quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

PANORAMA LITERÁRIO: RESUMO DAS ESCOLAS LITERÁRIAS E AUTORES







 Séculos VIII a.C. a II a.C.

As primeiras obras da História que se tem informação são os dois poemas atribuídos a Homero: Ilíada e Odisséia. Os dois poemas narram às aventuras do herói Ulisses e a Guerra de Tróia.  Na Grécia Antiga os principais poetas foram: Píndaro, Safo e Anacreonte. Esopo fica conhecido por suas fábulas e Heródoto, o primeiro historiador, por ter escrito a história da Grécia em seu tempo e dos países que visitou, entre eles o Egito Antigo. 


Séculos I a.C. a II d.C.: A literatura na História de Roma Antiga

Vários estilos que se praticam até hoje, como a sátira, são originários da civilização romana. Entre os escritores romanos do século I a.C. podemos destacar: Lucrécio (A Natureza das Coisas); Catulo e Cícero. Na época de 44 a.C. a 18 d.C., durante o império de Augusto, corresponde uma intensa produção tanto em poesia lírica, com Horácio e Ovídio, quanto em poesia épica, com Virgílio autor de Eneida. A partir do ano 18, tem início o declínio da História do Império Romano, com as invasões germânicas. Neste período destacam-se os poetas Sêneca e Petrônio.  


Séculos III a X

Após a invasão dos bárbaros germânicos, a Europa se isola, forma-se o feudalismo e a Igreja Católica começa a controlar a produção cultural. A língua (latim) e a civilização latina são preservadas pelos monges nos mosteiros. A partir do século X começam a surgir poemas, principalmente narrando guerras e fatos de heroísmo. 


Século XI: As Canções de Gesta e as Lendas Arturianas

É a época das Canções de Gesta, narrativas anônimas, de tradição oral, que contam aventuras de guerra vividas nos séculos VIII e IX , o período do Império Carolíngio. A mais conhecida é a Chanson de Roland (Canção de Rolando ) surgida em 1100. Quanto à prosa desenvolvida na Idade Média, destacam-se as novelas de cavalaria, como as que contam as aventuras em busca do Santo Graal (Cálice Sagrado) e as lendas do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda.


Séculos XII a XIV: O Trovadorismo e as cantigas de escárnio e maldizer

É o período histórico do trovadorismo e das poesias líricas palacianas. O amor impossível e platônico transforma o trovador num vassalo da mulher amada, exemplo do amor cortês. Neste período, também foi comum o poema satírico, representado pelas cantigas de escárnio (crítica indireta) e de maldizer (crítica direta).  


Séculos XIV a XV: Humanismo

O homem passa a ser mais valorizado com o início do humanismo renascentista. A literatura mantém características religiosas, mas nela já se podem ver características que  serão desenvolvidas no Renascimento, como a retomada de ideais da cultura greco-romana. Na Itália, podemos destacar: Dante Alighieri autor da Divina Comédia, Giovanni Bocaccio e Francesco Petrarca. Em Portugal, destaca-se o teatro do poeta de Gil Vicente autor de A Farsa de Inês Pereira.


Século XVI: O Classicismo na História 

O classicismo tem como elemento principal o resgate de formas e valores da cultura clássica, ou seja, greco-romana. O mais importante poeta deste período histórico foi  Luís de Camões que escreveu Os Lusíadas, narrando às aventuras marítimas da época dos descobrimentos. Destacam-se também os franceses François Rabelais e Michel de Montaigne. Na Inglaterra, o poeta de maior sucesso foi William Shakespeare se destaca na poesia lírica e no teatro. Na Espanha, Miguel de Cervantes faz uma sátira bem humorada das novelas de cavalaria e cria o personagem Dom Quixote e seu escudeiro, Sancho Pança, na famosa obra Dom Quixote de La Mancha.  



Os primeiros registros de atividade escrita no Brasil são textos informativos sobre a "nova terra". São crônicas históricas como a Carta ao Rei dom Manuel, de Pero Vaz de Caminha; o Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a Que Vulgarmente Chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo; o Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa; e o Diálogo sobre a Conversão dos Gentios, composto entre 1556 e 1558 pelo padre Manoel da Nóbrega. Destacam-se também o teatro e os poemas do padre José de Anchieta.


Século XVII: A Contra-Reforma

As ideias da Contra-Reforma marcaram profundamente esta época, principalmente nos países de tradição católica mais forte como, por exemplo, Espanha, Itália e Portugal.  Na França, a oratória sacra é representada por Jacques Bossuet que defendia a origem divina dos reis. Na Espanha, destacam-se os poetas Luís de Gôngora e Francisco de Quevedo. Na Inglaterra, marca significativamente a poesia de John Donne e John Milton  autor de O Paraíso Perdido.



Sob influência da Contra-Reforma, a estética barroca tenta conciliar opostos, como Deus e diabo, bem e mal, carne e espírito, pecado e arrependimento. Na literatura, o conflito se traduz em figuras de oposição, bem como no exagero e no estilo sinuoso. Esse movimento corresponde ao nascimento da literatura brasileira. O marco inicial é o poema épico Prosopopéia (1601), de Bento Teixeira. Mas é Gregório de Matos o maior representante do gênero. Sua poesia lírica, bastante influenciada por Camões, Gôngora e Quevedo, se subdivide em amorosa, reflexiva e religiosa. No gênero satírico, Gregório de Matos não poupa ninguém de suas críticas, ficando por isso conhecido como "Boca do Inferno". Na prosa, destacam-se os sermões de padre Antônio Vieira (Sermão de Santo Antônio ou dos Peixes).


Século XVIII: O Neoclassismo

Época da valorização da razão e da ciência para se chegar ao conhecimento humano. Os filósofos iluministas fizeram duras críticas ao absolutismo. Na França, podemos citar os filósofos Montesquieu, Voltaire, Denis Diderot e D'Alembert, os organizadores da Enciclopédia, e Jean-Jacques Rousseau. Na Inglaterra, os poetas Alexander Pope, John Dryden, William Blake. Na prosa pode-se observar o pleno crescimento do romance.
Obras e autores deste período da História:  Daniel Defoe autor de (Robinson Crusoé);  Jonathan Swift (As Viagens de Gulliver); Samuel Richardson (Pamela); Henry Fielding (Tom Jones);  Laurence Sterne (Tristram Shandy). Nessa época, os contos de As Mil e Uma Noites aparecem na Europa em suas primeiras traduções. 



