domingo, 23 de outubro de 2011

AMRIK, ANA MIRANDA - A SAGA DA IMIGRAÇÃO LIBANESA NO BRASIL: ANÁLISE E RESUMO DA OBRA



I – AUTORA:



II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

"Os libaneses saíam do Líbano, pensavam que estavam indo para a América do Norte [...] e desembarcavam na América do Sul. Quando iam reclamar que estavam na América errada, o estafeta dizia: Tudo é América!"

No final do século XIX e princípio do século XX, muitos cristãos libaneses pobres emigraram para Amrik, uma corruptela de América, na forma como pronunciavam os imigrantes libaneses que se radicaram na capital paulista.
As primeiras datas da vinda dos libaneses podem ser fixadas antes de 1885 e se estende até 1950.


A imigração árabe em sua primeira fase se deu de forma bastante acentuada devido ao período de conflitos políticos e econômicos em razão do domínio do Império Otomano na região do Oriente Médio. A obtenção de riqueza fácil foi à causa principal das primeiras experiências.
A América desempenhou para os árabes o papel que a Ásia desempenhou para os europeus na Idade Média.
Esta primeira fase imigratória, caracterizada pelo espírito de aventura e improviso serviu como base para as outras fases do século XX quando os aspectos desta imigração sofrerão mudanças culminando com a integração dos filhos dos primeiros imigrantes na vida nacional.
Para Jamil Safady, em sua obra "Panorama da Imigração Árabe", a vinda dos imigrantes, em sua primeira fase, fez-se tradicionalmente com moradores do campo, lavradores ou proprietários de terras. Esses, porém, não vinham para dedicar-se a esta atividade, preferindo atuar no que parecia mais propício à obtenção de lucros rápidos, com os quais eles pretendiam voltar as suas terras de origem e dedicaram-se especificamente ao comércio e às pequenas indústrias, “os mascates” ou “turcos da prestação”.
A mascateação introduziu inovações que, hoje são traços marcantes do comércio popular, como as práticas da alta rotatividade e alta quantidade de mercadorias vendidas, das promoções e das liquidações. Inicialmente os mascates visitavam ás cidades interior e as fazendas de café, levando apenas miudezas e bijuterias. Com o tempo e o aumento do capital, começaram também a oferecer tecidos, roupas prontas e outros artigos.
Esse desejo esteve presente durante todos os movimentos de adaptação e todos os passos de construção da sua vida neste país.
Ana Miranda a partir de uma pesquisa histórica, e, de um diversificado inventário textual, analisa criticamente o contexto social e cultural dessa imigração, entrelaçando história e ficção, bem como, um resgate da herança cultural do Oriente no Ocidente.
A organização social do Brasil, especificamente a cidade de São Paulo desse período é retratada pela ótica de uma dessas imigrantes: a bela Amina, dançarina "dona de um narizinho de serpent of the Nile", através da prosa poética de Ana Miranda, em “Amrik”.

III - FOCO NARRATIVO:

As narrativas das imigrações libaneses no Brasil eram denominadas “Mahjar” e destacavam o papel dos homens, uma vez que a princípio era uma imigração econômica. Quando esta se transforma em imigração de assentamento, as mulheres libanesas entram em cena, em virtude da necessidade de transformar algo provisório em definitivo, estabelecendo núcleos familiares.
Ana Miranda constrói no romance, uma narrativa em primeira pessoa, de focalização feminina, permitindo a reinterpretação da história da imigração pelo olhar de Amina, que rememora sua saga pessoal, desde a infância no Líbano, passando por uma frustrada experiência na América do Norte, até a sua chegada ao Brasil, onde, finalmente, se estabelece.

“...duas imigrantes passam com cestas de compra rumo ao Mercado, nesta cidade a mulher que faz compra no Mercado é imigrante, arifa, operária, as imigrantes nunca passeiam, molas feitas de trabalho,vidas diluídas, fumaças de chaminé fufu feitas de perdas e adeuses, moram nas partes escuras da cidade, nas casas olhadas, entre os ratos e os morcegos, entre os caixotes vazios e as sacas nos depósitos, nos armazéns, detrás dos balcões, nas margens dos rios um capim de fuligem e fumaça feito os navios belas coisas mesmo sujas e pretas, elas sempre querem passar para o outro lado da cidade, mas são apenas mostardinhas ardidas ou umas cadelasdascadelas, corpo de faschefango galho e barro ou a casa a Ana ou vira putana ou casa a Beatriz ou vira meretriz haialaia tutti senza denaro, mijar na cova e lamber o dedo hmmmm elas olha para mim e estira a língua, elas ficam tão vermelhas que parecem as telhas e apressam o passinho de garridice nos sapatos barulho de ferraduras.” (p. 186)

IV – ESPAÇO E TEMPO:

“Amrik” retrata a breve passagem da protagonista Amina pelos Estados Unidos e posteriormente, fixando-se no Brasil, na cidade de São Paulo, na rua 25 de Março onde se estabelecem, no final do século XIX e início do século XX.
Os espaços que se entreabem são modalidades de travessia humana: Oriente e Ocidente fundem-se na figura de Amina, que forma, deforma e transforma-a.
Ao contrário do que ocorre nas crônicas de viagem tradicionais, o tempo não é registrado cronologicamente ao longo do romance, mas faz-se sentir pelo processo de formação que a personagem sofre: de menina ingênua das montanhas à mulher sensual da cidade.

 V - LINGUAGEM:

Ana Miranda explora inovações linguísticas, recursos da modernidade literária, em termos de forma e de sentido. Trata-se de uma linguagem fragmentada e viva que convida o leitor a um constante esforço de organização e pesquisa.
O romance vem escoltado por um minucioso glossário de quase 100 termos, a maioria de origem árabe. São absolutamente dispensáveis, pois a escrita de Ana Miranda prende o leitor mais pela sensualidade que pela razão. Mesmo nos trechos em que assume uma postura didática, como na página 53, quando enumera, paciente, 65 palavras da língua portuguesa derivadas do árabe e iniciadas por "al", de alfinete a almofariz, "só para dizer as mais conhecidas", não permite que lhe fujam a batida sensual, o traço ondulante, a magia.
A escritora incorpora em sua linguagem o ritmo da prosa poética, as onomatopéias, as metáforas, as passagens de pura poesia, a transfiguração literária da oralidade, da fala das personagens, os ditados populares, da musicalidade e também a sua dimensão metafísica, enfim, os recursos que permitem a transposição artística da herança cultural árabe.
Percebe-se a pulsação das palavras resultante da ruptura com o enredo factual, que, cede espaço para a fragmentação do fluxo do pensamento de uma oriental que, aos poucos, tenta se adaptar a vida no ocidente e divaga com expressões em português, inglês e árabe, com escassa pontuação.
Tecido com antigos poemas árabes, das imagens fantásticas de Sherazade d’As Mil e uma noites, receitas de cozinha, parábolas, crenças religiosas, é um romance sobre a imigração libanesa para a América, que reflete acerca do amor, do erotismo, do trabalho e do nacionalismo.

 VI – ESTRUTURA:

A narrativa é cíclica ou circular: começa e termina no Jardim da Luz, São Paulo-SP, quando o tio da narradora, Naim, transmite-lhe o pedido de casamento do mascate Abrahão.
A obra se compõe de 154 capítulos breves, que traduzem o fluxo de memória de Amina. A cada página Amina vai se descobrindo e revelando-se, e, o leitor, aos poucos, se aprofundando na cultura libanesa, através da visão da narradora-protagonista.
A sereia não somente ilustra a capa do livro, como também vão percorrendo o interior da obra como uma forma de desvelo que com todo seu mito de “metade peixe, metade mulher”, “encanta com seu canto e causa sofrimento a quem ela escuta”. Amina se apropria de todas estas características mitológicas e vai, juntamente com a sereia (desenhos) transformando-se.

VII – RESUMO DO ENREDO:

“Ser livre é, frequentemente, ser só.”
  
Amina alegoriza a condição de mulher numa sociedade regida pelo patriarcado. Seu desejo de independência não condiz com as convenções sociais, em uma época onde o ideal de felicidade feminino resumia em ser esposa, mãe e dona de casa.
O preço da libertação de suas amarras sociais é a sua solidão.

“...viver numa casa imensa, de avental contar ovos, bater manteiga, ralar abóbora, picar amêndoas, a natureza nos dedos, regar uma horta no quintal, alface hortelão tomilho, ter sexo na noite abençoado, açúcar cristal na língua hmm. Nas coisas mais simples está o sentido de Amina”.

A protagonista encontrava-se no Jardim da Luz, em São Paulo, no final do século XIX, junto a seu tio Naum Salum, quando este lhe perguntou se aceitava casar com o mascate Abraão.
A proposta de casamento transporta Armina a um processo de descoberta individual, desvendando o seu inconsciente e causando-lhe conflitos existenciais. O momento caracteriza-se pela exacerbação da interioridade, de tal modo intensa, que, a própria subjetividade entra em crise.
O contraste da opinião de seu tio a cerca do casamento e da felicidade resumia na sujeição física aos desejos do mascate; ter de viver numa casa cheia de gente e sem privacidade; cozinhar para quinze pessoas; viver para ganhar dinheiro; sonhar com o retorno ao Líbano; representar a cada noite, uma mulher diferente para o encantamento do marido, e, estava muito distante da busca incansável de sua identidade e de seu sonho de dançarina.
Ana Miranda, nesse momento, instaura no romance, através da protagonista Amina, as angústias e os dramas interiores das mulheres que, descobrem a impossibilidade de uma existência individual diferente daquela almejada e sintetizada na reformulação de um ditado popular que sintetiza o desejo da narradora:

“Mais vale um pássaro na mão que dois voando, não, mais vale um pássaro voando, de que vale um pássaro que não voa?

