segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A QUESTÃO COIMBRÃ: REALISMO-NATURALISMO LITERÁRIO EM PORTUGAL


Talvez, o modo mais simples de se definir ou de se entender o que seja Realismo é reproduzir uma frase atribuída Coubert: "Não posso pintar um anjo, se nunca vi um".


I – INTRODUÇÃO:


O Romantismo foi um movimento originário da Alemanha, enquanto o Realismo é de origem francesa. O racionalismo tão característico do país de Descartes será a matriz da reação realista ao irracionalismo romântico.
A ficção de Stendhal, autor de romances célebres como “O vermelho e o negro” e “A cartuxa de Parma”, bem como a de Balzac, o autor da “Comédia humana”, já contém uma atitude antiromântica, pelo que apresentam de observação atenta e minuciosa da vida exterior de seu tempo. Basta lembrar que Karl Marx, o pai do socialismo científico, disse ter aprendido mais sobre a França dos séculos XVIII e XIX lendo Balzac do que lendo os historiadores franceses que se ocuparam do mesmo período.
A Revolução de 1848 fez com que Courbet tomasse a decisão definitiva de sua arte em termos de participação ativa na realidade. Nessa época, o romantismo já não conseguia esconder seu aspecto conformista. Às contraditórias concepções políticas, desvinculada da realidade social do país, acabaram por não entender o que havia ocorrido em 1848, e ao testemunharem o despertar daquelas gigantescas massas operárias, e sua poderosa força social, os românticos sentiram-se acuados e tornaram-se abertamente conservadores.
Os setores mais combativos nesse momento tomaram à dianteira. No plano político denominaram-se Socialistas, no plano artístico, chamaram a si mesmos de Realistas.
Entre 1850 e 1880 o movimento cultural, chamado Realismo, predominou na França e se estendeu pela Europa e outros continentes, influenciado pelas transformações que ali ocorriam no âmbito econômico, político, social e científico. Vivia-se a segunda fase da Revolução Industrial, período marcado pelo clima de euforia e progresso material decorrente das inúmeras invenções. No entanto os benefícios não eram refletidos nas camadas mais pobres, que ao contrário passam a ter uma condição social cada vez pior. Os integrantes desse movimento repudiaram a artificialidade do Neoclassicismo e do Romantismo, pois sentiam a necessidade de retratar os problemas e costumes da classe média e baixa, não inspiradas em modelos do passado. O movimento manifestou-se também na escultura e, principalmente, na arquitetura. Os principais representantes no campo da pintura foram Gustave Coubert e Jean François Millet.
Os artistas diante desse quadro de mudança de ideias e da sociedade sentem a necessidade de criar uma arte sintonizada com a nova realidade, capaz de abordá-la de modo mais objetivo e realista do que até então vinha fazendo o Romantismo.
Em 1855, Gustave Courbet, pintor francês, após ter tido suas telas recusadas em uma exposição, por serem “escandalosas” ou “realistas”; como forma de protesto, o pintor realiza uma exposição à qual dá o nome de Realismo: “O Enterro em Ornans” - foi o enterro do Romantismo. E, em 1858, Millet pintou o "Angelus", sua pintura mais famosa e o quadro mais reproduzido no mundo.
Em 1857, Gustave Flaubert publica Madame Bovary, considerado o marco do Realismo na França. Esse romance é o precursor do Realismo europeu, polêmico em sua época, considerado imoral, levando Flaubert a ser processado pelo governo francês.
“Madame Bovary” é o painel de uma sociedade adoecida e sem rumo, onde a crise moral estabelecida gera a insatisfação do indivíduo que, busca um sentido para a futilidade da existência.
Émile Zola descreveu-a da seguinte maneira:


“Quando Madame Bovary apareceu, foi uma completa revolução literária. Teve-se a impressão de que a fórmula do romance moderno, esparsa pela obra colossal de Balzac, fora reduzida e claramente enunciada nas quatrocentas páginas de um único livro. Estava escrito o código da nova arte”.


Em 1867, Émile Zola edita “Téresè Raquin”, iniciando o Naturalismo, uma ramificação científica do Realismo. O escândalo provocado por “Thérèse Raquin” entre os críticos trouxe um resultado inesperado: serviu de propaganda aos ideais naturalistas do romance, colocando a recém-nascida escola literária em voga. Sob esse pretexto, a obra obteve uma nova edição no ano seguinte, acompanhada por um prefácio, no qual Zola defende as máximas do naturalismo literário: a necessidade de realizar uma análise científica minuciosa da alma humana, sem idealizações morais. Dessa maneira (nas palavras do próprio Zola) cada capítulo constitui o estudo de um caso curioso de fisiologia.


“Em Thérèse Raquin, eu quis estudar temperamentos e não caracteres. Aí está todo o livro. Escolhi personagens soberanamente dominados pelos nervos e pelo sangue, desprovidos de livre arbítrio, arrastados em cada ato de suas vidas pelas fatalidades da própria carne. Thérèse e Laurent são animais humanos, nada mais. Procurei acompanhar nesses animais o trabalho surdo das paixões, as violências do instinto, os desequilíbrios cerebrais ocorridos na seqüência de uma crise nervosa. (…) A alma está absolutamente ausente, concordo perfeitamente, uma vez que eu quis assim.” (do prefácio de Émile Zola)


Outros escritores da época passam a defender o mesmo ponto de vista. Champfleury, pseudônimo de Jules Hudson (1821-1888), escreve uma novela em que pretende expor a vida boêmia de seu tempo sendo maximamente fiel à vida como ela é, intitulada “Chien-caillou” (1847-1848) e outras semelhantes. Escreve ainda um manifesto, chamado “O Realismo”, publicado em 1857, cria um jornal para a divulgação e defesa das ideias do movimento e, junta-se a Courbet, apoiando a sua pintura. Mais tarde, Duranty (1833-1880), discípulo de Champfleury, funda em 1856 uma revista, intitulada “O Realismo”.


II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:


A segunda fase da Revolução Industrial iniciou-se em 1850. O processo de industrialização entrou num ritmo acelerado, envolvendo os mais diversos setores da economia, com a difusão do uso do aço, a descoberta de novas fontes energéticas, como a eletricidade e o petróleo, e a modernização do sistema de comunicações.
No aspecto social, estabeleceu-se um distanciamento maior entre o operariado (ou proletariado), vivendo em condições de miséria, e os capitalistas.
O mercado de trabalho, a princípio, absorvia todos os braços disponíveis. As mulheres e as crianças também eram atraídas, ampliando a oferta de mão-de-obra e as jornadas de trabalho oscilavam entre 14 e 18 horas diárias. Os salários, já insuficientes, tendiam a diminuir diante do grande número de pessoas em busca de emprego e da redução dos preços de venda dos produtos provocada pela necessidade de competição. Isso sem contar que as inovações tecnológicas, muitas vezes, substituíam inúmeros trabalhadores antes necessários à produção.


...E criam novas máquinas; eficientes que substituem a mão-de-obra do operariado.


Desemprego, miséria, mendicância, doença, prostituição: eis o painel do mundo ocidental da segunda metade do século XIX.
Todos esses fatores desembocavam em greves e revoltas. Os trabalhadores organizaram-se, então, em sindicatos para melhor defenderem os seus interesses.
No campo das ideias surgem várias correntes de pensamento, buscando a compreensão objetiva do homem e a sociedade: o racionalismo positivista de Augusto Comte; o determinismo de Taine; a psicanálise de Freud; o evolucionismo de Darwin e o socialismo de Marx.
As novidades da Revolução Industrial trouxeram muitas dúvidas. O pensador escocês Adam Smith procurou responder racionalmente às perguntas da época. Seu livro “A Riqueza das Nações” (1776) é considerado uma das obras fundadoras da ciência econômica.
Para o autor escocês, "o Estado deveria intervir o mínimo possível sobre a economia". Se as forças do mercado agissem livremente, a economia poderia crescer com vigor. Desse modo, cada empresário faria o que bem entendesse com seu capital, sem ter de obedecer a nenhum regulamento criado pelo governo. Os investimentos e o comércio seriam totalmente liberados. Sem a intervenção do Estado, o mercado funcionaria automaticamente, como se houvesse uma "mão invisível" ajeitando tudo. Ou seja, o capitalismo e a liberdade individual promoveria o progresso de forma harmoniosa.

