domingo, 2 de outubro de 2011

SIMBOLISMO COMO ESTÉTICA LITERÁRIA: CONTEXTO HISTÓRICO E CARACTERÍSTICAS


“Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado de alma, através de uma série de adivinhas.”


Stéphane Mallarmé, poeta simbolista francês

I – DADOS CRONOLÓGICOS:

Na França, a necessidade de apresentar uma reação à literatura romântica será o ponto de partida para a produção de poemas que proponham novos modos de olhar para o mundo.
A partir da publicação de “As flores do mal”, de Baudelaire, em 1857, a Europa testemunha o nascimento de uma literatura de traços pessimistas, que exalta a estética do feio, tematiza a decomposição dos corpos e o caráter ilusório do real.


Esses traços farão com que os novos poetas sejam denominados “decadentistas”. A reação é imediata: o poeta é processado pelo Estado por “ultraje à moral pública”. Todos os exemplares da obra são recolhidos. Condenado, Baudelaire será obrigado a pagar uma multa de 300 francos e eliminar de seu livro seis poemas considerados obscenos. Mesmo assim, “As flores do mal” causaram um profundo impacto no meio literário, levando o poeta Verlaine a afirmar que Baudelaire foi o “primeiro visionário, rei do poetas, um verdadeiro deus”.


A UMA PASSANTE


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.



Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.



Que luz...e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?



Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.p.345.

O poema retrata a agitação de uma rua que parece incomodar o eu lírico. É um ruído cansativo, algo sem forma ou definição, frenético, que o envolve.
É importante ressaltar que a presença da mulher causa um impacto no eu lírico. Até o momento em que ela aparece, ele está envolvido pela confusão da rua (o “frenético alarido”), pelas pessoas sem rostos, sem identidade que passam a seu redor.
A mulher se destaca para ele pela sutileza e majestade com que carrega o que ele supõe ser a dor por uma morte, já que ela está “toda de luto”. Sua dor é descrita como “majestosa”, no sentido de que não se manifesta em emoções arrebatadas; o gesto de erguer a barra da saia, para evitar que se suje na rua, é visto como um sinal de pompa (“mão suntuosa”). O eu lírico olha para as pernas da mulher e depois para os olhos. O movimento da saia captura o olhar do eu lírico, revelando as pernas em primeiro lugar.
Interessante, sobretudo, que outras mulheres estavam passando pelo eu lírico, mas que ele nem as notava.
A “passante” brilha em meio à multidão, como se tivesse luz própria. Ela é o único elemento vivo que ele identifica em meio ao “frenético alarido”. Faz com que ele nasça novamente, dá à luz. No momento em que a mulher passa, porém, e ele não pode ver seus olhos, chega a “noite”, trazendo consigo a escuridão, a perda do brilho que dava vida.
O eu lírico se refere a ela como “efêmera beldade”, por ela ser bela e passageira, ou seja, ela passa por ele e segue adiante, deixando-o para trás em meio à multidão. A ação sugere que o encontro foi casual e que não tornará a acontecer antes da eternidade, da morte.
É, porém, a colaboração de autores como Baudelaire, Verlaine e Mallarmé para o primeiro número da antologia de poemas “O parnaso contemporâneo”, em 1866, na França, que dá realmente impulso a essa nova literatura e de lá, difundiu-se internacionalmente, abrangendo vários ramos artísticos, principalmente a poesia.
O termo Simbolista, porém, foi usado pela primeira vez por Jean Moréas, em 1886, em seu manifesto literário no “Fígaro Littéraire”, quando afirmou:

“Inimiga do ensinamento, da declamação, da falsa sensibilidade, da descrição objetiva, a poesia simbolista procura vestir a Ideia duma forma sensível.”

Na Europa haviam germinado ideias científico-filosóficas e materialistas que procuravam analisar racionalmente a realidade e assim apreender as novas transformações; essas ideias, principalmente as do positivismo, influenciaram movimentos literários como o Realismo e o Naturalismo, na prosa, e o Parnasianismo, na poesia. No entanto, nas duas últimas décadas do século XIX, percebe-se uma postura de desilusão e pessimismo, em consequência das infrutíferas tentativas de transformar a sociedade burguesa industrial.
O crítico Alfredo Bosi sintetiza esse clima:

“Do âmago da inteligência européia surge uma oposição vigorosa ao triunfo da coisa e do fato sobre o sujeito – aquele sujeito a quem o otimismo do século prometera o paraíso mas não dera um purgatório de contrastes e frustrações.”