O neoclassicismo se coloca contra os excessos formais do barroco e tenta retomar os valores desenvolvidos no classicismo. Reflete a aversão do espírito iluminista ao obscurantismo religioso do século anterior. Já o termo arcadismo, também atribuído a esse movimento literário, se deve ao bucolismo de muitos poetas do período, que adotavam pseudônimos de pastores para assinar seus poemas. O marco do arcadismo no Brasil é a publicação, em 1768, de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa. Influenciado pelo iluminismo, ele participa da Inconfidência Mineira ao lado dos poetas Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga. Este, além das liras, reunidas em Marília de Dirceu, escreve também obra satírica, como as Cartas Chilenas. No gênero épico, destacam-se José Basílio da Gama (O Uraguai) e frei José de Santa Rita Durão (Caramuru). Igualmente se salientaram, ao fim do século, Domingos Caldas Barbosa e Silva Alvarenga.


Século XIX (primeira metade): O Romantismo

No Romantismo há uma valorização da liberdade de criação. A fantasia e o sentimento são muito valorizados, o que permite o surgimento de obras de grande subjetivismo. Há também valorização dos aspectos ligados ao nacionalismo.
Poetas principais desta época:  Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Giacomo Leopardi, James Fenimore Cooper,  Edgard Allan Poe.



A saturação dos modelos neoclássicos e a necessidade de uma literatura que expresse o país independente resultam no florescimento do romantismo. O marco inicial do movimento é a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836. O ideal romântico do nacionalismo é expresso pelos indianistas, dos quais se destaca o poeta Gonçalves Dias (Primeiros Cantos). O individualismo é representado pela geração ultra-romântica – Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Fagundes Varela e Álvares de Azevedo –, influenciada pelo poeta inglês Lord Byron. O principal nome da poesia condoreira, que se caracteriza pela grandiloqüência e pelo uso de antíteses e hipérboles, é Castro Alves (Espumas Flutuantes), conhecido como o poeta dos escravos. Considerado o fundador do romance nacional, José de Alencar é o autor de narrativas indianistas (O Guarani), históricas (As Minas de Prata), urbanas (Lucíola) e regionalistas (O Gaúcho).

 
Século XIX (segunda metade): O Realismo

Movimento que mostra de forma crítica a realidade do mundo capitalista e suas contradições. O ser humano é retratado em suas qualidades e defeitos, muitas vezes vitimas de um sistema difícil de vencer.
Principais representantes:  Gustave Flaubert autor de  Madame Bovary, Charles Dickens (Oliver Twist), Charlotte Brontë (Jane Eyre), Emily Brontë (O Morro dos Ventos Uivantes), Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoi, Eça de Queiroz, Cesário Verde, Antero de Quental e Émile Zola, Eugênio de Castro, Camilo Pessanha, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire. 



O esgotamento da literatura romântica, que se alimentava de uma visão idealizadora da realidade, conduz à consagração do realismo. Influenciado pelo cientificismo, em voga na época, o movimento busca a descrição objetiva da realidade. O maior escritor do período, Machado de Assis, no entanto, não segue ortodoxamente esses princípios. Sua carreira costuma ser dividida em fase de aprendizagem, na qual se observam resquícios do romantismo, como nos romances: Ressurreição, A Mão e a Luva e Helena; e a fase de maturidade, em que enfatiza a penetração psicológica e a reflexão sobre a existência, como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.

Os contemporâneos de Machado de Assis adotam o naturalismo, que considera o homem fruto do meio em que vive e leva a observação ao nível da minúcia, em sua ânsia de descrever cientificamente a realidade. O principal representante dessa tendência no Brasil é Aluísio Azevedo, autor de O Mulato e O Cortiço. Raul Pompéia cria em O Ateneu um estilo híbrido, realista com traços naturalistas, incorporando também elementos vagos e sugestivos, característicos do impressionismo, e a descrição grosseira e caricatural do expressionismo.

Na poesia, duas correntes dividem os artistas: o parnasianismo e o simbolismo. O parnasianismo propõe o ideal da arte pela arte, dando preferência a uma poesia descritiva, em que sobressaem o rigor formal e o gosto por temas clássicos. No Brasil, o movimento ganha a cena literária a partir da década de 1880 e nela permanece até o começo do século XX. Seus maiores expoentes são Alberto de Oliveira (Meridionais), Raimundo Correia (Sinfonias) e Olavo Bilac (Poesias). Os primeiros livros filiados ao simbolismo, Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poemas), pertencem a João da Cruz e Sousa e foram publicados, ambos, em 1893. O movimento simbolista preocupa-se não em descrever objetivamente, mas em sugerir. Por isso seus poemas parecem vagos, feitos de imagens que se originam no sonho, na intuição, nas camadas mais profundas do inconsciente. Os versos possuem grande musicalidade. Outro poeta simbolista de destaque é Alphonsus de Guimaraens (Dona Mística).

BRASIL 1900-1922 

Os modelos parnasianos e simbolistas estão desgastados, mas não há nova proposta estética, que só se manifesta com o modernismo, em 1922. O pré-modernismo é considerado um período de transição, em que prevalece a preocupação em entender a realidade social brasileira. Desenvolve-se então o regionalismo, que aparece ainda no século XIX, com José de Alencar, Franklin Távora e Bernardo Guimarães, e se caracteriza pela descrição pitoresca dos costumes do interior. João Simões Lopes Neto, Valdomiro Silveira e Afonso Arinos estão entre os principais nomes dessa tendência, mas o destaque pertence a Monteiro Lobato, autor de Urupês e Cidades Mortas, que se volta, em seus contos, para o cotidiano do caipira. Ele também é muito conhecido pelas histórias infantis do Sítio do Picapau Amarelo. Lima Barreto transpõe para seus romances a vida dos subúrbios cariocas, numa linguagem que se distancia da influência parnasiana e da ideologia positivista. Euclides da Cunha relata a Guerra de Canudos no monumental trabalho Os Sertões. Sobressai ainda a obra original de Augusto dos Anjos (Eu), que traz para o universo da poesia o vocabulário científico e a escatologia característicos do naturalismo.