Essa desconstrução intimista da personagem faz com que seus pensamentos e lembranças assumam uma função libertária, remetendo-a desde a sua infância numa aldeia do Líbano até seus dias atuais, em São Paulo.
O espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise reclama um novo equilíbrio, transcendendo do plano da realidade para o psicológico.
Amina recorda-se que nunca sentira à vontade em sua casa, visto que, mesmo entre a sua gente, a sua família era tratada de modo diferente, como estrangeira. Esse sentimento de inadequação e rejeição perseguirá a protagonista em toda sua travessia de vida.
Amina questiona se a razão de tanta indiferença não era o fato de que sua avó Farida, ser vista como um estereótipo de transgressão, por ter sido um dia, dançarina, uma “gháziya”.
Em uma sociedade marcada pela convenção e moderação de comportamento, o passado de Farida, maculou a honra da família. 
Amina amava sua avó, mulher guerreira que a criou com amor e carinho, substituindo sua mãe, já que a mesma abandonara a família, quando ainda Amina era menina, indo também, em contramão aos conceitos patriarcais.
Foi através da avó que aprendera às escondidas a dançar e herdar as suas tradições ancestrais: as danças, a culinária, as lendas, o repositório da memória coletiva de seu povo passado de geração a geração.

Amina possui os traços físicos da mãe e é vítima da rejeição paterna. Seu pai, Jamil, inconformado por ter sido abandonado pela mulher, transfere para todo o gênero feminino o ódio que a traição lhe causou.

“Bêbados falavam mal de suas mulheres, das mulheres de todos, papai voltava para a casa bêbado e abria o estojo da faca, maldizia mamãe Maimuna comedora de tios-felpudos mulher quando fala mente quando promete não cumpre quando cumpre volta atrás quando nela confiam trai quando não trai fere revela facilmente sua parte íntima a qualquer um lança olhares a todos semeia discórdia um homem não pode partir para a aldeia vizinha nem por um dia se voltar antes vai encontrar a mulher na relva com um negro Ó mulheres em multidão não conseguis suportar pacientemente a ausência do objeto peludo nem por um dia?” (p. 16)

O tio Naim, escritor intelectual cego, é ameaçado de morte por causa de suas convicções políticas (crítica às invasões turcas no Líbano) e religiosas (defesa do cristianismo) e, é obrigado a deixar o Líbano. Por sua deficiência física, solicita que um dos sobrinhos o acompanhe como guia, nessa dura jornada.

 “Por causa dos turcos e dos mulçumanos que queriam matar tio Naim porque escrevia contra eles tivemos de partir de nossa aldeia, tio Naim encheu um baú com seus livros, umas jóias de ouro para trocar por comida ou roupa, uma manta de pelo de carneiro e nada mais, pediu a papai que mandasse um dos filhos acompanhar, papai olhos os filhos, todos de olhos arregalados, num silêncio fundo, um dois três quatros talvez todos os filhos homens quisessem cinco ir mais papai escolheu o filho que menos lhe servia, seis a única filha mulher, para que servia uma filha mulher? Os filhos iam casar e quando vovó Farida morresse as esposas iam cuidar da cozinha e fazer mais crianças para o trabalho na agricultura, ele me achava vaidosa, dissimulada, meu rosto lembrava o da minha mãe e isso fazia papai sofre ainda mais... (p. 22)

A oportunidade de se livrar da imagem de sua esposa adúltera refletida no semblante de Amina, uma mulher “ardilosa”, fez com que a única menina, fosse escolhida para acompanhar o tio cego.
Tio Naim, homem erudito e representante alegórico da herança árabe, torna-se o mentor de Amina. Ele é apaixonado por livros, mas a cegueira não o permite apreciá-los, então ensina Amina a ler, a escrever, para que ela possa contar-lhe as histórias dos livros, bem como, as palavras em outros idiomas: francês, inglês, grego e aramaico, porquemulher saber língua estrangeira é abrir uma janela na muralha.” (p. 27)
Na partida, a avó lhe dá os seus pequenos tesouros: o tamborzinho de mão, os címbalos e o pandeiro, relíquias que selaria para sempre o seu destino.
A sua origem, suas raízes, suas amarguras e submissões são deixadas para trás e a ansiedade de um novo mundo aflora suas expectativas: 

“...ia queimar talismãs para o navio chegar logo e me levar para Amrik, guiava tio Naim nas ruas, recebia cartas de papai, da aldeia, cartas que me faziam chorar, cruéis, se eu era suave ele brigava se eu era fria ele cuspia se eu dizia elogio ele ignorava de noite na cozinha ele falava mal de mim com a Abduhader, falava mal de mamãe com os outros bêbados de noite e falava mal da mulheres todas ela.” (p. 26)

Logo no início da viagem, as primeiras desventuras surgem. No lugar donavio moderno, veloz e iluminadopelo qual ansiavam, depararam-se com:

“...um ferro velho sujo enferrujado com carne humana amontoada arrre irrra terceira classe dormiam no relento água racionada salobra nojenta arghhh para qualquer coisa era preciso dinheirinho, beliches duros imundos insetos sugavam o sangue de noite ratos mordiam comiam nossos sapatos mofo calor umidade sal vomitava vomitava arre o camarote era para quatro mais oito ocupavam os quatro lugares eu dormia na mesma enxerga com tio Naim e não podiam levantar os dois ao mesmo tempo que alguém estava sempre pronto para ocupar nosso lugar arre.”  (p. 28)

A viagem é acompanhada pelas histórias narradas por tio Naim ou pela leitura que Amina faz dos livros escolhidos por ele, que por questões ideológicas, privilegia as leituras verdadeiramente, árabes, temendo perder seus laços de amor à terra natal.
Para ele: “a literatura árabe lembra sempre a existência de outros mundos além deste que podemos ver e tocar mas não compreender.” (p. 30), mundos como o universo ficcional, em que a realidade é continuamente transformada e recriada.

“...literatura das montanhas e dos desertos sem nunca criar fronteiras entre o real e o irreal como o mundo fora uma miragem (...) uma literatura que pode ser feita e usada por pessoas que não sabem ler nem escrever, mas se ouvem entendem e podem recontar que são histórias e mais histórias e assim foi uma grande parte dela, os livros antigos eram muitas vezes apenas a memória do recitador; outras vezes, eram escritas em letras de ou nas paredes mas fosso como fosse, nunca rompeu com a tradição e nunca romperá ainda que sejam os poetas chamados de imitadores (...) se a literatura árabe é a alma árabe, todavia, não é o mundo árabe o que as pessoas pensam, pensam que o mundo árabe são as Mil e um noites hahahah.” (p. 31)

A narradora, assim, apresenta a necessidade de destruir valores atribuídos à imagem eurocêntrica do Oriente de um mundo exótico, para propor um novo olhar para as mazelas dos conflitos políticos e religiosos, vivenciados pelos povos de origem árabe.

A parte 2, intitulada “Amrik”, retrata á estada de Amina na América do Norte.
Amina e Naim sustentam o sonho de estar se dirigindo à América, a tão sonhada Amrik, no entanto, são retidos em Beirute, onde ficam à espera de passaportes turcos e de vagas no navio. Muitos acabavam por desembarcar no Brasil, no porto de Santos, considerados indesejáveis.
O resultado desse embate foi á separação do tio Naim e Amina.
Amina emprega-se como dançarina em uma Feira de Negócios e o tio, “cachorro-morto”, é despachado para a outra América.
Neste contexto outra transformação ocorrerá em Amina: o desejo de alcançar sucesso a qualquer custo através de sua arte.
A possibilidade de novos rumos, a euforia advinda dos atrativos da América, o cenário cultural e a tendência à individualidade extrema fazem com que a solidariedade familiar e a herança cultural sejam postos em segundo plano pela narradora.

“...eu pensava que ia ficar rica verdadeiramente rich era a terra das liberdades das oportunidades ia me vestir como a rainha de Sabá ia me cobrir de jóias perfumes chapéus com plumas de veludo....” (p. 36)

O sonho, no entanto, se dissolve rapidamente:

“...muito trabalho a meio dólar por dia, jornada de dez horas mas trabalhavam dezesseis, haviam marcado a minha pele com uma etiqueta na alfândega e me deram um banho, mudaram meu nome no papel, acabou a feira e me soltaram na rua.” (p.36)

Desempregada e solitária, Amina vai dormir na rua, nos dormitórios e nos cortiços de imigrantes, onde crianças e velhosmorriam como moscas envenenadas”.
O choque entre as culturas é perceptível nas lembranças de Amina.

“...as casas eram de madeira, as galinhas ciscavam na rua, os carros para lá e para cá numa velocidade estupenda e as pessoas não se matavam por religião diferente da nossa mas eu não condenava a religião deles, rudes e falavam alto, havia desempregados, policiais estúpidos arrogantes patrões ladrões greves de empregados nas máquinas das fábricas comida em lata solidão falta de falar a língua falta da comida da vovó Farida falta de amigos falta de um corpo falta de amor.” (p. 37)
  
Essa reconstituição, porém, permite que o passado seja reavaliado e que sua importância seja reconhecida no presente.
O tio Naim, através de cartas, acena à sobrinha a possibilidade de vinda para o Brasil. No desejo de compor um retrato da cidade de São Paulo, é possível detectar a pesquisa da autora no intuito de fornecer informações sobre a cidade, na época em que se passa a história.

“...havia na cidade de São Paulo cento e quarenta e seis lojas de fazendas e ferragens, sessenta armazéns de gênero de fora, cento e oitenta e cinco tavernas, todos pagavam direito à municipalidade...(...) Vem Amina minha flor de luz (...) vem para São Paulo.” (p. 39)

Amina vê a vinda para o Brasil como uma derrota, poiso Brasil era um lugar de abismos e depósito de imigrantes cachorros mortos que não conseguiram entrar na outra América (p. 45) e resiste o quanto pode à ideia de deixar a América do Norte, o seu “eldorado”.

A solidão, no entanto, é um flagelo diário, que faz com que um mero cumprimento, ou mesmo umas palavras trocadas, desperte em Amina uma fome descontrolada de amor e carinho:

“...à luz da vela escrevi cartas para tio Naim, para a vovó Farida para meus irmãos, para desconhecidos, uma carta para um homem de cabelo vermelho que eu vira atravessar a rua, uma carta ao Mark Twain uma carta a um remador que me dissera Good morning na fonte Bethesda no terraço de onde saiam remadores em barcos compridos, voltei à fonte uma dezena de dias e nunca mais vi o remador mais deixei para ele uma carta de amor (...) a carta marcada um encontro e no dia marcado esperei esperei brbrbrbrbrbr gelada mais ninguém apareceu, veio um policial de ronda, quem sabe porque fazia muito frio o remador não veio, caía neve suave o policial me fez umas perguntas, quase me apaixonei por ele.” (p. 41)

A condição de desamparo e com os sentimentos mais arrebatados forçou-a a vir para o Brasil.

