morte, a solidão e
- A crítica social-política.

II – ESCOLA LITERÁRIA:

António Lobo Antunes representa a Geração de Abril, estilo literário que sucede os autores que vêm dos anos de 1950 e que tem como mérito ser mentora intelectual da Revolução Portuguesa que fez do dia 25 de abril, um marco da libertação de 46 anos de ditadura em Portugal.

III – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

- Golpe militar que encerra a chamada Primeira República em Portugal (28 de maio de 1926);
- Inicio da Ditadura Militar (até 1928 os militares ocuparam o poder);
- Abril de 1928 – eleições presidenciais (Óscar Carmona apresentou-se como único candidato);
- Carmona tornar-se Presidente e António de Oliveira Salazar, responsável pelas finanças;
- Salazar exigiu o controle absoluto das despesas de todos os ministérios (equilibrou o orçamento de Estado, estabilizou a moeda e reduziu a dívida externa);
- Em 1931, Salazar chega à chefia do Governo;
- Em 1933, com a aprovação da Constituição, institucionalizou-se o Estado Novo;
- A autoridade de Salazar foi sempre incontestável, sendo o seu poder sempre superior ao do Presidente da República;
- Com características semelhantes ao Fascismo foram criados: a União Nacional (Partido Político Oficial), alterando o nome para Ação Nacional Popular, quando Marcelo Caetano substituiu Salazar; a PVE (polícia política poderosa e violenta), que em 1945 tornou-se a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), passando a se chamar DGS (Direção Geral de Segurança) no governo de Marcelo Caetano;
- No plano internacional, dominava uma política radicalmente nacionalista, marcada pelo lema “Estamos orgulhosamente sós” e pela defesa intransigente do colonialismo português, sob o argumento de que Portugal era “um Estado pluricontinental e multirracial”;
- Em 1961, sofrendo pressões internacionais para o país conceder a Independência às suas colônias, inicia-se a Guerra Colonial;
- Em 1968, Salazar afasta-se do governo por motivo de doença (morre em Lisboa, 27 de julho de 1970) e é substituído por Marcello Caetano;
- A Primavera Marcellista prometia aos mais conservadores a continuidade dos trabalhos e aos mais liberais, a esperança de renovação;
- Em 25 de abril de 1974 com o fim do Estado Novo, Marcello Caetano seguiu para o exílio no Brasil (faleceu em 1980).

GUERRA COLONIAL


Após a II Guerra Mundial, todos os países europeus foram concedendo a independência aos seus territórios na Ásia e na África. Portugal insistia em manter sob seu controle o que restava de seu antigo império: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, o chamado “Estado da Índia” (constituído por Goa, Damão e Diu), Macau e Timor.


Portugal nunca aceitou a descolonização (interesses econômicos e a propaganda da grandeza do país).

Em 1955, Portugal entra para a ONU e é orientado para que libertasse suas colônias. Porém, o regime declarou as colônias “províncias ultramarinas” e concedeu a cidadania aos seus habitantes, causando certo descontentamento na ONU.
Em 1961, após uma guerra, Goa, Damão e Diu são as primeiras colônias a se libertarem.
Em 1961, o MPLA (movimento Popular pela Libertação de Angola) inicia uma rebelião em Luanda; a UPA (União das Populações de Angola), posteriormente denominada FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), inicia violentos ataques no norte da colônia e depois de alguns anos, a UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola), começa uma luta de guerrilhas.
Salazar posicionará perante essas rebeliões com o lema: “Para Angola, imediatamente e em força”.
A Guerra de África só terá solução após as mudanças ocorridas em 1974, por meios políticos e diplomáticos.
Em Angola (país no qual o narrador de “Os cus de Judas” serviu ao exército português por 27 meses), a diplomacia teve problemas de ordem interna e internacional e teve que negociar com os três movimentos presentes no território angolano: MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola) e FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola).
A independência foi proclamada em 11 de novembro de 1975, porém seguiu-se uma guerra civil até 1995.
O MPLA foi constituído entre os anos 50 e 60 e agrupava as principais figuras do nacionalismo angolano e com a direção de Antonio Agostinho Neto, dirigiam a luta armada contra o colonialismo português.
Com ideologia marxista-leninista, o MPLA após a luta de libertação, iniciou uma luta interna contra as tendências da FNLA e da UNITA e governou Angola como partido único até 1991
Em 1992 venceu as primeiras eleições, embora essa vitória não tenha sido aceita e o país tenha voltado à guerra.
O MPLA possuía propensão entre a social democracia e o socialismo e ainda representava a maior força política em Angola.
Desde 1997, Angola caminha para a reconciliação interna, presidido por um Governo de Unidade e Reconciliação Nacional.
O narrador de “Os cus de Judas” tratava dos feridos que lutavam contra o MPLA.


IV – FOCO NARRATIVO:


Narrado em primeira pessoa do singular, um narrador-personagem reproduz a sua história (seu passado, seu presente) de forma fragmentada a uma interlocutora (uma mulher) silenciosa e sem qualquer participação narrativa.

V – TEMPO:

Cronológico: horas passadas no bar e no apartamento do narrador e os 27 meses em que o narrador esteve na África, narrada depois de 8 anos passados.
Psicológico: as memórias da guerra e da infância.

VI – ESPAÇO:

Angola, na África e as várias cidades, vilas e regiões mencionadas pelo narrador e retratadas e, Lisboa, Portugal, no apartamento do narrador. São citados vários lugares de Portugal, bairros e ruas de Lisboa.

VII – LINGUAGEM:

- Ironia, caricatura e humor negro;
- Introspectiva;
- Estrangeirismos (barbarismos);
- Imagens surrealistas;
- Figuras de linguagem em excesso;
- Termos de baixo calão;
- Períodos longos;
- Rebuscamento estilístico
- Experimentalismo.

VIII – PERSONAGENS:

- NARRADOR-PERSONAGEM:

- Homem por volta dos quarenta anos de idade que no momento da narração servia no exército português como alferes-médico. Quando adolescente vivia perseguido por conflitos íntimos e traumas, que sempre vinha à tona em suas lembranças marcantes do passado (tias, fotografias de velhas senhoras, de generais, bombeiros, o Jardim Zoológico) e, principalmente, quando se apresentou à tropa para “tornar-se homem” - recomendação de suas tias.
Casado e pai de mais de uma filha (referência no plural durante a narrativa), teve sua formação interrompida depois de ter passado 27 anos em Angola, em plena Guerra Colonial.
A guerra causou-lhe desequilíbrio emocional, transformando-o num indivíduo fragilizado, desorientado, viciado e inadaptado.
O narrador perde sua família, sente-se um estrangeiro nos tempos de guerra e em seu próprio país. Seus únicos consolos para fugir dos “cheiros da guerra” são o álcool e os encontros passageiros com mulheres.
A história do narrador confunde-se com a do próprio autor, dando um caráter confessional e autobiográfico na obra.

- INTERLOCUTORA

Pouco se sabe sobre a mulher que o acompanha no bar e depois em seu apartamento. Sempre calada, sua “fala” não se concretiza, manifestando-se apenas implicitamente. Não é jovem, tem cabelos encaracolados, magra e belos seios.

- TIAS

Senhoras idosas, moradoras em casas que cheiram a fechado, com mobília antiga, incentivaram o narrador a se tornar homem através da guerra e depois concluíram que nem a guerra o corrigiu.

- GENERAL MACHADO

Bisavô do narrador-personagem. Responsável por abrir a trilha na qual o bisneto passará. Apresentado por uma fotografia ameaçadora representa o tradicionalismo e o conservadorismo português.

- TENENTE

Companheiro de guerra do narrador-personagem confidenciava-lhe sobre o caso que mantinha com a criada em Lisboa.
Ficou abatido quando recebeu uma carta de sua esposa, comunicando a dispensa da criada. Vivia pedindo ao médico que lhe arranjasse uma doença para livrá-lo da guerra.

- ENFERMEIRO

Personagem de palavras de baixo calão auxiliava o médico, porém tinha horror a sangue.

- EX-MULHER E AS FILHAS

Conheceu-a em Tomar e casou-se quatro meses antes de partir para a guerra. Não acompanhou o nascimento da primeira filha e agora, separado de sua esposa, vê quinzenalmente as filhas com as quais tem um relacionamento frívolo.

- SOBA

Um dos líderes do povo angolano. Representa a destruição da guerra. De líder, foi rebaixado a costureiro da tropa e quando a máquina chegou, sentia-se um inútil.

- SOFIA

Jovem lavadeira angolana que o narrador se relacionou. Foi levada pela PIDE, depois de ter sido estuprada pela tropa.

- ISABEL

Jovem amante do narrador-personagem e de personalidade forte e determinada serviu-lhe de ponto de apoio e abandonou-o por não aguentar o seu mau humor.

HOSPEDEIRA (entregava o bilhete de vôo de retorno a Lisboa e teve uma noite de sexo frustrado com o narrador-personagem); FURRIEL (soldado que pede para ser abandonado em plena mata, representa o cansaço e o desânimo dos que lutavam); AGENTE DE PIDE (o narrador-personagem o costurou sem anestesia quando se rasgou no vaso sanitário); SOLDADO DE MANGANDO (suicidou-se dando um tiro na garganta); JONATÃO (enfermeiro negro da delegação de saúde nominal), entre outros.

IX – TEMÁTICA:

- Violência e o sem sentido da guerra;
- Medo e solidão;
- Neurose de guerra;
- Sexo;
- Alcoolismo;
- Influência familiar;
- Perda dos sonhos e do idealismo;
- Dificuldade de relacionamento.

X – RESUMO DA OBRA:

CAPÍTULO A

Através de um monólogo e tendo em companhia uma interlocutora não identificada, o narrador-personagem, em primeira pessoa, inicia o seu relato rememorando retrospectivamente, os passeios de domingos ao zoológico com os irmãos e o pai, quando criança.

“O que mais lembro da infância é o Jardim Zoológico: o rinque de patinação e o professor preto rodeado de alunas, que eu avistava maravilhado do restaurante do Jardim.”

Ele descreve as impressões e sensações através de um ritmo fluente, linguagem metafórica e sugestões surrealistas a estranheza que os bichos e os frequentadores do zoológico lhe causavam. Lembra-se, em seguida, de sua família: a casa em que cresceu; a asma do pai; a mulher dos amendoins que morava debaixo da varanda da casa dos pais e desabafava com sua avó as bebedeiras de seu marido; a cama da mãe; o retrato de um tio bombeiro; a janela do quarto dos irmãos e as tias, senhoras idosas “se movendo em arrancos pelo chão coberto de tapetes dos apartamentos cheirando a fechado, a gripe e a biscoito”.
Recorda-se das reuniões familiares e das tias que “diziam-me que era muito magro, apontavam velhas fotografias de generais furibundos nas paredes e profetizavam pela infância e adolescência afora dos sobrinhos: felizmente que a tropa há de torná-lo um homem”, enquanto que os tios beliscavam as nádegas da criada.
A descrição do seu cotidiano revela uma hipocrisia, onde família, religião e governo são as bases de sustentação para a educação e o “bom viver” dentro de uma sociedade.
O narrador-personagem misturando cenas carregadas de expressionismo passa, então, narrar o seu embarque para Angola com as tropas portuguesas, defendendo a política de Salazar, contra o Socialismo e a Democracia; sentindo-se um idiota-patriota, mas, que para o povo, era um herói (um homem!) como médico militar e a família presente na despedida, felizes e acreditando que, o Governo finalmente, o faria homem.