Décadas de 1910 a 1930: fugindo do tradicional

Os escritores deste momento da História vão negar e evitar as tipos formais e tradicionais. É uma época de revolução e busca de novos caminhos e novos formatos literários.
Principais escritores deste período:  Ernest Hemingway, Gertrude Stein, William Faulkner. S. Eliot, Virginia Woolf, James Joyce, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cesar Vallejo, Pablo Neruda,  Franz Kafka,  Marcel Proust, Vladimir Maiakovski. Em Portugal, com a ascensão de Salazar ao poder inicia um avanço das ideologias de extrema direita (nazismo, fascismo, integralismo) e de luta contra a expansão comunista. Na Espanha, uma guerra civil iniciada em 1936 levou ao poder o general Franco, que governou o país até 1976. Surge em 1915, com a publicação da revista Orpheu. Período de nacionalismo e saudosismo, várias revistas: A Águia (tem Fernando pessoa como colaborador), Orpheu, Ícaro, etc. José Régio: a poesia entre deus e o diabo: (1901-1969) Principal expressão do grupo formado em torno da revista Presença, da qual foi um dos fundadores e diretores. Inicia sua carreira em 1925, com a publicação de Poemas de Deus e do diabo, dois anos antes da criação da revista. José Saramago, um dos mais importantes escritores da atualidade, descendente dos neo-realistas: Prêmio Nobel de Literatura 1998.



O evento que marca o início do modernismo no Brasil é a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Influenciados pelas vanguardas européias, os modernistas promovem uma revolução estética baseada principalmente no verso livre, na incorporação poética do cotidiano, na utilização de uma linguagem telegráfica, fragmentada, com elementos extraídos da oralidade e do coloquialismo. Seus expoentes são Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Destacam-se ainda os escritores Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo (do grupo Verde-Amarelo), Raul Bopp e Alcântara Machado.



As conquistas modernistas vão sendo incorporadas aos padrões estéticos nacionais, o que permitiu à chamada geração de 30 voltar-se aos temas de teor social, como a denúncia das desigualdades no campo e na cidade. No romance, o movimento é conhecido como neo-realista e aparece nas obras de Graciliano Ramos, Vidas Secas, de José Lins do Rego, Fogo Morto, de Rachel de Queiroz, O Quinze, e de Jorge Amado, O País do Carnaval, autores que tratam da seca, da vida miserável nordestina, da exploração e do desajuste social e psicológico. Erico Veríssimo escreve, nesse período, romances urbanos, entre eles Clarissa e Olhai os Lírios do Campo. Dyonélio Machado inova a narrativa psicológica, retratando o temor que assola um indivíduo de classe média, sem dinheiro e sem perspectivas de melhora, em Os Ratos. Na poesia, observa-se o retorno a um texto de contornos místicos, religiosos e sugestivos, que lembra certos aspectos do romantismo e do simbolismo. Os principais poetas que atuam a partir de então são Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Augusto Frederico Schmidt. Mário Quintana segue essa tendência até a década de 1990. Carlos Drummond de Andrade, um dos mais importantes poetas brasileiros, realiza uma síntese entre racionalismo e lirismo, revolta e conformismo, angústia e humor.

Década 1940: a fase pessimista

O pessimismo e o medo gerados pela Segunda Guerra Mundial  influenciou este período. O existencialismo de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus vão influenciar os autores desta época. Na Inglaterra, George Orwell faz uma amarga e triste profecia do futuro na obra 1984. 


Década de 1950: crítica ao consumismo

As obras desta época da História criticam os valores tradicionais e o consumismo exagerados imposto pelo capitalismo, principalmente norte-americano. O poeta Allen Ginsberg e o romancista Jack Kerouac são seus principais representantes. Henry Miller choca a crítica com sua apologia da liberdade sexual na obra Sexus, Plexus, Nexus. Na Rússia,  Vladimir Nabokov faz sucesso com o romance Lolita



A literatura brasileira abandona o compromisso estrito com as temáticas de orientação social e revela a tendência ao experimentalismo linguístico. João Guimarães Rosa, autor de Sagarana e Grande Sertão: Veredas, desenvolve um regionalismo universalista. João Cabral de Melo Neto trata da problemática social em Morte e Vida Severina e produz uma poesia em que sobressaem o rigor formal e a contenção, sem prejuízo do lirismo, em obras como A Educação pela Pedra. Clarice Lispector (Perto do Coração Selvagem e Laços de Família) volta-se para a realidade psicológica das personagens, revelando influência do existencialismo e valorizando as técnicas do fluxo de consciência. Também na linha do romance psicológico está a ficção de Cornélio Pena (A Menina Morta) e de Lúcio Cardoso (Crônica da Casa Assassinada). Na década de 1950 surge a poesia concreta, movimento de vanguarda, criado pelos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Ela se opõe ao formalismo da geração de 45, ao se aproximar dos modernistas de 22, na medida em que propõe a destruição do verso e a exploração inovadora dos espaços da página. Rivalizando com o grupo concretista aparece, em 1962, a Poesia Práxis, de Mário Chamie.


Décadas de 1960 e 1970
 

Surge o realismo fantástico, como na ficção dos argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Na obra do colombiano Gabriel García Márquez , Cem Anos de Solidão, se misturam o realismo fantástico e o romance de caráter épico. São épicos também alguns dos livros da chilena Isabel Allende autora de A Casa dos Espíritos. No Peru, Mario Vargas Llosa é o romancista que ganha prestígio internacional. No México destacam-se Juan Rulfo e Carlos Fuentes, no romance, e Octavio Paz, na poesia.
A literatura muda o foco do interesse pelas relações entre o homem e o mundo para uma crítica da natureza da própria ficção. Um dos mais importantes escritores a incorporar essa nova concepção é o italiano Ítalo Calvino. 



A situação política do país, com seus sucessivos governos militares e a censura fortaleceram os romances-reportagens, como os de José Louzeiro, e as obras que têm como pano de fundo a realidade brasileira, como Quarup, de Antônio Callado. São também retratos da época livros como Zero, de Ignácio Loyola Brandão, e A Festa, de Ivan Ângelo. Outro autor importante é Raduan Nassar, com sua linguagem apurada. Lígia Fagundes Telles publica contos e romances de grande penetração psicológica. Na linha dos romances intimistas, sobressaem a narrativa refinada de Autran Dourado (Sinos da Agonia) e o complexo trabalho estilístico de Osman Lins (Avalovara). Os contos de Dalton Trevisan misturam o grotesco ao banal. Pedro Nava destaca-se como memorialista. Ferreira Gullar, que se distanciara da poesia concreta, continua a produzir sua poesia participante. A partir do fim dos anos 1970 aparece à chamada geração mimeógrafo, responsável por uma poesia anárquica, satírica e coloquial. Seus principais nomes são Ana Cristina César e Cacaso.
 