"Eu pensava que o Brasil era um lugar de abismos e depósito de imigrantes cachorros mortos que não conseguiam entrar na outra América, Brasil era um lugar de fracos, mercadores persas chineses tomadores de ópio negros africanos com cigarros saindo fumaça na orelha, insetos e charcos e enchentes e uma cruz no céu para mim queria dizer morte, crucificação de Jesus e o nosso sofrimento ia ser  ali debaixo da cruz como Jesus sofreu na cruz, no Brasil havia padre demais e religião cada uma tão tola que nem brigavam por elas, pobreza, gente deitada nas ruas,  jumentos zurrando na sombra das árvores [...]"

Os capítulos seguintes retratam o cotidiano do imigrante libanês no Brasil que girava em torno do Tamanduateí, parte nova da cidade, sem nenhum progresso; as dificuldades de adaptação na nova terra; bem como a transformação urbanística da cidade de São Paulo, como o desvio do rio para fazer a Rua 25 de Março.

No começo, disse tio Naim, vinham os italianos e os alemães à porta ver despejar de mais árabes, riam de nossos modos, contavam histórias engraçadas sobre nós e não tinha medo (...) mas os mascates foram prosperando e de miseráveis ambulantes descalços que vendiam cigarros em bandejas dependuradas no pescoço ou quibe frito em tabuleirinhos passaram a mascates de santos de madeira e escapulários depois a mascates de tecidos botões linhas arre, assim os mascates se tornaram perigosos usos traiçoeiros ambiciosos usurários (...) mas não somos o que eles pensam, libaneses são limpos cultos, temos a Université dos jesuítas e a Universidade Americana, sabemos falar inglês grego francês, sabemos ler escrever, inventamos álgebra astronomia matemática, os algarismos arábicos o alfabeto, disse tio Naim, trouxemos para ocidentais a laranjeira o limoeiro o arroz, ensinamos ocidentais a melhor cultivar a alfarrobeira e a oliveira, a criar cavalos, a plantar uvas, figos e imensas maçãs, a regar, a pintar as unhas, fazer hortas de verduras e talhões de legumes, mais de seiscentas palavras à língua dos lusis.” (p. 52)

O capítulo intitulado “Ilhas de Elisã” contém palavras 65 começadas com “AL” que foram incorporadas ao português, evocando de forma concreta no discurso a herança cultural árabe e reivindicando um espaço social, poisos árabes são como avós dos brasileiros” (p. 53)
Outro aspecto presente na narrativa é a preocupação em informar que a ascensão social dos libaneses despertou não apenas a inveja de outros grupos de imigrantes, mas também dos brasileiros, o que contribui bastante para a criação e manutenção de estereótipos negativos.

“...chegavam as pessoas todas de uma mesma aldeia, gente do cultivo que vinha para a agricultura mas acabava mascate, ganhava mais dinheirinho, trabalhava para ninguém, problema dos libaneses que pensavam na aldeia, disse tio Naim, não pensavam no país, se falavam pátria diziam aldeia, sua terra sua aldeia queria dizer sua aldeia sua alma. (...) (p. 55)

Esse posicionamento alimenta a imaginação do imigrante e o transportam para dentro de um mundo ficcional, fazendo o esquecer os reais motivos pelos quais teve de deixar sua terra e seus sonhos para trás.

A parte 4, “Mezze”, retrata a vida na casa de Naim. Os textos constituem um resgate da culinária, da cultura e dos costumes libaneses. A tendência dos imigrantes se agruparem com seus conterrâneos é devidamente representada:

Tio Naim estudou na Université dos jesuítas Saint Joseph, escrevia para o ALK-Ahram e agora pediam para escrever sobre imigrantes, dinheiro, política, república, ele gostava de república porque trazia prosperidade, os escritos do tio Naim eram discutidos por libaneses nos mezzes aos domingos, senhores de muitos espíritos contrários e dados a leis da imaginação, mais levados por seus sonhos do que pela realidade, cada qual vendo mais a distância que a proximidade, misturando árabe com português (...)” (p. 62)

Assim, aproximam-se dois elementos que, em um contexto específico, guardam alguma relação de semelhança, transferindo-se, para um deles, características do outro, bem como o desenvolvimento de uma interlíngua e a desconstrução paulatina do sonho do retorno à terra natal.

“...um dia vão perceber que a vida passou, ficaram aqui fazendo fortuna e não voltaram e nem ficaram ricos, só alguns. Entendam logo isso e façam os cemitérios clubes igrejas mâdrassas que nos dos outros não nos aceitam...” (p. 64).

As personagens Chafic e Abraão são apresentadas como representações de duas fases distintas da imigração libanesa. O primeiro representa o imigrante da primeira geração, viajando de cidade em cidade, mascateando. O segundo aponta para uma segunda geração, para uma rede de conterrâneos a dar suporte uns aos outros. Os homens dessa nova leva encontram os primeiros aqui fixados, muitos deles atacadistas, podendo, assim, lhes fornecer mercadoria e ensinar a língua e os conhecimentos básicos para o exercício das transações comerciais.
A sondagem do mundo interior das personagens e a integração do imigrante libanês à sociedade brasileira, observada na obra, sugerem uma espécie de metamorfose determinista.

Abraão abriu a canastra mostrou como vendia renda, bordado, retrós sabonete meia dentifrício coisas pequenas pesam pouco, vendem fácil, preço bom, crédito, lágrimas no olhos, Logo aprendes a língua e se sabes umas poucas palavras podes trabalhar por tua conta, sais de manhã cedo mesmo que chova levas pão farinha pudim de palmito bocajuva vais de casa em casa nos bairros da Sé Santa Ifigênia, havia um mapa da capital da província de São Paulo, Abrão tinha lista de fregueses.” (p. 176)

Estudos sobre a imigração têm comprovado que a música e a culinária são marcas de resistência de imigrantes de primeira geração à aculturação absoluta, ou assimilação, operando como expressões privilegiadas de uma vida entre dois mundos.  No entanto, no romance, o espaço da cozinha, “o lugar do mundo onde uma mulher pode sentir a si, sem precisar dos machos árabes” (p. 130), com seus odores e sabores, é evocado como um dos lugares onde a mulher árabe não experimenta a subalternidade.
O comportamento de Amina, no entanto, contraria a imagem das mulheres imigrantes que descreve, pois é avessa ao trabalho doméstico, preocupando-se, apenas com a dança.  E, esse comportamento reflete a construção de uma imagem estereotipada da mulher oriental com sedutora, sensual e exótica:

“...eu sabia o que diziam mal de mim, dançar era mandar homem nas casas de putas eles em cima delas mas a cabeça em mim, que tudo era para gastarem em mim seus dinheirinhos e eu ficando rica e eles pobres...” (p. 69)

A arte da dança tem papel equivalente, pois é por meio dela que a mulher pode atrair um homem, fazendo-o “andar mil passos num vale ou atravessar um deserto sem camelo.” (p. 20)

Uns homens daqui mandavam buscar mulheres nas suas aldeias no Líbano, mulheres da sua mesma religião maronita e de virgindade virgindade sempre virgindade, alguns mascates logo que ganhavam um dinheiro voltavam a suas aldeias para escolher uma mulher, traziam a mulher para o Brasil ou deixavam a mulher lá e voltavam sozinhos, outros casavam com uma brasileira e voltavam com ela para sua aldeia no Líbano, um mascate casou com uma brasileira e levou a brasileira para Beirute, lá estava outra mulher e a brasileira não aceitou a bigamia, o marido deixou a brasileira na rua, ela ficou perdida nas ruas e ia virar mendiga ou prostituta de turcos, na sala de tio Naim eles discutiram o destino da perdida (...) decidiram trazer de volta a brasileira ai que sacrifício pagar passagem assim para brasileiro tanto libanês precisava trazer mãe ou pai ou irmão, não ia custar tão caro, Mais caro é ter boa reputação...”(p. 67)

A parte 5, intitulada “A casa de Amina”, relata a tentativa de independência da narradora, de preenchimento de um vazio interior que ela não consegue diagnosticar.
Ela vai morar em um sobrado na Rua 25 de Março, em meio ao burburinho de pessoas, os odores estranhos dos lusis, as lágrimas sufocadas da portuguesa, o agarramento do português com a empregada negra na escada, o frio intenso no inverno e o calor absurdo no verão. Os poucos objetos que leva com ela apontam uma característica da personalidade de Amina: a facilidade com que se encanta e desencanta, com os fatos e as coisas.
Assim é que se apaixona por Chafic, um mascate que vê pela janela a tomar banho nu, no rio. Através de Ternura, a empregada de Naim, fica sabendo que ele é mascate de fogos de artifício e que, quando não está no Mercado, vai de aldeia em aldeia no Mato Grosso.
A dançarina acostumada a brincar com a atração dos homens rende-se a uma única visão daquele corpo masculino. E, mais uma vez, os odores e os sabores da culinária árabe surgem para metaforicamente expressar a ebulição em Amina:

“...nunca mais na minha vida o veria, nunca no exterior de mim apenas o veria no escuro de minhas pálpebras, nu encostando sua língua na boca da mulher; fora ele um castigo mandado pelo Deus dos maronitas para eu pagar minhas maldades todas que fiz contra os homens, Chafic moeu meu coração, marinou temperou com pimenta intercalou num espeto com pedaços de lágrimas de cebola assou na brasa grelhou e não comeu...” (p. 88)

