domingo, 22 de abril de 2012

O ALIENISTA, PAPÉIS AVULSOS, MACHADO DE ASSIS



I – CONTO, CRÔNICA OU NOVELA:

“O Alienista” é o primeiro conto de “Papéis Avulsos”, 1882, livro que abre a fase madura “realista” do conto machadiano.
A classificação quanto ao gênero ficcional não é pacífica e o descompromisso de Machado com a rigidez dos gêneros estéticos, seu apego à livre invenção, dificultam a caracterização rigorosa de muitas de suas obras nos estreitos limites das categorias preestabelecidas.
“O Alienista” poderá parecer ao leitor muito extenso para ser considerado um conto, além de estar subdividido em capítulos, o que não é muito peculiar ao conto.
A estas duas objeções pode-se responder que o que determina a maior ou menor extensão de uma narrativa é, quase sempre, um elemento interno: a unidade ou a multiplicidade de células dramáticas ou conflitos. O romance e a novela desenvolvem várias ações, vários conflitos, o conto está centrado na ação única. Sob esse aspecto, apesar do grande número de personagens e situações, “O Alienista” aproxima-se mais da estrutura do conto, pois a ação é unitária, um espaço restrito O Hospício da Casa Verde e a Vila de Itaguaí. Quanto à subdivisão em capítulos (em princípio, indicativa da novela curta, ou do romance) é procedimento comum nos contos machadianos, desde os “Contos Fluminenses” e as “Histórias da Meia-Noite”. Esse procedimento era ditado pelo fato de que os contos de Machado eram, antes de editados em livros, publicados em capítulos, nos jornais e revistas do Rio de Janeiro.
Mas Machado relativiza tudo, relativiza também os gêneros literários. Qualquer tentativa de classificação rígida esbarra na liberdade com que Machado tratou os gêneros ficcionais. Antônio Cândido classifica “O Alienista” como conto. Alfredo Bosi fala em novela curta, com ar divertido de uma “comédie d’erreur” (comédia de enganos). José Guilherme Merquior classifica a história de Simão Bacamarte como “conto filosófico”, como “uma fábula com ar de novela histórica”. Por aí se vê a originalidade de Machado de Assis e a liberdade com que militou no campo aberto da livre invenção.
O tema da loucura faz Machado basear-se em teorias científicas de seu tempo. Assim a crença cega, na verdade dos modelos científicos e a adesão incondicional à verdade das estatísticas são dois outros alvos da ironia machadiana, na história de Simão Bacamarte. O materialismo da época da Segunda Revolução Industrial, o entusiasmo provocado pelos avanços científicos e os tecnológicos foram á estufa de inúmeras teorias que, opondo-se à metafísica e à realidade, viam na matéria, naquilo que se pudesse qualificar e quantificar cientificamente, o único alvo de interesse do cientista, do filósofo e do artista. O Positivismo, de Comte; o Evolucionismo, de Darwin e de Spencer; o Determinismo, de Taine; o Experimentalismo, de Claude Bernard; o Materialismo Psicológico, de Wundt; a Feenologia, de Lombroso; o Criticismo anticlerical, de Feuerback e Straus; a Dialética, de Hegel e o Materialismo Histórico, de Marx e Engels são algumas das correntes do pensamento que refletiram e, em alguns casos, superaram a ideologia burguesa, fortalecida no poder, em função do triunfo definitivo do capital industrial, da implementação do capitalismo avançado e da sua expansão as áreas periféricas da América, da Ásia e da África.
O ímpeto revolucionário e contestatório, a exaltação da rebeldia e da liberdade individual, que tinham as tônicas do movimento romântico, são substituídos por novas palavras de ordem: a CIÊNCIA, o PROGRESSO e a RAZÃO. Agora, assentada no poder, a burguesia pretende estabilizar suas conquistas, maximizar a produção industrial. Para isso é fundamental a manutenção da ORDEM. O lema ORDEM E PROGRESSO, impresso em nossa bandeira pelos primeiros republicanos, foi extraído de Augusto Comte e sintetiza a proposta positivista.
É o apego extremado aos seus modelos científicos e à ordem instituída que leva Simão Bacamarte à irrisão. É a noção de que a anormalidade é uma questão estatística que leva o médico de Itaguaí a tomar por verdadeiras, em momentos sucessivos, duas teorias diametralmente opostas.


II - FOCO NARRATIVO:

A narrativa é em 3º pessoa.  Dois narradores se alternam no desenvolvimento da narrativa: o narrador-cronista e o narrador onisciente. Para que se manifeste o narrador-cronista é preciso que se respeite a ideia documental, revestida de uma credibilidade incontestável com relação aos fatos do passado. Para que se manifeste o narrador-onisciente, dentro dos propósitos realistas machadianos, é preciso que a onisciência seja integral, analisando o comportamento humano e descortinando a “alma” das personagens.

III - TEMPO E ESPAÇO:

Envolvido por um tom documental de crônica, a história se passa no passado, recorrendo o uso do flash back.
“As crônicas da vila de Itaguaí dizem que, em tempos remotos, vivera ali um certo médico...”

Há certa intemporalidade no tema em discussão: a tênue divisão entre razão e loucura, porém podem remontar à primeira metade do século XVII. É importante ressaltar o caráter alegórico, que a narrativa assume.
Quanto ao espaço, á ação se passa em Itaguaí, uma cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro, comarca de Iguaçu. Entretanto, pode-se deduzir que Itaguaí representa um “microcosmo” de qualquer região ou mesmo país.

IV - LINGUAGEM:

A elegância; a ironia sutil; o humor; certa contenção ao escrever; as rápidas pinceladas na composição da personagem; as frases curtas; a linguagem correta; o clima de ambiguidade acentuada em tudo o que escreve; são alguns traços característicos da linguagem machadiana nesse conto e em todas as suas obras.