O Simbolismo em Portugal teve início em 1890 com a publicação de “Oaristos”, de Eugênio de Castro. Entretanto, os poetas mais importantes são Antônio Nobre e Camilo Pessanha.
Na Europa, a acolhida à literatura parnasiana é fria e contida, enquanto os textos simbolistas têm uma recepção mais calorosa, já que parecem captar a insatisfação do momento. No Brasil, poetas parnasianos como Olavo Bilac e Alberto de Oliveira são admirados e lidos com fervor.
O Simbolismo chega aqui alguns anos após o Parnasianismo, mas não causa o mesmo impacto. As indagações místicas dos simbolistas mostram-se complexas para uma sociedade que ainda dava passos incertos no terreno da produção literária. Para o Brasil, é o momento de definições, de objetividade, de desenvolvimento. O Simbolismo opõe frontalmente a isso: é a estética que questiona esse desenvolvimento e isso faz com que entre em rota de colisão com os valores mais importantes para a elite da época, encantada com a possibilidade de progresso trazida pela industrialização. Por esse motivo, a circulação de textos simbolistas entre nós é bem mais tímida do que em todos os outros países em que essa estética se manifestou.
A oposição aos simbolistas era tão pronunciada, que logo foram chamados de nefelibatas, ou seja, pessoas que vivem nas nuvens, que fogem da realidade. Quando, em 1896, Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras para reunir os mais prestigiados escritores e intelectuais do momento, não havia entre os primeiros membros um único representante do Simbolismo.
Durante o Segundo Império, duas editoras se destacam no mercado brasileiro: a Irmãos Granier e a Lammert. No início dos anos 1890, foi criada a Magalhães e Companhia. Como os autores conhecidos já estavam contratados, a Magalhães teve de buscar autores inéditos, cujo lançamento pudesse ajudar a dar visibilidade à nova editora. Foi assim que o desconhecido Cruz e Sousa conseguiu lançar dois livros no ano de 1893: “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia).
Os editores da Magalhães e Companhia imaginaram que o apelo comercial do lançamento de duas obras de um autor negro cinco anos após a abolição da escravatura no Brasil seria muito grande. Infelizmente, tanto a crítica quanto o público receberam os dois livros com estranhamento, quando não claramente negativa.
O início do Simbolismo não pode, no entanto, ser identificado com o término da escola antecedente. Na realidade, no final do século XIX e início do século XX quatro tendências caminhavam paralelas: o Realismo e suas manifestações (romance realista e romance naturalista); o Parnasianismo; o Simbolismo, situado à margem da literatura acadêmica da época; e o Pré-Modernismo, com o aparecimento de alguns autores preocupados em denunciar a realidade brasileira.
Só mesmo um movimento com a amplitude da Semana de Arte Moderna poderia neutralizar todas essas estéticas e traçar novos e definitivos rumos para a nossa literatura.
O Brasil nesta época também sofreu transformações importantes: de país com mão de obra escravocrata passou a ter mão de obra livre, de Monarquia para República com várias mudanças nas formas de viver o dia a dia de sua população. Pouco a pouco, passou-se a contar com reflexos da modernização: a presença de cinematógrafos, iluminação nas ruas, vacinas para garantir vida mais saudável às populações urbanas e a incorporação, através das novidades divulgadas pela imprensa, dos grandes feitos científicos europeus.


II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“A literatura simbolista dos dois últimos decênios do século XIX prezou tudo o que era langor, cansaço de viver, isolamento de um público que ela queria manter afastado de seus arcanos, oposição à civilização tecnológica acusada de materialista.”


Henri Peyre, “A literatura simbolista”.


 
O Simbolismo reflete um momento histórico extremamente complexo, que marcaria a transição para o século XX e a definição de um novo mundo, o qual se consolidaria a partir da segunda década deste século; basta lembrar que as últimas manifestações simbolistas e as primeiras produções modernistas são contemporâneas da I Guerra Mundial e da Revolução Russa.