Da parte 7 em diante, o diálogo da história cede lugar à história pessoal de Amina, que é contratada pra dançar no casamento do mascate Abraão. Por recomendação do pai da noiva não deveria executar a dança do “al nahal”, o que acaba por fazer, deixando os homens presentes hipnotizados, o velho “fellah” revoltado, um casamento desfeito e uma noiva suicida.
O romance termina no mesmo ponto que começa: com o tio Naim perguntando a Amina se ela aceita casar-se com o mascate, que retorna rico da América do Norte e que nunca a esquecera. Dessa forma, obra nem começa, nem termina: ela continua.
“Amrik” antes de ser um romance de resgate da imigração libanesa no Brasil, é um romance psicológico. Não há etapas de um drama. Cada pensamento envolve todo o drama: logo, não há um começo definido no tempo, nem um epílogo. Há um contínuo denso na experiência existencial e o reconhecimento de uma verdade que despoja o “eu” das ilusões cotidianas e o entrega a um novo sentido da realidade.
Amina busca em si mesma, pela introspecção radical, sua identidade e as razões de viver, sentir e amar.
As formas de vida convencionais e estereotipadas vão se repetindo de geração para geração, submetendo as consciências e as vontades.
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

GUILLAUME APOLLINAIRE: A RENOVAÇÃO DA POESIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX

1880-1918


Wilhelm Albert Vladimir Apollinaris de Kostrowitzky ou simplesmente, Guillaume Apollinaire (Roma, 26 de agosto de 1880 — Paris, 9 de novembro de 1918) foi um escritor e crítico de arte francês, possivelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX. É conhecido particularmente por sua poesia sem pontuação e gráfica, e por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas na França, tais como o do Cubismo, além de ser o criador da palavra Surrealismo.
Filho da condessa polaca Angelica Kostrowicka e de pai desconhecido, suspeita-se de um aristocrata suiço-italiano chamado Francesco Flugi d'Aspermont, passa seus primeiros anos entre Roma, Mônaco, Nice, Cannes e Lyon. Desde 1902 foi um dos membros mais populares do bairro artístico parisiense de Montparnasse. Foram seus amigos e colaboradores Pablo Picasso, Max Jacob, André Salmon, Marie Laurencin, André Derain, Blaise Cendrars, Pierre Reverdy, Jean Cocteau, Erik Satie, Ossip Zadkine, Marcel Duchamp e Giorgio de Chirico.
Em 1901 e 1902, trabalhou como preceptor da menina Gabrielle em uma família alemã, na companhia da qual viajará pela Alemanha, tendo se apaixonado pela governanta inglesa Annie Playden, que o recusou, sendo que a mesma partiu em 1905 para a América. Da paixão não correspondida, surgiu « Annie et La Chanson du Mal-Aimé ».
Entre 1902 e 1907, de volta a Paris, trabalhou como empregado de bancos e começou a publicar contos e poemas em revistas. Em 1907, conhece a artista plástica Marie Laurecin, com quem terá uma tulmutuada relação. É por essa época que decide viver de seus escritos. No começo de 1907, publica anonimamente As Onze Mil Varas. Em 1909 publicou o seu primeiro livro oficial: O Encantador en Putrefacción, baseado na lenda de Merlin e Viviane. No mesmo ano, se dispõe a publicar uma antologia dos textos do Marquês de Sade, bem de acordo com uma característica sua que chocava os adeptos da tradição francesa: o fascínio pelo romance libertino. Assim, o mesmo foi o responsável pela introdução dos "livros maldidos" de Sade na cena literária francesa do início do século, que até então era um escritor praticamente desconhecido. Na apresentação da edição, escreveu um longo ensaio biográfico no qual se referia à Sade como "o espírito mais livre que já existiu no mundo".
Em setembro de 1911, quando já era reconhecido como um dos poetas mais importantes da vanguarda parisiense, Apollinaire é acusado de cumplicidade no roubo de uma obra do Museu Louvre, nada menos que a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, roubo no qual Pablo Picasso, também já muito famoso, foi igualmente implicado. Ele é preso durante uma semana e depois liberado. Esta experiência o marcará. Aos olhos dos defensores das tradições clássicas, que se aproveitaram da situação para denunciar "atos de barbarismo" dos estrangeiros contra a cultura nacional, pouco importava a inocência de Apollinaire no caso, visto que ele era acusado de atentar contra os valores da civilização, acusação esta estendida a outros estrangeiros radicados em Paris, como Pablo Picasso, Gertrude Stein e Stravinski.
Em 1913, Apollinaire publica Álcoois, coletânea de seus trabalhos poéticos desde 1898. Sua poesia dispensava a pontuação e a tipografia regular. Voltava-se para uma temática cosmopolita, na qual incluía novidades técnicas como o avião, o telefone, o rádio e a fotografia.
Em agosto de 1914, ele tenta se alistar nas Forças Armadas Francesas, sem sucesso, visto que não possuía a nacionalidade francesa. Em dezembro de 1914, repete a tentativa, sendo aceito e iniciando seu processo de naturalização. Pouco antes de ingressar efetivamente nas Forças Armadas, conhece e se apaixona por Louise de Coligny-Châtillon, chamada por ele de "Lou". É uma jovem divorciada com um estilo de vida livre, que não esconde do poeta sua ligação com um homem por ela chamado de "Toutou". Ele dedicará a moça vários de seus poemas. Quando Apollinaire parte para o campo de batalha, uma correspondência de uma poesia notável nasce dessa relação. Ambos rompem em 1915, prometendo continuar amigos.
Em janeiro de 1915, Apollinaire conhece Madeleine Pagès em um trem, de quem ficará noivo em agosto daquele mesmo ano. Mas em abril de 1915, ele parte com o 38º regimento de artilharia de campo para o fronte de batalha. Em março de 1916, é naturalizado francês, sendo que naquele mesmo mês é ferido gravemente na cabeça. Após longa convalescença, volta gradativamente ao trabalho.


Em junho de 1917, sua peça Les Mamelles de Tirésias, drama surrealista mesclando desespero com humor e escrita durante sua recuperação do ferimento, é encenada. Ele também publicou um manifesto artístico chamado L'Esprit Noveau Et Les Poétes. Em 1918, publica os famosos Calligrammes, poemas gráficos sobre a paz e a guerra de notável lirismo visual. Casa com Jacqueline, a "bela russa" do poema "La Joulie Rousse", que publicará muitas de suas obras póstumas.


Morreu jovem com apenas 38 anos de idade, aos 9 de novembro de 1918, vítima da gripe espanhola, doença pandêmica que também chegou ao Brasil. Foi enterrado no cemitério de Père-Lachaise em Paris. Sua obra literária e crítica anunciava os princípios de uma nova estética que tinha como fundamento a ruptura com os valores do passado. Os seus poemas, O bestiário ou o cortexo de Orfeo (1911), Álcoois (1913) e Calligrammes (1918) refletem a influência do simbolismo, com importantes inovações formais. Ainda em 1913, apareceu o ensaio crítico Os pintores cubistas, em defesa do novo movimento como superação do realismo.







domingo, 16 de outubro de 2011

BOM-CRIOULO, ADOLFO CAMINHA: ESTILO, CONTEXTO, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DA OBRA

I – AUTOR:


Adolfo Ferreira Caminha nasceu em 1887, na cidade de Aracati, Ceará. Teve uma infância conturbada pela morte da mãe, enfrentou várias doenças e a seca que assolou o Nordeste, nesse mesmo ano. Fez os primeiros estudos em Fortaleza (CE) e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Escola Naval (1883).

Na Marinha, sentiu o choque da instituição conservadora e monarquista, revelando-se republicano e abolicionista. Numa solenidade em 1884, com apenas 17 anos, fez um discurso na presença do imperador Pedro II, e declarou-se "contra o anacronismo da escravidão e do Império". Apesar da declaração, formou-se no ano seguinte como guarda-marinha.
Por volta de 1886 demonstrou vocação pela literatura, quando publicou os poemas "Vôos Incertos" e os livros de contos "Judite” e “Lágrimas de um Crente".
Viajou pelas Antilhas e Estados Unidos, recolhendo informações e anotações que resultaram mais tarde no livro "No País dos Ianques" (1894).
Em 1888 pediu transferência para Fortaleza. O Ceará já havia libertado seus escravos quatro anos antes e a vida literária da Capital era ativa, com vários grêmios culturais abolicionistas, republicanos e naturalistas, ideias que agradavam ao jovem escritor.
Naquela cidade, o já tenente Caminha envolveu-se num caso amoroso que lhe rendeu, inclusive, a saída da Marinha. Apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, que deixou seu marido e foi viver com o marinheiro, escandalizando a sociedade cearense. Mas ele não se rendeu, foi trabalhar na Tesouraria da Fazenda e continuou sua atividade literária. Fundou a "Revista Moderna" (1891) e, em 1892, a "Padaria Espiritual", movimento que acreditava na educação do povo para mudar o país, e publicava o jornal, "O Pão".
Voltou para o Rio de Janeiro em 1893, já com duas filhas. E para melhorar sua renda, além do emprego no Tesouro Federal, escrevia para jornais. No mesmo ano publicou o romance "A Normalista", crítica à vida na capital cearense, segundo os moldes naturalistas, que não fez eco entre os críticos. Dois anos depois, publicou "Bom-Crioulo", livro ousado, de temática homossexual dentro da Marinha. Este é considerado seu melhor livro, visto que o próximo, "Tentação" (1896), é fraco e revela o declínio do Naturalismo. Morreu de tuberculose, no ano seguinte, antes dos 30 anos de idade.


II – CARACTERÍSTICAS:


 
“Bom-Crioulo” foi publicado em 1895. Típico romance de tese, interessado em analisar personalidades fora da normalidade, é considerado por muitos a obra-prima de Adolfo Caminha e, ao lado de “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, um dos melhores romances do Naturalismo brasileiro.