“Para aqueles que entendem a filosofia como um documento de sua época, o positivismo de Auguste Comte representa um caso exemplar. Movido pelo otimismo que decorre da crença no progresso tecnológico, o positivismo desenvolveu um gigantesco esforço para tornar o homem consciente de seu destino histórico, profundamente comprometido com a vocação tecnocientífica do mundo moderno. Nesse sentido, Comte representa a sobrevivência e a afirmação do ideal iluminista adaptado à era industrial. (...) Para Comte, a filosofia não deve ser uma doutrina no sentido tradicional, isto é, não deve apresentar um corpo próprio de saber. Deve conter muito mais um sentido e uma orientação, e atuar como coordenadora do sistema geral de conhecimento. (...) A filosofia, portanto, não tem de se ocupar da reinvenção do saber, mas sim de sua classificação e ordenação.” (Abrão, Bernadette Siqueira. História da Filosofia)


Em outras palavras, os positivistas abandonaram a busca pela explicação de fenômenos externos, como a criação do homem, por exemplo, para buscar explicar coisas mais práticas e presentes na vida do homem, como no caso das leis, das relações sociais e da ética.
O positivismo teve fortes influências no Brasil, tendo como sua representação máxima, o emprego da frase positivista “Ordem e Progresso”, extraída da fórmula máxima do Positivismo: "O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim", em plena bandeira brasileira. A frase tenta passar a imagem de que cada coisa em seu devido lugar conduziria para a perfeita orientação ética da vida social.


Hypolyte Taine (1828-1893) um dos discípulos de Comte tornou-se conhecido pelo pensamento determinista, segundo que, tudo que existe tem uma causa e toda vida humana social se explicaria por três fatores: a RAÇA; a grande força biológica dos caracteres hereditários determinantes do comportamento do indivíduo; o MEIO, pelo qual o indivíduo se acha submetido aos fatores geográficos e, o MOMENTO pelo qual o indivíduo é fruto da época em que vive.
Émile Zola afirmou: “o romance experimental é uma consequência da evolução científica do século; cabe-lhe continuar e completar a fisiologia...; ele substitui o estudo do homem abstrato, do homem metafísico, pelo estudo do homem natural, submetido às leis físico-químicas e determinado pelas influências do meio”.
A psicanálise surgiu com Sigmund Freud (1856-1939) e sua principal novidade encontra-se na hipótese do inconsciente e na compreensão da natureza sexual da conduta.
O termo psicanálise possui três sentidos: método interpretativo (hermenêutica), uma forma de tratamento psicológico (psicoterapia) e uma teoria, ou seja, um conhecimento que o método produz.
Para a psicanálise, todos os nossos atos têm uma realidade exterior, representada na nossa conduta e, significados ocultos que podem ser interpretados:
A energia que preside os atos humanos é de natureza pulsional, e Freud põe em relevo a energia sexual chamada libido. (...) O reservatório das forças pulsionais chama-se id. No entanto, para viver em comunidade, o homem precisa controlar e regular os desejos, adiando a satisfação de alguns e excluindo definitivamente outros...Com isso se forma a consciência moral ou superego. Cabe ao ego maduro estabelecer o equilíbrio entre as forças antagônicas, a saber, o id, regido pelo “princípio do prazer”, e o superego, adequando-se ao “princípio da realidade”.
Charles Darwin (1809-1882) publicou em 1859, “Origem das Espécies”, causando uma grande polêmica na época. A teoria de que o homem é o produto da evolução natural da espécie e demonstrando cientificamente que os seres humanos e os macacos têm um histórico em comum, põe em cheque a existência de Deus.
O evolucionismo através das palavras de Darwin prega que:

“Ora, enquanto o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda!”


A teoria da seleção natural de Charles Darwin foi uma tentativa de explicar a diversidade de espécies de seres vivos através da evolução. Com a teoria da evolução em mente, diversos cientistas criaram correntes na ciência que defendiam a tese das diferenças raciais entre os seres humanos, da importância de um controle sobre a demografia humana, da possível inferioridade dos povos negros, principalmente no que se refere à inteligência, a alta taxa de criminalidade e o combate contra a miscigenação. De acordo com esse pensamento, existiriam características biológicas e sociais que determinariam que uma pessoa é superior à outra e que as pessoas que se enquadrassem nesses critérios seriam as mais aptas. Geralmente, alguns padrões determinados como indícios de superioridade em um ser humano seriam o maior poder aquisitivo e a habilidade nas ciências humanas e exatas em detrimento das outras ciências, como a arte, por exemplo, e a raça da qual ela faz parte.
Karl Heinrich Marx inverte o processo do senso comum que pretende explicar a história pela ação dos “grandes homens”, ou, às vezes, até pela intervenção divina. Para o marxismo, no lugar das ideias, estão os fatos materiais; no lugar dos heróis, a luta de classes. Sem a inspiração nestas três correntes, admite o próprio Marx, a elaboração de suas ideias teria sido impossível. São elas: a dialética, a economia política inglesa e o socialismo. A ele importava saber quem produzia, como produzia, com que produzia, para quem produzia e assim por diante. Em segundo lugar uma vez que a base filosófica de todo o pensamento marxista (e, portanto, também de sua visão de história) era o materialismo dialético, Marx queria mostrar o movimento da história das civilizações enquanto movimento dialético. Examinando o desenvolvimento histórico da Humanidade, pode-se facilmente notar que a filosofia, a religião, a moral, o direito, a indústria, o comércio etc., bem como as instituições onde estes valores são representados, não são sempre entendidos pelos homens da mesma maneira.








“Em outras palavras, o que Marx explicitou foi que, embora possamos tentar compreender e definir o homem pela consciência, pela linguagem, pela religião, o que fundamentalmente o caracteriza é a forma pela qual reproduz suas condições de existência. (...) Portanto, para estudar a sociedade não se deve, segundo Marx, partir do que os homens dizem, imaginam ou pensam, e sim da forma como produzem os bens materiais necessários à sua vida. Analisando o contrato que os homens estabelecem com a natureza para transformá-la por meio do trabalho e as relações entre si é que se descobre como eles produzem sua vida e suas idéias”.(Aranha, Maria Lúcia de Arruda, Martins, Maria helena Pires, Filosofando-Introdução à Filosofia)


III – REALISMO-NATURALISMO EM PORTUGAL:


A produção literária do período compreendido entre 1850 e 1870, em Portugal, não é fértil em originalidade, sendo frequentemente acusada de explorar um sentimentalismo exacerbado ou fatalista.
Em Lisboa, Antônío Feliciano de Castilho encabeça o grupo de escritores ultrarromânticos, defensores de uma produção literária acusada de alheamento das realidades circundantes, cuja temática melancólica e soturna dava um particular realce à morte, à saudade e ao amor infeliz, num estilo, predominantemente, melodramático e rebuscado. É contra esta situação de “decadência romântica”, ao nível literário e cultural, que um grupo de jovens acadêmicos de Coimbra, cerca de 1865, dos quais se destacam Antero de Quental, Eça de Queiros, Oliveira Martins, entre outros, contesta este tipo de literatura que apelidam de oficial, conservadora e "provinciana".
Esses intelectuais defendem uma "revolução cultural", propondo-se repensar toda a cultura portuguesa desde as suas origens e contribuir para uma transformação das ideologias políticas e das estruturas sociais portuguesas. São de opinião de que cabe à literatura uma intervenção crítica na vida da coletividade, o que havia sido ignorado pelos ultrarromânticos.
Em 1861, Antero funda a “Sociedade do Raio”, uma associação que agrupa por volta de duzentos estudantes de várias faculdades de Coimbra, com o objetivo de instalar a inquietação em meio ao marasmo acadêmico. Em outubro de 1862, escolhido pelos estudantes para saudar o Principe Humberto da Itália, faz o elogio da Itália livre e de Garibaldi, num gesto desafiador cheio de audácia e rebeldia.
Ainda, em 1863 a “Sociedade do Raio” irá raptar o Reitor Basílio Alberto, exigindo sua demissão.
Em 1865, Quental recebe críticas ferinas de Castilho na estreia de seu primeiro livro de versos, “Odes modernas”, onde se intitula: poeta “socialista”, defensor de ideias reformistas e revolucionárias.
Simultaneamente, Pinheiro Chagas, poeta estreante simpático ao Romantismo moribundo, escreve o “Poema da mocidade” e procura o apoio de Antônio Feliciano de Castilho. Este, em longa carta ao editor da obra, publicada como posfácio da edição que dela se fez, elogia o fiel discípulo e critica os jovens de Coimbra, especialmente Antero e Teófilo Braga.