– O período conhecido por pós-modernidade tem como característica marcante a heterogeneidade – pluralidade de vozes, de estilos, de gêneros e de visões do mundo. No Brasil, a chamada geração de 80 é marcada pelo desencanto em relação aos ideais de engajamento social e político da década de 1970. Caracteriza-se pela temática predominantemente urbana, com ênfase nos estilos pessoais e na exploração de novas técnicas narrativas. João Antônio revitaliza o conto brasileiro, e Silviano Santiago, a narrativa ficcional, com Em Liberdade (1981). 

No gênero policial, Rubem Fonseca explora os efeitos psíquicos, sociais e estéticos da violência urbana, sobretudo em A Grande Arte (1983). Hilda Hilst trabalha temas metafísicos, privilegiando a exploração do universo sexual e a utilização do fluxo de consciência em poesia e prosa poética. Nas obras de João Gilberto Noll (A Fúria do Corpo), a sexualidade vem acompanhada de um clima pesado de delírio. Caio Fernando Abreu dedica-se ao romance urbano de inflexões intimistas. João Ubaldo Ribeiro investiga a história da identidade brasileira em Viva o Povo Brasileiro (1984). Do mesmo ano é o romance de Nelida Piñon, República dos Sonhos, que aborda as aventuras de imigrantes no Brasil. Na poesia, José Paulo Paes, Haroldo de Campos e Paulo Leminski continuam a explorar técnicas inspiradas no concretismo. Ganha destaque a poesia de Adélia Prado, que trabalha o universo feminino e cotidiano.


Ana Miranda lança o romance, Boca do Inferno, sobre a vida de Gregório de Matos. No romance intimista destaca-se o livro de estréia de Milton Hatoum, Relato de Um Certo Oriente. Josué Montello privilegia o universo maranhense em narrativas históricas. Nesse período divulga-se a poesia de Manuel de Barros (publicada em 1990), cujo apurado trabalho estilístico se volta para os temas ligados à região do Pantanal. Também é importante a obra reflexiva e metalingüística da poetisa Orides Fontela.


Em meio à pluralidade de estilos e técnicas característicos da pós-modernidade, sobressaem algumas tendências comuns. É o caso dos romances que, inspirados no fim do milênio, procuram analisar a história do país por meio de incursões ficcionais na história contemporânea. Também ressurge a temática memorialística, que, com base em lembranças pessoais, compõe certos painéis da história nacional.
 

O compositor Chico Buarque estréia no romance com a narrativa labiríntica e delirante de Estorvo (1991). Na moderna prosa regionalista, Francisco Dantas retrata um Nordeste em decadência em Coivara da Memória e João Silvério Trevisan se destaca no romance histórico (Ana em Veneza). Na poesia, a influência do concretismo e da música popular aparece na obra de Arnaldo Antunes. Ganha importância uma nova geração de poetas: Alexei Bueno, Nelson Ascher, Régis Bonvicino, Rubens Rodrigues Torres Filho e Paulo Henriques Britto, além do veterano Wally Salomão.


Bernardo Carvalho mescla o suspense ao trabalho de desconstrução da narrativa nas obras Os Bêbados e os Sonâmbulos (1996) e Teatro (1998). Dentro do gênero urbano e policial, Patrícia Melo evidencia a influência de Rubem Fonseca em O Matador (1995). Paulo Lins estréia na prosa com Cidade de Deus (1997), romance social ambientado na periferia carioca. Na literatura de orientação memorialista, destacam-se Carlos Heitor Cony (Quase Memória, 1997) e Modesto Carone (Resumo de Ana, 1999), cuja narrativa explora a lembrança articulada à observação de fatos reais. A ficção ligada a acontecimentos históricos também está presente na obra de Zulmira Ribeiro Tavares (Cortejo em Abril, 1998) e de Moacyr Scliar (Sonhos tropicais). Silviano Santiago aborda a decadência familiar em De Cócoras (1999). Na poesia, são publicados livros póstumos de Carlos Drummond de Andrade (Farewell, 1997) e de Guimarães Rosa (Magma, 1998). Ferreira Gullar lança o livro de poemas Muitas Vozes (1999).

A escritora Patrícia Melo recebe o Prêmio Jabuti, na categoria Romance, com Inferno, um painel de personagens do Rio de Janeiro, em que o protagonista da epopéia carioca é um fora-da-lei, Reizinho, um garoto de 11 anos, ex-viciado em crack. Anderson Braga Horta vence na categoria Poesia, com o livro Fragmentos da Paixão. O livro Corações Sujos, do escritor e jornalista Fernando de Moraes, conquista o prêmio de melhor livro na categoria reportagem. A obra aborda a história da Shindo Renmei, a seita nacionalista que aterrorizou a colônia japonesa no Brasil após o fim da II Guerra Mundial, por se recusar a aceitar que o Japão saiu derrotado do conflito. Em Ciências Sociais destaca-se a obra, Intelectuais à Brasileira, de Sérgio Micelli. Na categoria infanto-juvenil, o lançamento de Lendas Brasileiras, de José Arrabal, destaca-se por traçar um painel de lendas e fábulas abrangendo todas as regiões do país. O autor escolheu a narrativa como linguagem em vez da descrição, convencionalmente usada para contos. 
Ariano Suassuna recebe o Prêmio Jorge Amado de Literatura e Arte, na Bahia, pelo conjunto de sua obra.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ALEKSANDR RODSCHENKO E O CONSTRUTIVISMO RUSSO


Aleksandr Mikhailovich Rodchenko era casado com a artista Varvara Stepanova.
  
   “Um dos maiores artistas do século XX, Rodchenko foi artista plástico, escultor, fotógrafo e designer gráfico russo, criador de capas de livros, revistas, propagandas e cartazes, entre outros. Um dos fundadores do construtivismo russo e design moderno russo.“