O século XIX, também conhecido como o século da Razão, vai de 1801 até 1900. Foi o século das grandes invenções, das profundas transformações político-sociais e econômicas que influenciariam as gerações seguintes. Todas estas transformações foram fortemente apoiadas nas ideias renovadoras da Filosofia e Ciências divulgadas pelos enciclopedistas, tais como Voltaire, Mostesquieu, Rousseau, D´Alembert, Diderot e Quesnay, entre outros, no século XVIII - também conhecido como Século das Luzes.
Foi justamente neste século (XIX) que o professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail codificou a Doutrina Espírita adotando o nome de Allan Kardec.
Nesta época, a sociedade francesa era constituída de três grupos sociais básicos: Primeiro Estado formado pelo clero (2%), Segundo Estado formado pela nobreza (2,5%) e o Terceiro Estado formado pela burguesia; artesãos; proletariado industrial e os camponeses (95%).
A burguesia tinha poder econômico devido as suas atividades industriais e financeiras, mas não tinha participação política. Foi esta a razão da Revolução Francesa de 14 de julho de 1789 (Século XVIII).
Vários foram os benefícios sociais da Revolução Francesa, dentre os quais podemos citar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Entre o final do século XVIII e início do século XIX, Napoleão Bonaparte promove uma nova constituição, reestrutura o aparelho burocrático, cria o ensino público, separa o Estado da religião, garante a liberdade individual, igualdade perante à lei, o direito à propriedade privada, o divórcio e adota o primeiro código comercial.
Após Napoleão, a França passa por um período de transformações político sociais.
No entanto, os triunfos materialistas e científicos da segunda metade do século XIX, não mais respondiam às exigências de uma nova realidade e, também, não eram compartilhados ou aceitos por muitos estratos sociais, que haviam ficado ao largo da prosperidade burguesa, característica da chamada "belle époque"; pelo contrário, esses grupos alertavam para o mal-estar espiritual trazido pelo capitalismo. A prosperidade econômica e o desenvolvimento científico, assim, cederam lugar a uma profunda crise, chamada de “Grande Depressão” (1873-1896).
Dessa forma, as atividades artísticas do final do século XIX revelaram os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade associados às manifestações românticas, que afetaram a sociedade mundial e transformaram as formas de agir e produzir, além de influir na vida cultural.
No campo da filosofia observa-se que a mesma passa a não tolerar os dogmas da Igreja e, longe de exemplificar aquela fraternidade do Divino Mestre, recolhe-se no seu negativismo transcendente, aplicando às suas manifestações os mesmos princípios da ciência racional e materialista. Tais ideias conduzem aos exageros do cientificismo em que a fé na ciência se torna a verdadeira fé. Na Inglaterra do século XVIII, William Godwin desenvolve o pensamento anárquico, de onde surgem, no século XIX, duas correntes principais. A primeira, encabeçada por Pierre-Joseph Proudhon afirma que a sociedade deve estruturar sua produção em pequenas associações baseadas no auxílio mútuo entre as pessoas, sendo as mudanças feitas com base na fraternidade. A segunda, encabeçada por Mikhail Bakunin, defende a utilização de meios violentos nos processos de transformação da sociedade. Os movimentos políticos confrontam as práticas religiosas da Igreja, desviada dos princípios morais e aproximada das necessidades da nobreza reinante. A fragilidade da Igreja Católica abre espaço para a expansão das doutrinas divulgadas pelas Igrejas reformadas. Os questionamentos levam a um reexame dos textos bíblicos e até a um estudo da razão de ser do cristianismo.
É importante assinalar uma revolução diferente ocorrida nesta época: a revolução moral proposta pelo Espiritismo. As lições sagradas do espiritismo iam ser ouvidas pela humanidade sofredora. Jesus, na sua magnanimidade, repartiria o pão sagrado da esperança e da crença com todos os corações. Allan Kardec na sua missão de esclarecimento e consolação fazia-se acompanhar de uma plêiade de companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se manifestaria tão somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os departamentos da atividade intelectual do século XIX.
Dois filósofos marcaram esse período: Schopenhauer e Nietzsche.
Para Schopenhauer, a vontade é irracional e essência de todas as coisas; é a origem do mal e da dor. A consciência descobre a vontade como mal, mas é graças a essa descoberta que ela nos liberta. Essa libertação assume várias formas, incluindo a própria rejeição consciente da vida. Schopenhauer considera a música como a suprema manifestação do espírito; é a forma de libertar o homem das forças más da vontade.