“Vivíamos todos sob as bênçãos de Salazar, da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, com a função de reprimir e precaver a criminalidade. Porém, semelhando ao fascismo, repreendia, censurava e torturava) e da Igreja”.


O protagonista relembra-se de um quadro “representando os uivos do povo diante de uma guilhotina” e relaciona-o como visse a sua própria morte.

CAPÍTULO B


O narrador-personagem relata a preparação para sua partida e contato com o ambiente militar (masturbação, horários, farda, cabelos raspados) e “a metamorfose da larva civil a caminho do guerreiro perfeito”. Em seguida, critica a presença das senhoras do “Movimento Nacional Feminino”, senhoras oriundas de famílias tradicionalistas que entregavam “santinhos” de Nossa Senhora de Fátima e porta-chaves com o retrato de Salazar, ameaçando as pessoas com a lembrança da PIDE, do Inferno, rezando Padre-Nossos nacionalistas, distribuindo cigarros e apertos de mãos com grande entusiasmo na partida dos soldados.


“No navio, senti Lisboa afastar-se de mim, o sem-sentido daquilo tudo e o peso da solidão”.

Os boleros para os oficiais e o cheiro de vômito que vinha dos porões, onde estavam os soldados, faz lembrar seus vômitos de menino acompanhado pelo coro familiar de “Papagaio Loiro”, que cantavam para fazê-lo comer. No dia seguinte, chegam à Madeira – Alenquer, trocando o inverno de Lisboa pelo verão do Equador.

CAPÍTULO C


Chegam á Luanda, capital de Angola, ilha de pobreza (esgotos ao pé da cidade, cães vomitando lixo, latas vazias de conservas, água com aspecto de creme solar turvo), prostitutas e calor.

A descrição de Luanda com sua miséria, crianças famintas leva o narrador o refletir sobre a condição humana e buscar na bebida e no sexo barato uma forma de evasão, além da ironia que, “de fato, e consoante as profecias da família, tornara-me um homem.”
O narrador-personagem, então, sugere que deviam erguer um monumento ao escarro.
O navio vinha cheio de caixões de defunto e a distração era adivinhar quem os ocuparia primeiro.
O narrador-personagem convida a interlocutora a continuarem a beber, chama o garçom, dá-lhe uma gorjeta magra e de uma forma animalesca, convida-a fazerem amor mais tarde.
O navio que o trouxera até Luanda estava de partida e a certeza que Lisboa ficara para trás, causava medo e desejo intenso de viver.

CAPÍTULO D

O narrador confessa ser terno, ter medo do ridículo, ser simpatizante da classe trabalhadora e contra a burguesia. Afirma que no período em que esteve em Angola tinha muito cabelo, embora aparado militarmente e agora, gostaria de esconder sua calvície em um chapéu tirolês.
Narra sua viagem de Luanda a Nova Lisboa, deixando para trás o cotidiano que já não lhe pertencia e acrescenta que jantava em restaurantes mantendo a espingarda entre os joelhos e sendo vigiado por olhares de negros de óculos escuros.
Volta a fazer digressões sobre sua infância, sua educação e dos limites a ele impostos (censura do canto nono de “Os Lusíadas”).
Seguem de trem para um vilarejo chamado Luso, e lá, recorda-se de seu bisavô, o General Machado, impondo sua valentia e heroísmo. Ele ajudara construir aquela estrada de ferro, por onde agora passava e, no entanto, ninguém o conhecia, mas sua família fazia questão de exaltar suas façanhas como uma epopéia.
No Luso, veria pela última vez resquícios de seu mundo e o desespero tomava conta de todos.

“Seis anos atrás, eu descia do Luso para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilômetros de Luanda (...) inicie a dolorosa aprendizagem da agonia.”

CAPÍTULO E

Gago Coutinho ficava a 300 quilômetros ao sul de Luso e junto à fronteira com a Zâmbia. O narrador afirma que o local era “terra vermelha poeirenta entre duas chanas (planícies savânicas das regiões orientais e centrais de Angola) podres, um quartel, quimbos (pequenas povoações rurais) chefiados por sobas (chefes de tribos africanas), o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos...”
Uma vez por semana, o narrador com a ajuda de um enfermeiro negro, o Jonatão, distribuía remédios aos doentes e feridos, que pareciam desenterrados vivos, mesmo sabendo que esses medicamentos eram inúteis para evitar-lhes a morte. Os doentes são descritos de forma caricatural e expressionista.
Mete Lenha, proprietário do café local, o refúgio das tardes de domingo, era casado com uma mulher muito gorda, de “nádegas atlânticas”. Lá, o tenente confessou ao narrador seu relacionamento amoroso com sua criada e a necessidade de fazer sexo constante com ela para que adquirisse amor pela casa.
Descreve em seguida, o hospital civil: local sinistro e sem recursos.


Os negros doentes, sem terra, sobrevivendo de esmolas e aterrorizados pela PIDE, fugiam para á mata, eram mortos ou ajuntavam-se ao MPLA, “o inimigo invisível que estraçalhava os nossos soldados”.

Em pleno desespero, o narrador questiona-se: “são os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nos foderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia...”
À noite, enquanto os oficiais praticavam sexo barato (cartuchos de hortelã, pimenta), ouvia-se na viola uma cantiga: “o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo”.
Às vezes, apareciam algumas visitas: oficiais do Estado-Maior, senhoras quinquagenárias sul-africanas, duas atrizes de revista.
O narrador comenta que ficou sabendo que na Baixa do Cassanje os negros eram obrigados a cavar um buraco na mata, deitar-se nele e esperar o tiro na cabeça.
O narrador elogia o silêncio e a imobilidade da interlocutora.

CAPÍTULO F

O narrador elogia os efeitos do álcool que “confunde os tempos, abole as distâncias e nos permite ser qualquer um”, depois cita artistas famosos que tiveram experiências negativas com o álcool (Fernando Pessoa; Ava Gardener, atriz americana; Scott Fitzgerald, escritor americano; Malcom Lowry, escritor inglês) e compara a liturgia da bebida com a da igreja.
Volta ao passado em Angola, “(...) e agora nos Cus de Judas – o médico competente e responsável que desejavam que eu fosse, consertando a linha e agulha os heróicos defensores do império.”
Em seguida, lembra-se de sua família em Lisboa: o pai se barbeando no espelho e sua esposa esperando um filho que ele não veria nascer. Lamenta-se não ter demonstrado carinho por eles e de não ter sido a pessoa idealizada pela sua família para servir de exemplo aos netos indiferentes.

CAPÍTULO G


Em Ninda, os alojamentos eram precários; havia falta de alimentos; a água estava contaminada; doentes arrastavam e a atmosfera lembrava a um hospital psiquiátrico de Lisboa.

O narrador relata que em pleno combate, protegeu-se num buraco, viu a morte chegar e pensou em sua esposa. Ela, que ele amara em Tomar e que hoje envelhecida, continuava ter a mesma beleza que quando a conhecera; sofreu pelo filho que estava por nascer e nos romances que tinha para escrever.
À noite, jogava xadrez com o capitão e falavam sobre líderes socialistas, que com certeza, deixariam chocados seus familiares. Depois, refletiam sobre o que restará deles quando a guerra terminar e como se adaptaram à vida civilizada.
Questiona, em seguida, como a interlocutora dormia: será como uma artista decadente do cinema americano, com venda negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas?
Retoma a refletir sobre a sua vida: suas filhas cresciam em casas que não recordaria e nas mulheres que encontrou e abandonou ou foi abandonado por elas e concluiu que, é “um solteirão melancólico a quem se não telefona e cujo telefonema ninguém espera...”
Reflete sobre o “que fizeram do meu povo, o que fizeram de nós” e “em que a guerra o transformou?”

CAPÍTULO H

O narrador-personagem pede à interlocutora a mesma atenção que os soldados ouviam os apelos do rádio e narra-lhe o seu primeiro morto que presenciou.
Ele tinha esperança que o ferido ainda respirasse. Embrulhou-o num cobertor, colocou-o em seu próprio quarto e recomendou-lhe que dormisse bem a sesta. O morto, depois, foi levado por um helicóptero a Gago Coutinho.


A verdadeira intenção era esconder o lixo vergonhoso da guerra, enquanto que, no rádio anunciava:


”Morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África”.

Era abril de 1971, em Ninda. Os feridos gemiam e eram acompanhados pelos dizeres do enfermeiro: caralho, a única palavra que vinha à sua boca diante do ódio e do desespero em relação à guerra.
O narrador lembra-se que, em 1961, era estudante revolucionário e fugiu da polícia e da PIDE, que perseguia os movimentos estudantis nas faculdades. E, que em 06 de janeiro de 1971, ao embarcar para Angola, chorou no banheiro.
Os fatos vão se misturando na mente do narrador e de forma não linear, narra a ditadura de Portugal, os mortos da guerra, o momento que o Hospital Militar de Tomar deu-lhe a notícia do seu recrutamento, a companhia da ouvinte, do capitão, a perda da perna de um soldado, as coxas do outro...

CAPÍTULO I

O narrador desabafa com a interlocutora que gostaria de acreditar que tudo o que passou fosse só um romance de mau gosto; que a história que está contando, era só para comovê-la e convencê-la a dormirem juntos, ou melhor, passarem a noite juntos, pois dormir a muito tempo não conseguia.
Narra-lhe que em 22 de junho de 1971, no Chiúme, o último dos cus de Judas do Leste, foi encaminhado a uma sala cheia de fotos de mulheres nuas que servia para a masturbação da sesta, e lá, recebeu a notícia do nascimento de sua filha.
Ele havia casado quatro meses antes de embarcar e essa filha era a esperança da redimissão dos seus erros.
No entanto, encontrava-se no Chiúme; enquanto que as senhoras do Movimento Feminino pensavam nos soldados, embaixo dos secadores de cabelo; os patriotas da União Nacional compravam roupas íntimas para as secretárias; a Mocidade Portuguesa preparava heróis que os substituam; os homens de negócios fabricavam material de guerra a preço módico, o Governo, pagava pensões miseráveis às mulheres dos soldados e eles, mal-agradecidos morrendo!

“No Chiúme só a mão do alferes Eleutério pousada sem palavras sobre o meu ombro fazia-me sentir acompanhado.”

CAPÍTULO J

Três horas da manhã, o narrador propõe pagar a conta, para representar o jovem tecnocrata ideal português e depois, volta às suas lembranças da guerra. Explica sobre o oficial catanguês, antiga província da República do Congo, hóspedes de luxo trazidos pela PIDE com a missão de aterrorizar os guerrilheiros. Era a tropa mais indisciplinada e violenta da guerra. Usavam as mulheres do soba com a mesma naturalidade que usava a escova de dentes do narrador. Conta que o tenente foi reprimido por esses oficiais e chegou a implorar que o narrador lhe diagnostica-se uma doença qualquer, para ir para a reserva; pois, não aguentava mais àquela situação, principalmente, agora, que recebera uma carta de sua esposa, contando-lhe a demissão da sua criada.
Depois de 11 meses, sem conforto; sem um corpo, sem amor, só masturbação, sem conhecer sua filha e já se esquecendo da fisionomia de seus amigos; partiu para Luanda.
Em Luanda é assediado por uma hospedeira. A seguir, toma o avião com destino a Lisboa, de férias.

CAPÍTULO L

O narrador divaga com a interlocutora sobre como seria envelhecerem juntos, “eu, você e a televisão, a santíssima trindade do lar.”
Fala sobre a sua chegada em Portugal e a revista de um funcionário da alfândega que desconfiado, fiscaliza sua bagagem à procura de metralhadoras.