   Alexander Rodchenko é um dos máximos expoentes da vanguarda soviética dos anos 20 e 30. Nasceu em São Petersburgo, em 1891. A sua família mudou-se para Kazán, no Oeste de Rússia, onde Alexander estudou Historia da Arte.
   Em 1915, influenciado por Malevich, começou a pintar com tendência abstrata.
   O artista experimentou diferentes técnicas de expressão artística, estudando a pintura, a fotomontagem e a fotografia em profundidade, como documento da realidade e como instrumento de propaganda.
   A imagem é fruto de uma construção. A arte geométrica refletindo a tecnologia moderna. Misturando foto, desenho e gráfico atinge seu objetivo: “construir” a arte, não criá-la, onde a imagem é fruto de uma construção.
   Rodchenko afirmou ser possível desse modo, expor a falsidade latente em todos os produtos artísticos - a linha defendida pelo Realismo Socialista.
   Suas fotografias são composições arrojadas, com grandes planos, perspectivas monumentais, geometrização com ênfase nas diagonais, pontos de vista abruptos tomados de cima ou de baixo em diversos ângulos retratando o verdadeiro sentido das suas palavras, a dimensão da sua criatividade e o seu legado futuro.
   Rodchenko trabalhou com ousadia e inovação suas fotografias, como a insistência no preto e branco; a eliminação do detalhe desnecessário; a ênfase do posicionamento e o movimento no espaço o que lhe valeu o rótulo de formalista que, na altura, era potencialmente uma ameaça de morte. Sem Rodchenko não teria havido fotojornalismo nem teríamos podido admirar as imagens de Cartier-Bresson, Capa ou Seymour...
   O artista russo era uma personagem multifacetada que se sentia tão à vontade na pintura como na escultura, no design ou na fotografia, que o notabilizou. Os seus trabalhos publicitários e comerciais são surpreendentes não só pelo insólito de serem feitos por um artista "revolucionário" como pela inovação gráfica que trouxeram.
   Nos anos de 1930, com as mudanças que o Governo implementou nas regras da prática artística, o artista entrou em conflito com a burocracia estalinista, concentrou se em fotografia de desporto e imagens das paradas, movimentos coreografados e voltou a pintar.
   Viveu os seus últimos vinte anos de vida na obscuridade e no isolamento. Não foi assassinado - «apenas» foi silenciado e excluído. Faleceu em 1956.
   Até hoje, suas imagens são verdadeiros documentos para a difusão de Construtivismo Soviético.























“Os resultados do primeiro Plano Quinquenal" desenhado por Stepanova e/ou Rodchenko, em 1933. Uma foto-montagem do Construtivismo...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

VLADIMIR TATLIN E O CONSTRUTIVISMO RUSSO



 Pintor, escultor e arquiteto russo nascido em Kharkov, Rússia, hoje Ucrânia (1885-1953), primeiro teórico do construtivismo soviético e grande incentivador do movimento. Estudou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou, graduou-se na Academia de Belas-Artes de Moscou (1910) e começou a carreira produzindo quadros em estilo figurativo.
Viajou a Paris (1913), onde é influenciado pelas construções tridimensionais de Picasso, em papel, madeira e outros materiais. 




Retornou a Moscou e integrou-se a um grupo de pintores e escritores russos vanguardistas de Moscou, Odessa e São Petersburgo. Nesse período desenhou para o teatro e participou de diversas exposições.
Tatlin criou os chamados contra-relevo, assemblages abstratas de metal industrializado, arame, madeira, plástico, com superposição de fios, vidro, alcatrão e outros materiais, numa técnica semelhante à colagem cubista.
Para o artista, os contra-relevos ficavam numa zona intermediária entre a pintura e a escultura porque fugiam da estabilidade dos pedestais ou das paredes, ficando muitas vezes suspensos por arames estendidos de diversas maneiras no encontro de duas paredes. Ele dava muito mais ênfase ao espaço, do que com a matéria, e isso o fazia revolucionário.


Vladimir Tatlin , “RELIEVE”, 1914 – metal e couro sobre madeira – 62,9 x 53 cm.

  É a partir destas obras que Tatlin funda o Construtivismo, movimento que associaria vários artistas como do Aleksandr Rodchenko e sua mulher Stepanova.
Com o triunfo da revolução soviética (1917), passou a trabalhar usando a arte como instrumento de educação para o povo.
Os construtivistas acreditavam que a arte deveria refletir o novo mundo industrial e adaptar formas, materiais e técnicas da moderna tecnologia, encarnando a ideia do artista-engenheiro empenhado na construção de objetos úteis.
Exemplo desta fase criativa é o “Relevo de esquina complexo”, de 1915, em aço, alumínio, zinco e madeira. Peças de metal e de madeira são justapostas e suspensas da esquina de uma sala, pretendendo acentuar valores de contraste entre formas, materiais e texturas.
Muitas construções, como o Monumento da 3ª Internacional (1919), criado por Tatlin, são protótipos para arquitetura, cenários ou desenho industrial.
Este monumento pretendia representar os novos tempos e a dinâmica social, tentando integrar arte e técnica. Esta metáfora da sociedade maquinista relaciona-se com um tema que estava presente também nos outros movimentos de vanguarda. 



Feito com ferro, vidro e madeira, em consonância com as ideias socialistas e usando materiais industrializados empregados no uso cotidiano, colocaram a arte a serviço do bem comunitário, atuando na direção utilitária do desenho industrial e arquitetura.
A torre teria 400 metros de altura (mais alta que a Torre Eiffel) e o monumento seria colocado no centro de Moscou.
O projeto, nascido num momento de entusiasmo político, nunca foi construído devido à alteração da política governamental que passou a manifestar-se contra a arte de vanguarda e também pelo pouco aço, dessa forma, a ideia não passou de um modelo, mas certamente teria sido o mais impressionante “construto” de todos os tempos.
Inclinada como a Torre de Pisa, a estrutura vazada de vidro e ferro se baseia numa espiral contínua para representar o progresso vertical da humanidade, onde todos os cilindros iriam girar: embaixo daria uma volta de 365 dias, no meio, 30 dias (lua) e em cima, 24 horas.
Na parte de baixo comportaria repartições públicas; no meio, escritórios e em cima, uma estação de rádio. Na calota (protetor) trazia slogans comunistas.
Reconstruída em 1976/1968 (maquete) para uma exposição na Moderna Museet, em Estocolmo, Tatlin projetou essa movimentada torre como um símbolo do monumento e do ilimitado potencial da União Soviética, representando a alegoria do Cosmo.
Representa o imaginário do Construtivismo.
Depois da Revolução Bolchevique de 1917, os artistas construtivistas ganharam poder político e isso causou um desacordo entre aqueles interessados numa arte pessoal e aqueles ocupados em fazer um design utilitário para as massas. Por essa razão alguns deles como Naum Gabo, Pevsner, o pintor Vassily Kandinsky e outros deixaram a União Soviética; alguns foram para a Alemanha, para a escola Bauhaus de arte e design, assegurando a expansão dos princípios do Construtivismo através da Europa e mais tarde nos Estados Unidos.
Tatlin foi um dos artistas que se mantiveram na Rússia após este desinteresse político pela arte experimentalista, sendo obrigado, no fim da vida, a retomar a pintura figurativa que caracterizou a arte do regime de Stalin. Morreu em 1953.

