sábado, 30 de abril de 2011

RUBEM FONSECA E A LITERATURA NOIR


I – AUTOR:


JOSÉ RUBEM FONSECA nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1925. Formou-se em Direito pela antiga Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, cidade onde mora desde os 8 anos de idade.
Exerceu várias atividades antes de dedicar-se inteiramente à literatura, entre elas a de comissário de polícia, em São Cristóvão (RJ). Foi policial de gabinete durante a maior parte do tempo em que trabalhou, até ser exonerado, em 1958.
Estudou administração e comunicação nas universidades de Nova York e Boston (EUA). Foi professor da Fundação Getúlio Vargas (RJ) e escreveu críticas de cinema na revista Veja (1967).
Sua estréia literária foi com o livro de contos “Os Prisioneiros” (1963). Seguiram-se “A Coleira do Cão” (1965) e “Lucia McCartney” (1967).
A obra “Feliz Ano Novo” (1975) foi proibida pela censura, durante o regime militar. Já, o romance “Agosto” (1990) fez grande sucesso e foi transformado em minissérie para televisão.
Rubem Fonseca é extremamente reservado, avesso a entrevistas e fotos. Já recebeu diversos prêmios, incluindo alguns ligados ao cinema, área em que trabalhou como roteirista. Entre os filmes mais conhecidos de que participou, estão “Stelinha” e “A Grande Arte”, adaptado do livro homônimo.
É autor de “O Cobrador” (1979); “Bufo & Spallanzani” (1986); “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” (1988); “O Buraco na Parede” (1995); e “Diário de um Fescenino” (2003), entre outros.

ENTREVISTA FICTÍCIA COM RUBEM FONSECA

Conduzida por Maurício Santana Dias e publicada na Folha de São Paulo, de 25/04/2004.