“(...) Trago um feto de 8 meses.”
“ – Vocês vêm de Angola convencidos que são uns grandes homens, mas isto aqui não é o mato, seu tropa”.
“ – Se fosse, dava-lhe um tiro nos tomates.”


Depois, segue a curiosidade do burocrata idoso, perguntando-lhe se o feto estava num frasco; a piedade de uma senhora comentando que todos voltavam assim da África e a indiscrição dos olhares, como se olhassem os aleijados que rastejam de muletas nas cercanias do Hospital Militar, fabricados pelo Estado Novo.
No táxi tenta reconhecer sua cidade:

“ – Merda de país de merda!”

Ao chegar ao seu lar depara-se com “uma mulher na cama e uma criança no berço e ele parado ecoando os sons da guerra. Ao tocar em sua esposa, ouvia as frases do tenente:
- Pôr selo na patroa!
E no Luso, sentia fazer amor por todos: os capitães, os sargentos, o Ferreira sem perna...”

Volta a falar com a ouvinte, dizendo que um dia lhe mostraria a foto de sua filha, “àquela que não vi inchar na barriga da mãe”.
Estava de licença por apenas alguns dias. Então, de novo a partida e imagem da esposa calada encostada a uma coluna.

CAPÍTULO M

O narrador diz-lhe que vive sozinho e que recebe quinzenalmente a visita de suas filhas. Há, também, uma cabo-verdiana que ele se comunica através de bilhetes e que cuida da arrumação da casa e da roupa. Acrescenta que o próprio varal de sua casa, só ostentando roupas masculinas, denuncia a sua solidão.
Referindo-se aos “seus amores”, explica-lhe que são encontros passageiros, “que sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que já conheço de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidê, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna.”
Depois da higiene feita às pressas num bidê, resta um beijo sem batom e a trocas de telefones que ficaram esquecidos.
O narrador, em seguida, questiona como é o cotidiano da ouvinte e de maneira fria, diz que prefere ir para a sua casa, por não gostar de cheiro de incenso, que provavelmente deva ter na casa dela.
Continua o relato do seu retorno à Luanda e completa dizendo que, depois de jantar sozinho num restaurante, foi procurar a hospedeira que conheceu antes de sua partida.
A casa cheirava roupa para lavar e comida enlatada de animais. O sorriso da moça era carnívoro, o cão não parava de arranhar a porta da cozinha e por mais que a hospedeira tentou excitá-lo, ele não teve reação, “rodei até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar”.


CAPÍTULO N


Na volta ao Chiúme, o narrador comenta que ninguém estranhou a sua volta, sequer o notaram. Todos treinados para morrerem sem protestos, serem cobertos com a Bandeira Nacional e enviados para a Europa nos porões dos navios com suas medalhas. Jogados numa guerra, com discursos heróicos, vigiados pela PIDE e condenados a ler nos jornais somente louvores ao Estado Novo, enquanto o MPLA deixava mensagens: “Deserta, mas para onde se só havia areia em volta. Lutávamos contra nós mesmos.”
Os coronéis exigiam resultados, gritando que “ganharíamos a guerra”.
As viaturas eram poucas, de modo que os homens iam à frente procurando minas a fim de poupar o veículo:

“Um filho faz-se em cinco minutos e de graça...uma viatura demora semanas ou meses...”
“Mas, porque os filhos dos seus ministros não estão aqui como a gente?”

Na volta de um combate sentem a falta de um dos homens: era o furriel. Ele estava sentado a um canto e dizia: “estou farto desta guerra que nem a tiro vou sair daqui.”

Prezado Salazar se você estivesse vivo e aqui, enfiava-lhe uma granada sem cavilha pela peida acima...”

E, mandávamos cartas dizendo que estávamos bem, vivos e que até havíamos engordado.

CAPÍTULO O

O narrador relata o final de seu casamento: “numa paz feita de alívio, despedindo-se no elevador como dois estranhos e trocando um último beijo”. Depois, passou vagando por um ano de cama em cama, procurando companhia e frequentando o cinema solitário de madrugada.
Lembra-se do natal de 1971, em Chiúme: estava só, sem ninguém da família e recorda-se da casa do avô. Começa a delirar, confunde-se com o ferido que volta de uma operação na mata e sente que está aplicando a seringa de adrenalina por ele mesmo no seu próprio coração.

CAPÍTULO P

Não bebi demais, mas engano-me sempre na chave, talvez por dificuldade em aceitar que é este prédio...”

Ele desabafa à ouvinte que se sentia como se nunca estivesse exatamente onde parecia estar; fala sobre seus medos e que às vezes, ao entrar em sua casa teme ter outra família em seu lugar.
Revela que um dia recebeu um telefonema por engano e teve a sensação que ele era um estranho em sua própria casa.
Lembra-se de que à medida que os filhos partiam, sua mãe transformava seus quartos em salas.
Retorna a falar sobre Angola e diz que “o batalhão se deslocou ao norte, às Terras do Fim do Mundo, onde havia extrema miséria, governadas por chefes de postos alcoólicos...reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.”
O narrador apresenta o seu apartamento à interlocutora, cheio de pias batismais, poucos móveis e sem vista para o mar, “estou a salvo de partir naquelas aventuras interiores para a Índia de um sonho”.
Oferece um brinde ao futuro e pelo coma.
Recorda-se que os soldados tiraram retrato com a coxa amputada de um guerrilheiro do MPLA, como se fosse um troféu de guerra.
Seguiram, em seguida, em direção a Malanje e ao chegarem à base portuguesa, foram proibidos de dormir na cidade, para que não expusessem suas doenças aos oficiais ali instalados.

CAPÍTULO Q

O apartamento do narrador era praticamente sem mobílias dando espaço aos sonhos e causando à sensação de provisório, “que me permite adiar indefinidamente o presente”.
Das janelas observa operários que trabalham arduamente desde cedo e chega a sentir inveja dos seus horários e de sua vida. Ele, ao contrário deles, só sairá de seu apartamento à noite em busca de bares.
Essa vida, embora, parece ser fácil possui desvantagens: os amigos afastam-se, a família recua, os colegas de profissão comentam sobre sua incompetência e os pacientes desconfiam de suas olheiras e seu cheiro de álcool.
Durante um ano, o narrador afirma que morreu diariamente não a morte da guerra, mas a agonia da espera de voltar para a família, o hospital, cinema, amigos...e hoje, às vezes acorda com uma mulher que conheceu há algumas horas antes, num bar.
Conta que viveu durante um ano em Marimba, onde prisioneiros eram trazidos pelos jipes da PIDE para cavar sua própria sepultura.
O narrador confessa que um dia pode vingar-se do oficial responsável por essa barbárie, costurando sua nádega rasgada num vaso sanitário, sem anestesia.
Passado algum tempo, substituíam os líderes mais respeitados pelos mais obedientes e o soba, na senzala, ridicularizado por se dobrar àquele governo, vagava com um doente mental.

CAPÍTULO R

O narrador enquanto espera a manhã chegar, propõe fazerem amor.

“Essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis.”

Diz-lhe que já viveram demais e não correm o risco de se apaixonar; mesmo porque, seria uma maçada: ciúmes, saudades, dividir o mesmo lençol...
Retorna a descrever a guerra e das ocasiões em que entrava nas senzalas a distribuir remédios e era recebido com os insultos dos negros expulsando-o de lá e alegando que “não precisamos de vocês para nada, porque não era a eles que eu tratava, era à mão-de-obra barata para os fazendeiros brancos.”

CAPÍTULO S


Diante do espelho, o narrador lembra-se de Sofia. Era uma negra lavadeira que vinha ao arame entregar a roupa engomada dos soldados. O narrador a conheceu em Gago Coutinho.


“Falta-me o teu sorriso, as tuas mãos no meu corpo, as cócegas dos teus pés nos meus pés. (...) A gargalhada de prisioneira livre tocou-me como um gesto de irreprimível ternura.”

“Sua casa cheirava a vivo, algo tão raro naquele fim de mundo, onde tudo era morte.”

Uma noite, porém, ela não estava a esperá-lo. Uma velha de cachimbo, provavelmente sua mãe ou avó, contou-lhe que a PIDE a levara.
O narrador, no dia seguinte, dirigiu-se ao quartel da PIDE em busca de notícias de Sofia, àquela única pessoa que conseguia fazê-lo sentir-se vivo. No quartel foi informado pelo chefe da brigada que a estupraram e a mataram. Ao sair do quartel da PIDE, a única reação do narrador foi dar uma gargalhada
O narrador retorna à sala e continua narrando fragmentos da guerra de oito anos atrás e os efeitos dela sobre sua pessoa e sua personalidade.

CAPÍTULO T

“Deixe-me desapertar-lhe o soutien”.

O narrador acaricia a ouvinte, faz-lhe declarações poéticas, mas as imagens do soldado de Mangando que se suicidou com um tiro no pescoço, fazendo com que a metade inferior de seu rosto desaparecesse, voltam a perturbá-lo.
O soldado padecia e o narrador tinha vontade de fugir dali e de estar ao lado de sua filha, fazer revoluções nos cafés de Paris, doutorar-se em Londres, falando mal do seu país..

“Seria capaz de dar o cu para estar longe dali”.

A relação sexual será interrompida pelos gritos que o narrador escuta dos mortos da guerra que não conseguiu salvar.

CAPÍTULO U

Acabado o ato sexual, o narrador pergunta se ela gostou, pede-lhe desculpas por não estar em forma e comenta que irá se inscrever nos cursos que transformam os homens em Hércules eficazes.
Volta a narrar o seu desespero a beira de uma natureza exótica do Rio Cambo, “seus crocodilos e suas jibóias, rio de onde nasciam as trovoadas cheias de raios na época das chuvas, de onde se chamavam tristes deuses de pau com vozes guturais, onde as lavadeiras trabalhavam enquanto eram espiadas pelos soldados a se masturbar.”
Fala sobre o negro que perdeu a perna, devorada pelos jacarés do rio Cambo; sobre os camaradas mortos na mata onde a passagem fora interrompida por uma árvore inesperada; sobre a partida dos últimos companheiros mortos, estendidos no chão ao lado dos alimentos e da inveja que despertavam por voltarem primeiro para Lisboa.
Já está amanhecendo e o narrador conclui que o único lugar que não foi contaminado pela guerra foi à casa da tia Teresa, negra gorda, maternal e sábia.

CAPÍTULO V

“Conhece Malanje?”

O narrador inicia sua narração descrevendo a cidade de Malanje. Era a cidade dos diamantes onde todos traficavam, cercada de casas de putas, de eucaliptos e de uma luz miraculosa.
Lá, ele viu um oficial estuprando no banheiro uma prisioneira e sentiu vontade de urinar sobre eles.
O narrador pede para que a ouvinte fique com ele até que ele adormeça, ou até que chegue a próxima noite. E termina, dizendo que sente como quem flutua entre dois continentes que o repelem.

CAPÍTULO X

O narrador revela sua solidão, seu cansaço e sua tediosa vida. Confessa que gostaria de voltar ao seu ponto de partida: família, os irmãos, os amigos, as filhas e Isabel.

“Quando penso em Isabel não tenho receio do escuro.”

Ela sempre foi o seu ponto de apoio e não mediu esforços para auxiliá-lo a reconstruir sua vida, mas, perante tantos conflitos, acabou por desistir.
Fala à ouvinte sobre a incerteza e impossibilidade de um novo encontro, mas queria registrar que gostou dela e chegou a imaginar uma vida ao seu lado. Completa, afirmando que quando ela se for, baterá a porta, como bateu a porta da África ao regressar a Lisboa.
Conta-lhe a humilhação que passou ao desembarcar em Portugal e ter sido examinado por um médico homossexual o “seu mijo, a merda, o sangue, para que não infectasse Portugal”.