Nietzsche afirmava que Platão tinha cometido um “erro dogmático duradouro” ao considerar a existência do bem e da perfeição como algo além da vida material humana; segundo Nietzsche, essa concepção é antinatural, atenta contra a vida. O filósofo declara que “Deus morreu”, formalizando o niilismo, produto do caos que seguiu à derrocada de todos os valores vigentes. É a ausência de sentido, a negação total de tudo.
Na pintura, o Impressionismo será o caminho encontrado para uma manifestação mais pessoal, que se afasta das preocupações sociais realistas. Para o impressionista, o primordial não é o objeto a ser focalizado pela arte, mas a impressão, os efeitos que ele produz na sensibilidade do artista. Mestres com Claude Monet, Auguste Renoir, Edgar Degas, Édouard Manet, Paul Cézanne e Vincent van Gogh criam quadros em que os contornos são menos nítidos e o uso das cores (exploração dos jogos de luz e de sombra) ajuda a capturar o momento, o elemento fugaz, ocasional, que é a preocupação do artista da civilização do fim de século.
Como manifestação estética, o Impressionismo é muito importante, porque marca o afastamento definitivo da arte acadêmica e o início da abstração característica da arte contemporânea.
O Brasil nesse período foi também, palco de estabelecimento de novas estruturas comerciais e financeiras que mudaram as características de cidades brasileiras, sobretudo o Rio de Janeiro, capital do Império e depois Capital Federal, na República, que sofreu grandes modificações urbanas, como as reformas do Prefeito Pereira Passos, que desejava transformá-la em uma moderna capital, nos moldes europeus.
É comum afirmar-se que o Brasil não teve um momento simbolista típico, sendo essa escola literária, no confronto com as demais, a mais européia dentre as que contaram com seguidores em nossa terra, e por isso mesmo chamada de “produto de importação”.
O advento da República e a abolição da escravatura modificaram as estruturas políticas e econômicas que haviam sustentado a agrária e aristocrática sociedade brasileira do Império. Os primeiros anos do regime republicano, de grande instabilidade política, foram marcados pela entrada em massa de imigrantes no país, pela urbanização dos grandes centros, principalmente de São Paulo, que começou a crescer em ritmo acelerado, e pelo incremento da indústria nacional.
Nas cidades, a classe média se expandiu, enquanto a operária começou a tornar-se numerosa. No campo, aumentaram as pequenas propriedades produtivas e o colonato. A jovem república federativa, que ainda definia os limites de seu território, conheceu a riqueza efêmera da borracha na Amazônia e a prosperidade trazida pela diversificação da produção agrícola no Rio Grande do Sul. Mas era o café produzido no Centro-Sul a força motriz da economia brasileira, e de seus lucros alimentou-se a poderosa burguesia que determinava o destino de grande parte dos projetos políticos, financeiros e culturais do país.
No Brasil ainda sustentado pela agricultura e dependente de importações de produtos manufaturados, máquinas e equipamentos, a indústria editorial engatinhava.
O público leitor era reduzido, já que a maior parte da população era analfabeta. As poucas editoras existentes concentravam-se no Rio de Janeiro e lançavam autores de preferência já conhecidos do público, em tiragens pequenas, impressas em Portugal ou na França, e mal distribuídas.
Os simbolistas contribuíram muito para a evolução do mercado de periódicos, pois lançaram grande número de revistas, em vários estados brasileiros, onde se debatiam os novos movimentos estéticos que agitavam os meios artísticos.
Ainda que os títulos durassem, na maioria das vezes, apenas alguns números, o que é também indicativo da fragilidade do mercado editorial e da cena literária, representaram grande avanço no setor. As inovações formais e tipográficas praticadas pelos simbolistas, como os poemas figurativos, as páginas coloridas, os livros-estojo exigiam grande requinte técnico e, por consequência, terminaram por ajudar a melhorar a qualidade da indústria gráfica no país.
Dentre os periódicos simbolistas destacam-se as cariocas “Rio-Revista” e “Rosa-Cruz”, as paranaenses “Clube Curitibano” e “O Cenáculo”, as mineiras “Horus” e “A Época”, a cearense “A Padaria Espiritual”, a baiana “Nova Cruzada”, entre muitas outras. No começo do século XX, foram publicadas revistas que ficariam famosas pela qualidade editorial e gráfica, como “Kosmos” e “Fon-Fon”. Além dos periódicos, as conferências literárias eram outra fonte de renda e de divulgação para os autores brasileiros, que também costumavam frequentar salões artísticos promovidos por membros da elite, como a Vila Kyrial de José de Freitas Vale, senador, mecenas e autor de versos simbolistas que posteriormente patroneou autores modernistas.
No entanto, foi por meio do jornal carioca “Folha Popular” que se formou o grupo simbolista liderado por Cruz e Souza, provavelmente o mais importante a divulgar a nova estética no país.