V - CARACTERÍSTICAS:

Machado de Assis é autor de quase duzentos contos, o que o situa, pela qualidade do que escreveu, entre os melhores contistas mundiais. A construção de um conto é, com certeza, muito mais difícil do que a construção de um romance, porque o conto:
- é uma narrativa curta e deve prender a atenção do leitor;
- deve ter um só conflito e este tem de ser muito interessante;
- deve conduzir o leitor para um único efeito, provocando-lhe tensão na leitura;
- deve manter um perfeito equilíbrio narrativo;
- trabalha com poucas personagens, em tempo exíguo, em pequenos espaços.

Nesse sentido, Machado de Assis foi um contista extraordinário, pois soube manejar as regras do conto como ninguém.
Em “O Alienista”, Machado de Assis revela uma visão satírica, irônica e amarga que enfatiza aspectos negativos denunciadores da frustração humana. O autor utiliza o humor para desmascarar a hipocrisia humana, provocada por um sistema social regido pela falta de valores. Pode-se notar uma semelhança entre o autor e o protagonista, Simão Bacamarte, pois, como alienista, está preocupado em fazer uma análise psicossocial dos habitantes da cidade de Itaguaí e região. No entanto, por trás dos atos aparentemente dedicados à ciência, a verdadeira intenção de Bacamarte é atingir status e fama através das anomalias patológicas. Machado de Assis, assim critica o cientificismo da época.
A crítica sócio-política desse conto é alegorizada pela personagem Porfírio que busca benefícios pessoais através da política e pelo povo submisso de Itaguaí, facilmente manipulados.

O apoio oficial dos governantes de Itaguaí, na criação de um hospício, leva alguns críticos defenderem que o referido conto, trata-se de uma crítica mais política que essencialmente psicológica.

VI - PERSONAGENS:  

Dr. Simão Bacamarte - é o protagonista da estória. A ciência era o seu universo – o seu "emprego único", como diz. "Homem de Ciência, e só de Ciência, nada o consternava fora da Ciência" (p. 189). Representa bem a caricatura do despotismo cientificista do século XIX (como está no próprio sobrenome). Acabou se tornando vítima de suas próprias idéias, recolhendo-se à Casa Verde por se considerar o único cérebro bem organizado de Itaguaí. 

D. Evarista - é a eleita do Dr. Bacamarte para consorte de suas glórias científicas. Embora não fosse "bonita nem simpática", o doutor a escolheu para esposa porque ela "reuni condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem", estando apta para dar-lhes filhos robustos, são e inteligentes". Chegou a ser recolhida à Casa Verde, certa vez, por manifestar algum desequilíbrio mental. 

Crispim Soares - era o boticário. Muito amigo do Dr. Bacamarte e grande admirador de sua obra humanitária. Também passou pela Casa Verde, pois não soube "ser prudente em tempos de revolução", aderindo, momentaneamente, à causa do barbeiro. 

Padre Lopes - era o vigário local. Homem de muitas virtudes, foi recolhido também à Casa Verde por isso mesmo. Depois foi posto em liberdade porque sua reverendíssima se saiu muito bem numa tradução de grego e hebraico, embora não soubesse nada dessas línguas. Foi considerado normal apesar da aureola de santo. 

Porfírio, o barbeiro - sua participação no conto é das mais importantes, posto que representa a caricatura política na satírica machadiana. Representa bem a ambição de poder, quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. Foi preso na Casa Verde duas vezes; primeiro, por Ter liderado a rebelião; segundo, porque se negou a participar de uma Segunda revolução: "preso por Ter cão, preso por não Ter cão" (pág 229). 

Outros figurantes aparecem no conto. Cada um representando anomalias e possíveis virtudes do ser humano. Há loucos de todos os tipos no livro. Daí a presença de tanta gente...

VII - ESTRUTURA:

“O Alienista” foi publicado inicialmente em “A Estação”, no Rio de Janeiro, no período de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. A primeira edição em livro da obra é de 1882, em “Papéis Avulsos”.
Dividido em treze capítulos, os títulos de cada capítulo, ora são resumitivos de seus conteúdos e transparentes ora são apenas sugestivos, aguçando a curiosidade do leitor.

CAPÍTULO I – “De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates” (casa de loucos, manicômio)


“As crônicas de vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. (...)
- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único, Itaguaí é o meu universo.”

Assim, é apresentado Simão Bacamarte, que depois de títulos e feitos conquistados na Europa, estabeleceu-se em Itaguaí. O protagonista foi aceito pelos governantes locais para dedicar-se totalmente ao estudo e a prática da medicina. Sua especificação era pesquisar os limites entre razão e loucura.

 “A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua.”

Dr. Bacamarte, perante esse fato, encaminhou à câmara a licença de criar um lugar onde pudesse colocar todos os loucos, enfim, um hospício. Essa ideia de “meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum” trouxe-lhe muitas discórdias e incompreensões. No entanto, Dr. Bacamarte defendeu-a com tanta “eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doudos pobres.”
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates, denominada por Casa Verde por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí.    

CAPÍTULO II – “Torrente de loucos”

Apenas quatro meses após sua fundação, a Casa Verde está lotada. Aos primeiros cubículos foram anexados mais trinta e sete.
Os primeiros internados no hospício foram casos notórios e aceitos pela sociedade local.
O Pe. Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doudos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos.
Dr. Bacamarte dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. O médico analisava individualmente a origem, vida, comportamento, hábitos de cada paciente.

CAPÍTULO III – “Deus sabe o que faz!”