CAPÍTULO Z


Amanheceu e o narrador ainda sobre o efeito do álcool, levanta-se para acompanhar sua ouvinte até a porta.

Agora tudo é real, a ouvinte seguirá seu caminho como se nada houvesse acontecido e tudo o que viveu não passou de um grande pesadelo.

“A guerra não é real, nunca existiu...e que passaram 27 meses de angústia e de morte juntos...e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão...”

Na despedida, fala sobre sua reação ao retornar a Lisboa. A cidade parecia-lhe estranha e ele não a reconheceu, passadas algumas semanas visitou suas tias que depois de uma longa inspeção das mesmas, concluíram que estava magro:

“Sempre esperei que a tropa te tornasse um homem, mas contigo não há nada a fazer”.

O narrador explica o caminho para a ouvinte e diz que ficará por mais um tempo por lá, limpará os cinzeiros, lavará os copos, arrumará a sala e “talvez volte para a cama desfeita, puxe os lençóis para cima e feche os olhos. Nunca se sabe, não é? mas pode bem acontecer que a tia Teresa me visite.”

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FICÇÕES, JORGE LUÍS BORGES


“O livro é uma extensão da memória e da imaginação” e que “sentia como uma gravitação amistosa partindo do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens...”

(Buenos Aires, Argentina, 1899 – Genebra, 1986)


Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de agosto de 1899. Filho de Jorge Guillermo Borges, advogado, professor de inglês e psicologia, homem de vasta cultura, e de Leonor Acevedo Borges, mulher de personalidade forte, que teve influência marcante na vida do escritor.
Suas primeiras leituras foram no idioma de Shakespeare. Desde cedo à literatura o atraiu. Aos nove anos, traduziu para o espanhol “O príncipe feliz”, de Oscar Wilde, que foi publicado no jornal “El País”, de Buenos Aires.
Em 1914 a família Borges mudou-se para a Suíça, onde permaneceu até 1919. Lá, Borges continuou seus estudos, bacharelando-se em Genebra.
Em 1921, regressou a Buenos Aires e filiou-se ao Movimento Modernista Argentino, fundando as revistas “Proa” e “Prisma”.
Em 1923 publicava seu primeiro livro de poemas, “Fervor de Buenos Aires” e a partir daí seguem-se uma longa série de obras: ensaios, contos, poemas.
Em 1937 Borges começou a trabalhar na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, catalogando e classificando seu acervo. Apesar de sua paixão pelos livros, o ambiente de trabalho era dos piores.
No ensaio autobiográfico “Perfis”, publicado pela Editora Globo, complementando o volume de poemas “Elogio da Sombra”, ele declara:

“Suportei a biblioteca por cerca de nove anos. Foram nove anos de ininterrupta infelicidade.”

“A biblioteca de Babel”, conto do livro “Ficções” pretende ser, nas palavras do autor, “uma versão Kafkiana daquela biblioteca”.
No ano seguinte, o pai de Borges morreu. Logo, a seguir, o autor sofreu um acidente que lhe provocou uma septicemia quase fatal. Nessa época os sintomas da doença que herdara do pai, e que o levaria à cegueira, já começavam a manifestar-se claramente. Cada vez mais a mãe tomava conta de sua vida, organizando seus papéis, lendo e escrevendo o que ditava.
Recuperando-se do acidente, escreve o conto “Pierre Menard”, autor de “ Dom Quixote”, que faz parte de “Ficções” e que inaugura a Literatura Fantástica Borgeana, cujo auge foi atingido em “O Aleph”.
Foi professor de inglês, presidente da Sociedade Argentina de Escritores, diretor da Biblioteca Nacional e titular da cadeira de Literatura Inglesa e Americana na Universidade de Buenos Aires.
Mas, a cegueira hereditária que o ameaçava desde a infância tornara-se definitiva.

“...esplêndida ironia de Deus em conceder-me a um só tempo oitocentos mil livros e a escuridão.”

Com a morte de sua mãe, sua sombra protetora, embora deprimido e solitário, Borges não deixou de criar. Sempre ditando, e ajudado por amigos, publicou ainda vários livros.
Casou-se com Maria Kodama, sua ex-aluna, sua secretária e quarenta anos mais nova que ele.
Em 1986, Borges morreu vítima de um câncer no fígado, foi enterrado em Genebra, conforme sua vontade. Também conforme sua vontade, Maria Kodama, transformou-se em sua herdeira única e universal.
Mesmo não tendo sido distinguido com o Nobel, Borges recebeu muitos outros prêmios.

Para Borges “o tempo não existia. Era apenas uma vaga e ilusória convenção humana.”

“FICÇÕES” (1944)

Borges, cego, dono dos segredos da multiplicidade, é o leitor da hipertextualidade do mundo.”

Dentre as representações da literatura da América Latina, optou-se pelas Ficções de Jorge Luís Borges pela relevância desse autor no cenário literário mundial e pelo papel que essa obra ocupa em sua trajetória. Nela, o leitor encontrará reunidos os 18 contos que deram fama internacional ao escritor argentino. Primeiro, a estranha marca de originalidade desses escritos inovadores, que revolucionaram o conto moderno. Depois, o caráter fora do comum de seus temas, abertos para a inesperada dimensão filosófica no tratamento das questões mais cotidianas, sem dizer da qualidade ímpar de sua prosa.” (www.fgvsp.com.br)

Borges através da literatura fantástica, onde o real e o surreal se fundem em perfeita harmonia, desvenda o caos do mundo contemporâneo.
Para o autor, o homem perante as crises existenciais, ou de identidade ou social, desorientou-se e perdeu-se num labirinto intrincado, que lhe dispõe de uma multiplicidade de caminhos, mas não lhe mostra a saída.
O paradoxo é caracteristicamente borgesiano e seus contos profundamente originais. São parábolas de possível crença ou no sentido ou no acaso irracional do mundo.
Borges recria o mundo por meio da multiplicação linguística e sua intertextualidade, leva a uma criação literária mágica e o seu resultado é “uma plenitude de sugestões e associações na alternância do fantástico e do real.
As narrativas de Borges perpassam pelo sonho, pelas bibliotecas, pelo prazer, pelos labirintos e pela surpresa dos espelhos, onde esses temas afirmam a condição humana e desembocam em verdades absolutas.
O autor defende que a escrita é a metáfora do universo; assim, sendo, o homem se imortaliza através da literatura.

“É somente na escrita que podemos lutar contra o caos, que é o nosso mundo”.

Borges utiliza-se de metáforas do tempo, do espelho, do eco, da biblioteca etc como caminhos para a travessia da aprendizagem da vida, apoiando-se na uma constante intertextualidade.
O seu tempo é um eterno retorno, e por isso não se pode afirmar que este mundo é real, mas um simulacro, uma máscara.

Utilizando-se de críticos figurados, “Mme.Bachelier”, nas “Baronesas de Bacourt”, Borges critica a ociosidade dos críticos que, como escritores frustrados ou enfastiados, dedicam-se cada vez mais à afirmação de que não vale a pena escrever porque a própria leitura é uma tarefa de escritura.

No conto “Pierre Menard”, autor do Quixote, um personagem se dispõe a escrever o “Dom Quixote” de Cervantes, não como paráfrase, cópia ou transcriação, mas como se ele, Menard, pudesse ser o próprio Cervantes. Dessa forma, a preocupação da crítica literária centrada somente no autor e no texto, durante muito tempo, passou a ser repensada a partir do século XVII, com o “Dom Quixote”, de Cervantes, inaugurando uma paródia de um leitor crédulo, que enlouquece ao confundir a ficção com a realidade empírica.


A dúvida consistia se existe alguém nos dias de hoje, capaz de ler e interpretar a obra de Cervantes com a mesma interpretação dos leitores do século XVII. Caso a resposta seja negativa, concluí-se que como Menard (alter-ego de Borges), o que se lê hoje de Cervantes, é o que nós construímos e não o texto de Cervantes.

“Compor o Quixote no início do século dezessete era uma empresa razoável, necessária, quam sabe fatal; nos princípios dos vinte, é quase impossível. Não transcorreram em vão trezentos anos, carregados de complexíssimos fatos. Entre eles, para citar um apenas: o próprio Quixote.”

A intenção desses escritores que se utilizam da função conativa ao longo do romance não é presentificar a história narrada sem conduzir o leitor pelos caminhos de um enredo, mas conscientizá-lo sempre, do ato de leitura e da identidade do romance como um artifício, uma “construção” intelectual que se expressa numa forma verbal.

“O método inicial que imaginou era relativamente singelo. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros ou contra o turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e de 1918, ser Miguel de Cervantes. (...) De acordo, porém a empresa era de antemão impossível e de todos os meios impossíveis para levá-la a cabo, este era o mesmo interessante. Ser no século vinte e um romancista popular do século dezessete parece-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes e chegar ao Quixote afigurou-se-lhe menos árduo – por conseguinte, menos interessante – que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote através das experiências de Pierre Menard.”


Menard convida-nos a refletir sobre o capítulo XXXVIII da primeira parte de “Dom Quixote”, “que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote sobre as armas e as letras”.
Sabe-se que nesse discurso, a personagem “julga o pleito contra as letras e a favor das armas”, criticando “a espantosa fúria dos endemoninhados instrumentos da artilharia moderna (...), que corta e acaba a vida a um militar brioso quando este estava combatendo corajosa e valentemente animado pelos sentimentos que acendem e entusiasmam os peitos generosos”.

Dom Quixote ainda acrescenta em seu discurso que:

“Estou capaz de afirmar que me pesa no íntimo da alma de haver abraçado este exercício de cavaleiro andante em tempos tão detestáveis como estes em que vivemos agora; porque, ainda que eu sou daqueles a quem, não há perigo que meta medo, contudo muitas vezes me sinto receoso de que a pólvora e o chumbo me roubem a ocasião de tornar-me famoso e conhecido pelo valor do meu braço e pelos fios da minha boa espada em todos os ângulos da terra; porém, disponha o céu como lhe aprouver, que tanto mais estimado serei se levo a cabo o que pretendo, quanto me tenho exposto a perigos bem maiores que aqueles a que se expuseram os cavaleiros andantes dos anteriores séculos”.

O interessante é notar que Dom Quixote, na verdade, não pode realizar-se como um verdadeiro cavaleiro andante, numa época em que a cavalaria andante já estava extinta, como também está extinta a figura heróica do “livro”.
Dom Quixote, então, revela-se como uma figura risível e estropiada de um literato que insiste em lutar no mundo com armas que não lhe pertencem; inclusive, a sua “Dulcinéia” que não se trata de uma mulher nem de uma guerra, e, sim da própria literatura de cavalaria, pela qual luta com “sentimentos” perdendo para a “realidade”, restando somente: irrealidade e loucura.

No conto “Exame da obra de Herbert Quain”, o autor propõe-se analisar a ilustre e desconhecida obra de Quain (“Quem”?) e refletir a “extinção dos leitores”.

“(...) Não há europeu (suscitava) que não seja um escritor, em potência ou em ato. Também afirmava que das diversas felicidades que pode ministrar a literatura, a mais alta era a invenção. Já que nem todos são capazes dessa felicidade, muitos terão de contentar-se com simulacros. Para esses “escritores imperfeitos”, cujo nome é legião, Quain redigiu as oitos narrativas do livro Statements.”