É mais que sabido o quanto o Naturalismo brasileiro é devedor do Naturalismo francês. Foi nas leituras de Zola, principalmente, que nossos escritores do período se formaram e se embasaram das teorias e do estilo dessa escola.
Teoricamente, foi por meio do cientificismo reinante no período que se traçaram as principais linhas ideológicas, temáticas e estilísticas a ser seguidas: no determinismo taineano; no positivismo comteano e no evolucionismo darwiniano repousavam os preceitos ideológicos principais da escola. Tratava-se de dar um escopo de ciência exata às ciências humanas, à arte em geral e à literatura em particular.
Estilisticamente, o descritivismo deu o tom. Zola adotou e difundiu o registro direto e minucioso da realidade como prática mais eficiente e adequada às necessidades artísticas do seu tempo.
Georg Lukács viu no descritivismo uma prática estilística que nivelava o que deveria ser resultado de uma distinção e ordenação por parte do narrador (“A narração distingue e ordena, a descrição nivela todas as coisas”).
O romance naturalista, para ele, seria uma má alegoria da realidade, ao se ater à pura observação desta.
Caminha trabalhou na Marinha e pode conhecer por sua própria experiência os tipos que se movimentam por esse seu romance. A história de paixão e tragédia que anima essas páginas não é produto de uma fantasia romântica, mas baseada em fato real, que escandalizou o Rio de Janeiro do século XIX. Estimulado pelos pressupostos estéticos do Naturalismo e pelo desejo de chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava, o autor constrói a partir de um fato verídico uma ficção forte, ousada, que ainda hoje é atual.

III – FOCO NARRATIVO:

Temos um foco narrativo em terceira pessoa, com narrador onisciente. É bastante utilizado o discurso indireto livre para desvendar os pensamentos e sentimentos dos personagens, recurso que Caminha talvez tenha aprendido em Eça de Queirós, uma de suas maiores influências literárias.

IV – TEMPO:

Pelas descrições do ambiente do Rio de Janeiro, podemos afirmar que a história é contemporânea de sua publicação, isto é, acontece no final do século XIX, pouco tempo depois da proclamação da República no Brasil.
Predomina o tempo cronológico, mas não é possível precisar o intervalo em que ocorre a narrativa.
Quando Amaro vai para o couraçado, ficamos sabendo que ele e Aleixo estão juntos há cerca de um ano, mas a história prolonga-se por um tempo indefinido, até o desfecho com o assassinato do grumete.
Em alguns momentos, há o uso do flash-back, para recuperar as origens dos personagens principais ou quando Amaro, internado no hospital, se lembra dos bons tempos com Aleixo.

V – ESPAÇO:



Podemos analisar o espaço dessa obra, dividindo-a em externo e interno.

Os cenários externos principais são contrastantes: a paisagem marítima descrita com um certo Romantismo ou, quando se trata da vida de marinheiro, descrições carregadas de Impressionismo, revelando um ambiente opresso e ofegante, como no momento em que os marinheiros estão para ser castigados.
A pobreza e a sujeira das ruas suburbanas do Rio de Janeiro acentuam o contraste com as descrições românticas do mar.
Os espaços internos são o interior da corveta, em alto-mar, onde Bom-Crioulo e Amaro se conhecem, e o sobradinho da Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, onde vão viver em terra e, posteriormente, D. Carolina e Aleixo se amasiam.
Dentro da corveta, o ambiente é desagradável, repugnante mesmo, quando serve de cenário para os contatos mais íntimos entre Amaro e Aleixo.
É notável a competência com que Adolfo Caminha descreve o espaço do navio, pudera o autor cursou a Escola Naval e foi guarda-marinha e a passagem do Rio de Janeiro, principalmente a que se vê da orla marítima, aparecendo aqui e ali, ao longo da história.
O mesmo acontece na descrição do quarto do sobradinho em que vão viver Bom-Crioulo e Aleixo quando chegam ao Rio de Janeiro.
Essa caracterização negativa do espaço que envolve a relação “proibida e imoral” entre Bom-Crioulo e Aleixo tem um peso valorativo: funciona como uma crítica ao relacionamento homossexual, um julgamento moral: o espaço é decadente porque o que acontece entre os dois marinheiros também é decadente. Mas o mesmo não vale quando se trata de descrever o cenário dos encontros entre Aleixo e D. Carolina.
É valorizada a ação exterior, com destaque para cenas verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos corporais a que deviam ser submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não chegam a detalhes explícitos em virtude da moral social que também atinge o escritor e sua preocupação prévia com a reação do leitor.

VI – PERSONAGENS:



AMARO, o Bom-Crioulo: personagem principal, ex-escravo, tem cerca de 30 anos. De início, bom marinheiro, respeitado pela seriedade, força e valentia. Mas aos poucos vai se tornando relaxado, principalmente depois de se apaixonar pelo grumete Aleixo.


ALEIXO – adolescente, tem cerca de 15 anos, veio de família pobre de pescadores. Pele clara, olhos azuis, sua figura cativa a todos. Torna-se objeto das paixões de Amaro e D. Carolina. Morre tragicamente ao final.

D. CAROLINA – portuguesa, ex-prostituta, 38 anos. A princípio, grata a Amaro por este ter lhe salvado a vida no passado, acaba roubando do Bom-Crioulo o grumete Aleixo, que seduz com sua experiência e o resto de sensualidade que lhe sobrou.

HERCULANO – marinheiro imberbe, mórbido, solitário, é castigado ao início da narrativa por ter sido flagrado se masturbando.

SANT’ANA – marinheiro castigado por ter se envolvido em briga com Herculano. Manhoso, gago.

AGOSTINHO – guardião do navio, especialista em aplicar chibatadas, é um sádico que se aproveita do seu ofício: adora castigar.

O reduzido número de personagens significativos na narrativa e a casualidade de alguns acontecimentos soltos na trama parecem denunciar o pouco fôlego de Adolfo Caminha como escritor. Exemplos desses acontecimentos são a “coincidência” da visita de Herculano ao hospital, quando diz a Amaro do destino de Aleixo, ou a presença fantasma do açougueiro amante de D. Carolina em algumas passagens do livro.
O crítico Georg Lukács chama a atenção para a necessidade de o escritor “superar na representação a casualidade nua e crua, elevando-a no plano da necessidade”.
Ou seja: não é que fatos casuais não possam ocorrer, mas eles precisam “ser exigidos” pela narrativa.
Quanto à questão da composição dos personagens, os três últimos anteriormente citados são meros esboços de figuras naturalistas, caricaturas de homens dominados por suas fraquezas. Mesmo D. Carolina e Aleixo caem no esquematismo descritivista observado por Lukács:

“As qualidades humanas passam a existir umas ao lado das outras e vêm descritas nesta compartimentalidade, em vez de se realizarem nos acontecimentos e de manifestarem assim a unidade viva da personalidade nas diversas posições por elas assumidas, bem como nas suas ações contraditórias. À falsa vastidão dos horizontes do mundo externo corresponde, no método descritivo, um estreitamento esquemático nas caracterizações humanas. O homem aparece como um “produto” acabado de componentes sociais e naturais de várias espécies. A profunda verdade social do entrecruzamento no homem de determinantes sociais com qualidades psico-físicas acaba sempre por se perder.
Não é o caso de Amaro. Este vive integralmente suas contradições, até as últimas consequências: reconhece em Aleixo a causa de sua decadência, mas vai até o fim no seu amor; seus ciúmes no hospital estão em constante contraste com sua saudade carregada de sensualismo; sabe o quanto o álcool lhe faz mal, mas procura-o como último recurso quando já não suporta a realidade.
Sua personalidade, ao longo de todo o romance, é mesmo aquela figura enlouquecida e apaixonada que, no último capítulo, caminha com desejo e ódio ao encontro de Aleixo e de seu destino."
Como bem notou Alfredo Bosi, Amaro é “coerente na sua passionalidade que o move, pelos meandros do sadomasoquismo, à perversão e ao crime”.

VII – LINGUAGEM:

A principal marca do estilo naturalista é o descritivismo detalhista, visando à objetividade cientificista na narração, mas não se pode afirmar que Adolfo Caminha abuse desse recurso nesta obra. Pelo contrário: a influência de Eça de Queirós parece ter sido positivo no que toca ao uso parcimonioso das descrições aliado a uma exploração do mundo interior dos personagens, o Bom-Crioulo, em particular, por meio do discurso indireto livre.
Além disso, há em Caminha aquilo que Massaud Moisés chama de “lastro romântico que suportava a cosmovisão realista: veja-se a abundância de reticências que destroem a ideia de apreensão total das circunstâncias e objetos, que constituía apanágio do Realismo [Naturalismo], e chamam para o indefinido e a fantasia desatada, como algumas vezes acontece”.
Tal particularidade é perceptível nas descrições, por exemplo, no episódio da borrasca que atinge a corveta pouco antes do atracamento no Rio de Janeiro ou na cena de despedida para o primeiro embarque de Amaro.
É interessante notar, também, como o autor trabalha a linguagem para tratar do sexo. Tudo é dito objetiva e cruamente, mas nunca a própria consumação do ato sexual, o narrador esconde-se por detrás das palavras: quando do episódio da masturbação de Herculano (o Pinga) no navio (“cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”); quando da posse de Aleixo por Amaro (“E consumou-se o delito contra a natureza”); quando da polução de Amaro, no capítulo IV (“passou a mão no lugar úmido, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono”); e assim por todo o livro. Essa atitude é comum também quando se trata de expressões de baixo calão proferidas pelos personagens. Amaro nunca completa a expressão “ - ...que os pariu”. São sempre as mesmas reticências...
O crítico Antonio Candido explicou coerentemente esse aspecto nos naturalistas:

“Há, portanto, uma espécie de desgraçado do enfoque “natural” de Zola, quem sabe por causa de certo sentimento ateu do pecado, visível não apenas em Aluísio Azevedo, mas em Eça de Queirós, Abel Botelho, Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro, que também receberam mais ou menos a sua influência. É como se na sociedades mais atrasadas e nos países coloniais o provincianismo tornasse difícil adotar o Naturalismo com naturalidade, e as coisas do sexo acabassem por despertar inconscientemente um certo escândalo nos que se julgavam capazes de enfrentá-las com objetividade desassombrada."


VIII – RESUMO DO ENREDO:

CAPÍTULO I

Um narrador impessoal, valendo-se do foco narrativo em terceira pessoa, abre o primeiro capítulo do romance descrevendo, minuciosamente, uma corveta. Essa técnica é comum na estética realista-naturalista que visa criar meios para o leitor visualizar o cenário em que vai transcorrer a ação. Informa que o navio, um dia novo e bonito, agora está velho, com o casco negro e as velas encardidas, parecendo mais um esquife agourento.
Após montar o cenário, o narrador põe as personagens em movimento.