Simão não tinha mais tempo e dedicação com sua esposa e a ilustre dama, “no fim de dous meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres; caiu em profunda melancolia”.
Um dia, ao jantar, D. Evarista critica a atividade do marido, após constatar o alto rendimento que davam os loucos. Simão Bacamarte, então, despacha a esposa para o Rio de Janeiro, para não ser desviado por ela de seu trabalho. A esposa com muita resignação disse:
“– Deus sabe o que faz!”

CAPÍTULO IV – “Um teoria nova”

Simão Bacamarte comunica ao boticário Crispim Soares e ao vigário Pe. Lopes, seus amigos, haver descoberto uma experiência científica.

“Digo experiência, porque não me atrevo a as segurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra cousa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”  

O boticário aplaude, o vigário mostra reservas.

CAPÍTULO V – “O terror”

Quatro dias depois, Costa, um dos cidadãos mais queridos de Itaguaí foi recolhido à Casa Verde. O seu diagnóstico baseou-se por ter perdido sua herança em empréstimos que se tornaram fundo perdido, além de sua reação envergonhada de cobrar seus devedores, passando a ser até maltratado por estes.

 “Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão, mas acrescentava que a ciência era a ciência, que ele não podia deixar na rua um mentecapto.”

Uma pobre senhora, prima de Costa partiu em defesa de seu parente e também, foi internada na Casa Verde.

“Ninguém queria acabar de crer que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz.”

Esses atos envolvem a cidade em grande terror.
Em seguida, é internado Mateus sob a alegação de que “o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desde algum tempo.”
Albardeiro é o profissional que faz albardas, ou seja, selas para bestas de carga. É uma profissão bastante humilde, tanto que a palavra albarda também significa “humilhação”. Há, portanto, uma carga negativa associada a essa profissão. Ter isso em mente ajuda na interpretação do episódio, que se deliciava em ficar horas admirando o luxo de sua enorme casa, ainda mais quando notava que estava sendo observado.
Dias depois, em um jantar em homenagem à D. Evarista, Martim Brito, um jovem com eloquência linguística, faz um elogio pomposo à grande senhora. Logo, foi recolhido à Casa Verde.  
E muitos outros, José Borges do Couto Leme, Chico das Cambraias, o escrivão Fabrício, Gil Bernardes, o Coelho etc.
D. Evarista, a tia, a esposa do Crispim e toda a comitiva retornam do Rio de Janeiro e são recebidos de maneira festiva. As pessoas esperavam ansiosas por esse retorno, acreditando que ela poderia conter o terror constante da cidade e refreasse o ânimo de Dr. Bacamarte.
D. Evarista era extremamente apaixonada por Simão. Ele, no entanto, frio, calculista, uniu-se a ela, somente pensando em sua capacidade para reprodução e, até agradecia por ela não ser bonita, pois era um problema a menos.
A internação de pessoas que nunca tinham sido tomadas por loucas, e de outras portadoras de admiráveis virtudes, gera pânico em Itaguaí.

“A ideia de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfírio a expendesse na loja, com grandes gestos de indignação.”  


CAPÍTULO VI - “A rebelião”

O terror tomou conta da população. E, o barbeiro Porfírio, aproveitando-se dessa situação, que há muito queria fazer parte da estrutura de poder, mas sempre tinha sido rejeitado, envia um requerimento que foi negado pela Câmara de Vereadores, solicitando a captura e a deportação do alienista. Porfírio une-se a vários outros revoltosos, arma um protesto que gerou na revolta dos Canjicas (seu apelido) e decidem que destruiriam a Casa Verde, “essa Bastilha da razão humana”.
“– Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”
Há um abatimento quando se descobre que Simão havia rejeitado receber pelos doentes da Casa Verde. Configura-se a ideia de que as inúmeras reclusões não eram movidas por corruptos interesses econômicos. E pelas ruas de Itaguaí, trezentas vozes pediam a morte do Dr. Bacamarte.
D. Evarista desesperada chama o marido que estava totalmente concentrado em seus estudos.
O alienista caminhou para a varanda, sorriu e disse:

“– Meus senhores, a ciência é cousa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem rebeldes.”

Após ouvirem o alienista, tranquilo e superior, e quando os ânimos novamente se exaltaram, foram surpreendidos com a chegada de um corpo de dragões (polícia da época), com o objetivo de evitar o confronto.

CAPÍTULO VII – “O inesperado”

Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles e o barbeiro os desafiou.  Quando tudo indicava a derrota dos revoltosos, os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas e aderem aos Canjicas. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a El-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao “ilustre Porfírio”.

“O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.”

A cidade confia no Protetor e festeja sua vitória, que ia enfim, libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte.


CAPÍTULO VIII – “As angústias do boticário”

Crispim Soares, por suas ligações de amizade com o alienista, apavora-se com a vitória dos revoltosos. Finge-se doente para não visitar o amigo. Mais tarde, resolve levar a Porfírio sua adesão, no momento que pensava que Simão havia caído.


CAPÍTULO IX – “Dois lindos casos”

Porfírio esquece a Casa Verde e se dirige à Câmara dos Vereadores para destituí-la. No dia seguinte, encontra-se com o alienista, não depõe contra a Casa Verde e sim, fortalece-a, afirmando que não vai interferir em seu trabalho científico e oferece-lhe apoio em seu trabalho, pois o considera de grande utilidade para seu governo.
Configura-se aqui a sugestão que muitas revoluções não são movidas por interesses coletivos, mas manipulações que servem de pretexto a alçarem poderes individuais.
O novo chefe do governo recomenda apenas a soltura dos enfermos quase curados e dos maníacos de pouca monta para, sem muito risco, mostrarem alguma tolerância e benignidade. Na duplicidade das atitudes do barbeiro e na ingenuidade de seus seguidores (considerando o saldo de onze mortos e vinte e cinco feridos), o alienista identifica dois lindos casos de doença mental. Enquanto o alienista faz seu diagnóstico, Porfírio é aclamado.