III – CARACTERÍSTICAS:

“Os malefícios advindos da Revolução Industrial (o inchamento das grandes cidades, os bairros de lata, a obsessão com as moedas), somados à dúvida quanto à eficácia dos métodos científicos para compreender o real, instauraram de vez a crise que estava latente no ar.
O homem que acreditava ter acesso aos segredos do universo, via razão e via progresso, vê de repente que tudo não passa de ilusão, que o universo é regido por forças incontroláveis que ele desconhece completamente. Esse sentimento leva-o à descrença, ao desalento e faz com que adote uma postura de desprezo em relação a tudo que lembra o mundo burguês da luta, da operosidade, da conquista.
Refletindo o pessimismo do período, surge nessa época um tipo de homem que volta ás costas à sociedade materialista e que procura cultivar dentro de si as sensações mais refinadas. Esse homem, conhecido como decadente, fecha-se em sua torre de marfim e só na orgulhosa solidão parece encontrar conforto para o sofrimento proveniente do desconforto com o mundo grosseiro e hostil.”

Álvaro Cardoso Gomes

A nova estética rejeita o cientificismo, o materialismo, o racionalismo, valorizando, em contrapartida, as manifestações metafísicas e espirituais, o que equivale a dizer que ela corresponde à negação do Realismo, Naturalismo e do Parnasianismo.
A realidade objetiva não interessa mais; o homem volta-se para o universo interior e os aspectos não racionais e não lógicos da vida, como o sonho, o misticismo, o transcendental.
Os simbolistas propunham o exercício da subjetividade contra a objetividade, retomando um aspecto abandonado, de modo diferente, o individualismo romântico. O “eu” passa a ser o universo, mas não o “eu” superficial, sentimentalista e piegas do Romantismo e, sim, buscam a essência do ser humano, daquilo que ele tem de mais profundo e universal: a alma. Daí a sublimação, tão procurada pelos simbolistas: a oposição entre matéria e espírito, a purificação, por meio da qual o espírito atinge as regiões etéreas, o espaço infinito.
Em consequência desse subjetivismo, dessa valorização do inconsciente e do subconsciente, dos estados d’alma, da busca do vago, do diáfano, do sonho e da loucura, o Simbolismo desenvolve uma linguagem carregada de símbolos, o “tropos”, isto é, o “desvio”, a mudança de significado de uma palavra ou expressão, em clara oposição a uma linguagem mais seca e impessoal.
É preciso diferenciar, todavia, poesia simbolista de poesia simbólica. Como afirma o crítico Afrânio Coutinho, "nem toda literatura que usa o símbolo é simbolista. A poesia universal é toda ela na essência simbólica".
O Simbolismo, para Coutinho, "posto não constituísse uma unidade de métodos, antes de ideais, procurou instalar um credo estético baseado no subjetivo, no pessoal, na sugestão e no vago, no misterioso e ilógico, na expressão indireta e simbólica. Como pregava Mallarmé, não se devia dar nome ao objeto, nem mostrá-lo diretamente, mas sugeri-lo, evocá-lo pouco a pouco, processo encantatório que caracteriza o símbolo."
Assim, enquanto os parnasianos procuravam descrever os objetos, os simbolistas queriam sugeri-los por meio de um estado de espírito ou extrair dos objetos a sugestão de um estado de espírito.
Privilegiando a sugestão, a poesia simbolista utiliza com sutileza a sonoridade das palavras. Se os parnasianos valorizavam as artes plásticas, os simbolistas agora prezam a musicalidade do poema como elemento significativo, não mais decorativo.
Daí a linguagem simbólica e o grande cuidado no emprego de aliterações (repetição de fonemas para sugerir um som. Difere da onomatopéia na medida em que esta imita o som; a aliteração é sugestão), de assonâncias (repetição de sons vocálicos), de reiteração (repetição de palavras ou versos inteiros) e de inovações rítmicas. Ligada também à sugestão esta a predileção simbolista pela sinestesia (relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente).
Contemporâneo e até mesmo precursor das grandes descobertas da psicanálise, o grande interesse dos simbolistas pelo mundo inconsciente aproxima realidades físicas e metafísicas, expressando certo misticismo, presente mesmo nos poetas menos religiosos. É frequente, por isso, um vocabulário litúrgico, isto é, referente a rituais religiosos.
Criando uma atmosfera de vaguidade e mistério, os autores do Simbolismo apelam para a carga simbólica das notações cromáticas (o uso sugestivo da cor) bem como para arcaísmos e palavras raras; buscando as realidades essenciais; utilizam maiúsculas alegorizantes e imagens noturnas.
É importante lembrar que as correntes simbolistas e parnasianas coexistiram e se influenciaram mutuamente; assim, há na obra de adeptos do Simbolismo traços da estética parnasiana e, do mesmo modo, impregnações simbolistas na obra de poetas ligados ao Parnasianismo, como Francisca Júlia.
Entre as inovações formais que caracterizam o Simbolismo estão a prática do verso livre, em oposição ao rigor do verso parnasiano, e o uso de "uma linguagem ornada, colorida, exótica, poética, em que as palavras são escolhidas pela sonoridade, ritmo, colorido, fazendo-se arranjos artificiais de parte ou detalhes para criar impressões sensíveis, sugerindo antes que descrevendo e explicando", de acordo com Afrânio Coutinho.
Ainda com relação à forma, o soneto também foi cultivado pelos simbolistas, mas não com a predileção manifestada pelos parnasianos, nem com sua paixão descritiva.
O célebre poema “Correspondências”, de Baudelaire, ilustra o interesse simbolista pelas correlações que, uma vez decifradas, abrem as portas da percepção humana para o mundo das essências.