“A velha corveta enfrenta a calmaria em alto-mar. Às onze horas, em plena indolência, o tenente ordena toque de reunir no convés. Oficiais e marinheiros preparam-se para a cerimônia de punição dos rebeldes. O guardião Agostinho, companheiro respeitado e temido, mestre na chibata, aplicaria as penas, aquilo lhe dava um prazer especial.”

Entre eles, Herculano, com seu rosto imberbe de adolescente. “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.” (p.14)

A razão do castigo é que o grumete fora flagrado por um mulatinho esperto, quando se masturbava:

“Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”. (p.16)

O mulato chamou o Sant’ana que veio e deu o flagrante. Herculano e Sant’ana brigaram. Por isso, ambos foram a castigo.
Herculano sofreu o seu sem reclamar, mas o Sant’ana tentou justificar-se, desculpar-se, mas de nada adiantou: vinte e cinco chibatadas para cada.

“- Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal-humorado sob a luz ardentíssima do meio-dia tropical.
- Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.” (p.18)

O terceiro preso a ser castigado é exatamente o protagonista, Amaro, mais conhecido entre os marujos por Bom-Crioulo. Trata-se de um negro, muito robusto e seguro. Calmo quando sóbrio torna-se agressivo quando embriagado.

“Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda a gente sabia que era o Bom-Crioulo ás volta com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha...uma coisa indescritível!” (p. 19)

O motivo de sua prisão agora, no alto-mar, a bordo da corveta, era outro:

“Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda-classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheiro de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se coisas.” (p.19)

O narrador traduz o sentimento interior de satisfação que toma conta de Amaro, que, se por um lado reconhece que agira mal, por outro está contente porque acredita que vai conquistar o grumete “como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro”.
O guardião Agostinho desfere cento e cinquenta chicotadas sem que o hercúleo Amaro solte um gemido de fraqueza.
Estava terminado o castigo. A população voltava à faina.

CAPÍTULO II

O narrador faz uma retrospectiva, um flash-back, revelando a história de Amaro: aparecera no Rio de Janeiro vindo não se sabe de onde. Negro fugido, fora recrutado pela Marinha e apaixonara-se logo pela vida de bordo. Era uma liberdade tão grande para quem passara toda a vida na fazenda, preso ao cabo da enxada! Ganhou logo a afeição dos oficiais; nunca dava trabalho e aprendia rápido. Isso lhe valeu o apelido de Bom-Crioulo.

“Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga. – E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia de amanhã!” (p. 22)

Durante o período de aprendizado, sonhava com poder embarcar definitivamente. Quando isso aconteceu, rapidamente ganhou a amizade e o respeito dos companheiros do cruzador de alto-mar, pela sua seriedade e força bruta.
Depois, sonhou em embarcar no navio do Almirante Albuquerque, que diziam recompensar bem seus bons marinheiros.
Quando embarcara na corveta, já tinha trinta anos, era marinheiro de segunda classe.
Com o passar do tempo seu comportamento começa a mudar. Descuidava-se da qualidade de seus serviços. Torna-se lento no cumprimento das obrigações: lerdava no mastro e mostrava-se aborrecido com as tarefas.
Diziam uns que a cachaça estava a perder o negro; outro, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, desde que Aleixo, o menino que embarcara como grumete no Sul.

“O certo é que o garoto de quinze anos abalara a alma de Amaro, dominando-a, como a força de um imã. (...) Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho.” (p. 26)

“Bom-Crioulo não se importava com os comentários, desde que não lhe viessem dizer na cara, senão veriam!”

Nota-se no fragmento transcrito uma das mais importantes características do Naturalismo. O narrador, como um cientista, friamente, tecnicamente, procura falar do assunto racionalmente, demonstrando uma visão de mundo materialista em que predomina a preocupação com o aspecto fisiológico, próprio do clínico-geral.
Aleixo era filho de uma família pobre de pescadores. A princípio, Bom-Crioulo o assustara, mas foi se acostumando aos carinhos e à solicitude de Amaro.
Amaro, para mostrar ao grumete de olhos azuis o seu poder sobre os outros e também sua afeição, esmurra o segunda-classe, que ousou maltratá-lo.
Ao regressar do Sul, comenta o narrador, Amaro está mais forte, mais viçoso, mais homem. Já não revela mais tanta obediência, tanto respeito no tocante à disciplina.
Tornou-se um tipo comum, como a maioria dos marinheiros, já fala mal dos oficiais na ausência deles, trata-os com desdém. Após ser castigado por um comandante, de nome Varela, por ter agredido outro marinheiro, Amaro torna-se preguiçoso, insubmisso, ressentido e deixa de se importar com seus deveres, passava um mês no hospital, outro a bordo, outro de licença em terra, resmungando:

“Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse quer não trabalhasse. -...que os pariu!” (p. 28)

O fato do texto estar entre aspas (além disso, no original, está depois do travessão) caracteriza a fala da personagem em discurso direto. Então deveria estar “Tolo é quem se mata...”, mas o escritor colocou os verbos no passado, como se o narrador estivesse reproduzindo a fala da personagem em discurso indireto. Temos então uma contaminação do discurso do narrador pelo da personagem.

CAPÍTULO III

A narrativa retorna ao tempo presente, isto é, ao momento final do primeiro capítulo, logo após o castigo dos três marinheiros. Todos na corveta regozijam-se com a esperança de chegar em breve à baía da Guanabara. Todos não, há um que preferia passar a vida toda no mar: Amaro. “Como haveria de ser a vida em terra depois de ter conhecido o grumete?

“Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno desta única ideia – o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... – Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas, enfim, ia-se vivendo...E agora! Agora...hum, hum!...agora não havia remédio: era deixar o pau correr...” (p. 29)

Neste fragmento, a exclamação indica que houve mudança abrupta, marcada por um travessão, mas no meio da frase, sem abrir outro parágrafo e sem qualquer verbo de elocução. Quem está se expressando é Amaro.
No trecho final, tanto as hesitações, os pensamentos incompletos, a interjeição “hum, hum” que indica dúvida e impaciência do próprio protagonista.
Não entendia o que estava acontecendo. Nas duas únicas vezes que se metera com mulheres na vida, foram fracassadas.
Amaro passa o dia todo torturado por um incontrolável “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo”.
Aleixo, por sua vez, ia satisfeito com a vida de grumete. Era o preferido dos oficiais, sempre muito asseado e composto.
Bom-Crioulo era o responsável por aquela transformação; ele ensinara o menino a se vestir, a conquistar simpatias.
Dera a ele um espelhinho, ensinara-o a dar laço na gravata, a usar o boné de lado, a camisa um bocadinho aberta.
Um belo domingo, o rapaz aparece tão lindo em seu uniforme branco que Amaro “ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo”. (p. 31)
Nesse mesmo dia, depois de terminada a leitura do Regulamento e feita á revista, Bom-Crioulo chama Aleixo à proa e entram numa longa conversa em que o negro propõe ao rapaz para morarem juntos, quando voltarem a terra.
Propôs protegê-lo e ensiná-lo a viver no Rio de Janeiro. Aleixo deixava-se levar pelos planos do amigo e fantasiava a vida na capital: morariam juntos em um quarto da Rua da Misericórdia. Conversavam e assistiam à passagem de um transatlântico carregado de imigrantes quando, de repente, o tempo mudou; uma montanha de nuvens se aproximava, viria uma tempestade. O navio agitava-se, preparando-se para a luta contra a natureza.
Durou uma hora e meia o aguaceiro, até que o sol iluminou de novo o horizonte, só o vento persistia.
Depois, os marinheiros aproveitaram o luar e a noite para festejar. Menos o Bom-Crioulo, que cansado do extenuante trabalho, desceu as escadas em busca de abrigo e descanso. Ele e Aleixo, bem próximos, conversaram sobre a tempestade e trocaram histórias até o anoitecer.
O ambiente era frio, úmido. A coberta era nauseabunda, um cheiro acre de suor, urina e alcatrão misturados empesteava o ambiente. Naquela noite, queria resolver logo aquilo, não podia esperar mais. Esgueirava-se entre as macas, procurando Aleixo.
Não se viam, apenas adivinhavam-se por baixo dos cobertores.

“Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo; o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo.
Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo!Murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.” (p. 37/8)

CAPÍTULO IV

O dia seguinte amanhece luminoso. Chegam ao Rio de Janeiro e Amaro sentia um misto de alegria e preocupação. Depois de mais de seis meses de escravidão no mar, isso que chamavam “servir à pátria”, enfim chegava à terra firme. No entanto, em vinte e quatro horas pode ver-se separado de seu grumete por ordens superiores. Por outro lado, alegra-se com a prova de amor que recebera:

“Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta...Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurava nas mulheres”. (p. 40)

O narrador reproduz seu monólogo interior, em que procura justificar seu desvio, tomando como exemplo o comportamento de outros, como o de um oficial.

“Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...” (p. 40)

Vem a tarde, mas recebem ordem para não desembarcar. Amaro dorme pesado, pois está cansado. Ao acordar, irrita-se pois tivera um verdadeiro esgotamento de líquido seminal. Irrita-o mais ainda o fato de não ter sentido gozo. Levanta-se, arruma suas coisas e sai resmungando, ameaçando quem cruzasse com ele. Só o encontro com Aleixo animou-o.

“Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que o negro era meio doido.” (p. 41)

Enfim puderam descer. Passaram pelo decadente Largo do Paço, beberam alguma coisa e foram andando para a Rua da Misericórdia. Pararam defronte de um sobradinho, próximo ao Arsenal de Guerra. Em baixo, moravam uns pretos de Angola. Em cima, a D. Carolina, uma senhora redonda e meio idosa, que abraçou com alegria o Bom-Crioulo. Era uma portuguesa que alugava quartos. Não discriminava os fregueses.
O narrador faz uma retrospectiva, revelando que a portuguesa quando moça, já tivera seu bom período de aparência, uma casa na Rua da Lampadosa, chamavam-na Carola Bunda, tivera dinheiro ganho na prostituição, tivera homens, mas também adoecera e conhecera infortúnios.
Depois tropeçara pela vida, foi para Portugal, retornou ao Brasil, e agora vivia da renda dos aluguéis e da ajuda de uma amante, um açougueiro, senhor Brás, que aparecia às vezes e contribuía com cento e cinquenta mil réis “para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente”. Contava, então, com o dinheiro dos aluguéis para segurar sua velhice.
Estimava o Bom-Crioulo desde o dia em que ele a salvara, na rua, de dois pilantras que a assaltavam e podiam até matá-la. Tornaram-se íntimos e, desde então, Amaro só se hospedava na Rua da Misericórdia.
Enquanto Bom-Crioulo contava a D. Carolina seu caso com o grumete, Aleixo reparava na decoração da sala de jantar. Tudo cheirando a sebo e cânfora, velho, poento e incolor.
Os marinheiros foram arranjados no comodozinho de cima, onde podiam ficar mais a sós.