A entrevista havia sido marcada para as 16h, no apartamento do escritor. A famosa atitude esquiva de Rubem Fonseca, 78, e a insistência com que sempre negou qualquer contato com a imprensa faziam aumentar a expectativa do encontro. Na sala espaçosa não havia ninguém, só o concerto de cordas de Penderecky "Em Memória aos Mortos de Hiroshima", que contrastava com a paisagem marítima da janela.
Fonseca, ou melhor, o dono da casa, Zé Rubem, veio de um corredor escuro para a sala às 16h13, desligou a aparelho de som e se desculpou pelo pequeno atraso. Muito magro, extremamente gentil, sentou-se na poltrona em frente e fez uma expressão de quem estava esperando alguma iniciativa de minha parte - iniciativa que não houve. Então, para quebrar o silêncio, pediu licença para tomar uma pastilha de antiácido, que sacou do bolso esquerdo da camisa.
Por onde começar? O roteiro preparado para a entrevista se embaralhou de repente e, a partir daí, a conversa poderia tomar qualquer rumo - o que, do ponto de vista jornalístico, não seria recomendável. Finalmente, na falta de coisa melhor, surge á pergunta banal:
"- O senhor está escrevendo algum livro?"
Após alguma hesitação, para minha surpresa, Fonseca começou a falar do romance em que estava trabalhando e que provavelmente se chamará "Março". Depois disso, sempre com a voz suave, mas firme, o entrevistado enveredou por caminhos que misturavam política, kitsch, violência, deformidade, doenças, decepções e, é claro, a "arte" de escrever com e sobre tudo isso.
“- O senhor acaba de dizer que está escrevendo um romance que deverá se chamar "Março”. O primeiro conto do seu primeiro livro se intitulava "Fevereiro ou Março". O novo livro retoma aquele ponto de partida?”
“Na verdade, não. É uma mera coincidência - aliás, isso nem tinha me ocorrido. Se há uma associação possível com algum livro anterior meu seria mais com o romance "Agosto" (1990), que trata do último mês da vida de Vargas e do comissário Mattos. No novo livro eu dou um salto de dez anos, os personagens vivem ainda no Rio de Janeiro, em março de 1964, às vésperas do golpe militar. Há figuras da política da época, banqueiros, prostitutas, diplomatas, militantes de esquerda, torturadores (fictícios e reais), jornalistas. Mas isso é só a casca das coisas. Sempre acho essas explicações desnecessárias afinal, elas de nada serviriam. Só posso dizer que estou entusiasmado com o livro.”
“- Há algum investigador nesse novo romance? Um "comissário Fonseca", por exemplo?”
“É claro que sim! Mas eu nunca emprestaria meu nome a um comissário de polícia (risos). Aliás, já estou até pensando em mudar o título do livro para "Galeão", a fim de evitar mal-entendidos.”
“- O tratamento da violência e o gosto pelo escatológico, pelo grotesco, foram desde sempre uma marca de sua obra. Penso no conto sobre Franz Potocki, pintor de um "Getúlio Podre", que está em seu livro de estréia. A tendência se consolida com o tempo, até "Secreções, Excreções e Desatinos" (2001). De onde vem essa fixação?”
“Sei lá. Talvez porque eu tenha lido a "Psychopathia Sexualis" do Krafft-Ebingem em "tenra idade", como se diz. Mas o fato, a meu ver incontestável, é que vivemos cada vez mais rodeados de dejetos e deformidades de todo tipo. Não falo metaforicamente, embora a metáfora também se aplique ao caso. Basta abrir um jornal ou fazer um passeio noturno para topar em cada canto com a matéria excrementícia. Nossa imaginação, principalmente a de quem vive nas grandes cidades, está sobrecarregada de massacres. Veja agora esta guerra suja no Rio. Penso também na exibição dos corpos de Vigário Geral ou dos 111 mortos do Carandiru e associo essas imagens, por absurdo que possa parecer, à exposição dos cadáveres no museu alemão ou a outra, que vi há mais tempo, num museu de Londres: um porco apodrecendo dentro de uma caixa de vidro, a decomposição incorporada ao cotidiano como realidade e espetáculo.”
“- Mas Rembrandt já fazia isso há mais de 300 anos na "Aula de Anatomia do Dr. Tulp", por exemplo.”
“É diferente. Hoje estamos vivendo na colônia penal de Kafka. Mas, como a oferta de entretenimento, psicofármacos e estupefaciente é imensa, não nos damos conta disso. Estamos condenados a nos divertir sem parar, como o rei de Pascal. Às vezes me sinto como se estivesse preso num gigantesco parque de diversões, um zoológico humano”.
“- E não vê saídas possíveis? Isso não é muito fatalista?”
“Sinceramente não consigo ver saídas no horizonte. Nem no campo político nem no religioso nem no ético nem no artístico. Talvez porque minha visão esteja provisoriamente bloqueada, não sei... Tenho a impressão de que estamos todos meio perdidos, atordoados. Às vezes me pego dando risada com a ideia blasfema de que Deus, ao fabricar o homem, pegou o barro do vaso errado. Brincadeiras à parte, o escritor sempre trabalha com os materiais de sua época, mesmo quando fala do passado ou do futuro E o nosso mundo é excessivamente violento, vulgar, feroz até a banalidade. Mas eu nunca quis fazer apologia da violência ou do kitsch. Isso é bobagem de crítico obtuso. O que mais me interessa é explorar como esses elementos podem ser processados pela ficção, a possibilidade de transfigurá-las, de ampliá-las a tal ponto que já não seja mais possível observá-los pacificamente: em lugar da imagem "realista" "hiper-realista" - como muitos críticos me classificaram -, apenas o granulado da foto.”
“- Mudando de assunto, o que o senhor está achando do atual governo?”
“Prefiro não comentar o tema.”
“- E como tem acompanhado a recente onda de terrorismo?”
“Olha, o impulso de destruição, assim como o de criação, sempre existiu. Só que hoje os meios disponíveis são tão potentes que os resultados nos assombram cada vez mais. Para piorar as coisas, o regime de capitalismo único tem acentuado as desigualdades, há essa propaganda que joga ocidentais contra orientais como se estivéssemos assistindo a um Fla-Flu, e os atuais dirigentes políticos - penso especialmente em Bush e Berlusconi - não são indivíduos particularmente dotados.”
“Gostaria que o senhor citasse alguns escritores que o influenciaram mais diretamente.”
“A lista é grande, não caberia numa entrevista (esse é um dos motivos por que não gosto de entrevistas). Tudo bem, vou citar três: Chandler, Beckett e Nelson Rodrigues. Ah, e Conrad! Mas também continuo gostando muito das canções dos Beatles.”
“- Qual a sua opinião sobre os novos escritores brasileiros, os que começaram a escrever dos anos 80 para cá?”
“Não acho que a literatura brasileira esteja passando por um mau momento. Vejo muitos autores jovens com grandes qualidades. Sem querer citar nomes, gosto especialmente daqueles que ainda sabem escrever com raiva e paciência, precisão e rapidez como um bom lutador.”
“- Isso me lembra o conto "Desempenho", do livro Lúcia McCartney".
“É mais ou menos por aí. Mas sem perder de vista uma certa auto-ironia, senão corremos o risco de cair no clichê, na banalidade, que é a cova rasa de qualquer artista. O texto tem que agir como um murro no queixo do leitor, como dizia o argentino Arlt; mas o golpe, para funcionar, tem que ser dado com alguma ternura, com a consciência da fragilidade dos lutadores ..”
“- Um de seus personagens diz que a literatura é uma espécie de doença...”
“Bem, se a literatura é uma patologia, só posso concluir que não se trata de uma doença mortal. Já estou perto dos 80 anos, portanto sobrevivi a ela, e graças a ela estamos tendo esta conversa.”
“- Mais uma vez, e para concluir: por que essa recusa sistemática em conceder entrevistas?”
“Porque tudo o que eu tinha a dizer, tenho a dizer, já está nos meus livros. O resto é blablablá.”