“Deixando de parte, por agora, Braga e Quental, de que, pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo nem atino para onde vão, nem avento o que será deles afinal.”


Antero, em sua condição de líder do grupo atacado, rebate as críticas num pequeno texto intitulado “Bom Senso e Bom Gosto”, no mesmo ano de 1865. Estava iniciada a polêmica que ficou conhecida pelo título do texto de Antero, ou por “Questão Coimbrã”.


BOM-SENSO E BOM-GOSTO
CARTA
AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
POR
Anthero do Quental
NOVEMBRO DE 1865


BOM-SENSO E BOM-GOSTO
COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1865


Exmo Sr.


"Acabo de ler um escripto de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.
Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos.
Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como ninguem avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso tambem fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de precauções, de reticencias—ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das miserias d'uma posição, que não pretendo, posso fallar nas miserias, nas ambições, nas vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente.
A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, accresce um outro, e mais grave e mais obrigatorio, porque é um dever, uma necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ella que me manda fallar. Não que a justiça e a verdade se offendessem com v. ex.ª ou com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não têm olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das infimas questiunculas litterarias d'um ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal.
Não é isso o que as offende. Mas as idéas que estão por de trás dos homens; o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam; uma grande doença moral accusada por uma pequenez intellectual; as desgraças, tanto para reflexões lamentosas, d'esta terra, reveladas pelas miserias, tão merecedoras de despreso, dos que cuidam dominal-a; isso é que afflige excessivamente a razão e o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das personalidades para a elevar até á altura d'uma questão de principios, e que dá ás ridiculas chufas, que entre si trocam uns tristes litteratos, todo o valor d'uma discussão de philosophia e de historia.
Sim, ex.mo sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a intelligencia dos habeis, dos prudentes, dos espertissimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes—a boa-fé.
Á luz d'ella, porem, eu hei de sempre ver uma pessima acção, digna de toda a importancia d'um castigo, nas impensadas e infelizes palavras de v. ex.ª, dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento. E se eu nem sequer me daria ao incommodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a deshonesta acção de v. ex.ª
Porque é uma acção deshonesta. O que se ataca na eschola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque ha malevolos innocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião litteraria menos provada, uma concepção poetica mais atrevida, um estylo ou uma idêa. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se á independencia irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aosmestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da chancelharia dos grãos-mestres officiaes. A guerra faz-se á impiedade d'estes hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos papas e pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e ser só responsavel por seus actos e palavras...
Agora quem move estes ridiculos combates de phrases é a vaidade ferida dos mestres e dos pontifices; é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam—nós só lhe queremos puchar as orelhas!
Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual.
V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime—commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não decopiar. Por que? Porque todos os outros crimes eram contra as idêas: haveria sempre um perdão para elles. Mas esta falta era contra as pessoas: e essas taes são imperdoaveis. Innovar é dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: «ha alguma cousa que vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do circulo que se vê com os vossos oculos de theatro; ha mundo maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é intoleravel! Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! Contra isto, sim, ás armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!...
V. ex.ª fez-se chefe d'esta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pezames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, desprézo e esqueço, como escriptor é que não posso calar-me; porque atacar a independencia do pensamento, a liberdade dos espiritos, é não só offender o que ha de mais sancto nos individuos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o patrimonio sagrado da humanidade—o futuro.—É seccar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da arvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e socego. E atrophiar as idêas e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.
O contrario d'isto tudo é que é a bella, a immensa missão do escriptor. É um sacerdocio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel das idêas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independencia de espirito, toda a despreoccupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de auctoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da náo por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração livre de vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o logar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e illustres, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior d'uma alma que só vê e busca o bem, o bello, o verdadeiro.
Este é o escriptor, o poeta, o apostolo. Se o obrigassem a respeitos convencionaes, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e as costas para entrar a porta do pantheon litterario; elle, o pobre, ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem força propria, servo de alheias idêas e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias d'alma. Como se havia elle pois erguer, entre seus irmãos, tão alto que seus olhos fossem uns como pharoes para todos os outros olhos, a sua fronte uma como montanha de luz; tão alto que as palavras de sua bocca cahissem sobre as cabeças como uma chuva benefica e fecundante? Seria, depois das provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da iniciação no gremio dos senhores, seria um aleijão e não gigante, um aborto em vez de heroe e, em vez de sobr'exceder a todos com a fronte, andaria sumido entre elles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Elle, que não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia elle allumiar o dos outros? Elle, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade? Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações?
As grandes, as bellas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, bello e grande. Mas a condição da grandeza, da belleza, da bondade, a primeira e indispensavel condição, não é o talento, nem a sciencia, nem a experiencia: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independencia da alma e a dignidade do pensamento e do caracter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como illustres, nem á opinião, á critica sem sciencia nem consciencia das turbas, do maior numero, deve pedir conselhos e approvação, mas só ao seu entendimento, á sua meditação, ás suas crenças. Nesta eschola do trabalho, da dignidade, das altas convicções, se formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sêde de verdade, de consolações, de ensinos para a intelligencia e confortos para o coração.
No peito dos outros, dos que andam de capella em capella na lida afanosa de incensar cada dia todos os idolos, dos que fazem da gloria uma bastilha para aventureiros levarem de assalto, e não pulpito aonde se suba com respeito e amor, no peito d'esses não habita mais do que ambição, vaidade, endurecimento e miseria. Esses lisongeiam os grandes; e os grandes dão-lhes a mão para que subam, e desprezam-nos depois. Lisongeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lançam-lhes no regaço um pouco de ouro e algum applauso de momento, e depois passam e esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada vicio humano um capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda corrompida para mais ninguem serve. Emfim, nos quinze ou vinte annos em que dão que falar ás gazetas, aos botequins, aos gremios, a todos os vadios, a todos os futeis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo quanto não seja a satisfação do que ha no homem de mais pequeno—a vaidade e o interesse.
Para os outros a obscuridade, e a miseria muita vez—mas a estima dos melhores entre os homens pelo espirito, e, o que excede tudo, a posse d'uma consciencia superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura. As idêas serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas immensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a augmentar o seu bem proprio. Vivem na região das bençãos, escutando as palavras da bôcca invisivel, e com os echos d'essa voz celeste compõem os hymnos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes. Não pertenceram a corrilhos; não elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles; não incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios. Foram honrados. Foram simples.
A estes taes chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são originaes e dizem sempre alguma cousa nova á nossa curiosidade de saber. Porque dão com a elevação das vidas confirmação á sublimidade dos escriptos. Porque são tão poeticos como os seus poemas. Porque vão adiante abrindo á luz e ao amor novos horisontes. Porque não conhecem ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do genio e o coração da innocencia. É por isso tudo que lhes chamo poetas.
Os outros adoram a palavra, que illude o vulgo, e desprezam a idêa, que custa muito e nada luz. São apostolos do diccionario, e têm por evangelho um tractado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção litteraria, porque se presta á declamação poetica, mas practicam o egoismo por indole e por vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque são uns sophismas que nos mostram a pequenez e a má fé aonde as apparencias são todas de nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. Repetem o que está dicto ha mil annos, e fazem-nos duvidar se o espirito humano será uma esteril e constante banalidade. São os enfeitadores das ninharias luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem alguma cousa. São os idolos litterarios da multidão que mal sabe ler. São os philosophos queridos da turba que nunca pensou. São, emfim, genios no Brasil como v. ex.ª
Estes taes escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas esteril para o espirito. Sôa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessarias outras e melhores obras.
Mas, se já alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrificio do eu ás tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia de hoje, da edade de transformação dolorosa, de scepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso seculo. Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas idêas. Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. O futuro não apparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e ás abnegações da consciencia. Ha toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrahir uma humanidade viva, sã, crente e formosa.
Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sahirão esses heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras opulentas? dos corrilhos do elogio-mutuo? Sahirão as aguias das capoeiras? Saltarão as idêas salvadoras do choque das maledicencias e dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horacio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam classicos? E os Socrates e os Epictetos descerão para as suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das prebendas, das explorações?
Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito humano.
Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma; requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos semsabores; não é com idyllios grotescos sem expressão nem originalidade, com allusões mythologicas que já faziam bocejar nossos avós; com phrases e sentimentos postiços de academico e rhetorico; com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas das algaravias mysticas de frades estonteados; com banalidades; com ninharias; não é, sobre tudo, lisongeando o máo gosto e as pessimas idêas das maiorias, indo atrás d'ellas, tomando por guia a ignorancia e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as sciencias, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.
Mas fóra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes, é o nevoeiro, é o methaphysico, é o inattingivel—diz v. ex.ª
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das Sciencias, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das idêas. É o Instituto de França, é a Academia Scientifica de Berlim, são as escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de physica, de biologia, de todas as sciencias e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incomprehensiveis e ridiculas, são methaphysicas tambem. As tres grandes nações pensantes são risiveis deante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes genios modernos são grotescos e despreziveis aos olhos baços do banal metrificador portuguez.
O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creação original, immensa da nossa edade, não passa de confusão e embroglio desprezivel para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Littré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a philosophia allemã, a critica franceza, o positivismo, o naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas creações da alma moderna, o espirito mesmo da nossa civilisação.... que se fustiga tudo isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma sem-cerimonia com que elle dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do Gremio, da Revista Contemporanea!
Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova eschola historica; com a renovação philosophica; com os pensadores; com os sabios; com os genios; vai com a França; vai com a Allemanha—mas que importa? não vai com o sr. Castilho! não vai com o novo methodo repentista! não vai com o moderno folhetim portuguez!
O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da natureza—tira-te do meu sol!—O mythologo do diccionario da fabula diz ao profundo descubridor da Symbolica—és um ignorante!—A rethorica portugueza diz á sciencia, ao espirito moderno—cala-te d'ahi, papelão!
É que tudo isto não passa de idêas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho tomou á sua conta, que não deixa em paz, que nos prometteu destruir... é a methaphysica... é o ideal...
O ideal! palavra mystica; de gothica configuração; quasi impalpavel; espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repelle; que desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo adora e de que se riem os localistas; que não chega para um folhetim e que enche o maior poema; immensa aos olhos dos que a vêem com os olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; palavra pessima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de litteratos horacianos... decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!
O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberanissimo bom senso... tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras—ideal.
Por todos estes motivos ella é sobremaneira odiavel; ella é desprezivel por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, pulverisando esse miseravel ideal.
Elle, com effeito, nada do que elle é ou do que vem d'elle, serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nella procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideaes ou com idêas, mas só com realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o applauso das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas lettras; para merecer os encomios dos grammaticões e o assombro dos burguezes; para ser das academias; das arcadias; commendador; citado pelos brasileiros retirados do commercio; decorado pelos directores de collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero constitucional.
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de instrucção publica, um Christo, um Socrates, um Homero...
Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do ideal; de o pôr fóra de casa a bofetões; de o bannir das suas obras, que não haver por lá nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal—mas começam por letra pequena. As suas criticas não têm idêas—mas têm palavras quantas bastem para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos não são methaphysicos, não precisam d'uma excessiva attenção, de esforços de pensamento para se comprehenderem—e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas obras todas ha uma falta tão completa d'essas incomprehensibilidades, que deve pôr muito á sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem idêas—boa, excellente receita para não cahir nas nebulosidades do ideal. Os seus escriptos são optimos escriptos—menos as idêas: e é v. ex.ª um grande homem—menos o ideal.
Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem cáe muito nesse defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um barbaro como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um máo poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakspeare, nem Hugo—mas é amigo do sr. Viale, que falla latim como Mevio e Bavio.
Mas, ex.mo sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na Roma antiga, é que nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades. Ellas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o mais a que as idêas têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.
Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz d'essa má acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, por causa das suas idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um espectaculo raro—o espirito e a consciencia humana triumphando da materia e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei sómente é que isto é sublime......................
Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª


Coimbra 2 de Novembro de 1865.
Nem admirador nem respeitador
Anthero do Quental.


A situação de Portugal, no fim do século XIX, é a de um país caracterizado por um liberalismo de fachada, uma modernização cultural e política que não correspondem ao atraso econômico do país devido ao profundo conservadorismo das instituições portuguesas.
Por volta de 1870, e tendo concluído os estudos universitários em Coimbra, o grupo se reencontra em Lisboa e passa a travar debates acerca da renovação cultural portuguesa. A volta de Antero de Quental, que estivera na França, na América e na ilha de São Miguel, dinamiza essas reuniões, que passam a contar com leituras sistematizadas, principalmente de Proudhon e fundam o “Cenáculo”, um grupo que se reunia para conversar sobre Portugal, sua história, sua sociedade e sua cultura.




Como resultado desse esforço, resolvem abrir suas ideias para o grande público e organizam as “Conferências Democráticas do Casino Lisbonense”.
Essas conferências iniciaram-se em 22 de maio de 1871, no rés-do-chão do edifício, que logo passaram a realizar-se no amplo salão do 1º andar. O Casino Lisbonense encerrou em 1876, passando depois a estabelecimento de estofador.
Do programa das Conferências constavam os seguintes dizeres:


“Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.”


Assinaram este programa, Adolfo Coelho, Antero de Quental, Augusto Soromenho, Augusto Fuschini, Eça de Queirós, Germano V. Meireles, Guilherme de Azevedo, J. Batalha Reis, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Salomão Saragga e Teófilo Braga.





Antero de Quental fará as duas conferências iniciais da série.
Na primeira, proferida a 22 de maio de 1871, abre o ciclo de palestras falando sobre “O espírito das conferências”, que pode ser sintetizado na intenção de agitar ideias que fossem capazes de acertar o passo de Portugal, ajustando o país ao ritmo da cultura europeia.


“Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social.
(...)
Abrir uma tribuna, onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política do povos;
Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada;
Procurar adquirir a consciência dos fatos que nos rodeiam, na Europa;
Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;
Estudar as condições da transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa;
Tal é o fim das Conferências Democráticas.”


A 12 de Junho de 1871, cabia a Eça de Queirós proferir a 4ª Conferência, subordinada ao título “A afirmação do Realismo como nova expressão de Arte”.
Eça principiou por integrar a sua Conferência no espírito revolucionário, impondo-se falar do que a revolução entendia por princípio estético.


“Mas o que é arte do século XIX? É a falta de unidade. Mais: - é a fuga da sua época, é o falseamento da sua missão. É arte falsa.”


(...) “Começa-se a reagir contra o falso, pintando a realidade. Com o despertar do espírito público coincide o aparecimento do Realismo.”
(...) “A arte deve visar a um fim moral: deve corrigir e ensinar.
Como? – Fazendo a crítica dos temperamentos e dos costumes, tornando-se uma auxiliar da ciência e da consciência.”
(...) “Que é, pois, o Realismo?


1º. O Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. (...)
2º. O Realismo deve proceder pela experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos caracteres. (...)
3º. O Realismo deve ter o ideal moderno que rege as sociedades – isto é: a justiça e a verdade.”
(...) “Realismo é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas; é a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos.
É a análise com o fito na verdade absoluta.
Por outro lado, o Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do caráter.
É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para condenar o que houve de mau na nossa sociedade.”