Quain propunha uma nova experimentação literária: infinitas histórias e infinitas ramificações.

“(...) Há um indecifrável assassinato nas páginas iniciais, uma lenta discussão nas intermediárias, uma solução nas últimas. Já esclareci o enigma, há um parágrafo longo e retrospectivo que contém esta frase: “Todos acreditaram que o encontro dos jogadores de xadrez fora casual”. Essa frase deixa entender que a solução é errônea. O leitor, inquieto, revisa os capítulos concernentes e descobre outra solução, que é a verdadeira”.

Quain condenava as obras de difícil entendimento e afirmava que “a boa literatura era bastante corriqueira e que se encontrava até no diálogo de rua”. Em seu primeiro livro “The God of the Labyrinth”, explora o gênero policial aproximando-se das obras famosas de Agatha Christie.


Em “O Jardim de Caminhos que se Bifurcam” explora o gênero policial já desenvolvido pelo fictício escritor Quain.
Borges imagina neste conto um livro infinito, escrito por um sábio chinês Ts’ui Pen, que se constitui ao mesmo tempo num labirinto temporal.
A ligação livro/totalidade surge através do jogo com o tempo.
O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” revela uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo como concebia o sábio chinês, Ts’ui Pen contrariamente a Newton e Schopenhauer que defendiam um tempo uniforme, absoluto. O chinês acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de períodos divergentes, convergentes e paralelos. Essa confusão de tempos que se misturam, se aproximam, se afastam, se cortam ou secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.
Hsi P’eng, agente alemão e possuidor de um Segredo a ser transmitido para o Chefe, vendo-se perseguido pelo implacável Cap. Richard Madden, irlandês às ordens da Inglaterra, foge para Ashgrove, à casa do Dr. Stephen Albert (irmão de Stephen Dedalus, arquiteto do labirinto de Ulisses ou James Joyce).
Ao desembarcar na pacata estação, alguns meninos informam-lhe o caminho:

“A casa fica longe daqui, mas o senhor não se perderá se tomar esse caminho à esquerda e se em cada encruzilhada do caminho dobrar à esquerda.”

Hsi P’eng era bisneto de Ts’ui Pen, ex-governador de Yunnan, que renunciou ao poder temporal para escrever um romance e para edificar um labirinto em que todos os homens se perdessem.



“Treze anos dedicou a esses heterogêneros trabalhos, porém a mão de um forasteiro o assassinou e seu romance era insensato e ninguém encontrou o labirinto.”


Stephen Albert ao recebê-lo, convida-o a conhecer o “Jardim de Caminhos que se Bifurcam” do seu ilustre antepassado. O anfitrião encaminha-o a uma biblioteca de livros orientais e ocidentais e reflete sobre a vida do sábio chinês:

“Governador de sua província natal, douto em astronomia, em astrologia e na interpretação infatigável dos livros canômicos, enxadrista, famoso poeta e calígrafo; abandonou tudo para compor um livro e um labirinto. Renunciou aos prazeres da opressão, da justiça, do numeroso leito, dos banquetes e ainda da erudição e enclausurou-se durante treze anos no Pavilhão da Límpida Solidão. Ao morrer, os herdeiros só encontraram manuscritos caóticos”.

Hsi P’eng responde que tinha avaliado a escritura deixada pelo bisavô e que considerou um amontoado de apontamentos contraditórios e quanto ao Labirinto...
Albert interrompe o espião dizendo que se tratava de um “Labirinto de Símbolos” e que Ts’ui Pen teria dito uma vez:

Retiro-me para escrever um livro”, e em outra: “Retiro-me para construir um labirinto”.

Na época, todos imaginaram duas obras; ninguém pensou que livro e labirinto, era um só objeto. Então, Albert mostra-lhe um fragmento de uma carta redigida por Ts’ui Pen, onde se lia:

“Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam” e acrescenta que, “de início pensou que um livro infinito poderia ser um volume cíclico, circular que apresentasse continuidade indefinidamente (“1001 Noites”)”; depois, pensou tratar-se de uma “obra platônica, hereditária, transmitida de pai a filho, na qual cada novo indivíduo aditasse um capítulo ou corrigisse com piedoso cuidado a página dos antepassados”, até chegar no referido bilhete: “o jardim de caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários futuros (não a todos) sugeriu-me a imaginação da bifurcação no tempo, não no espaço. Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts’ui Pen, opta – simultaneamente – por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam.”

Na obra de Ts’ui Pen, todos os desfechos ocorrem; cada um é o ponto de partida de outras bifurcações. Às vezes, os caminhos desse labirinto convergem: por exemplo, o senhor chega a esta casa, mas num dos passados possíveis o senhor é meu inimigo, em outro meu amigo (...)”

Albert afirma que Ts’ui Pen jamais brincaria com as variações e nem passaria treze anos para produzir um romance retórico. Ele, na verdade, possuía inclinações metafísicas, místicas e sua preocupação primordial era com o problema do tempo, por isso omitiu a palavra “tempo” das páginas do “Jardim” (“Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é quiçá o modo mais enfático de indicá-la”). E, explica que as pessoas não existem na maioria desses tempos, mas em alguns. Por exemplo, em algum tempo encontramos alguém que é nosso amigo; em outro, é inimigo...

“Neste, que um acaso favorável me surpreende, o senhor chegou a minha casa; noutro, o senhor, ao atravessar o jardim, encontrou-me morto; noutro, digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.”(...) “Num deles sou seu inimigo.”

Yu Tsun sentiu-se rodeado de infinitas pessoas invisíveis; depois em outras dimensões de tempo junto com Albert, quando vê o Cap. Richard Madden atravessando o jardim. Pede para Albert mostra-lhe novamente a carta e quando ele virou-se de costas, Yu Tsun atirou, matando-o instantaneamente.
Madden, em seguida, prendeu-o e ele foi condenado à forca, entretanto, cumpriu a sua tarefa de comunicar a Berlim o nome secreto da cidade que deviam atacar. Albert, para tanto, teve que matar uma pessoa com esse nome.

“Abominavelmente venci: comuniquei a Berlim o nome secreto da cidade que deviam atacar. Ontem a bombardearam; li a notícia nos mesmos jornais em que apresentaram à Inglaterra o enigma do sábio sinólogo Stephen Albert, que morrera assassinado por um desconhecido, Yu Tsun.”

Em seu famoso conto “A biblioteca de Babel”, apresenta uma biblioteca composta de salas hexagonais tão vastas quanto o universo, povoada por livros dos quais não há dois idênticos (Alberto Manguel observa que esta biblioteca multiplica ao infinito a arquitetura da velha Biblioteca Nacional de Buenos Aires, da qual Borges era o diretor cego).


Nessa biblioteca se encontra todas as formas possíveis de expressão mundial através de todas as combinações possíveis do alfabeto. Lá, estão presentes todos os livros escritos e que poderão ser escritos um dia, já que os livros formam todas as combinações possíveis dos caracteres de uma língua.

A biblioteca de Babel” faz referência à Cabala (interpretação mística e misteriosa da Bíblia, entre os judeus; ciência oculta) e permite pensar em um “livro total” que estaria na “Biblioteca”.


“O universo (que outros chamam a Biblioteca) constituí-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. (...) No salão há um espelho, que duplica as aparências fielmente. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?), prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito...”


“Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez o catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci.”

Os idealistas defendem que as salas hexagonais são necessárias para aproveitamento melhor do espaço; os místicos, “uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que segue toda volta das paredes; mas seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus. Para mim é suficiente, por ora, repetir o ditame clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.”

Borges, assim, cria a expectativa que o livro é infinito, retomando o argumento da circularidade.
"A biblioteca de Babel” pode ser relacionada com uma “outra biblioteca famosa” descrita por Umberto Eco em “O nome da rosa”: labirinto, como microcosmo que conserva o conhecimento acumulado pelos homens (função que de fato era cumprida pelos monastérios na Idade Média) e o livro representando o tesouro maravilhoso, a fonte do poder, a chave para uma mudança interior.


A visão do livro como arcano parece ter sua realização mais perfeita na obra de Borges, pois para o autor, o livro possui um caráter sagrado e guardam a chave para os mistérios do universo.

Partindo da afirmativa que o livro é uma extensão da memória e da imaginação, Borges apresenta-o como objeto-fetiche, não o analisando como suporte de leitura, mas como personagem literário e da vida.

“Continuo imaginando não ser cego; continuo comprando livros; continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 da Enciclopédia Brokhaus. Senti sua presença em minha casa – eu a senti como espécie de felicidade (...) Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens”.

Para o escritor, em cada livro há um indício de um derradeiro final revelador, cuja narrativa contenha uma essencial razão de todas as coisas.
Os livros, simulacros de palavras, contem a totalidade: tudo está escrito. A palavra, representação humana, é ilimitada e periódica. Borges afirma:

“(...) Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores”.

O universo humano poderá se extinguir, mas a biblioteca, universo divino, será eterna, pois se encontra na dimensão sagrada. A biblioteca, representada por livros – exemplares únicos – deverá permanecer, mesmo que não existam mais leitores. Ao livro perfeito corresponde o leitor perfeito; este leitor só pode ser um deus.
O livro é o caminho para a sabedoria, para o conhecimento e guardar as experiências humanas.


“Se lemos um livro antigo é como se lêssemos durante todo o tempo que transcorreu entre o dia em que foi escrito e nós. Por isso convém manter o culto ao livro. (...) ele conserva algo sagrado, algo divino, não como um tipo de respeito supersticioso, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.”


“O homem, o bibliotecário imperfeito, pode ser obra da sorte ou dos demiurgos malévolos; o universo, com sua elegante dotação de prateleiras, de tomos enigmáticos, de escadas infatigáveis para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser criação de um deus.”

Sabemos, igualmente, de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Nalguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus.”

“Não me parece inverossímil que nalguma divisão do universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que seja, há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não estão para mim, que sejam para os outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno.”

Uma nova abertura do mundo narrativo de Borges está presente em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o retrato da criação de um mundo por meio da linguagem. O mundo de Tlön se afirma como uma imagem inversa de nosso mundo real, imagem em um espelho imaginário, em que as coisas de duplicam.

Em “Funes, o Memorioso”, o autor narra à trajetória da personagem Irineu Funes, filho de uma lavadeira, Maria Clementina Funes, moradores na quinta dos Laureles.
Irineu tinha “algumas excentricidades como a de não dar-se com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio.”
O protagonista sofrera uma queda e ficara paralítico, “(...) disseram-me que não se movia do catre, os olhos postos na figueira do fundo ou numa teia de aranha. Nos entardeceres, permitia que o levassem à janela. Portava a soberba até o ponto de simular que fora benéfico o golpe que o tinha fulminado...”

Nesta época o narrador tinha iniciado um estudo metódico do latim e trazia consigo algumas obras. Irineu ao ficar sabendo da presença dessas obras no povoado, escreveu uma carta ao narrador e pediu-lhe emprestado alguns dos volumes e de um dicionário “para a clara inteligência do texto original, porque ainda desconhecia o latim.”

“Não soube se atribuir o descaramento, a ignorância ou a estupidez a ideia de que o árduo latim não requeria mais instrumentos que um dicionário, para desenganá-lo completamente mandei-lhe o Gradus ad Parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.”