CAPÍTULO X – “A restauração”

Em cinco dias, cinquenta dos participantes da revolta foram internados na Casa Verde.
O povo indignou-se. João Pina, outro barbeiro, dizia pelas ruas que o Porfírio estava “vendido ao ouro de Simão Bacamarte”.
Na realidade, João Pina não estava interessado em lutas sociais, mas tinha uma desavença pessoal com Porfírio.
O barbeiro preocupado em perder o seu cargo, “expediu dous decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista.”
No entanto, duas horas depois caía Porfírio e assumia o governo, João Pina. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir, só alterando os nomes. Porém, João de Pina foi rispidamente deposto pela intervenção militar ordenada pelo vice-rei. Restituiu-se o poder da Câmara e Simão Bacamarte voltou a agir livre e desenfreadamente. As prisões se multiplicam, atingindo o presidente da Câmara e, para espanto geral, até mesmo D. Evarista foi recolhida ao hospício. A prisão de sua própria esposa isentou Bacamarte de qualquer suspeita. Aos olhos do povo era prova cabal de sua abnegação, de sua fidelidade à ciência, uma vez que era voz corrente que o alienista amava devotamente D. Evarista.

CAPÍTULO XI – “O assombro de Itaguaí”
Através de ofício, em seis parágrafos, o alienista comunicou à Câmara que todos os loucos seriam soltos, pois chegara à conclusão de que sua teoria sobre as moléstias era falha, graças a uma observação estatística: quatro quintos da população de Itaguaí encontravam-se na Casa Verde. Correta haveria de ser a doutrina oposta, devendo, pois serem recolhidos aqueles que apresentassem perfeito equilíbrio. Assombrou-se a cidade, festejou-se o retorno dos que foram soltos, mas ninguém advertia na frase final do parágrafo 4º (o aviso das próximas prisões – dos equilibrados).

CAPÍTULO XII – “O final do parágrafo 4º”

Depois de terminadas as comemorações, tudo parecia voltar à normalidade: a câmara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o próprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus lugares.

“Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. [...] Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício de Simão Bacamarte, com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relação ao final do parágrafo 4º, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada, sem debate, uma postura, autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a cláusula de que a autorização era provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova teoria psicológica, podendo a câmara, antes mesmo daquele prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública.”

Entretanto, reiniciaram-se as prisões, agora com pleno consentimento da Câmara. São antecedidas de minucioso estudo: em cinco meses são recolhidos à Casa Verde apenas dezoito pessoas, que revelaram perfeito equilíbrio. Entre elas: o juiz de fora, o vigário, a mulher do boticário, um servidor da Casa Verde que se demonstrou leal e eficiente. Os desequilíbrios, as incoerências e os desvios de caráter eram agora considerados pelo médico como sinais de normalidade. Faz-se uma nova classificação dos loucos, incluindo: os modestos, os tolerantes, os verídicos, os leais, os sagazes, etc.

CAPÍTULO XIII – “Plus ultra” (“Mais além!” – latim)


A nova terapia adotada pela Casa Verde passa a ser a corrupção da virtude dominante. Em apenas cinco meses estavam, todos curados.

“Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! Era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.
[...]
- Mas deveras estariam eles doudos, e foram curados por mim, - ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?
E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra cousa existiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade: - não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta ideia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia da dúvida. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?”

O sábio, contudo, passa a duvidar da eficácia do próprio trabalho. O desequilíbrio mental induzido em seus pacientes não era mérito da terapia adotada pelo alienista, já que os pacientes já trariam em si mesmos esse desequilíbrio, em estado latente.

Dessa forma, “Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.”

Simão Bacamarte acaba por descobrir em si próprio o verdadeiro equilíbrio, o único ser perfeito em Itaguaí, o que é confirmado por seus amigos. A partir daí, fechou-se, só, na Casa Verde e entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo.  Ali morreu, dezessete meses depois, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.

“Alguns chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade




sexta-feira, 20 de abril de 2012

MACHADO DE ASSIS CONTISTA



“O itinerário das dúvidas em Machado de Assis está marcado por alguns contos escritos depois das “Memórias póstumas de Brás Cubas”: “O alienista”, quase novela pela sua longa sequência de sucessos, é um ponto de interrogação acerca das fronteiras entre a normalidade e a loucura e resulta em crítica interna ao cientificismo do século; “O espelho” leva a corrosão da suspeita ao âmago da pessoa, mostrando exemplarmente como o papel social e os seus símbolos materiais (uma farda de alferes, por exemplo) valem tanto para o eu quanto a clássica teoria da unidade da alma; “A sereníssima República”, alegoria política em torno dos modos de resolver ou de não resolver o problema da distância entre o poder e o povo; “O segredo do bonzo”, apologia da ilusão como único bem a que aspiram as gentes. E haveria outros contos a citar, obras-primas de desenho psicológico (“Dona Benedita”; “A causa secreta”; “Trio em lá menor”) e de sugestão de atmosferas (“Missa do galo”, “Entre santos”).”
                        Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira.     