II – CARACTERÍSTICAS:


Rubem Fonseca inaugurou uma nova corrente na literatura brasileira contemporânea que ficou conhecida, em 1975 através de Alfredo Bosi, como “brutalista”. Em seus contos e romances utiliza-se de uma maneira de narrar na qual, destacam-se personagens que são ao mesmo tempo narradores. Várias das suas histórias (em especial, os romances) são apresentadas sob a estrutura de uma narrativa policial com fortes elementos de oralidade.

O fato de ter atuado como advogado, aprendido medicina legal, bem como ter sido comissário de polícia, nos anos 50 no subúrbio do Rio de Janeiro, teria contribuído para o escritor compor histórias do submundo dentro dessa linguagem direta. Muito provavelmente devido a isso, vários das personagens principais em sua obra são (ou foram) delegados, inspetores, detetives particulares, advogados criminalistas, ou, ainda, escritores.
Além do tom nitidamente policialesco, em que há geralmente um crime ou um mistério a ser desvendada, sua obra pode ser vista como uma paródia do gênero policial tradicional, visto que os crimes atuam apenas como um disfarce de suas críticas a uma sociedade opressora do indivíduo.
No gênero policial tradicional o mistério funciona como uma casca que encerra um caroço; ali a “morte não é nada. O assassinato não é nada. O que transtorna é a selvageria do crime, porque ela parece inexplicável” (Boileau e Narcejac, 1991: 11). Rubem Fonseca mais do que simplesmente deslindar o ato criminoso interessa registrar o cotidiano terrível das grandes cidades e, simultaneamente, desvendar os dramas humanos desencadeados pelas ações transgressoras da ordem.
Sua obra apresenta algumas semelhanças da literatura de Sir Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes). Em ambos os autores, o enigma inicial fica por conta de um crime brutal, geralmente um homicídio que gera toda uma atmosfera de mistério e tensão no romance e fará com que o leitor não desgrude os olhos de suas páginas antes do desenlace.
Ainda pode-se notar semelhança na maneira como se iniciam as investigações, isto é, o primeiro passo seja do investigador genial (Sherlock Holmes) ou do investigador comum (Mandrake, Guedes, Mattos, etc.), que será a visita ao local do crime em busca dos primeiros indícios que nortearão o processo investigativo.
Além disso, se encontra outros exemplos quase irrelevantes do ponto de vista da comparação que está estabelecendo, mas que sugerem alguma semelhança, como a relação entre Mandrake e Wexler, em “A grande arte” (1983), e Sherlock e Watson como companheiros para solucionar crimes. As diferenças, porém, são mais fascinantes.
No gênero policial tradicional encontra-se, segundo Pierre Boileau e Tomas Narcejac (1991), um investigador portador da graça metafísica e guiado pelo pensamento positivista. Em Rubem Fonseca, há um investigador simples, que, ao mesmo tempo, não é como a “máquina de pensar” de Poe ou Doyle e nem como “intuição demolidora” de Hammet ou Chandler (Boileau e Narcejac, 1991), escritores da literatura conhecida como “noir”.