CAPÍTULO V

“O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente.” (p. 47)

O leito era uma cama dobrável muito usada, sobre a qual Amaro de manhã cobria com um grosso cobertor encarnado para esconder as nódoas.
Durante meses viveram ali uma vida tranquila. Bom-Crioulo enfeitou o quartinho com bugigangas. Cumpriam seus deveres a bordo e vinham á terra duas vezes por semana.
O grumete levava uma vida de felicidades. Era estimado por D. Carolina e como era comportado e asseado, tornou-se protegido dos oficiais.
Uma coisa apenas o incomodava: os caprichos libertinos de Amaro, pois este não se contentava só em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, “queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”, como quando exigiu que o rapaz se mostrasse para ele nuzinho em pêlo. Apesar da vergonha, Aleixo cedeu, revelando um corpo muito alvo, as formas “roliças de calipígio” (belas nádegas).

“Bom-Crioulo” ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles...Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...”(p. 48/9)

Os desejos de Bom-Crioulo eram de touro! D. Carolina chamava o rapazinho de olhos azuis de “Bonitinho” e desdobrava-se em carinhos para ele.
Certo dia a corveta entrou para os diques.

“Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.” (p. 50)

Com a embarcação parada para reparos, os marinheiros ficam à solta. Amaro torna-se trabalhador de novo, obtendo concessões de imediato e, assim, multiplica os passeios à terra. Já faz quase um ano que está nessa vida. Começa a sentir-se magro e tem uma fraqueza e uma sonolência profunda, mas isso não chega a preocupá-lo, pois vive em paz de espírito vendo crescer a seu lado o Aleixo.

“Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelos de amante apaixonado.” (p. 51)

D. Carolina, vendo a permanência dessa ligação, brinca com eles:

“Vocês acabam tendo filhos”.

Mas, certo dia, a corveta saiu do dique e Amaro se viu surpreendido, nomeado para outro navio, um grande navio de guerra. Ficou furioso por ter de se separar do seu amigo. Ameaçou-se, caso se engraçasse com algum oficial. E foi-se, triste, servir na sua nova casa no mar.

CAPÍTULO VI

No dia seguinte, Aleixo não encontrou o Bom-Crioulo no quarto. Adormeceu, esperando pelo negro. Quando acordou, ele não havia aparecido. Não importava, afinal não era impossível viver sem Amaro. Na verdade, nos últimos tempos, pensava mesmo em arranjar alguém melhor, de posição.
Seus pensamentos são interrompidos pela presença da portuguesa. D. Carolina, aproveitando-se da ausência do negro, inicia um processo de sedução do rapaz.
Conversaram enquanto ele se arrumava para uma volta no Passeio Público. Ela queria lhe falar quando voltasse.
Ele saiu, ela se perdeu em seus pensamentos: há dias metera na cabeça conquistar Aleixo. Tinha 38 anos, não estava tão acabada assim, e cansara dos marmanjos.

“Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga – dando-lhe tudo enfim.” (p. 55)

A portuguesa torna-se muito meiga com o rapaz, guarda-lhe doces; passa ela mesma a ferro os lenços dele. Fingindo-se distraída, vai revelando-lhe pernas, braços, seios.
Um dia, Aleixo passa pelo corredor e dá com a porta aberta dos aposentos da mulher, que, na cama dormia com as pernas de fora, metida numa camisa curta. Ele excita-se, mas nem sonha que ela possa dar atenção a ele, ainda imberbe.
Quando ele voltou do Passeio, a portuguesa levou-o para o seu quarto com uma larga cama de casal. Elogiou-o, disse que estava apaixonada e passando das palavras à ação.

“Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
- Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar aí assim, torpemente, como um animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha...Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar as ideias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.
Ela de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar!
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passado o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina – valia a pena decerto uma noite como aquela!” (p. 58/9)

Combinaram se encontrar quando Bom-Crioulo não viesse á terra.
No outro dia, Aleixo sai de casa, pálido, com grandes olheiras, pensando:

“Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais com aquele negro, ah! Que felicidade!”

E a figura da mulher dançava em sua imaginação como um sonho diabólico.

CAPÍTULO VII

O narrador dirige o foco da narrativa para o Bom-Crioulo que sofre insatisfeito a vida dura no couraçado para o qual foi transferido. Enchia-se de ódio contra os superiores. Revoltava-se contra o quartel-general que o mandara da corveta para o couraçado. Fantasia desertar e fugir com o pequeno:

“Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...” (p. 60)

A vigilância acontecia porque já no primeiro dia o crioulo fora recomendado ao imediato em bilhete especial.

“Muita cautela com o Amaro. É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas chupando seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos”.

Por isso os oficiais precaveram-se contra ele e não queriam deixá-lo desembarcar. Ficou assentado que ele teria folga só uma vez por mês. Amaro suportou três dias, mas no quarto, um sábado, pediu permissão para desembarcar. Como lhe recusaram, no dia seguinte, pela manhã, ofereceu-se para remar no escaler que ia às compras. Ao atracar, pediu permissão para “fazer uma necessidade” e fugiu direto para o seu quartinho, mas não encontrou Aleixo.

“Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando...O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa de água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.
- Eu faço ideia!...murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual! Eu faço ideia...” (p. 61)

Depois disso, acendeu um cigarro e deitou-se, só acordando ao meio-dia, quando foi chamado por D. Carolina. Conversaram e Amaro indaga sobre seu amante, mas a portuguesa mente, dizendo que o rapaz viera só um dia, na quinta-feira.
Amaro sai para comer alguma coisa e vai ruminado:

“Precisava tomar uma resolução, abandonar Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranquilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...” (p. 63)

Um amontoado de gente atrai Amaro, que se espanta de ver dois guardas tentarem inutilmente levantar um homem “acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensanguentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas”. (p. 64)

Amaro salta no meio e levanta o homem com as duas mãos, transportando-o assim até a Santa Casa de Misericórdia, como se pegasse uma criança, assombrando o povo com sua força. Depois toma um gole de cachaça e só com isso fica alterado. Resolve ir direto para bordo: “Vou porque quero, porque sou livre”.
Eram duas horas da tarde dominical e quase todo o comércio já estava fechado.
Desceu cambaleando para o Largo do Paço, com a mente turva, e os cachorros da rua começaram a provocá-lo.
No cais, grita para os marinheiros de um escaler, que fingem-se de distraídos, fazendo rir a um português que assistia à cena. Amaro descarrega no português a sua raiva. Brigam durante longo tempo e atraem a atenção dos curiosos, que formam um ajuntamento. O crioulo puxa uma navalha e o português foge.
Aproximam-se policiais e Amaro, que já estava de navalha em punho, enfrenta-os.
Aparece um primeiro-tenente da marinha, com mais seis marinheiros, prendendo Amaro como se fosse um animal feroz.

“Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...” (p. 68)

CAPÍTULO VIII

“O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, falavam-se coisas...” (p. 68)
Amaro sente por ele uma repugnância instintiva:
“Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente”.

Essa noite dorme Amaro em uma jaula de ferro estreita e sem luz, onde mal cabe um homem. Trancado ali, imóvel, com pés e mãos presos, só conseguiu adormecer de manhã, quando os outros já acordavam. Durante o sono, teve pesadelo com o português da briga. Iam se pegar de novo, mas Aleixo interferia impedindo o confronto. Eram onze horas, quando Amaro, ainda em jejum, foi retirado para o castigo.

“- Não se iluda a guarnição deste navio! Perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam...” (p. 70)

Como da outra vez, Amaro recebeu as chibatadas sem um grito de dor. Quando terminou, o negro rodou e caiu sobre o convés, porejando sangue. Todo seu couro estava cortado pela chibata. Caiu quando já não restava qualquer energia no organismo e a dor sobrepujara a vontade. Vem o médico, aplica-lhe água com éter. Depois, Amaro é levado em um escaler para o hospital em terra.
Aleixo, naquele dia, estava de folga e aproveitou para visitar a portuguesa. Vai com medo de encontrar Bom-Crioulo e de ter de enfrentar os seus caprichos. Após descobrir o sexo heterossexual com a portuguesa, o rapaz “ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar”. Sente que nunca o estimara.
Por sorte, encontrou D. Carolina a lavar roupa, conversam sobre o negro, rindo-se dele. Em seguida, ficou admirando a beleza do corpo da portuguesa, sua pele alva, enquanto ela terminava o serviço.
Sentiam uma atração irresistível.
D. Carolina ao ver o rapaz sente desejo de tomarem banho juntos, ali mesmo. Aquele amante moço fazia D. Carolina remoçar, como se fosse um milagroso afrodisíaco.

“Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos, Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo tinha formas de mulher.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente – o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.” (p. 73)

Aleixo se comprazia naquele relacionamento com uma mulher mais experiente, sentia “um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de mordê-la, de cheirá-la, de palpá-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável”. (p. 74)

Aleixo mesmo naqueles momentos com a portuguesa, não podia esquecer de todo seu antigo amante. A figura do negro acompanhava-o com uma insistência de remorso. Tinha medo do gênio rancoroso e vingativo do outro. Isso fazia com que suas expansões com a portuguesa fossem incompletas.
A mulher, no entanto, não parecia preocupar-se muito com isso.