O nível artístico do contista Machado de Assis, para muito, supera o romancista. Coube a ele dar ao conto densidade e excelência em nossa literatura, fundando esse gênero, e abrindo caminhos, pelos quais, mais tarde, iriam trilhar Mário de Andrade, Clarice Lispector, para ficarmos em apenas dois machadianos modernos. Apresentando estilo semelhante ao dos romances, seus contos focalizam, porém, temas pontuais e episódicos, inadequados à narrativa longa, não porque não tenham profundidade, mas porque lá não teriam devido destaque. Na verdade, a linguagem contística de Machado parece conferir um caráter anedótico a temas importantes, como o despontar da sexualidade ou a busca da perfeição estética. Menos questionador, o narrador dos contos machadianos age como quem conta histórias, colocando o leitor diante da surpresa de certas situações.
Ao contrário dos outros escritores, o contista Machado de Assis procura, nas palavras do crítico Mário Matos, “analisar os sentimentos sutis dos personagens, decompor as almas. Os outros fazem os personagens atuar. Machado fá-los pensar. (...) Conduzido pelo dom, pela vocação de contador de histórias, sabe encarar a vida diretamente e dar à narrativa a feição de oralidade, de modo a transmitir ao leitor a sensação de que está, não lendo, mas ouvindo contar. É importante isto. Em verdade, uma história não se deve ler, deve-se escutar. Aí está a graça da especialidade. Machado, no conto, não descreve, mostra, fala. Quando os personagens têm que se caracterizar, conversam uns com os outros, e eis por que vemos, continuamente, muito diálogos nos contos. Diálogos de significativa naturalidade”.
Distinguem-se duas fases: a primeira, dita “Romântica”, com os livros: “Contos Fluminenses” e “Histórias de Meia-Noite”. A segunda, Realista, inclui os melhores contos: “Papéis Avulsos”, “Histórias sem Datas”, “Várias Histórias” e “Relíquias da Casa Velha”.
Na fase romântica, a angústia, oculta ou patente das personagens é determinada pela necessidade de obtenção de “status”, quer pela aquisição de patrimônio, quer pela consecução de um matrimônio com parceiro mais abonado. “Segredo de Augusta” e “Miss Dollar” antecipam a temática de “A mão e a luva”, o dinheiro como móvel do casamento. O tema da traição (suposta ou real), antes de aparecer em “Dom Casmurro”, já estava nos contos “A Mulher de Preto” e “Confissões de uma viúva moça”.
Nessa primeira fase, a mentira é punida ou desmascarada. Há nisso um laivo de moralismo romântico, na pregação de casos exemplares. Mas essa linha será, a seguir, superada, ainda na fase romântica. Em “A parasita azul”, o enganador triunfa pela primeira vez. O cálculo frio, o cinismo, a máscara e o jogo de interesses constituem o cerne desse realismo utilitário, para o qual pendem especialmente as personagens femininas, capazes de sufocar a paixão, o amor em nome da “fria eleição do espírito”, da “segunda natureza, tão imperiosa como a primeira”. A segunda natureza do corpo é o “status”, a sociedade que se incrusta na vida.
A partir dos contos de “Papéis Avulsos”, Machado começa a cunhar a fórmula mais permanente de seus contos: a contradição entre parecer e ser, entre a máscara e o desejo, entre a vida pública e os impulsos escuros da vida interior, desembocando sempre na fatal capitulação do sujeito à aparência dominante.
Machado procura roer a substância do eu e do fato moral considerados em mesmos; mas deixa nua a relação de dependência do mundo interior em face da conveniência do mais forte. É dessa relação que se ocupa, enquanto narrador.
É a móvel combinação de desejo, interesse e valor social que fundamenta as estranhas teorias do comportamento expressas nos contos: “O Alienista”, “Teoria do Medalhão”, “O Segredo do Bonzo”, “A Sereníssima República”, “O Espelho”, “A Causa Secreta”, “Conto Alexandrino”, “A Igreja do Diabo”...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

ESTRUTURA DAS OBRAS – FUVEST/UNICAMP-2013, 2014 e 2015

I – ROMANTISMO: 1. “VIAGENS NA MINHA TERRA”, ALMEIDA GARRETT.

“A obra fundamenta-se numa viagem realmente efetuada por Garrett em 1843, a convite do político Passos Manuel, morador de Santarém. Divide-se em 49 capítulos: os dez primeiros narram as peripécias da viagem desde Lisboa até aquela cidade, de vapor, a cavalo, de carruagem. De permeio, o narrador vai tecendo comentários e divagações acerca de vários assuntos associados com o que vê e pensa durante o trajeto: a riqueza, o progresso, a literatura, a política, a modéstia, a guerra, o clero, o amor etc. Chegado a Santarém, o escritor ouve do companheiro de viagem a narração dos amores de Joaninha, “a menina dos rouxinóis”, e Carlos, entremeada de reflexões do herói da viagem. Os jovens enamoram-se, mas Carlos vive dilacerado pelo amor que ainda julga sentir por Georgina, que ficara na Inglaterra. Envolve-se na trama Frei Dinis, que assassinara o marido da amante, tomara hábito e era o verdadeiro pai de Carlos. Com a vinda de Georgina a Santarém, dá-se o reconhecimento e o perdão, mas Joaninha morre. Finalmente, Georgina entra para o convento e torna-se abadessa, na Inglaterra; Carlos “é barão, e vai ser deputado qualquer dia”.