III – PERSONAGENS:

Num mundo sujo e infame, onde a moral e a ética foram dissolvidas, onde o vilão e o mocinho desaparecem, estas personagens erguem um protesto quase solitário, senão romântico, contra esta realidade que, apesar de tudo, ao contrário do romance policial tradicional continuará suja e infame, seja o criminoso eliminado ou não.
Os tempos são outros e os leitores que se aventuram por alguns dos romances policiais contemporâneos em busca de detetives com cara de herói, correm sério risco de abandonar o livro antes do final.
Rubem Fonseca é pródigo em deixar as coisas para o leitor completar. Ao escrever, o autor deve supor um interlocutor inteligente, culto, atento. Com uma inesgotável amplitude de experiências e observações, tornou-se capaz de escrever com a mesma verossimilhança sobre halterofilistas e executivos, marginais e financistas, delegados de polícia e assassinos profissionais, garotas de programa e pobres diabos que vagam sem destino pelas ruas do Rio de Janeiro. Tem, pois, como matéria-prima os dois extremos da nação: os que vivem à margem do sistema e os que constituem o núcleo privilegiado do mesmo.
O que mais choca nos romances e contos de Rubem Fonseca é o amoralismo dos bandidos. Em nenhum momento eles são atormentados por qualquer remorso ou culpa. São perversos e frios, venham dos estratos superiores ou das camadas populares. As cidades parecem vazias de inquietação ética, a não ser por alguns indivíduos que, em meio ao horror, agem movidos por um sentimento qualquer de justiça. A relação entre “mocinho” e “bandido” está presente em suas obras, contudo não nos é possível identificar exatamente quem é um e quem é o outro, pois há uma grande transitividade entre ambos fazendo com que, por exemplo, Wexler suponha que o criminoso em “A grande arte” seja até mesmo o próprio Mandrake: “Pode ter sido qualquer pessoa. Pode ter sido você, Mandrake.” (Fonseca, 1983: 296).
Não obstante as mais variadas combinações de “mocinho” & “bandido” nas personagens de Rubem Fonseca, vemos n’O caso Morel (1973) o ex-delegado e escritor Vilela & Morel; o criminalista Mandrake & Lima Prado/ Ajax ou Carmilo Fuentes, em A grande arte (1983); o detetive Guedes & Eugênio Delamare, em Bufo & Spallanzani (1985); o comissário Mattos & “O Anjo Negro” ou Fortunato, em Agosto (1990); e, Mandrake & Gustavo Flávio.
Estes investigadores, inabaláveis na sua força motriz, trazem com certeza o espírito da literatura noir, desenvolvida e aperfeiçoada pelos escritores Hammet e Chandler, apesar de nem sempre se utilizarem dos mesmos meios para a solução dos crimes.