O narrador ao receber um telegrama informando que sua mãe não passava bem, prepara-se para partir e nota a falta dos dois livros. Decide ir à casa de Funes para retomá-los.
Irineu encontrava-se no catre, fumando e em plena escuridão. Ao receber o narrador, cumprimento-o e fez um longo discurso em latim.
Começou a enumerar, em latim e espanhol, “os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia (...) Com evidente boa-fé surpreendeu-se de que tais casos maravilhassem.”
Contou-me que antes da queda que o deixou aleijado, vivia “como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as lembranças mais antigas e mais triviais.”

O acidente “era um preço mínimo. Agora sua percepção e sua memória eram infalíveis.”

Contou que desenvolvera “um sistema original de numeração (...). Não o tinha escrito, porque o pensado uma só vez já não se lhe podia apagar”.

“Era-lhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, configurava cada fenda e cada moldura das casas certas que o rodeavam. (Repito que a menos importante de suas lembranças era mais minuciosa e mais viva que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Ao Este, num trecho não demarcado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava pretas, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção voltava o rosto para dormir. Também costumava imaginar-se no fundo do rio, embalado e anulado pela corrente.”

Este encontro estendeu-se até a madrugada e só quando chegou á claridade, o narrador pode ver o rosto daquele rapaz de 19 anos que falara a noite inteira.
Dois anos depois, Funes faleceu (1889) de tanto respirar a memória e o mundo, de uma congestão pulmonar.

Em “A Lotaria da Babilônia”, e “Os espelhos”, ambos os temas definidos por Borges por “um infinito jogo de acasos”, afirmam a condição humana de forma eloquente numa alegoria de verdades evidentes. Conhecer o indivíduo perante si mesmo, o lugar que se ocupa, inconsciente da sua imagem a não ser no espelho (onde é outro, afinal, reproduzido, duplicado), é uma tarefa de aproximação dos mistérios.

CONSIDERAÇÕES GERAIS:


- Na obra do escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) há duas premissas fundamentais: “primeiro, o caos que governa o mundo; e segundo, o caráter de irrealidade de toda a literatura” (JOZEF, APUD);

- O autor se compraz numa troca incessante de ficção e realidade, até confundir uma com a outra;
- A sua criação literária passa ser compreendida como processo de transfiguração e seu resultado é “uma plenitude de sugestões e associações na alternância do fantástico e do real”;
- As metáforas do tempo, do espelho e do labirinto ajudam a decifrar aspectos fundamentais em Borges;
- Ele recria o mundo por meio da multiplicação linguística, que produz uma “magia da linguagem”;
- O homem se imortaliza através da arte, da literatura;
- Somente através das escrituras que podemos lutar contra o caos, que é o nosso mundo;
- Borges utiliza-se das figuras do labirinto, do eco, do espelho e da biblioteca como “portas-passagens” que representam a multiplicidade de caminhos humanos, levam o leitor á “re-descobrir” a realidade em que vive, numa constante intertextualidade;
- O “eu e o outro, o outro que sou eu, o que não sou e as combinações de ser”, trata-se de uma geometria do Homem, percebida e construída;
- Borges é um escritor acadêmico, então um escritor da intelectualidade e academicamente, assume o papel de questionar o mundo e projetar as novas visões, que de novo tem, dizendo a verdade;
- A importância cultural de Borges advém do fato dele se constituir como um leitor. Através das suas leituras e subsequentes construções, percebe-se o significado intelectual e orgânico de cada um dos aspectos da vida, ou da vida em todos os seus aspectos. Ele conduz ao entrecruzar de visões numa utilidade que provém do entendimento íntimo de inúmeras relações;
- Se Ítalo Calvino questiona sobre o porquê ler os clássicos e ao mesmo tempo cria as suas “Cidades Invisíveis”, Borges remete-nos para uma realidade transfigurada por dois termos da equação. Por um lado, a herança dos “por obras valerosas/se vão da lei da morte libertando; por outro lado, a nossa capacidade de entreter a razão, sentir com a imaginação, criar, fundar, habitar os espaços invisíveis, de todo reais”;
- A herança de Borges pode ser encontrada nas obras de diversos escritores latino-americanos que desenvolveram seus trabalhos a partir do pressuposto de que a única integridade possível seja “a mágica, na qual, clara e definidamente, cada detalhe serve como presságio e como causa”;
- Cansado do Ultraísmo (Escola experimental de poesia que se desenvolve a partir do Cubismo e Futurismo) que ele mesmo tinha trazido da Espanha, tenta fundar um novo tipo de regionalismo, enraizado em uma perspectiva metafísica de realidade. Logo cansa também deste “Ismo” e começa a especular sobre a narrativa fantástica ou mágica, até o ponto de produzir durante duas décadas (1930/1950) algumas das mais extraordinárias ficções do século XX;
- Desenvolve-se um estudo comparativo entre Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa do ponto de vista dos procedimentos empregados na composição dos textos que se caracterizam como ficções no primeiro, estas aparecem sob a forma de contos, e no segundo, de poemas. Para a aproximação de formas dessemelhantes, monta-se um arcabouço teórico, reduzindo-se as duas categorias a um denominador comum que ocorre como pilar mestre da obra de ambos: a descentralização do sujeito, negado por ambos, cujas consequências serão uma criação muito peculiar: os contos de cunho fantástico, em Borges onde se desfazem os limites entre os gêneros e entre a realidade e a fantasia em Pessoa, as consequências refletem-se na heteronímia, ou seja, em discursos vazados em múltiplos estilos que não identificam um autor, mas numerosos autores;
- Criação da estética do sonho (fluxo das sensações, criação de um tempo e espaços infinitos);
- As suas narrativas fantásticas são verdadeiras arquiteturas verbais que, tal como os seus ensaios, “se nutrem da metafísica e da teologia”. Borges move-se com a mesma naturalidade entre a simplicidade imediata e mais inabitual estranheza;
- O tempo, o “eu e o outro”, o sonho, o infinito etc são temas que em Borges se tornam transparências em que se vislumbra desde o mais insólito até ao mais imediato e corrente da realidade. Borges praticou com maestria o pouco frequente dom da ironia, que não é mais que uma das faces do seu cepticismo e lucidez;
- As personagens possuem com frequência a marca indelével da solidão e da monstruosidade: labirintos que se erguem dentro de cada homem, caminhos que se bifurcam;
- Borges desconstruiu as certezas e as verdades absolutas que parecem ser os objetivos de vida dos seres humanos e as espalhou em um labirinto de palavras e pensamentos que beiram os limites da sanidade.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O SAGRADO E O PROFANO, MIRCEA ELIADE


A obra O SAGRADO E O PROFANO – A essência das religiões, MIRCEA ELIADE, contextualiza o que se chamou por “ciências das religiões”, termo empregado por Max Müller, a partir do século XIX.


O autor ressalta a importância da atualidade dessa ciência, autônoma e em formação que tem apresentado interesse não só do historiador, mas de todos que buscam conhecer e compreender a trajetória da existência humana.

ELIADE propõe um estudo baseando-se nos elementos essenciais das diversas religiões, através de uma análise comparativa, a partir de suas raízes e evoluções.
O autor enfatiza as duas doutrinas divergentes que regem a maneira de “ser” que acompanhou o homem ao longo de sua história: o homem sagrado e o homem profano e faz uma análise sobre o bifrontismo do ser humano, embora, sua atenção inicial esteja concentrada em “apresentar as dimensões específicas da experiência religiosa, salientar as suas diferenças com a experiência profana do Mundo”.
ELIADE não se limita apenas à história e ao estudo do fenômeno religioso, e, sim ao resgate das raízes do homem primitivo até as sociedades modernas em toda sua complexidade.
Essa experiência provocou uma dicotomia hierárquica entre o mundo superior e absoluto dos deuses – o mundo sagrado e, o mundo humano, concreto, finito e inferior – o mundo profano.
Partindo da premissa de que a religiosidade é exclusivamente humana e sabendo que o homem é um produto do seu contexto histórico-social e cultural, não existe uma manifestação religiosa totalmente “pura”, isto é, sem nenhuma interferência de fatores externos. Em qualquer que tenham sido as condições econômicas e sociais da formação e do desenvolvimento histórico de uma sociedade e de sua cultura, é possível constatar herança de elementos de características religiosas, como por exemplo: manifestação do sagrado em um objeto, mitos, símbolos, rituais etc que representam a forma de conhecimento, porque “revelam-se”, tornam-se sagrado, o ganz andere.
Nas sociedades das culturas arcaicas, estas verdades são denominadas hierofanias, “algo de sagrado se nos revela”, pois, através delas, afasta o homem da esfera do profano.
São inúmeras as hierofanias manifestadas que constituem toda a história das religiões e embora cada religião apresente elementos próprios, é possível estabelecer uma série de elementos comuns entre elas; inclusive, identificar o sagrado com o Cosmos, em sua totalidade, constituindo-se em uma hierofania.
O autor, em seguida, detém-se ao exame da construção das ideias de espaço e tempo e, finalmente, da vivência religiosa propriamente dita.
De acordo com ELIADE, para conhecer o universo mental do homem religioso é necessário levar em conta a existência de dois espaços distintos: o espaço sagrado, forte e significativo e os espaços profanos, sem estrutura, os amorfos; analisar a experiência do homem religioso perante o seu horror da homogeneidade do espaço profano e sua necessidade latente de encontrar-se e, fixar-se no espaço sagrado, transformando-o em seu centro de referência e sua orientação para com o Universo.

Quando o sagrado se manifesta por uma qualquer hierofania, não só há ruptura na homogeneidade do espaço, mas há também revelação de uma realidade absoluta, que se opõe à não-realidade da imensa extensão envolvente. A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo (...)” (ELIADE, Mircea. p.26)

O espaço sagrado significa o “ponto fixo” do homem religioso e a partir dele toda sua referência e orientação. Trata-se do “Centro do Mundo” que permite toda a constituição do mundo e sua orientação futura.
O homem não-religioso, aquele que se afasta da sacralidade do mundo, mantém a homogeneidade e a relatividade do espaço, onde não há um Mundo, mas, sim, “lugares” em que se verifica uma diminuição do poder sagrado. Contribuíram para esta situação o avanço das explicações científicas, a perda do poder e do prestígio das instituições religiosas, que eram os únicos “centros organizadores” na sociedade.
Um dos aspectos que caracterizam as sociedades tradicionais é o fato de haver uma oposição na constituição do espaço: de um lado, o “Cosmos”, o território real, habitável e que por ter sido criado pelos deuses é o canal de manifestação entre os homens através da vida cósmica; e do outro, o espaço desconhecido que o cerca que é povoado pelas estranhezas, o “Caos”, uma espécie de outro mundo.


Com essa especificidade o homem além de transformar o Caos em Cosmos, ele também santifica seu “mundo” à imagem do Mundo dos deuses, mas qualquer interferência exterior pode se transformar em ameaça e transformá-lo em “Caos”.