 MOISÉS, Massaud. “Literatura portuguesa”, São Paulo: Cultrix. P. 132

O romance “Viagens na minha terra” foi composto sob a forma de folhetim, bem ao gosto romântico da época. Sua narrativa, apesar de grande base descritiva, dos adjetivos em excesso, é saborosa, envolvente e apresenta temas essencialmente românticos como: natureza ativa e confessional; heroísmo; nacionalismo; lirismo amoroso e morte. Há em Garrett um observador minucioso de fatos, excluindo-se o tom melodramático tornando-se um antecipador de Eça de Queirós. O autor usa um estilo extremamente vivo, com giros e expressões coloquiais – um estilo que se molda ao pensamento no seu fazer-se, apto a sugerir leves emoções, associações fugidias, estados de devaneio, os meandros duma nova sensibilidade. Nesse romance, Garrett não está concentrado em narrar uma história, mas, ao contrário, parece estar-se afastando da história, para contá-la, supõe-se, mais tarde. Esta técnica de suspensão da narrativa, em favor de comentários e opiniões variados, sob o ritmo da emoção crítica e da fineza intelectual, denomina-se digressão. Desse modo, relata assuntos sobre economia, geografia, política, literatura, arquitetura, justiça, filosofia, religião, história ou costumes sociais, sem, no entanto, tirar a unidade do livro. Pois eles convergem para dois tipos de emoção alternantes: a da observação terna e enlevada, e a do ceticismo cultural, tratado geralmente com humor crítico. É com ternura que Garrett se lembra de algumas paisagens de sua terra, das velhas histórias ligadas ao folclore ou que ele nos fala de poetas prediletos, como Homero, Virgílio, Dante, Camões, Goethe e outros. Mas é com pessimismo político que ele vê as últimas gerações de portugueses, envolvidos pela mentalidade lucrativista. Outra característica importante do livro está em que o narrador nos conta duas histórias, interligadas pelas circunstâncias e pelo espaço físico. Uma história refere-se a dos amores de Carlos e Joaninha. Outra é a da própria viagem que o narrador faz de Lisboa a Santarém de comboio, com a intenção de conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e assim saudar do alto cume a mais histórica e monumental das vilas de Portugal. Há que incluir ainda um pano-de-fundo histórico, que é a guerra civil que abalou Portugal, e que dividiu os contendores em realistas e constitucionalistas. Os primeiros, conservadores, queriam a monarquia absoluta. Os segundos, liberais, desejavam uma política nacional pautada pelos ideais da Revolução Francesa, e, com isso, uma monarquia mais branda. 

1.      “TIL”, JOSÉ DE ALENCAR.





“Til” foi publicado inicialmente no folhetim d’A República, entre 21 de novembro de 1871 e 20 de março de 1872 e pertence à fase regionalista da obra do autor. “A República” era um jornal de quatro páginas, divididas igualmente em cinco colunas nas quais se acomodavam os textos. Exceto por algum desenho que aparece na seção de anúncios, não há ilustrações, evidenciando o texto escrito como principal veiculador de ideias. O conteúdo era dividido em diversas seções, algumas que se repetiam todos os dias e outras com periodicidade semanal ou irregular. Logo abaixo do título, “A República”, o jornal anunciava sua filiação ao partido republicano, e no canto esquerdo superior constavam todos os dias a seguinte frase: “São absolutamente inadmissíveis, ainda que legalmente responsabilizadas, as polêmicas pessoais e odiosas”. Assim, o jornal apresentava-se como representante de uma ideia política, cuja defesa na publicação era marcada pela objetividade e utilidade pública, já que não admitia assuntos de ordem pessoal. Ao lado da literatura, José de Alencar foi um político atuante (ocupou o cargo de Ministro da Justiça do gabinete do Visconde de Itaboraí, foi deputado pelo Partido Conservador por quatro legislaturas) e um dos maiores intelectuais do Segundo Reinado (1840-1889). Isto reflete em sua obra. O tema da escravidão foi objeto de reflexão sistemática pelo autor em diversas de suas obras. Por essas razões, torna-se claro a importância da escravidão na obra alencariana como reflexão política da época. A escravidão constituía, afinal, a determinação básica do mundo material e cultural em que Alencar vivia e, ao mesmo tempo, representava a consagração jurídica da hierarquia social, ao reduzir uma parcela da humanidade a objeto do direito de propriedade. Em matéria de escravidão, José de Alencar foi um antiabolicionista. No ano de publicação de “Til”, o Brasil estava às voltas com a aprovação da Lei do Ventre Livre, que garantia a liberdade a filhos de escravos nascidos no país. José de Alencar posicionou-se contrário às essas medidas graduais, achava-a mais perigosa que a abolição total. Preferia a abolição completa a Lei do Ventre Livre. Esse fato tem reflexo no romance “Til”, quando um grupo de escravos aparece preparando uma emboscada contra o senhor da fazenda. A cena representa o medo que havia em relação a possíveis revoltas entre negros que passariam a ter seus filhos livres, mas iriam continuar sem compensação. Em “Til”, não é a realidade, a verdade em si, que atraí José de Alencar, e sim o tema que possibilita libertar à fantasia, ao seu estilo épico e ao desejo de retratar o interior paulista, uma das regiões do Brasil, que não sofria influência europeia. A supervalorização do interior do país, os costumes, a linguagem e da vida bucólica do século XIX, a idealização da natureza, a emoção, seguem os modelos do romantismo da época. 

 3. “MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS”, MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA.