O Construtivismo marcou o fim de uma era brilhante. Em 1925, o Comitê Central do Partido Comunista saiu contra a abstração; em 1932 os grupos culturais foram dispersados, em 1934 um novo estilo de propaganda do realismo social se tornou a única abordagem artística oficial da União Soviética.
O Construtivismo constitui-se em tendência universal e permanente na Arte. Movimento anti-naturalista gera formas segundo uma ordem matemática, propondo uma arte abstrata, geométrica e autônoma. Corresponde a uma ruptura total com a tradição da mimese, ou da representação da realidade visível.
Esta tendência faz surgir um conjunto de obras semelhantes, mas com diferenças quanto a sua origem. Partes delas oriundas da desconstrução e reconstrução geometrizada de formas naturais como no caso do Cubismo e Futurismo. Outras anti-naturalistas resultam de uma ordem matemática com uma linguagem de formas e cores autônomas em relação à natureza ou ao real como, por exemplo, o Abstracionismo em sua segunda fase e a Arte Concreta.    


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

GUTO LACAZ: o arquiteto que brinca com a arte.




I – VIDA:
Carlos Augusto Martins Lacaz ou simplesmente GUTO LACAZ, nasceu em São Paulo, em 1948.
Estudou no Colégio Dante Alighieri e foi considerado aluno problemático, chegando a reprovar uma série. Foi transferido para o Colégio Vocacional que em sua grade curricular, constavam atividades práticas, como encadernação, restauração e reconstrução de objetos. O curso formava técnicos em eletrônica industrial, o que estimulou o garoto criativo a desenvolver sua aptidão para construir e adaptar máquinas, maquetes, aparelhos.

O artista resume sua vida escolar em quatro itens:
1.      “No tempo de escola, ninguém me ensinou a ler Monteiro Lobato, mas sim uns livros horríveis, pavorosos, do José de Alencar – acabei ficando com aversão!”;
2.      “Nunca fui aluno brilhante, do tipo CDF – levei três bombas, passado estudantil que carrego orgulhosamente…”;
3.      “Sempre fui bom nessa história de por, tirar, pegar, cortar, colar. Quando entrei no ginásio, ainda não existia isso de chamar de veado quem fazia trabalho manual…”;
4.      “Não tenho o gosto de ler, mas sim o de folhear – gosto mesmo de livro ilustrado”.

Nessa época, Guto descobre também o desenho, com Ruy Pedreira, caricaturista exímio e seu vizinho. Na sequência, encanta-se ainda mais com o desenho durante o cursinho pré-vestibular, tendo por professores dois dos mais importantes artistas plásticos do país atualmente: Carlos Fajardo e Luiz Paulo Baravelli. Foram eles que o influenciaram a cursar Arquitetura, em São José dos Campos.
Em 1978, já na faculdade, Guto se deparou com a “Primeira Mostra do Objeto Inusitado”, uma espécie de concurso para eleger a peça de arte mais excêntrica promovido pelo Museu da Imagem e do Som, que atiçou sua criatividade e marcou, de certa forma, o início de sua carreira como designer gráfico.
Amante das ideias pitorescas, com mil e uma engenhocas já feitas, leu o regulamento do concurso e pensou:

Acho que aquelas maluquices que tenho em casa são essa tal de ‘arte inusitada’”.

E se inscreveu, com mais de vinte. Qual não foi sua surpresa quando o pai de um amigo, que participara do júri, ligou para dizer que ele havia faturado dez prêmios!

Guto formou-se pela Universidade de São José dos Campos, na época uma escola inovadora que mesclava o espírito de faculdade de Arquitetura com algo parecido com a Escola de Comunicação e Artes (ECA), da USP.
Depois de formado, passou a trabalhar em seu próprio estúdio, “Arte Moderna”, onde realizava diversos trabalhos de criação: ilustrações, logotipos, editoriais, cartazes, cenografia, entre muitos outros.
   “Eu era um arquiteto desempregado que encontrou “más companhias”. Pessoas como eu, que faziam coisas interessantes, mas não conseguiam vendê-las. Cada amigo foi me dando uma contribuição preciosa. Fazendo descobrir novas formas de atuação.”

Outro fato marcante que influenciou sua carreira artística foi quando Guto assistiu ao Concerto para Piano de Cauda e Luvas de Boxe, que outro grande artista de vanguarda, Aguilar, realizou na Pinacoteca do Estado nos anos 80, onde ele aparece esmurrando um piano de cauda com pesadas luvas de boxe. Essa cena despertou-lhe as performances que, com poucos elementos, tinham a capacidade de provocar a inteligência dos espectadores. A partir daí, suas apresentações, sempre com toques de Teatro do Absurdo, começaram ser apresentadas em palcos de instituições culturais e hoje lotam auditórios de teatros.
A crítica especializada, por sua vez, não poupa elogios à arte “absurda” de Guto Lacaz. Seu bom humor e seu espírito irreverente cativam também o público leigo.

   “Eu fazia muito cinema Super 8. Quando apareceu o video, eu quis comprar pra experimentar, buscar canais de expressão. No fundo, tudo é uma coisa só, tudo se liga de alguma forma. Eu vi que nas artes havia muito essa relação, a relação entre as linguagens. Se bem que cada linguagem tem a sua profundidade, a sua especificidade, dando pra compor entre elas.
   É bom definir a coisa porque definir não empurra, definir movimenta. Se você define, vem algum outro cara e se opõe, ou então traz outra definição.
   Eu acho bom definir, ter definição por mais que as linguagens possam se unir, se relacionar, é bom ter claro o lugar de cada uma delas. É bom saber o que é que acontece na pintura, no teatro e na performance.  Eu tenho uma definição acadêmica do que é performance: uma modalidade artística em trânsito entre as artes plásticas e as artes cênicas.
   Na hora em que eu estou realizando uma ação no palco, eu procuro fazer de forma que a ação tenha integridade plástica, que ela tenha uma plasticidade. E não necessariamente que haja texto. O texto entra como o texto, o video, a caneta, o papel, o piano, entram como acessórios da situação.

O exercício de criar e de “ter ideias” passou a ser não só o passatempo de Guto, mas também o trabalho dele. São mais de 30 anos dedicados à arte, através de instalações, objetos, máquinas, performances, esculturas, vídeo-instalações e mais um monte de coisa que é até difícil de catalogar. Guto Lacaz prefere se intitular artista prático, uma espécie de biscateiro (no melhor dos sentidos) coleciona exposições e premiações pelo Brasil e pelo mundo.
Na pele de um cidadão calvo, tímido, discreto e supostamente “normal”, vive uma unanimidade: Guto Lacaz, mestre da contemporaneidade urbana, que joga o tempo todo com a ironia e o nonsense na produção de uma obra que reflete, brincando, as mudanças impostas pela moderna sociedade industrial à esfera da arte.