A 5ª Conferência foi proferida por Adolfo Coelho, a 19 de junho, sobre “O ensino”, onde preconiza a separação do Estado e da Igreja e a liberdade de consciência, atacando o catolicismo.

A 6ª Conferência, marcada para o dia 26 de junho e que se chamaria “Os historiadores críticos de Jesus”, não chegou a se realizar. Surge a probição governamental das Conferências, assinada pelo Marquês d’Ávila e Bolama. Justificou-se a proibição, afirmando-se que os conferencistas “expõem e procuram sustentar doutrinas e proposições que atacam a religião e as intituições políticas do Estado.”

“(...) doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas do Estado; e sendo certo que tais fatos, além de constituírem um abuso do direito de reunião, ofendem clara e diretamente as leis do reino e o código fundamental da monarquia, que os poderes públicos têm a seu cargo manter e fazer respeitar.”


Apesar da censura, o ânimo dos jovens revolucionários não diminuiu. Em vez disso ganhou a força da coisa proibida e produziu curiosidade e novas adesões. Por isso pode-se dizer que o ano de 1871 marca a vitória decisiva das ideias realistas em Portugal.
Vários panfletos e artigos em periódicos foram editados em protesto pelo fechamento do cassino. Num deles, Eça de Queirós ataca a arbitrariedade da iniciativa:





“Mas que se faça calar, pondo-lhe a mão na boca, a ciência, a crítica literária, a história, contra isso, do fundo deste livro, pequeno mas honrado, em nome do respeito que nos devemos a nós mesmos, e do exemplo que devemos a nossos filhos, protestamos e apelamos, não para a Europa, o que seria sofrivelmente inútil, mas para o próprio sr. Marquês de Ávila, para uma coisa que ele deve ter debaixo da sua farda, uma coisa que se não cala, ainda quando em redor a intriga e o interesse fazem um ruído horrível – a consciência!”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A LITERATURA NO VESTIBULAR: UNICAMP E FUVEST 2013/2014/2015

Como dar conta dos nove livros de leitura obrigatória exigidos para os próximos vestibulares da FUVEST e da UNICAMP?
Como formar leitores de textos literários e não literários, identificar, analisar e interpretar as nove obras selecionadas, em seus contextos histórico-culturais; sua arquitetura; sua organização e em suas especificidades enquanto obras de arte, dialogando, como ferramenta para a construção de conhecimentos nas mais diferentes áreas e disciplinas?
Essas questões angustiam os estudantes que vão enfrentar as provas de literatura das referidas universidades.  
O blog TRAVESSIA POÉTICA não pretende substituir a leitura integral das nove obras da lista unificada da FUVEST e UNICAMP.  Seu escopo principal é proporcionar aos vestibulandos uma contextualização das obras e seus referidos autores, situando-os no tempo e no espaço, facilitando-lhes a identificação da estética a que pertencem.  Pretende ainda apresentar uma orientação que facilite a leitura e a compreensão dos textos, tanto pela inclusão de notas, comentários, glossário, análise crítica literária quanto pelo direcionamento do olhar e da atenção para que possam superar algumas dificuldades específicas de certas obras. Além de provocar a fixação de tudo o que é necessário para que o vestibulando tenha condições de resolver com tranquilidade a prova de Literatura.

 LISTA DE LEITURA OBRIGATÓRIA DOS VESTIBULARES FUVEST/UNICAMP 2013/2014/2015:

ROMANTISMO EM PORTUGAL:
"Viagens na minha terra", Almeida Garrett

ROMANTISMO NO BRASIL:
"Til", José de Alencar
"Memórias de um sargento de milícias", Manuel Antônio de Almeida

REALISMO EM PORTUGAL:
"A cidade e as serras", Eça de Queirós

REALISMO NO BRASIL:
"Memórias póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis

NATURALISMO NO BRASIL:
"O cortiço", Aluísio de Azevedo

MODERNISMO NO BRASIL/POESIA:
"Sentimento do mundo", Carlos Drummond de Andrade

MODERNISMO NO BRASIL/PROSA:
"Vidas Secas", Graciliano Ramos
"Capitães da areia", Jorge Amado

“VIAGENS NA MINHA TERRA”, ALMEIDA GARRETT

Segundo os críticos Antonio José Saraiva e Oscar Lopes, “neste livro – misto de diário, literatura de viagens, reportagem e ficção, o escritor português narra a história de um rapaz (Carlos) que se apaixona de um modo sucessivo e intenso por várias mulheres e se sente incapaz de estancar este constante fluir da vida amorosa, de fixar e estabilizar a sua personalidade afetiva. (...) Ninguém – continuam os críticos -, antes de Garrett, na ficção portuguesa, entrara tão sutilmente na análise do que há de convencional, fictício ou autêntico na vida sentimental, na confusão da verdade e da mentira, de vida atual e de sobrevivência que é o todo afetivo de cada indivíduo; e ninguém pôs em termos agudos o problema do desgarrar da personalidade na mudança de tudo, ligando-o, ao mesmo tempo, ao ceticismo superveniente a uma causa generosa que degenera: Carlos descrê de um amor verdadeiro, ao mesmo tempo que descrê da revolução...”
O romance “Viagens na minha terra” foi composto sob a forma de folhetim, bem ao gosto romântico da época. Sua narrativa, apesar de grande base descritiva, dos adjetivos em excesso, é saborosa, envolvente e apresenta temas essencialmente românticos como: natureza ativa e confessional; heroísmo; nacionalismo; lirismo amoroso e morte.
Há em Garrett um observador minucioso de fatos, excluindo-se o tom melodramático tornando-se um antecipador de Eça de Queirós. O autor usa um estilo extremamente vivo, com giros e expressões coloquiais – um estilo que se molda ao pensamento no seu fazer-se, apto a sugerir leves emoções, associações fugidias, estados de devaneio, os meandros duma nova sensibilidade.  
Nesse romance, Garrett não está concentrado em narrar uma história, mas, ao contrário, parece estar-se afastando da história, para contá-la, supõe-se, mais tarde. Esta técnica de suspensão da narrativa, em favor de comentários e opiniões variados, sob o ritmo da emoção crítica e da fineza intelectual, denomina-se digressão.
Desse modo, relata assuntos sobre economia, geografia, política, literatura, arquitetura, justiça, filosofia, religião, história ou costumes sociais, sem, no entanto, tirar a unidade do livro. Pois eles convergem para dois tipos de emoção alternantes: a da observação terna e enlevada, e a do ceticismo cultural, tratado geralmente com humor crítico. É com ternura que Garrett se lembra de algumas paisagens de sua terra, das velhas histórias ligadas ao folclore ou que ele nos fala de poetas prediletos, como Homero, Virgílio, Dante, Camões, Goethe e outros. Mas é com pessimismo político que ele vê as últimas gerações de portugueses, envolvidos pela mentalidade lucrativista.


“TIL”, JOSÉ DE ALENCAR

A obra Til” recebe da crítica a denominação de “romance social regionalista”.
A característica mais acentuada no romance é apresentar uma supervalorização do interior do país, no século XIX; a vida bucólica nas fazendas paulistas, na época do café e a descrição de costumes interioranos. No entanto, o mais precioso nessa obra é o poder de imaginação e a capacidade de construir narrativas bem estruturadas.
O espaço, embora ocupe lugar de destaque nesse romance alencariano, uma doce e leve narrativa tece regiamente a trama que envolve os inocentes e despreocupados personagens Berta, Miguel, Linda e Afonso, que são adolescentes e protagonistas de vários episódios sem grandes consequências.
As personagens são heróis regionais puros, sensíveis, honrados, corteses, muito parecidos com os heróis dos romances indianistas.  Mudavam as feições, mudava a roupagem, mudava o cenário. Mas, na criação de todas essas personagens, Alencar perseguia o mesmo objetivo: chegar a um perfil do homem essencialmente brasileiro.
As personagens são planas, excetuando-se Jão Fera, capanga profissional com desejo de vingança.


“MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS”, MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA

Publicado anonimamente em folhetins semanais no jornal, Correio Mercantil do Rio de Janeiro, de 27 de junho de 1852 a 31 de julho de 1853, com a autoria atribuída a “um brasileiro”, ganhando logo depois, forma de livro em dois volumes: o primeiro, em 1853 e o segundo, em 1854. A nova edição passou praticamente despercebida, e a obra caiu no esquecimento por muitos decênios, até que a renovação modernista veio a fazer-lhe justiça.
A obra é composta de 48 capítulos (a novela está dividida em duas partes bem distintas: a primeira com 23 capítulos e a segunda com 25), a maioria deles muito curtos cujos títulos, também pequenos, resumem a ação ou o conflito principal narrado no capítulo. Os episódios são quase autônomos, só ligados pela presença de Leonardo, dando à obra uma estrutura mais de novela que de romance.
Segundo Eliane Zagury, tendo sido composta para ser lida de forma periódica, no folhetim, a narrativa, apresenta alguns traços técnicos típicos, derivados das narrativas medievais de leitura periódica coletiva, como os enredos paralelos e alternados, que ainda hoje são à base da telenovela. E, cada vez que o autor muda o foco da narrativa, faz uma chamada ao leitor, quase a lembrá-lo de que, apesar de tudo, aquele ainda é o mesmo folhetim.
Enquanto em Macedo desfilavam-se mocinhos e donzelas idealizadas pelos salões da corte e nos saraus, Manuel Antônio de Almeida contrasta com os romances românticos de sua época e possui traços que anunciam a literatura modernista do século XX, por várias razões. Primeiro, por ter como protagonista um herói malandro (Leonardo é o primeiro malandro da literatura brasileira), ou um “anti-herói”, caracterizado como vagabundo, mentiroso e que alcança seus ideais não pela hombridade, mas pelo “jeitinho” brasileiro do favoritismo, na opinião de alguns críticos. Segundo, pelo tipo especial de nacionalismo que o caracteriza ao documentar traços específicos da sociedade brasileira, em questão a do Rio de Janeiro, ainda antes da Independência, no tempo do rei D. João VI e a família real portuguesa no Brasil, fugindo de Napoleão,  com seus costumes, as festas populares, folclóricas e religiosas, dando um caráter documental da época, porém descritas com humor e sátiras, os comportamentos e os tipos sociais de um estrato médio da sociedade. Não há idealização das personagens, mas observação direta e objetiva. Presença de camadas inferiores da população (barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, "saloias", designados pela ocupação que exercem). As personagens não são heróis nem vilões (praticam o bem e o mal) impulsionadas pelas necessidades de sobrevivência (a fome, a ascensão social), até então ignorado pela literatura. Terceiro, pelo tom de crônica que dá leveza e aproxima da fala ao estilo jornalístico.
Há, por parte dos críticos literários de hoje, certa unanimidade em torno das Memórias, que aponta o seu caráter ímpar em relação aos demais livros pertencentes ao Romantismo brasileiro, o criador de Leonardo, andando aparentemente à margem da preocupação nacional, nos apresenta um livro que, à primeira vista, escapa da lógica romântica e pontua alguns problemas do país, colocando esse livro numa posição destoante em relação ao próprio Romantismo.
Antonio Candido no seu famoso estudo sobre as Memórias, em “Dialética da Malandragem”, afirma que o livro de Manuel Antônio de Almeida é talvez o único livro em nossa literatura do século XIX que não exprime uma visão de classe dominante. A obra retrata a luta de uma classe social que está em posição de intermediária: de um lado, ela se vê despida de qualquer poder de mando, atividade praticamente exclusiva à elite senhorial; e, de outro, se vê distante da noção de trabalho, já que o trabalho era “obrigação” do escravo.
Manuel Antônio de Almeida, escrevendo em meados do século, já no Segundo Império, olhava para o passado de sua cidade, no início do século, com o interesse intensificado pela distância, pois entre os dois momentos o Rio e seus habitantes tinham passado por transformações significativas.
O leitor acompanha o crescimento do herói com sua infância rica em travessuras, a adolescência com as primeiras ilusões amorosas e aventuras, e o adulto, que, com o senso de responsabilidade, que essa idade exige, vai-se enquadrando na sociedade, o que culmina com o casamento.


“A CIDADE E AS SERRAS”, EÇA DE QUEIRÓS

Publicado em 1901, no ano seguinte ao da morte de Eça de Queirós, o romance “A cidade e as serras, foi desenvolvido a partir da ideia central contida no conto Civilização, datado de 1892.
É um romance denso, ao longo do qual Eça de Queirós ironiza ferrenhamente os males da civilização, fazendo elogios aos valores da natureza. Nela o escritor relata a travessia de Jacinto de Tormes, um ferrenho adepto do progresso e da civilização - da cidade para as serras. Ele troca o mundo civilizado, repleto de comodidades provenientes do progresso tecnológico, pelo mundo natural, selvagem, primitivo e pouco confortável, no sentido dos bens que caracterizam a vida urbana moderna, mas onde encontra a felicidade, mudando radicalmente de opinião.
A obra preconiza uma relação entre as elites e as classes subalternas na qual aquelas promovessem estas socialmente, como faz Jacinto ao reformar sua propriedade no campo e melhorar as condições vida dos trabalhadores.
A cidade e as serras” é um romance composto por 16 capítulos que podem ser divididos em duas partes: a primeira parte é formada pelos capítulos de 1 a 7 e metade do oitavo (a cidade); e a segunda parte vai de metade do oitavo capítulo até o final do livro (as serras).
Narrado em primeira pessoa, como a maioria dos romances de Eça de Queirós, há um narrador-personagem, Zé Fernandes, o qual não se confunde com o protagonista da obra, Jacinto de Tormes.
É um narrador-testemunha, pois além de ser personagem da história, ele conta o que vê e sobre o que ficou sabendo e o que aconteceu.
“Segundo Norman Friedman, o narrador-testemunha narra em 1ª pessoa, mas é um “eu” já interno à narrativa, que vive os acontecimentos e, portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímil.”
O importante é observar que tudo o que foi narrado, foi selecionado pela memória do eu-narrativo (Zé Fernandes) a partir da sua memória dos fatos e da sua subjetividade. Portanto, todas as personagens, as paisagens e os acontecimentos são apresentados com base nas opiniões desse narrador.
A questão espacial nessa narrativa é de suma importância. Na primeira parte da obra, nos é apresentada a grande Cidade - Paris (o boulevard; o Bosque de Bolonha; Montmartre; a Avenida dos Campos Elíseos) e a partir do Cap. VIII, o Baixo Douro, as Serras (Tormes).


“MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS”, MACHADO DE ASSIS

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um romance escrito  a princípio “aos pedaços”, como escreve o próprio Machado de Assis, desenvolvido em folhetim, de março a dezembro de 1880, Revista Brasileira, para, no ano seguinte, ser publicado como livro, pela então Tipografia Nacional.
De acordo com o próprio Machado, à época da 4ª edição do livro, o volume publicado não recebeu grandes modificações ou retificações. Os fragmentos publicados na Revista Brasileira foram corrigidos em vários lugares pelo autor. Quando teve que o rever para a terceira edição, "emendei alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim composto, sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público", escreveu ele. As modificações mais significativas que ocorreram da passagem de folhetim para livro publicado tenham sido somente a introdução de um preâmbulo, assinado por Brás Cubas e denominado "Ao Leitor", e substituição de uma epígrafe retirada de uma comédia de Shakespeare pela dedicatória ao “primeiro verme que roeu as frias carnes do meu cadáver”. Também acredita-se que o principal trabalho de revisão de Machado de Assis foi focar-se no início e no final do livro, as duas partes onde notam-se "recursos criativos destinados a abalar várias das convenções vigentes na prosa de ficção da época."
A estrutura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” tem uma lógica narrativa surpreendente e inovadora. A sequência do livro não é determinada pela cronologia dos fatos, mas pelo encadeamento das reflexões do personagem. É uma narrativa dialogicamente estruturada, em que o leitor é fundamental, pois há um intenso processo de comunicação com ele, como se ele desempenhasse um papel no texto. Assim, o autor compartilha com o leitor a tarefa de narrar.
Organizados em blocos curtos, os 160 capítulos de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fluem segundo o ritmo do pensamento do narrador. A aparente falta de coerência da narrativa, permeada por longas digressões, dissimula uma forte coerência interna, oferecendo ao leitor todas as informações para conhecer a visão de mundo de um homem que passou pela vida sem realização nenhuma, apenas ao sabor de seus desejos.
O narrador machadiano representa-se dramaticamente revestido de múltiplas máscaras,  simbolizando a manifestação do que é simultaneamente presente e ausente, apresentando as unidades duais que permeiam o drama universal. Nas “Memórias Póstumas”, a morte acossa a vida durante toda a narrativa. O próprio escritor surge no ato da morte: se Brás Cubas não tivesse morrido, o "defunto autor" não existiria e, consequentemente, não haveria estas “Memórias”.
Machado de Assis escolheu a situação fantástica e autobiográfica de Brás Cubas, um narrador-personagem (1º pessoa) que, depois de morto, conta sua vida e assume uma posição transtemporal, de quem vê a própria existência já de fora dela, “desse outro lado do mistério”, de modo onisciente, descontínuo e sem a pressa dos vivos. O narrador  procura mais "parecer" do que "ser", isto é, dá-nos a impressão que se trata de um relato caracterizado pela isenção, pela imparciabilidade de que já não tem necessidade de mentir, pois deixou o mundo e todas as suas ilusões. Essa é uma das famosas armadilhas machadeanas, pois na verdade, Brás mente, ilude e distorce os fatos, escondendo suas misérias para que sejam vistas como superioridades, exteriorizando uma visão cínica, irônica e desencantada de si mesmo e dos outros.
Pode, ainda, atuar no duplo domínio do vivo e do morto, vendo a morte do ponto de vista da vida, e a vida do ponto de vista da morte; e transita entre o entrar e sair da pele do personagem, podendo falar do ponto de vista do ator e do espectador.
Assim, o aspecto fundamental na análise da narrativa é que a própria possui uma perspectiva dual, através de dois "eus", que são um e o mesmo: o eu-narrante (narrador) e o eu-narrado (protagonista) e que, por sua vez, são os desdobramentos do próprio defunto autor.
O próprio título do livro já gera uma duplicidade entre a vida e a morte. Só quem é vivo é que possui memórias, mas aquilo que é póstumo pertence à morte. O que está entre essa interação é o verme, representado pela passagem do vivo para o morto, e a quem Brás Cubas dedica este livro: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança, estas Memórias Póstumas”.


“O CORTIÇO”, ALUÍSIO DE AZEVEDO

Na obra “O cortiço, Aluísio Azevedo retrata literariamente a realidade do Brasil no século XIX, sua ideologia e as relações sociais presentes no país de capitalismo incipiente em que o explorador vive perto do explorado.
Numa sociedade periférica como a brasileira, o fenômeno de valorização da cidade se reproduz e se intensifica ainda mais no último terço do século XIX, que se assinala por ser o período em que a presença francesa se fez mais forte e influente no Brasil. Haja vista, por exemplo, a magnitude de que se revestiu o Positivismo entre nós. É nesse contexto que vem a lume O cortiço, obra que retrata a realidade urbana do Rio de Janeiro a partir de um texto literário.
Aluisio Azevedo, o criador da corrente naturalista no Brasil, alcança produzir um rico e diversificado panorama da então capital do Império, num romance bem sucedido que, entretanto, não se propõe somente a este objetivo, uma vez que, como o próprio título indica, dedica-se a focalizar as camadas populares, centrando-se na residência coletiva, habitada por uma classe em constituição, a dos trabalhadores manuais livres, em coexistência com os últimos estertores do sistema escravagista.
No século XIX, com a transmigração da família real para o Brasil, a abertura dos portos e a transformação da capital da colônia em sede do reino, depois império, a sociedade se complexifica e consequentemente a cidade cresce e se povoa de "gente graúda" e "gente miúda". O primeiro grupo se compõe basicamente de estrangeiros ricos, que vão integrar a elite social: ingleses financistas, franceses do comércio de luxo, portugueses atacadistas. Somente a última nacionalidade é retratada no romance, através dos dois protagonistas e concorrentes, Miranda e João Romão, que representam dois lados da fortuna e, consequentemente, de comportamento e de posição na sociedade.
O segundo grupo é formado por gente com os mais variados matizes de cor da pele, desde os migrantes internos, provenientes do norte do país como a sensual mulata Rita Baiana ou do interior do estado, todos atraídos pelas possibilidades da embrionária metrópole, até os imigrantes europeus, como os trabalhadores portugueses, italianos e judeus que moram no cortiço. Por sinal sobre eles recaem estereótipos negativos: alguns generalizados, como a barulheira e o mau cheiro do corpo, outros mais específicos, como a avidez do judeu ou a sujeira e a bagunça dos italianos.


“SENTIMENTO DO MUNDO”, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Após a fase demolidora de 1922/30, e a partir do decênio de 1930, a literatura brasileira começa a caminhar na direção de seu amadurecimento: consolidação de algumas propostas da fase heróica, estabilização das conquistas novas e certo recuo quanto ao radicalismo de 22.
Autores preocupados com os problemas humanos e sociais de seu tempo propõem um modernismo moderado: caminham para o universal, ampliam a sua temática e inserem novos ingredientes na literatura (socialismo, freudianismo, existencialismo) e equilibram o material linguístico com as normas de linguagem. O rompimento com a perfeição formal acadêmica e o distanciamento com o experimentalismo da I Geração Modernista, permitiram que os poetas dessa época, pudessem cultivar tantos os versos tradicionais como os livres e brancos.
Assim de se apresenta o poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, o maior representante da poesia modernista brasileira.
Nesta época, encontramos a poesia social e política de denúncias das dilacerações do mundo. A guerra, o sofrimento do homem, o medo, a solidão são constantes. São poesias que refletem os problemas do mundo, do ser humano diante dos regimes totalitários da Segunda Guerra, sentindo-se impotente diante aos acontecimentos.
Esta temática está em “Sentimento do Mundo”. Publicado pela primeira vez em 1940 (tiragem de 150 exemplares, distribuídos entre os amigos), o terceiro trabalho poético de Drummond traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta e, se o individualismo evidente nos primeiros livros é mais sutil, não é por isto menor.
O eixo de “Sentimento do Mundo” é a consciência individual, mas socializável do sofrimento coletivo. O eu lírico contempla-se a si e ao mundo; e, se muitas vezes o pronome na primeira pessoa desaparece, o poeta se desdobra em uma terceira pessoa. Compõe-se de 28 poemas, tendendo para um olhar crítico e significativamente político. 
É uma poesia engajada, mas sóbria, sem grandes esperanças utópicas ou comprometimentos ideológicos. É também uma tomada de consciência do universo histórico concreto. Sem ser um depoimento, este livro – o primeiro que Drummond escreveu no Rio de Janeiro – leva a marca de consciência literária do final de 1930, impregnada pelas tensões pré-guerra e pela radicalização político-ideológica. A crítica das alienações burguesas abrange não apenas as maneiras de ser e agir, mas as maneiras de sentir.