“Memórias de um sargento de milícias” foi publicado anonimamente em folhetins semanais no jornal, “Correio Mercantil do Rio de Janeiro”, de 27 de junho de 1852 a 31 de julho de 1853, com a autoria atribuída a “um brasileiro”, ganhando logo depois, forma de livro em dois volumes: o primeiro, em 1853 e o segundo, em 1854. A nova edição passou praticamente despercebida, e a obra caiu no esquecimento por muitos decênios, até que a renovação modernista veio a fazer-lhe justiça. A obra é composta de 48 capítulos (a novela está dividida em duas partes bem distintas: a primeira com 23 capítulos e a segunda com 25), a maioria deles muito curtos cujos títulos, também pequenos, resumem a ação ou o conflito principal narrado no capítulo. Os episódios são quase autônomos, só ligados pela presença de Leonardo, dando à obra uma estrutura mais de novela que de romance. Segundo Eliane Zagury, tendo sido composta para ser lida de forma periódica, no folhetim, a narrativa, apresenta alguns traços técnicos típicos, derivados das narrativas medievais de leitura periódica coletiva, como os enredos paralelos e alternados, que ainda hoje são à base da telenovela. E, cada vez que o autor muda o foco da narrativa, faz uma chamada ao leitor, quase a lembrá-lo de que, apesar de tudo, aquele ainda é o mesmo folhetim. Enquanto em Macedo desfilavam-se mocinhos e donzelas idealizadas pelos salões da corte e nos saraus, Manuel Antônio de Almeida contrasta com os romances românticos de sua época e possui traços que anunciam a literatura modernista do século XX, por várias razões. Primeiro, por ter como protagonista um herói malandro (Leonardo é o primeiro malandro da literatura brasileira), ou um “anti-herói”, caracterizado como vagabundo, mentiroso e que alcança seus ideais não pela hombridade, mas pelo “jeitinho” brasileiro do favoritismo, na opinião de alguns críticos. Segundo, pelo tipo especial de nacionalismo que o caracteriza ao documentar traços específicos da sociedade brasileira, em questão a do Rio de Janeiro, ainda antes da Independência, no tempo do rei D. João VI e a família real portuguesa no Brasil, fugindo de Napoleão, com seus costumes, as festas populares, folclóricas e religiosas, dando um caráter documental da época, porém descritas com humor e sátiras, os comportamentos e os tipos sociais de um estrato médio da sociedade. Não há idealização das personagens, mas observação direta e objetiva. Presença de camadas inferiores da população (barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, "saloias", designados pela ocupação que exercem). As personagens não são heróis nem vilões (praticam o bem e o mal) impulsionadas pelas necessidades de sobrevivência (a fome, a ascensão social), até então ignorado pela literatura. Terceiro, pelo tom de crônica que dá leveza e aproxima da fala ao estilo jornalístico. Há, por parte dos críticos literários de hoje, certa unanimidade em torno das “Memórias”, que aponta o seu caráter ímpar em relação aos demais livros pertencentes ao Romantismo brasileiro, o criador de Leonardo, andando aparentemente à margem da preocupação nacional, nos apresenta um livro que, à primeira vista, escapa da lógica romântica e pontua alguns problemas do país, colocando esse livro numa posição destoante em relação ao próprio Romantismo. Antonio Candido no seu famoso estudo sobre as Memórias: “Dialética da Malandragem”, afirma que o livro de Manuel Antônio de Almeida é talvez o único livro em nossa literatura do século XIX que não exprime uma visão de classe dominante. A obra retrata a luta de uma classe social que está em posição de intermediária: de um lado, ela se vê despida de qualquer poder de mando, atividade praticamente exclusiva à elite senhorial; e, de outro, se vê distante da noção de trabalho, já que o trabalho era “obrigação” do escravo. Manuel Antônio de Almeida, escrevendo em meados do século, já no Segundo Império, olhava para o passado de sua cidade, no início do século, com o interesse intensificado pela distância, pois entre os dois momentos o Rio e seus habitantes tinham passado por transformações significativas. O leitor acompanha o crescimento do herói com sua infância rica em travessuras, a adolescência com as primeiras ilusões amorosas e aventuras, e o adulto, que, com o senso de responsabilidade, que essa idade exige, vai-se enquadrando na sociedade, o que culmina com o casamento.  

II – REALISMO-NATURALISMO: 4. “A CIDADE E AS SERRAS”, EÇA DE QUEIRÓZ.


“A cidade e as serras” pertence á terceira fase de Eça de Queiróz, época de amadurecimento de seu estilo. Passada a fase de críticas desenfreadas a toda sociedade portuguesa, o autor encontra-se em pleno equilíbrio e apresenta Portugal de forma lírica e irônica. No plano estilístico acrescentará barbarismos e coloquialismos, aproximando a sua escrita da modernidade e ampliando os recursos da linguagem literária. É um romance composto por 16 capítulos que podem ser divididos em duas partes: A primeira parte do livro (formada pelos capítulos de 1 a 7), passada em Paris, ainda conserva algumas características mais marcantes da sátira de Eça de Queiróz, com seus tipos caricatos e situações de grande comicidade. Na segunda parte (metade do oitavo capítulo até o final do livro) o tom muda bastante: as críticas zombeteiras e cáusticas são substituídas por compreensão simpática, que às vezes à exaltação, as notações caricaturais dão lugar a longas descrições comovidas, o olhar malicioso transforma-se em gesto de ternura. E esse é o motivo de contentamento para os admiradores nacionalistas de “A Cidade e as Serras”. Eça, o irônico e terrível demolidor da vida portuguesa de seu tempo, converte-se em ardoroso entusiasta de seu país, confiante não só na força de seu passado grandioso (“O Mito do Sebastianismo”), mas também nas virtudes de seu presente, alheio à marcha da história e às novidades do progresso. Narrado em primeira pessoa, como a maioria dos romances de Eça de Queirós, há um narrador-personagem, Zé Fernandes, o qual não se confunde com o protagonista da obra, Jacinto de Tormes. Trata-se de um narrador-testemunha, pois além de ser personagem da história, ele conta o que vê e sobre o que ficou sabendo e o que aconteceu. Segundo Norman Friedman, “o narrador-testemunha narra em 1ª pessoa, mas é um “eu” já interno à narrativa, que vive os acontecimentos e, portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímil.” O importante é observar que tudo o que foi narrado, foi selecionado pela memória do eu-narrativo (Zé Fernandes) a partir da sua memória dos fatos e da sua subjetividade. Dessa forma, todas as personagens, as paisagens e os acontecimentos são apresentados com base nas opiniões desse narrador. 

 5. “MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS”, MACHADO DE ASSIS.