Participou de diversos eventos, entre eles SKY ART na USP (1986), e Water Work Project, Toronto, Canadá (1978).
Lecionou comunicação visual e desenho de arquitetura na Faculdade de Artes Plásticas da PUC/Campinas, em 1978-80. Foi professor do curso “A Técnica” e a “Linguagem do Vídeo”, no festival de inverno de Campos de Jordão, em 1983. Foi editor da revista Around AZ.
Guto Lacaz, único habitante de uma ampla casa dos Jardins, reformada por ele, considera-se um homem feliz por levar uma vida simples.

   “A casa tinha desenho da década de 60, lindo, apenas ajustei ao que eu queria”, explica o artista em “momento arquiteto”.

   “Derrubei paredes internas e mantive o volume externo. No quintal derrubei o quarto de empregada, a lavanderia, um galinheiro e construí um atelier bacanudo, com pé-direito duplo, uma face toda de vidro e acesso direto ao jardim”, conta Guto.
   Sua filha Nina, de 11 anos, mora com a mãe, mas sempre visita o pai e passa com ele momentos pra lá de atarefados. Como aboliu de sua vida a empregada doméstica, Guto  e Nina, quando está com ele faz todos os serviços diários: limpa, cozinha e coloca em ordem os poucos objetos que possui.
   “Levo uma vida quase monástica”, revela o artista. “Uso só os objetos indispensáveis e considero importante passar isso para Nina.
   É bom que cada um limpe sua própria sujeira, quanto mais auto-sustentável, maior a qualidade de nossa vida”.
   Para chegar ao seu atelier “de briga”, localizado no subsolo de um edifício da Rua Pamplona, é necessário percorrer um curto labirinto e descer dois lances de escada. Nesse espaço amplo e despojado, sem divisórias, onde trabalha há mais de três décadas, ficam apenas algumas estantes com livros, poucos objetos, equipamentos próprios de uma oficina (torno e prensa, inclusive), mais uma bancada com os computadores e o telefone fixo. Tudo meticulosamente organizado, simples, funcional.


II – CARACTERÍSTICAS:

    “Os artistas, de modo geral, têm medo da ciência e acabam se esquecendo que, se ela for bem administrada, pode se tornar um poderoso instrumento de expressão”, explica Guto Lacaz.
Lacaz acredita que o meio deve ser elemento de suporte da ideia.

   
 “Não sou um artista plástico, mas sim prático. Sou um biscateiro, um sujeito do tipo que bate prego, pinta prateleira ou desencapa fios”, diz ele.

Sua produção transita entre o design gráfico, a criação com objetos do cotidiano e a exploração das possibilidades tecnológicas na arte, sempre tratada com humor e ironia.
Em suas obras e performances, Guto manipula diversos objetos e apresenta-se como uma mescla de artista-ator, inventor e mágico. Em suas instalações, transforma radical e poeticamente as funções dos objetos do dia-a-dia, chegando a tangenciar o insólito.
O artista mostra-se extremamente coerente com a variedade de lugares e situações onde apresenta seus trabalhos: de galerias e museus a teatros, espaços públicos e televisão.

   “Guto Lacaz já se cansou de ouvir que sua obra se inspira em Duchamp, de quem, aliás, ele nunca tinha ouvido falar até que começasse a ser objeto de análise por parte da crítica. Guto Lacaz não liga à mínima e continua desmontando rádios, carrinhos, liquidificadores, toca-discos e relógios como uma criança xereta que foi - e é -, para depois combinar partes de uma coisa com outra e produzir um objeto que ninguém saberá dizer para o que serve, exceto despertar um largo e inevitável sorriso. A diferença é que, enquanto uma criança costuma ganhar apenas um puxão de orelhas por sua exibição de criatividade, os objetos inventados por Guto Lacaz vão para as galerias de arte ao preço mínimo, estipulado por seu marchand, João Sattaamini, de 1.000 dólares - e acabam lhe rendendo o dinheiro dos compradores, a admiração dos colegas e o reconhecimento dos entendidos.

Em seu conjunto de obras encontram-se esculturas lúdicas, pinturas, ilustrações, design gráfico e de objetos, videoinstalações, multimídia, eletroperformances, projetos e instrumentos científicos.


III - EVENTOS SELECIONADOS:
  • 1978 - São Paulo SP - 1ª Mostra de Móvel e do Objeto Inusitado, no MIS
  • 1982 - São Paulo SP - Idéias Modernas, na Galeria São Paulo
  • 1985 - São Paulo SP - 18ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
  • 1986 - São Paulo SP - A Trama do Gosto, na Fundação Bienal
  • 1987 - Paris (França) - Modernidade: arte brasileira do século XX, no Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris
  • 1987 - São Paulo SP - Muamba, no Subdistrito Comercial de Arte
  • 1988 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil Projects - PSI New York
  • 1988 - Belo Horizonte MG - Idéias Modernas, na Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes
  • 1989 - São Paulo SP - Auditório para Questões Delicadas - Lago do Ibirapuera - SMC - instalação
  • 1990 - São Paulo SP - 10 Cenas com um Armário - Securit, no MIS - performance
  • 1990 - São Paulo SP - O Papel no Cotidiano, no Museu Brasileiro do Papel
  • 1991 - São Paulo SP - Cosmos: um passeio no infinito, no Masp - instalação
  • 1992 - Belo Horizonte MG - FórumBHZVídeo, com a instalação Video Games Mesmo
  • 1992 - São Paulo SP - Máquinas e Motores na Sociedade, no Teatro Crowne Plaza - performance
  • 1992 - Belo Horizonte MG - Música ao Vivo, no Centro Cultural UFMG - instalação
  • 1993 - Poços de Caldas MG - Idéias Modernas, na Casa de Cultura de Poços de Caldas - IMS
  • 1993 - São Paulo SP - Páginas Preciosas, templo mídia, na Galeria Luisa Strina - instalação
  • 1994 - São Paulo SP - Arte Cidade 2: a cidade e seus fluxos
  • 1994 - São Paulo SP - Recortes, na Galeria Luisa Strina
  • 1994 - Rio de Janeiro RJ - Recortes, no Paço Imperial
  • 1995 - Coréia - 95 Kwangju Internacional Biennale
  • 1999 - São Paulo SP - Máquinas II, no Teatro Cultura Artística - performance
  • 1999 - São Paulo SP - Viagens de Identidades, na Casa das Rosas
  • 2000 - São Paulo SP - Garoa Modernista, na Oficina Cultural Oswald de Andrade - instalação
  • 2000 - Rio de Janeiro RJ - O Som da Imagem de Gilberto Gil, no Paço Imperial