CORRESPONDÊNCIAS


A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam escapar, às vezes, confusas palavras;
O homem ali passa por entre florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.



Como longos ecos que ao longe se confundem
Em uma tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.



Há perfumes frescos como carnes de crianças,
Doces como oboés, verdes como as pradarias,
- E outros, corrompidos, ricos e triunfantes,



Tendo a expansão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os transportes do espírito e dos sentidos.

BAUDELAIRE, Charles. In:GOMES, Álvaro Cardoso. A estética simbolista. Tradução de Eliane Fittipaldi Pereira. São Paulo:Cultrix, 1985.p.33.

O cenário no qual as correspondências se mostram para as pessoas é a Natureza. A visão platônica do eu lírico é revelada pela referência ao “olhar familiar” dos símbolos para os seres humanos. A ideia, aqui, é a de que todos nós já existimos no plano das essências e, em função das falhas humanas, decaímos para o plano da realidade sensível. Agora o ser humano precisa decodificar os símbolos para novamente partilhar do mundo das essências.
Na visão Simbolista, a percepção das correlações é a chave para a decodificação dos símbolos. Nessa estrofe, o eu lírico começa a apresentar imagens que “demonstram”, de modo mais concreto, o sentido das correspondências entre perfumes, cores e sons. As comparações ajudam o leitor a perceber o sentido do que é dito.
Os símbolos são apresentados por metáforas que apelam para diferentes sentidos humanos. Os perfumes (que estimulam o olfato) são frescos (tato), doces (paladar) e verdes (visão).
Na última estrofe, o projeto simbolista é declarado pelo eu lírico transportar os espíritos e os sentidos. Para fazer isso, associa a ideia abstrata a formas concretas (o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso). O estímulo sensorial é experimentado pelo indivíduo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Nossa adorei o post acho que foi o único lurga mas completo e mas bem explicado que encontrei, vai me ajudar muito no meu trabalho.

Recomendo !!
PARABÉNS!!!

fran disse...

muito bom...

Anônimo disse...

Excelente, completíssimo. Parabéns!