Essa interferência pode ser oriunda dos inimigos dos deuses (os demônios, e principalmente ao arquidemônio; o Dragão primordial vencido pelos deuses etc) e, a vitória contra esses destruidores dos “Cosmos” reitera a vitória exemplar do Deus, simbolizada pelo Dragão que teve de ser vencido e esquartejado pelo Deus para que o “Cosmos” pudesse vir à luz.
Estes dois modos de ser no espaço aparecem em diversas teofanias e sinais, como ritos que diferenciam os lugares sagrados, templos religiosos, escolhas de lugares para a constituição do espaço vivencial. Independente do grau de dessacralização do mundo, o homem não-religioso não consegue negar em sua totalidade seu comportamento religioso, por exemplo: um lugar que lhe traga saudades, passa ser um “lugar sagrado” para ele, como se ele tivesse experimentado a “revelação”, sensação comum ao homem religioso.
Assim, segundo ELIADE, na visão do homem primitivo, a tendência de “descobrir” o que é o mundo que o rodeia, a “conhecer”, a “compreender” esse mundo, a si mesmo, a natureza e a sociedade comprova que tudo está revestido de sacralidade.
ELIADE observa que ao longo da história, muitos objetos antes reduzidos na esfera natural, converteram-se em sagrados por todos os membros de uma determinada comunidade, após a revelação deste, em algo distinto de seu signo inicial, conferindo-lhe potencialidade de ser sacralizado pelo fato de haver sido criado pelos deuses.
O autor faz um breve relato sintetizando a relação entre a “cosmização” e “consagração” entre povos de cultura diversificada, enfatizando que a “cosmização” dos territórios desconhecidos torna-se uma “consagração”, pois a organização de um espaço reitera a obra exemplar dos deuses.
Um espaço desconhecido, dessa forma, torna-se vazio de significados até que o homem transforme-o, simbolicamente, em Cosmos pela repetição ritual da cosmogonia.
A necessidade de possuir uma casa equivalente a dos deuses é um desejo latente que alimenta o homem religioso e que o impele a configurar posteriormente em templos e santuários. Mas, para esta “construção” se solidificar, ela deve ser personificada, isto é, receber uma vida e uma alma e, o “traslado” da alma só se realiza através de sacrifícios sangrentos ou simbólicos.
A morada não é apenas um espaço geométrico do plano material para se habitar “é o Universo que o homem construiu para si imitando a Criação exemplar dos deuses, a cosmogonia”, portanto constitui-se uma “imago mundi”, um espaço sagrado e localizado simbolicamente no “Centro do Mundo” e aberto para a comunicação com o transcendente.
Então, pode-se afirmar que “todos os símbolos e rituais concernentes aos templos, às cidades e às casas derivam, em última instância, da experiência primária do espaço sagrado.”
Desde as sociedades mais arcaicas até os dias atuais, o homem religioso como o homem profano, preparou-se contra ataques que viessem a prejudicar a sua ordem local. Seu pensamento simbólico sempre esteve voltado ao Demônio e à Morte, que levariam o Cosmos a um estado caótico. Assim sendo, a simbologia religiosa do Mundo, perpetua-se também, no comportamento do homem não religioso, sem que ele se dê conta disso.
Existem três níveis cósmicos: a Terra, o Céu e as regiões inferiores (“os Infernos”) que se comunicam, através da imagem de uma coluna universal (Axis mundi) e que tem a função de ligar e sustentar a comunicação entre o Céu e a Terra. Acredita-se que a sua base está localizada nos Infernos; a coluna cósmica no centro do Universo e o mundo habitável no Centro do Mundo.
A partir dessas razões conclui-se que, o Centro do Mundo corresponde ao “Cosmos”, firmemente estabelecido e as regiões inferiores correspondem ao “Caos” e a regressão ao amorfo efetuada pela morte.


Este “Sistema do Mundo” tradicional é manifestado através de diversas crenças, mitos e ritos seguindo as diferentes civilizações e culturas das sociedades, mas todas derivadas de um ponto comum: o Centro do Mundo, base de compreensão do comportamento humano em relação ao “espaço em que se vive”.

O Tempo é um fator de suma importância para o estudo das religiões. Como o espaço, o Tempo, para o homem primitivo, não é homogêneo e contínuo.
O autor apresenta o conceito de Tempo dividindo-o, em: o Tempo sagrado e Tempo profano.
O Tempo sagrado representa a reatualização de um tempo mítico primordial que se faz presente com duração específica e periódica e, que, acontece durante as festas de caráter sagrado e se desenvolve em um círculo fechado.

O Mundo renova-se anualmente, isto é, reencontra a cada novo ano a santidade original”, tem o seu início e seu fim, representado pelo renascer do novo, no caso, o Ano Novo, remetendo, assim, uma restauração do Tempo primordial, em busca da purificação, da abolição dos seus erros no tempo passado e da renovação para o tempo futuro.
O Tempo profano tem duração ordinária e sem relações com a religiosidade.

O Tempo profano não pode apresentar nem rotura, nem “mistério”, constitui a mais profunda dimensão existencial do homem, está ligado à sua própria existência, portanto tem um começo e um fim, que é a morte, o aniquilamento da existência.”

Esse comportamento pode aparentar como um grande atraso ao homem não religioso contemporâneo, visto que ele centraliza-se no seu próprio “eu” e para com a sociedade. Porém, independentemente da divisão temporal, o homem religioso pode navegar entre o Tempo sagrado e o Tempo profano, pois o Tempo sagrado é recuperável através de cada festa periódica, onde “a primeira aparição do Templo sagrado, tal qual ela se efetuou ab origine, in illo tempore.”
O Tempo de origem corresponde ao Tempo de criação dos deuses e o homem ao reatualizá-lo, realiza-os através de rituais que são as festas religiosas.
O homem religioso ao reviver no presente as festas e os ritos do Tempo original, faz com que reencontre o “illud tempus” mítico, incorporando-os e revivendo-os na atualidade, tornando-os contemporâneos dos deuses.
Ao retornar aos ritos primitivos, o homem religioso tenta imitar seus deuses, mesmo quando, se depara com as “histórias divinas trágicas”, onde terá grandes dificuldades para enfrentá-las, tornando-se responsável por si próprio e pela Natureza ao reatualizá-las.

O mito é solidário da ontologia, só fala das realidades, do aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente.”

A esfera do profano não está inserida no mundo dos mitos, embora haja temas comuns entre as duas esferas, porém vistas e interpretadas com visões diferenciadas. Pode-se citar o exemplo da agricultura e da semeadura, que para o homem profano tornou-se uma dessacralização, visando somente ao capitalismo.


O homem religioso espelha-se na História Sagrada revelada pelos mitos que proporciona o entendimento de como a realidade veio à existência e como a imitação aos deuses remetem os homens ao sagrado e automaticamente, à realidade. Enquanto que, para o homem profano o que interessa é a História Humana.

O autor disserta sobre as diferentes concepções entre o Tempo mítico e o Tempo histórico citando o exemplo da Índia com seu esquema exemplar de “criação-destruição-criação etc”; em seguida, menciona o mito do eterno retorno e da concepção do Tempo circular aos seus limites extremos da Grécia; e, esclarece que para o judaísmo a ideia de “Tempo tem um começo e terá um fim” partindo da concepção que Jeová não se manifesta no Tempo cósmico (como os deuses das outras religiões), mas num Tempo histórico, onde “seus gestos são intervenções pessoais na História e só revelam seu sentido profundo para seu povo, o povo escolhido por Jeová. Assim, o acontecimento histórico ganha uma nova dimensão: torna-se uma teofania.”
Quanto ao cristianismo “conduz a uma teologia e na a uma filosofia da História, pois as intervenções de Deus na história, e sobretudo a Encarnação na pessoa histórica de Jesus Cristo, têm uma finalidade trans-histórica – a salvação do homem.”
Assim, o historicismo é o produto de decomposição do cristianismo, pois nega toda possibilidade de uma revelação trans-história, detendo-se literalmente ao acontecimento histórico.
ELIADE, atenta que o Cosmos é uma criação divina, dessa forma, a Natureza revela-se ao homem religioso impregnada de sacralidade, pois ela transcende “do natural” e eleva-se ao “sobrenatural”, onde a ontofania e a hierafania se unem.
O Céu com sua infinitude revela-se de forma transcendental, absoluta e eterna aos olhos do homem religioso e inacessível aos homens que o impregna de significados simbólicos, além de representar a fortaleza dos deuses e consequentemente, a fraqueza humana. O Cosmos, como obra exemplar dos deuses “é construído de tal maneira, que o sentimento religioso da transcendência divina é incitado pela própria existência do Céu.”
São diversas nomeações que remetem ao Céu, porém Céu não corresponde a Deus, afinal, Deus é o criador de todo o Cosmos inclusive do Céu, onde fez sua morada.
ELIADE discute sobre o afastamento de Deus que após a criação do Cosmos, da Vida e do Homem, abandonou a sua criação e se estabeleceu no Céu, deixando na Terra um filho ou um demiurgo para acabar ou aperfeiçoar sua obra de criação.
A agricultura, a sexualidade, a fecundidade, a mitologia da mulher e da Terra etc são alguns fatores que absorvem o homem primitivo aproximando-o da experiência religiosa da vida através dos Deuses fortes e das Deusas-Mães que os tornam mais concretos que o próprio Deus criador. Essas divindades, porém, acabam perdendo seu caráter mais específico que é o espiritual, para especializarem-se em funções mais reais.
O autor apresenta alguns exemplos de religiões primitivas onde o Criador está ausente na atualidade religiosa, mas presente nas orações, preservando ativamente a imagem do Ser Supremo.
A simbologia da Água possui grande força expressiva: primeiramente, por existir antes da Terra e, pelo resgate do símbolo da Criação. Esse simbolismo implica na morte, por ventura da imersão, equivalendo à dissolução das formas; a representatividade do renascimento; da regeneração; da purificação ou de um “novo nascimento”, além de corresponder ao batismo e aos banhos rituais primaveris que trazem saúde e fertilidade, adquirindo a função de “lavar os pecados”.
À cosmogonia aquática defende a crença que o ser humano nasceu das Águas, dessa maneira, ela representa a “segunda morte” do homem ou a morte iniciática simbolizada pelo batismo, mas nunca a sua extinção definitiva e sim, uma renovação.
A Água integra todas as revelações particulares das mais variadas hierofanias, até mesmo por sua forma vaga, fluída e abstrata que a destaca de todos os objetos.
O símbolo da Terra Mater ou a Tellus Mater é associado ao símbolo da fecundidade, da fertilização e evidentemente, da mulher, que sempre esteve envolta por poderes mágicos e religiosos ocultos. Ao relacioná-la misticamente com a Terra, a fecundidade feminina tem um modelo cósmico: o da Terra Mater, da Mãe universal.
A crença de que os homens foram paridos pela Terra espalhou-se universalmente, assim, a Terra é a responsável pelo nascimento de todos os seres.
ELIADE explicita a humi positio (parto no chão), ritual que carrega uma carga religiosa e imitativa: a repetição do ato primordial da aparição da Vida no seio da Terra.


“Por isso, a mãe humana deve colocar-se em contato direto com a Grande Mãe, a fim de se deixar guiar por ela na realização do grande mistério que é o nascimento de uma vida, para receber dela as energias benéficas e encontrar aí a proteção maternal.”


O ritual de depor o recém-nascido no solo foi muito difundido e alcançou vários países, porém com diferentes significados, podendo ser, sinal de reconhecimento; aceitação na nova família; consumação de fatos; identidade substancial entre a Raça e o Solo; legitimação da verdadeira mãe; proteção divina etc.
Algumas religiões defendem a possibilidade da Terra-Mãe conceber independentemente de um companheiro, remetendo a expressão mítica da auto-suficiência e da fecundidade da Terra-Mãe. Em outras, a criação cósmica é o resultado de uma hierogamia entre o Deus-Céu e a Terra-Mãe.


O mito divino também é representativo no ritual conjugal, na sexualidade e nas orgias rituais de fertilidade, correspondendo à indiferenciação anterior a Criação.