IV – TEMPO E ESPAÇO:

Sua obra contém o retrato de uma violência diferenciada das obras literárias escritas, até então, no Brasil. O autor revela os primórdios de uma violência que se pulveriza em nossa sociedade nos dias de hoje, devido ao aumento das contradições sociais, sobretudo nos grandes centros urbanos do Brasil, a partir da década de 70. Isso não nos pode induzir a ver o autor como um mero retratista da violência urbana que assola o país.
Sua obra apresenta maiores sutilezas, temas mais complexos e ricos, como a solidão dos indivíduos nas grandes metrópoles. A maioria de seus protagonistas vive opressa, aturdida pela sensação de isolamento e de vácuo na alma, residindo nesse ponto outra forma de violência, a violência do indivíduo contra si, contra os outros por sua condição e de outros contra esse indivíduo solitário.
A abundância de possibilidades eróticas oferecidas pelas cidades dá a suas personagens a obsessão sexual como única alternativa ao vazio da existência, como se na satisfação física do desejo residisse à última certeza de que ainda se está vivo.
"Agosto" (1990), obra que, apesar de fictícia, tem sua origem na história do Brasil, apresenta vários crimes que acontecem ao mesmo tempo, e, cujo clímax fica por conta do suicídio de Getúlio Vargas, que interfere muito na vida do comissário Mattos. Mattos é uma dessas personagens que tem no individualismo a marca de sua condição existencial. Pode-se sugerir aqui a presença do próprio autor, executivo da empresa Light durante a década de 60, homem de ação e ativista político, que participou ativamente do movimento que culminou no golpe de 64, mostrando, tal qual a personagem Mattos, sua crença em certos valores capitalistas como o individualismo que se realiza através da liberdade.
“E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto” (1997), Rubem Fonseca apresenta o escritor Gustavo Flávio que já fora sua personagem em “Bufo & Spallanzani” (1985), e também o criminalista Mandrake d’”A grande arte” (1983). Gustavo Flávio é dessa vez, relacionado com outro crime e, talvez por seu “currículo” (em “Bufo & Spallanzani” esteve relacionado com a morte de Delfina Delamare), seja o principal suspeito até mesmo para sua nova companheira. Mandrake é quem irá trabalhar no caso e tentar desvendar o crime.
Assim como Mattos (“Agosto”, 1990), a condição existencial que marca a vida de Gustavo Flávio é o individualismo. Ele se sente isolado, porém quer sentir-se isolado, e por não gostar que ninguém mexa em suas coisas, faz com que acreditem estar escondendo algo.

V – LINGUAGEM:

Outra forma de violência que está presente nas obras de Rubem Fonseca é a violência do autor contra o leitor. Através da análise das relações entre violência e linguagem, podemos sentir a hostilidade no contato com o leitor. Esta hostilidade se traduz pela violência discursiva, tanto através de expedientes formais (estilo seco e entrecortado, frases curtas), como através dos recursos de conteúdo, nas situações-limite em que envolve as personagens. Supondo que a linguagem em geral tem escondido o que justamente importa revelar, Rubem Fonseca propõe o inverso: da “matéria bruta” concernente à realidade para a sua representação na narrativa, uma série de desmistificações se faz necessárias, e na base delas está, sobretudo, a desmistificação da linguagem.
A linguagem violenta tem uma função definida frente ao seu leitor: a de presentificar a violência de modo a que ele não tenha mais condições de questioná-la. Entretanto, o leitor acostuma-se a abrandar, através de mecanismos vários como o silêncio, por exemplo, o efeito do que têm que ser dito pelo modo de o dizer, surpresos diante de uma linguagem tão avessa a atenuações.

VI – TEMÁTICA:


Um dos temas dominantes na obra de Rubem Fonseca é a violência que percorre as ruas brasileiras, numa espécie de guerra civil não declarada. Certas passagens de contos ou narrativas longas, como é o caso do romance “A grande arte” (1983) apresenta uma brutalidade tão meticulosamente narrada que se tornam leitura quase insuportável para os espíritos delicados. Esse romance tem um enredo complexo: o enigma inicial se dá através de um assassino frio que desenha, com uma faca, uma letra “P” no rosto de cada vítima. Mas esse não é o único crime que o leitor deverá descobrir em parceria com Mandrake e Wexler. Muitos outros assassinatos, sem nenhum “P” desenhado no rosto das vítimas, começam a acontecer. No entanto, nessa obra, a chave central dos enigmas é o esclarecimento do que está por detrás do conglomerado Aquiles, misto de banco, financeira, entreposto de contrabando, agência de corrupção, etc.