Toda a noite foi um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...” (p. 75)

CAPÍTULO IX

Enquanto isso, no hospital, Bom-Crioulo sofria longe de seu amado, ouvindo gemidos aborrecedores e alimentando-se parcamente.
A lembrança de Aleixo não lhe saía da cabeça. Sonhava com a liberdade e com o amor do grumete.
O negro evitava a todos com seu olhar ameaçador e seu jeito carrancudo.
À noite, sozinho, sentia uma mistura de tristeza, desgosto e ódio: o companheiro não o procuraria? Teria arrumado outro?
Não conseguia apagar do espírito o mau pensamento de ver seu garoto nos braços de outro homem. Torturava-o o terrível ciúme.
Na enfermaria, nem a bela paisagem que se via da janela o animava.
Seu consolo era um retrato do Aleixo, uma fotografia barata tirada na Rua do Hospício, quando ele e o rapaz moravam juntos na corveta. Ao deitar-se beijava com carinho aquele retrato.
Angustiado, Amaro lembra-se de pedir a um empregado do hospital para escrever um bilhete ao Aleixo. Dita suas queixas e faz um pedido ao rapaz para que venha fazer-lhe uma visita no dia seguinte, que era um domingo.
Enviou o bilhete ao amigo e ficou esperando, sôfrego e apreensivo, uma resposta que não veio.
Aquele desprezo o encheu de cólera.

“Passou á hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! Nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! – Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Veio á noite e a madrugada, mas nada do Bom-Crioulo dormir ou afastar do espírito a imagem importuna do ingrato namorado. Essa imagem o torturava, borboleta importuna a voejar em torno do desprezado.” (p. 79)

Nos dias seguintes, tentou esquecer, em vão, aquele vício, aquela paixão, aquela loucura que ele, tão forte, não conseguia dominar. Começou a pensar numa maneira de fugir do hospital.
Os dias passavam e a existência tornava-se cada vez mais insuportável. Uma noite foi preso quanto tentava escalar o muro do hospital...

CAPÍTULO X

D. Carolina e Aleixo viviam felizes, agora que a figura do negro desaparecera de suas vidas.
Aleixo encorpara, estava virando homem. O sotãozinho estava abandonado; viviam juntos no quarto dela. Aleixo, com ciúmes, quis que ela abandonasse o Manoel, que lhe ajudava a sustentar a casa. Ela disse que sim, mas às escondidas, encontrava-se com o amante para poder equilibrar o orçamento.
A vida era uma embarcação em mar de rosas. Até que chegou às mãos da portuguesa o bilhete do Bom-Crioulo.
D. Carolina rasgou-o em pedacinhos, mas depois ficou pensando, inquieta: tinha medo do que poderia acontecer se Amaro descobrisse tudo, cenas de sangue vinham-lhe à cabeça. Naquela noite, quase não conseguiu dormir.
No dia seguinte, Aleixo estranhou encontrar a porta da rua fechada, assim como os carinhos tantos que ela lhe dispensava naquela tarde. Entregava-se a ele quase maternalmente, para dissipar os temores do bilhete.
Como não dissesse nada, o rapaz amuou. O jantar foi de cara amarrada. Enfim, ele resolveu contar-lhe tudo. Aleixo surpreendeu-se: então Bom-Crioulo ainda pensava nele! Discutiram o assunto e resolveram esquecê-lo. Decidiram sair ao Passeio Público, para aproveitar a noite e espairecer.

CAPÍTULO XI

Ódio, amor e ciúme confundiam-se nos sentimentos de Bom-Crioulo. No hospital, durante o dia, ainda tentava se esquecer de Aleixo, mas à noite era tomado por um desespero incrível, agravado por feridas que haviam brotado por todo o seu corpo e não o deixavam dormir, tal a coceira provocada pela sarna.
Era um sábado, feriado, quando Bom-Crioulo reconheceu entre os marinheiros visitantes do hospital o Herculano, o Pinga da corveta! Foi ele quem lhe disse que Aleixo reinava na embarcação, muito íntimo dos oficiais, e que parecia amigado de uma rapariga em terra.
Bom-Crioulo ouviu aquilo engolindo uma onda de cólera. À noite, fugiu. Queria vingar-se; queria agora gozar o grumete maltratando-o, fazendo-o sofrer!
Planejou a fuga com cuidado; foi para as praias da ilha e ficou esperando o amanhecer, o descortinar-se dos Órgãos, de Niterói, da Barra, do Pão de Açúcar.
Conseguiu que um velho galego o levasse ao continente em um bote. Estava um dia lindo, um dia de galas e de liberdades!

CAPÍTULO XII

Bom-Crioulo chegou cedo à Rua da Misericórdia.

“É bem cedo e há pouco movimento na Rua da Misericórdia. Homens mal vestidos, operários e ganhadores, descem a rua numa lentidão arrastada. A vaca de leite, com as grandes tetas pesadas, passa no seu giro cotidiano, dócil, a baba a escorrer-lhe do focinho em fios de espuma. A carroça do lixo anda na sua faina matinal, parando aqui e ali. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração.” (p. 97)

Aqui temos algumas marcas típicas do gosto naturalista. Ao contrário do escritor romântico que dirigia o foco de suas lentes para aspectos bonitos e agradáveis da realidade, como que fazendo um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro, o naturalista registra o feio, o desagradável com objetividade.
Abrem-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, e, assim como a luz, o movimento de transeuntes vai aumentando. Daqui e dali, surgem caras estranhas e amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço. A vida recomeça. E é nesse quadro que se recorta a figura de Amaro, seguindo em direção ao sobrado. Quando o vê, diminui o passo. Vem-lhe uma saudade! Foi ali que ele viveu o melhor de sua vida. Ali tinha aprendido a amar, a querer bem. Recorda toda sua aventura com o medido bonito. Mas quanto mais lembrava o passado, mais o ódio tomava conta dele. Não conseguia fixar seu olhar em nada.

Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma coisa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue...” (p. 99)

Ao chegar, Amaro depara com a porta do sobrado fechada. Dá meia-volta e vai andando rua acima, meio sem rumo. De repente, dá com a padaria que fica quase defronte da portuguesa. Entra e puxa conversa com o funcionário, perguntando sobre a portuguesa e Aleixo. O que ouve deixa-o estarrecido:

Acordam tarde. Ultimamente a porte vive fechada. Costumam sair juntos à noite...” (p. 99)

Amaro não quer acreditar e pede mais informações e o outro não se faz de rogado>

“Foram ao teatro, ontem, à “Tomada da Bastilha”. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...” (p. 100)

No exato momento em que estão conversando, o funcionário mostra a Amaro que o rapaz está saindo do sobrado. Bom-Crioulo salta até Aleixo e inicia-se uma discussão de amante desprezado e enciumado, atraindo muita gente.
Forma-se um grande círculo em volta dos dois marinheiros, invisíveis agora. Começou um tumulto, um alvoroço, guardas aparecem.
De repente o povo recuou abrindo caminho, a portuguesa apareceu na janela e gritou: “Jesus!” Viu, no meio de duas fileiras de curiosos, o corpo ensanguentado do grumete.

“Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.” (p. 101)

“Ninguém se importava com o outro, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos porém, todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até caiu tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.” (p. 102)

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Massaud Moisés vê no “Bom-Crioulo” um romance que “focaliza o problema da escravidão, segundo um prisma abolicionista e republicano”. No entanto, a história do “negro fugido” Amaro não nos parece ter como eixo central o problema da escravidão.
Sem dúvida que esse problema aparece no romance e que a posição do autor é abolicionista e republicano.

“A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença. (...) Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa. (...) Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga.”


É importante observar que o retrato do imperador D. Pedro II, no quarto de Amaro, tão bem visto por este no capítulo VII do livro, poderia ir contra esta ideia e dar a entender que o livro é anti-republicano. Pelo contrário, o retrato do imperador reinando em um ambiente tão promíscuo e decadente como o quarto do sobradinho, não seria mais que alegórico de Sua Majestade a reinar em um país decadente, enfeitado por “móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor muita vez trazidas de bordo...”

Outra temática importante a analisar é a negritude de Amaro. Se a posição do autor é francamente favorável a ele nesse aspecto em alguns momentos do romance (“...o drama do cativo parece avultar na medida de suas qualidades pessoais...”, bem notou Massaud Moisés), se algumas vezes surge sua figura como heróica (o mais forte marinheiro, o episódio de socorro a D. Carolina ou ao transeunte com gota), nem por isso o autor deixa de descrever o Bom-Crioulo com todos os preconceitos de sua época e das teorias deterministas de Taine. Como exemplo disso, vejam-se algumas expressões retiradas de certas passagens do livro, referentes a Amaro: “não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue”, “desejo de posse animal”, “se os brancos faziam, quanto mais os negros!”, “momentos há em que os próprios animais caem extenuados”, “cousas do caráter africano”, “ignorante e grosseiro”, “desespero hidrofóbico”, “orgulho selvagem de animal ferido”, etc.

Segundo Antonio Candido:

A orientação científica se apresenta como interpretação objetiva do comportamento das personagens, mas adquire logo matizes valorativos, na medida em que naquele tempo esta modalidade de interpretação tinha uma função desmistificadora, sendo ruptura com o idealismo e esforço para enxergar a vida na sua totalidade (...)”

A questão da negritude, porém, é secundária. “Bom-Crioulo” filia-se, sem dúvida nenhuma, à corrente naturalista que se preocupava com “temas singulares, extraordinários, frequentemente patológicos” (Erich Auerbach).

O tema central do romance é o homossexualismo, a pederastia.
Caminha tenta ser o mais imparcial possível, atendo-se à observação pura e simples, como bom naturalista. Afinal, “ninguém está livre de um vício”. Mas esta mesma palavra – “vício” – já denota uma postura negativa em relação ao assunto. E o que se lê sempre, nas linhas e entrelinhas, é não só o homossexualismo, mas o sexo em geral, tratado como desvio, forma animalesca de estar no mundo.

Nessa obra a linguagem, a construção dos personagens e do espaço são perpassados pela ideia de que o homossexualismo leva a uma degeneração do ser humano. Apenas para corroborar essa ideia, veja-se o comentário a seguir, em que se analisa a decadência do Bom-Crioulo a partir do momento em que passa a ter uma relação estável com Aleixo no sobradinho de Carolina; decadência que só irá se prolongar, física e mentalmente, até o final do romance:

Ultimamente [Amaro] começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longes de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos...Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia (...)”