Para o homem religioso a Árvore assume conceitos de regeneração, de eterna juventude e de saúde. A árvore é símbolo de Vida, da juventude, da imortalidade, a sapiência e a união do real e do sagrado por excelência. Tanto é que os mitos da busca pela imortalidade ou da juventude são representados por uma árvore que é protegida por monstros. O homem que quiser provar desse fruto terá que enfrentar desafios, travando uma batalha sangrenta até atingir seus objetivos.
Entretanto, os cultos da vegetação não se prendem ao fenômeno natural da primavera e da aparição da vegetação e, sim, sinal prenunciador do mistério cósmico.
A dessacralização da natureza é uma experiência recente encontrada numa minoria das sociedades modernas, embora nunca concretizada em sua integralidade.
Atentando ao exemplo na cultura chinesa, o autor relata que ao incorporar um mini jardim em suas casas, os moradores restabelecem pela meditação, a harmonia com o Mundo, antes que o modismo dos letrados o incorporasse a partir do século XVII, como objetos de decoração e paisagismo.
São inúmeros os aspectos que compõe a sacralidade da Natureza e do Mundo, mas o autor se deterá em apenas alguns, como por exemplo, analisar os valores religiosos atribuídos às Pedras, como hierofanias, revelando poder, firmeza e permanência.
Através do simbolismo lunar e as fases da Lua (“nascimento”, “morte” e “ressurreição”) foi possível ao homem religioso relacionar e estabelecer correspondências com o “fio da Vida”, o destino, a temporalidade, a morte etc. Ao mesmo tempo, permitindo ao homem refletir que a “Morte não é definitiva, que é sempre seguida de um novo nascimento”.
O Sol faz parte de uma das grandes mitologias heróicas: ele luta contra as trevas, desce ao reino da Morte e sai vitorioso.
Para ELIADE, o estudo do folclore das sociedades rurais européias apresenta muitas informações básicas para o entendimento de várias “situações religiosas” arcaicas, visto que, essas sociedades conciliam ao seu cristianismo grande parte das religiões pré-cristã, integrando a sua nova fé a religião cósmica, herança de seus antepassados, diferentemente do que ocorreu com os cristãos das cidades.
No entanto, a tarefa de um historiador das religiões deve buscar nas raízes do mundo primitivo dados para o entendimento do seu comportamento religioso.
É neste contexto que ELIADE estabelece de início a afirmativa que, para as sociedades arcaicas, o “Mundo existe porque foi criado pelos deuses”. Assim sendo, o próprio Cosmos é uma prova da divindade e o homem se inclui nesta Criação dos deuses, reencontrando em si a santidade que o identifica no Cosmos.
Sabe-se que em outros contextos o Casamento corresponde a uma hierogamia entre o Céu e a Terra; para os agricultores a Mulher representa a gleba, as sementes e ao sêmen virile e o trabalho agrícola à união conjugal, portanto, a Mulher veio ao mundo para ser “semeada”. Ao exercer essa experiência, o homem assume uma estrutura trans-humana e “aberta”, transportando novas simbologias a um objeto ou ação, sem eliminar o seu valor real.
A análise “da existência aberta ao mundo” faz compreender a visão do homem das sociedades arcaicas no que se refere à santificação da vida: o equilíbrio entre a existência humana e a vida trans-humana.
O autor acrescenta que provavelmente os comportamentos humanos tiveram a sua base num significado religioso; diferentemente, do homem profano que dessacralizou essa correlação, eliminando a sua dimensão espiritual como também, a dimensão humana.
Muitos significados religiosos fixaram-se ao espírito, podendo citar: um olho que corresponde ao Sol; dois olhos, ao Sol e à Lua; caixa craniana à lua cheia; o sopro aos ventos; os ossos às pedras, os cabelos às ervas etc.
O historiador amplia essa correspondência simbólica comparativa, citando: o ventre ou a matriz à gruta; os intestinos aos labirintos; a respiração à tecelagem; as veias e as artérias ao Sol e à Lua, a coluna ao Axis mundi etc.
Todas essas assimilações não são encontradas nas sociedades primitivas, mas têm o seu foco nas culturas arcaicas e essas correspondências antropocósmicas remetem as principais funções fisiológicas, transformando-se em sacramentos.
Para o homem religioso o ato de construir sua casa representa uma decisão de caráter vital e religiosa, pois está relacionado em criar o seu próprio mundo e de assumir a responsabilidade de mantê-lo.
Esta experiência permite ao homem religioso reproduzir em escala microscósmica a Criação do Mundo, do Cosmos e de si próprio.
Trata-se de evocar a Criação do Mundo no “centro” que se escolheu, traçando a sua comunicação com os deuses, paralelamente, santificando o seu próprio corpo. Dessa maneira, o “homem reproduz em escala humana, o sistema dos condicionamentos recíprocos e dos ritmos que caracteriza e constitui um “mundo”, que define, em suma, todo universo.” Desta maneira, pode-se dizer que o homem religioso primitivo somente pode viver em um mundo que lhe permita situar-se num centro miticamente definido por ele, onde exista a possibilidade de se abrir e poder experimentar uma comunicação e que lhe faça sentir em permanente comunhão com os deuses.
É importante ressaltar que Cosmos, Corpo e Casa possuem uma “abertura” superior que serve de passagem para o outro mundo. E, evidentemente, onde quer que se habite, há de ter uma comunicação com o alto, com o outro nível que é transcendente, e esta abertura torna-se possível a passagem de um modo de ser a outro, de uma situação existencial a outra e, adquire diversos significados, conforme lhe atribuem às diversas culturas. O importante é ressaltar que em todas as culturas, o homem comunica-se pelo alto que é a direção ascensional para o Céu e o seu transcendente.
Nas sociedades modernas o Cosmos tornou-se algo vazio, “fechado”, sem nenhuma carga de religiosidade e suas relações se resumem em homem-Deus-História, onde o Cosmos não possui nenhuma representatividade.
ELIADE ao tratar sobre a simbologia da “passagem” atenta ao fato que toda a existência humana está condicionada aos movimentos e às transformações.
O homem nasce incompleto e passa de uma pré-vida a vida e desta à morte, reproduzindo dessa forma, o antepassado mítico da pré-existência à existência.
Para tanto, o homem deve morrer dessa primeira fase para renascer e atingir a perfeição em uma vida superior, espiritual. Para sugerir essa “passagem”, diversas tradições religiosas utilizaram o símbolo da “ponte perigosa” ou da “porta estreita”, representando as dificuldades do conhecimento metafísico e a fé, no caso do cristianismo.
Desde as sociedades arcaicas, os ritos de passagem e as iniciações sucessivas reproduzem o que permite a existência humana atingir sua plenitude, desempenhando um papel fundamental na formação religiosa do homem.
Os ritos de passagem baseiam-se em diversas formas, mas todas representam término de uma fase e iniciação para outra e sempre envolvem uma mudança radical de regime ontológico e estatuto social, como acontece em virtude do nascimento e do casamento.
Com relação à Morte, os ritos são mais complexos, não se resume ao “fenômeno natural”, mas “também de uma mudança de regime ao mesmo tempo ontológico e social: o defunto deve enfrentar certas provas que dizem respeito ao seu próprio destino post-mortem, mas deve também ser reconhecido pela comunidade dos mortos e aceito entre eles.”
O homem das sociedades primitivas nunca se considerou um homem completo e sempre buscou a sua plenitude através dos ritos de passagem. Já, para o homem a-religioso essas “passagens” perderam todas as características ritualísticas, tornando-se apenas um processo natural.
A iniciação corresponde ultrapassar etapas através do amadurecimento espiritual, portanto, o iniciado é “aquele que conheceu os mistérios, é aquele que sabe” e isso,
explica a transferência da condição profana para o sagrado, pois pela fenomenologia da iniciação, essa condição não é percebida como dissolução, afinal, o iniciado apenas muda de estado, o que é viabilizado por rituais de passagem - não há idéia de aniquilamento e, sim de superação.
Os rituais de iniciação das sociedades masculinas têm como base o isolamento, torturas, provas iniciáticas, morte e ressurreição, imposição de um novo nome, ensino de uma língua secreta etc.
Com as sociedades femininas os ritos e mistérios direcionam-se à sacralidade tanto nos seus aspectos iniciáticos de puberdade e começa com a primeira menstruação, como nas sociedades secretas femininas, envolvendo o mistério do nascimento e da fertilidade.
Nas sociedades primitivas o significado que o homem dá à morte reflete o sentido que conferem à vida. Os pólos antagônicos vida e morte não são excludentes; mas, formas dialéticas inseparáveis.
A morte iniciática compreende-se pelo sofrimento e por uma regressão ao Caos, para em seguida, ocorrer o “novo nascimento”, uma ressurreição sagrada desvinculando o iniciado da vida profana. No entanto, geração, morte e regeneração são três movimentos circulares e contínuos não podendo ocorrer bloqueios nem dissoluções entre eles.
Estudos comprovam que o quadro iniciático influenciou as religiões mais evoluídas, sempre renovando sua forma e significados. Todas, porém, admite a morte como condição para o ser humano se desvincular do mundo profano e elevar-se para o mundo dos deuses.
Dessa forma, o “segundo nascimento” simboliza a ascensão à espiritualidade.
ELIADE desencadeia reflexões cheias de significados sobre o homem religioso e estende ao conhecimento geral do homem.
O autor atesta que ao longo dos tempos, a religiosidade das sociedades primitivas encontrou ameaças e foi atropelada pela história, fazendo com que o homem do mundo moderno ou o homem a-religioso se afastasse desses preceitos, negando a transcendência e reconhecendo-se com sujeito da história, na medida em que, se desvinculou das concepções míticas dos seus antepassados.
Mesmo assim, por mais que negue qualquer vínculo com a religiosidade, o homem a-religioso perfaz o resultado do que ele abomina.
Ele não aceita nenhum signo que não ultrapasse a condição humana, dessa forma, ele “só será verdadeiramente homem quando tiver matado o último Deus.
Embora, “o homem moderno que se sente a se pretende a-religioso carrega ainda toda uma mitologia camuflada (...)”
As comemorações de Ano Novo; a instalação de uma nova casa; o nascimento de uma criança; o casamento; um novo emprego; a ascensão social, todos esses exemplos de festejo confirmam a participação direta ou indiretamente do homem a-religioso. Além, das apresentações cinematográficas ou através de leitura colocam o homem a-religioso defronte de uma “realidade” que ele nega, fazendo-o viver numa outra “história”.
Contudo, por mais a-religiosos que os homens sejam no mundo moderno, ainda mantém ligações com a religiosidade, muitas das vezes de forma inconsciente. Assim sendo, a maioria do homem a-religioso partilha das pseudo-religiões e mitologias degradadas, sejam elas, “a luta pela vida”, as “provas”, “a crise existencial”, as “dificuldades” etc.
ELIADE enumera todos esses comportamentos do homem a-religioso com o intuito de demonstrar que, por mais que negue, ele partilha de uma religiosidade, embora não assimile a totalidade do regime ontológico dos mitos, pois se configura num Mundo “fechado” para a universalidade dos símbolos. Por sua vez, o inconsciente oferece-lhe “soluções para as dificuldades de sua própria existência e, neste sentido, desempenha o papel da religião, pois, antes de tornar uma existência criadora de valores, a religião assegura-lhe a integridade.”
Assim, enquanto que, o homem religioso reconheceu nos antigos laços das culturas arcaicas os fundamentos para a sua formação religiosa; o homem profano insiste em negá-lo, embora, inconscientemente as “vive” e as “executa” em seus dias.
ELIADE termina sua narrativa deixando para os filósofos, os psicólogos e até mesmo os teólogos prosseguirem seus estudos, atentando ao fato de que se refere à base da civilização, portanto, sujeito a subjetivas interpretações e aceitações.