EVENTOS ITAÚ CULTURAL
  • 1991 - São Paulo SP - Videoselos (instalação), no Itaú Cultural
  • 1999 - São Paulo SP - Cotidiano/Arte. A Técnica - Máquinas de Arte, no Itaú Cultural

PRÊMIOS
  • 1978 - 1ª Mostra do Móvel do Objeto Inusitado - MIS
  • 1983 - 10º Prêmio Abril de Jornalismo - Ilustração
  • 1984 - Prêmio Espaço Luminária - Phillips MIS
  • 1985 - Prêmio Espaço Luminária - Phillips MIS
  • 1986 - Troféu Creme de la Creme - Harpias e Mansfield
  • 1988 - Prêmio Novas Mídias - APCA
  • 1990 - 12º Prêmio Abril de Jornalismo - Ilustração
  • 1992 - Prêmio Excelência Gráfica Abigraf - Personagens Femininos de Vânia Toledo
  • 1995 - Bolsa John Simom Guggenheim Foundation
  • 1998 - Broadcasting Video Awards - Vinheta Mundo Animal GNT
  • 1998 - Melhor Portfólio - Revista Design Gráfico - Market Press Editora
  • 1998 - Melhor Trabalho - O Som da Imagem de Caetano Veloso - Paço Imperial Rio de Janeiro
  • 1999 - Melhor Portfólio - Revista Design Gráfico - Market Press Editora

IV – OBRAS:

   "Ganho dinheiro com as artes gráficas, mas são as artes plásticas que me fazem cada dia mais feliz”.
“Rádios pescando” (rádios de pilha enfileirados, com linhas presas às antenas esticadas); “Óleo Maria à procura da salada” (uma lata do óleo zanzando em uma bandeja vazia); “Crushifixo” (uma garrafa do refrigerante Crush fixada em um retângulo de gesso) são exemplos do olhar espirituoso de Guto Lacaz sobre a vida social contemporânea, que humaniza as coisas e “coisifica” as pessoas.

Rádios pescando


Óleo Maria à procura da salada


Crushifixo



“Cheque mate”


Nos anos 1980, lançou o primeiro espetáculo da série intitulada “Máquinas”. Em 25 quadros, o artista mostra novas possibilidades de “uso” de objetos do cotidiano como o aspirador de pó, vassoura e secador de cabelo. Ele debruça sobre a funcionalidade lúdica e desprograma as funções originais destes utensílios.
O espetáculo é cercado pelo silêncio e as performances são dirigidas por Guto e pelo assistente Javier Judas que veste um jaleco como em um laboratório de experimentações. Trilha sonora é coisa rara, uma ou outra vez faz parte das “brincadeiras”. Somos lembrados que estamos em uma situação irreal, de possibilidades com a intervenção de um pianista tocando uma canção quase de ninar envolto por uma névoa que parece bailar pela plateia como em um sonho.

Segundo ele, “Máquinas V é resultado de mais de 50 anos de pesquisas patafísicas e testes de laboratório”, respondendo às seguintes questões cruciais:
- Como abrir um guarda-chuva com uma máquina de escrever?
- Como deslocar uma cadeira com trens elétricos?
- Como fazer um duelo com aspiradores de pó?
Segundo Guto, o espetáculo é baseado em seus estudos que permitiram a descoberta do lado secreto dos objetos e com isso conseguem fazer composições cinéticas surpreendentes. “Máquina V” garante humor, precisão e surpresas.
O ponto de partida para a criação de cada uma das 25 cenas é a mesma. Ele garimpa objetos usados no dia a dia, observa ambulantes em faróis e visita lojas populares da Rua 25 de Março. Quando enxerga potencial nos produtos, compra, cria uma nova função para eles e apresenta tudo no palco.
    “A proposta é mostrar o lado cênico de um aparelho e do encontro de aparelhos que nunca se encontrariam, como máquina de escrever e guarda-chuva, taco de golfe e piano de cauda, vassoura com furadeira”, diz Guto.

Javier Judas e Guto Lacaz em "Máquinas V"
Guto Lacaz explica:
   “Minha primeira instalação consistiu de vinte e seis aspiradores de pó dispostos em duas linhas de treze unidades cada, de maneira a produzir ar sob pressão fazendo com que 26 esferas flutuem no ar. Na entrada, o visitante recebe um "walk man" com a trilha sonora "Tannhauser" de Richard Wagner e atravessa o corredor pelo tapete vermelho. Este trabalho produz grande felicidade para os que o vivenciam, pois cada um se sente homenageado por esta guarda de honra inusitada”.
Eletro Esfero Espaço”, 1986
Instalação
A sensação causada pelas bolinhas flutuando apenas com o uso do aspirador de pó, a escolha da música, o tapete vermelho e a alegoria da guarda de honra é muito interessante. O efeito que cria uma sensação de êxtase.

Tábuas de pensar roupa”

''Relógio para perder a hora''

Outro trabalho interessante, da categoria objetos, é o chamado “A Terceira Margem do Rio”, inspirado na obra de Guimarães Rosa.
A Terceira Margem do Rio
 
A obra consiste em dois barcos coloridos e um espelho que reflete um dos barcos fazendo parecer que são três. O interessante nesse trabalho é que um barco foi pintado com duas cores, de modo que com o espelho ficou parecendo dois barcos. Outro ponto positivo e comum em seus trabalhos é a possibilidade de interação.

Esses trabalhos e muito mais estão presentes em seu livro Omemhobjeto (Décor Books) que reúne três décadas. O trabalho foi imenso para organizar todo o material, sob a coordenação do próprio artista e com a ajuda do amigo e fotógrafo Edson Kumasaki, que fez mais de 300 fotos especialmente para a publicação.

Cartaz de Guto Lacaz para a ECO92


Auditório para questões delicadas”

Obra impressa em Marrakech Noz

Cozinheiro”, desenho reproduzido em aço carbono recortado com Raio Laser e pintado.
 
Performance fábula do cubo e do cavalo




"Acionada à distância por controle remoto"

''Lógico Equilíbrio'' 


Capa de disco da banda Luni