Algo intrigante em suas obras é condição existencial de suas personagens, sempre dominadas por uma atmosfera de violência latente de onde virá á inspiração para a composição das misérias humanas.


Além das várias formas de violência e da solidão dos indivíduos nas grandes metrópoles, o erotismo, a ironia e a pornografia são utilizadas pelo autor para criticar uma sociedade que oprime, isola e maltrata seus indivíduos, especialmente na cidade do Rio de Janeiro.

Os temas apontados como próprios de Rubem Fonseca apontam para o embate dos valores humanos que coexistem na grande cidade, onde a mitologia urbana imposta socialmente surge em contrapartida à convergência de cenas avassaladoras de sexo e violência. A perspectiva extremista indicia a desmistificação, o desmascaramento dos mitos sob os quais o homem urbano tenta sobreviver, e revela, sobretudo, que a tensão entre o real e o ideal se dá, no limite, através do pequeno liame que separa a vida da morte. (Maretti, 1986: 22)
De acordo com Georges Bataille, o erotismo “é a aprovação da vida até na própria morte” (Bataille, 1980: 13), então esse encanto pela morte, revelado, sobretudo, na passagem da atitude normal à do desejo, é a manifestação culminante da nostalgia da continuidade do ser, ao colocar repentinamente em questão a vida descontínua do trabalho e da razão. Então a “aprovação da vida na própria morte” configura-se como um desafio, por indiferença, à própria morte. Por acreditar que o erotismo está na base da condição humana é que Rubem Fonseca o tematiza em sua literatura e o abraça em todas as suas manifestações.
Encontram-se manifestações claras do poder do erotismo em Rubem Fonseca n’”O caso Morel” (1973), em que Paul Morel, artista de vanguarda, famoso e excêntrico é acusado pelo assassinato de Joana e relata a história de sua vida a Vilela, ex-delegado e, atualmente, escritor, por meio de personagens fictícias. Enquanto Morel busca em Vilela conselhos para o livro que pretende escrever, Vilela mira-se em Morel enxergando em seu caso os contornos de seu próprio destino. Por meio dessa história recheada de erotismo, hedonismo, pornografia, arte e morte o delegado Matos espera descobrir o verdadeiro culpado de um crime bárbaro do qual Morel é o principal suspeito.
Outro romance que traz a erotização de suas personagens como afirmação da vida é “Bufo & Spallanzani” (1985). Rubem Fonseca mostra sua intenção desde a escolha do título da obra: Spallanzani foi um cientista italiano que estudou o instinto de preservação da espécie entre os sapos, mais especificamente no Bufo; seus estudos comprovaram que, mesmo com as duas patas de trás carbonizadas, o macho não abandonava a fêmea com a qual estava copulando. Além do título, o início do primeiro capítulo de seu romance “Foutre ton encrier”, apresenta uma carta de Gustavo Flávio a uma de suas namoradas, Minolta:
“Você fez de mim um sátiro (e um glutão), por isso gostaria de permanecer agarrado às suas costas, como Bufo, e, como ele, poderia ter minha perna carbonizada sem perder essa obsessão” (Fonseca, 1985: 07).
Essa obsessão sexual que a própria personagem deixa clara desde o princípio permeará toda a obra.
Apesar de ter participado ativamente do golpe de 64, Rubem Fonseca foi censurado posteriormente, em 1975, com o livro de contos “Feliz Ano Novo” por motivos que ainda permanecem obscuros. Mas ele não desistiu de suas críticas e suas obras alcançaram e continuam alcançando cada vez mais leitores. Dessa forma, numa atitude, apontada por François Warin semelhante à de Nietzsche, Artaud e Bataille, Rubem Fonseca também objetiva a desmistificação, no sentido de “reabrir a arte à vida, enraizá-la no corpo, de sublimar a cultura, denunciando os julgamentos demasiado virtuosos que a justificam” (Warin, 1974: 03).