"VIDAS SECAS", GRACILIANO RAMOS

A prosa de 1930 é chamada de Neo-Realismo pela retomada de alguns aspectos do Realismo-Naturalismo, contudo, com características particulares preservadas.
A literatura estava voltada para a realidade brasileira como forma de manifestar as recentes crises sociais e inquietações da implantação do Estado Novo do governo Vargas e da Primeira Guerra Mundial.
Os romancistas observam com olhos críticos a realidade brasileira, as relações entre o homem e a sociedade. Pelo fato dos romancistas deste período adotar como componente o lado emocional das personagens, faz com que esta fase se diferencie do Naturalismo, onde este item foi descartado.
Nesse clima de denúncia da realidade brasileira, os escritores nordestinos se destacaram porque presenciaram a passagem de um Nordeste medieval para um nordeste inserido na nova realidade capitalista e imperialista. Graciliano Ramos não seria exceção. Engajado nesse clima de denúncia e vivenciando essa nova realidade, procurou exprimir em seus romances toda essa gama de mudanças sociais e psicológicas pelas quais passava o nordeste. Apesar de ser bem viajado e de conhecer costumes de outras terras, foi no Nordeste que encontrou solo propício ao desenvolvimento dos seus romances. Ele respirava nordeste. Comia nordeste. Vivia o nordeste. Tal constatação se explica em suas linhas romanescas, nas quais procurou imprimir sua marca registrada – o cotidiano da psicologia nordestina.
"Vidas Secas" é, sem dúvida alguma, uma obra de arte incomparável. No romance ajustam-se perfeitamente: linguagem, tema, desenvolvimento e objetivos. O fato dos capítulos serem quase independentes não prejudica a unidade da obra. Ao contrário. A vida, a realidade, a própria verdade também são fragmentadas. A ordem dos fatos, das coisas é uma ilusão, fruto de uma convenção (como a própria língua), de maneira que ao escrever um romance fragmentado que pretende retratar ou recriar a "realidade fragmentada" do sertanejo, Graciliano Ramos não fez mais do que adequar a vida à arte.
A obra é comporta por treze capítulos autônomos, que se encaixam de forma descontínua, com um raro talento artístico. Para alguns, “Vidas Secas” pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos; é formado de cenas e episódios mais ou menos isolados; mas de tal forma solidários que só no contexto adquirem sentido pleno. A continuidade textual explícita somente se opera entre os capítulos 10 /11 e 12/13.
A ideia de escrever os capítulos como se fossem contos era um artifício utilizado pelo escritor pra ganhar mais dinheiro, publicando-os isoladamente em jornais e revistas à medida que os produzia.
O sentimento da terra nordestina é o fio condutor da narrativa, materializado nos ásperos e cruéis embates do homem com a natureza da região.  Para tanto se encaminhou para descrição e o estudo das relações humanas em sociedade, lugares, paisagens, cenas, épocas, acontecimentos, personagens-padrão, tipos sociais, convenções, usos e costumes do país, criando assim uma tradição literária de mostrar o Brasil, ou seja, ampliar a visão da terra e do homem brasileiro.
Entretanto, face á desejada e imposta exigência da verossimilhança nos temas regionais era muito difícil atingi-la, pois “a língua e os costumes descritos eram próximos aos da cidade, apresentando difícil problema de estilização: de respeito a uma realidade que não se podia fantasiar” (Antonio Candido, j.c., p 116), pelo que restou certo artificialismo no gênero.
Assim, na década de 30, “o panorama literário apresentava em primeiro plano, a ficção regionalista, o ensaísmo social”.
”A sua paisagem nos é familiar: o Nordeste decadente, as agruras das classes médias no começo da fase urbanizadora, os conflitos internos da burguesia provinciana e cosmopolita”. (Alfredo Bossi, j. c., p. 434/435).
Neste panorama, se faz a contextualização de
Vidas Secas no quadro da literatura de 30, vez que, a obra com as matizes do regionalismo, faz um retrato real, cruel e brutal das relações sociais, nitidamente, feudais imperantes no Nordeste do Brasil na época, servindo para demonstrar de forma violenta, com traços do realismo, que aqueles fatos embora até aceitos pela sociedade local, causavam graves lesões ao tecido da pessoa humana, por isto há menos tipos, espaços e condições exóticas, todas inerentes e exigidas pela tradição regionalista do século XIX, que assim, ganha novos contornos, onde a realidade sócio-econômica, também passa a ter grande e quiçá maior relevo.
Por tais motivos,
Vidas Secas é uma obra pela sua formação e conteúdo singular na literatura, embora faça uma análise das condições sociais do Nordeste do Brasil o que é inerente ao contexto da literatura da época.
Graciliano Ramos penetra no pensamento, na carne e na alma de cada um dos membros da família de Fabiano, visando mostrar de forma brutal a discriminação, a cultura e a realidade do sertanejo nordestino.
O “sentido da vida” ou os porquês de tantas desgraças são os temas pelos quais tudo de desenrola, aliás o próprio título da obra endossa esta tese, vez que seca, na linguagem popular, segundo o Aurélio, tem o significado de “má sorte” ou azar, portanto Vidas Secas tem a inteligência de Vidas sem sorte, o que reporta à razão e ao sentido desta existência desafortunada.


“CAPITÃES DA AREIA”, JORGE AMADO

Jorge Amado é um grande expoente do modernismo brasileiro. Sua maturidade literária se revela na capacidade de mesclar realismo e romantismo, lirismo poético e documento em sua narrativa, cuja linguagem explicita o falar de um povo e cuja ideologia se sobrepõe na forma de uma necessidade premente de justiça social.
A obra “Capitães da areia” é diferente dos demais romances de Jorge Amado não apenas por sua temática, mas também em virtude de sua estrutura sui generis. A rigor, podemos dizer que o romance não tem propriamente um enredo. É aí que reside sua modernidade, pois o autor rompe com a tradição do romance convencional, que supunha rigorosa organização dos fatos e relações de causa e efeito entre os eventos.          A obra é montada por meio de quadros mais ou menos independentes, que registram as andanças das personagens pela cidade de Salvador. Mas não só: ao lado da narração propriamente dita, Jorge Amado intercala também notícias de jornal, bem como pequenas reflexões poéticas. A força da narrativa advém do enredo solto, maleável, que parece flutuar ao sabor das aventuras dos pequeninos heróis.
De acordo com a teoria da literatura, há vários tipos de romance e os mais conhecidos são os de ação e de personagem. “Capitães da areia” pertence ao segundo tipo, porque, mais do que desenrolar uma ação, privilegia a existência, a movimentação de diferentes tipos sociais. Dessa maneira, Jorge Amado monta uma galeria bastante ampla de figuras que irão compor o quadro social de uma comunidade.
O fato de o escritor se prender às personagens e de montar os quadros soltos não implica, contudo, que o romance deixe de ter uma estrutura mais ou menos organizada. Pelo contrário, é possível perceber uma linha conduzida, ainda que de maneira tênue, por Pedro Bala, que organiza o grupo, determina-lhe a ação, graças à sua coragem e aos seus princípios, e que será uma das únicas personagens a fugir da alienação (juntamente com o Professor e Pirulito).
Outro aspecto que chama a atenção, no que diz respeito à estruturação da narrativa, é a divisão em partes do romance. Ao todo, são três, subdivididas em capítulos ora mais longos, ora mais curtos, precedidas de um pequeno prólogo de caráter jornalístico, que caracterizam e mostram diversas visões sobre o caso.
O espaço em “Capitães da areia” tem função capital, pois não só determinará o comportamento das personagens, como também quase chega a se constituir numa personagem, com vida própria. Como determinante, divide-se em diferentes segmentos.    O mais amplo deles será obviamente a cidade da Bahia, com todos os seus recantos, limitada pelo mar. Outros espaços poderiam ser considerados, como a cidade do Rio de Janeiro, a cidade de Ilhéus e o Sertão, contudo, têm eles valor secundário, porque são apenas referidos pelo narrador (é para lá que vão o Professor, o Gato e o Volta-Seca, respectivamente).
Na cidade da Bahia, destaca-se de maneira evidente o trapiche, onde moram as crianças. É nele que os meninos abandonados encontram abrigo contra as intempéries e contra os inimigos. Situado na areia, junto ao mar, constitui um espaço de ninguém, e o fato de ter servido no passado como armazém e agora como o lar dos meninos de rua serve para ilustrar um desvirtuamento de função e a condição de marginalidade das crianças. Isso porque ele, ao mesmo tempo, pertence e não pertence à cidade que parece querer evitar os desvalidos da sorte, condenando-os a viver num espaço semidestruído, abandonado, que serve de pousada para ratos e cães.
O tempo, relativamente extenso, mas impreciso, compreende um retalho da vida dos meninos, desde a infância até a maturidade. Contudo, o leitor tem a oportunidade de conhecer com mais intensidade o tempo da adolescência, já que o tempo da infância das crianças comparece por meio de analepses (retorno ao passado), fórmula de que o narrador lança mão para mostrar a formação delas e as razões do desamparado no presente.