 

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um romance escrito a princípio “aos pedaços”, como escreve o próprio Machado de Assis, desenvolvido em folhetim, de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira, para, no ano seguinte, ser publicado como livro, pela então Tipografia Nacional. De acordo com o próprio Machado, à época da 4ª edição do livro, o volume publicado não recebeu grandes modificações ou retificações. Os fragmentos publicados na Revista Brasileira foram corrigidos em vários lugares pelo autor. Quando teve que o rever para a terceira edição, "emendei alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim composto, sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público", escreveu ele. As modificações mais significativas que ocorreram da passagem de folhetim para livro publicado tenham sido somente a introdução de um preâmbulo, assinado por Brás Cubas e denominado "Ao Leitor", e substituição de uma epígrafe retirada de uma comédia de Shakespeare pela dedicatória ao “primeiro verme que roeu as frias carnes do meu cadáver”. Também acredita-se que o principal trabalho de revisão de Machado de Assis foi focar-se no início e no final do livro, as duas partes onde notam-se "recursos criativos destinados a abalar várias das convenções vigentes na prosa de ficção da época." A estrutura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” tem uma lógica narrativa surpreendente e inovadora. A sequência do livro não é determinada pela cronologia dos fatos, mas pelo encadeamento das reflexões da personagem. É uma narrativa dialogicamente estruturada, em que o leitor é fundamental, pois há um intenso processo de comunicação com ele, como se ele desempenhasse um papel no texto. Assim, o autor compartilha com o leitor a tarefa de narrar. Organizados em blocos curtos, os 160 capítulos de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fluem segundo o ritmo do pensamento do narrador. A aparente falta de coerência da narrativa, permeada por longas digressões, dissimula uma forte coerência interna, oferecendo ao leitor todas as informações para conhecer a visão de mundo de um homem que passou pela vida sem realização nenhuma, apenas ao sabor de seus desejos. Nos nove primeiros capítulos, Brás Cubas descreve a sua morte (cap.1); o emplasto (uma ideia fixa que teve, ao final da vida, de inventar um “medicamento anti-hipocondríaco”, isto é, que curasse a mania de doença das pessoas) (cap.2); sua origem (cap.3); a ideia fixa do emplasto (cap.4); sua doença (cap.5); a visita de Virgília (cap.6); o delírio (pesadelo que teve antes de morrer em que lhe aparece Natureza ou Pandora, dona dos bens e dos males humanos, dentre os quais, o maior de todos é a esperança, (cap.7); razão contra a sandice (em que a razão expulsa a sandice, cap.8) e transição (cap.9), em que o narrador faz uma reflexão metalinguística e retoma o fio narrativo, cronológico de sua vida, a partir de seu nascimento em 1805). A partir do cap.10, a vida de Brás Cubas é contada de forma sucessiva: nascimento, batizado, infância, juventude. O narrador machadiano representa-se dramaticamente revestido de múltiplas máscaras simbolizando a manifestação do que é simultaneamente presente e ausente, apresentando as unidades duais que permeiam o drama universal. Nas “Memórias Póstumas”, a morte acossa a vida durante toda a narrativa. O próprio escritor surge no ato da morte: se Brás Cubas não tivesse morrido, o "defunto autor" não existiria e, consequentemente, não haveria estas “Memórias”. O próprio título do livro já gera uma duplicidade entre a vida e a morte. Só quem é vivo é que possui memórias, mas aquilo que é póstumo pertence à morte. O que está entre essa interação é o verme, representado pela passagem do vivo para o morto, e a quem Brás Cubas dedica este livro: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança, estas Memórias Póstumas”. Machado de Assis escolheu a situação fantástica e autobiográfica de Brás Cubas, um narrador-personagem (1º pessoa) que, depois de morto, conta sua vida e assume uma posição transtemporal, de quem vê a própria existência já de fora dela, “desse outro lado do mistério”, de modo onisciente, descontínuo e sem a pressa dos vivos. O narrador procura mais "parecer" do que "ser", isto é, dá-nos a impressão que se trata de um relato caracterizado pela isenção, pela imparciabilidade de que já não tem necessidade de mentir, pois deixou o mundo e todas as suas ilusões. Essa é uma das famosas armadilhas machadeanas, pois na verdade, Brás mente, ilude e distorce os fatos, escondendo suas misérias para que sejam vistas como superioridades, exteriorizando uma visão cínica, irônica e desencantada de si mesmo e dos outros. Pode, ainda, atuar no duplo domínio do vivo e do morto, vendo a morte do ponto de vista da vida, e a vida do ponto de vista da morte; e transita entre o entrar e sair da pele do personagem, podendo falar do ponto de vista do ator e do espectador. Assim, o aspecto fundamental na análise da narrativa é que a própria possui uma perspectiva dual, através de dois "eus", que são um e o mesmo: o eu-narrante (narrador) e o eu-narrado (protagonista) e que, por sua vez, são os desdobramentos do próprio defunto autor.

                                           6. “O CORTIÇO”, ALUÍSIO DE AZEVEDO



“O cortiço” retrata literariamente a realidade urbana do Rio de Janeiro, no século XIX, sua ideologia e as relações sociais presentes no país de capitalismo incipiente em que o explorador vive perto do explorado. Os 23 capítulos que compõem a narrativa de “O Cortiço” e que contam uma estória com princípio, clímax e desfecho, dentro de uma disposição tradicional, podem ser reestudados pela configuração de dois conjuntos que agrupam: o cortiço São Romão, povoado por “gente miúda” e a “Casa do Miranda”, povoada por “gente graúda”. O primeiro grupo é formado por gente com os mais variados matizes de cor da pele, desde os migrantes internos, provenientes do norte do país como a sensual mulata Rita Baiana ou do interior do estado, todos atraídos pelas possibilidades da embrionária metrópole, até os imigrantes europeus, como os trabalhadores portugueses, italianos e judeus que moram no cortiço. Por sinal sobre eles recaem estereótipos negativos: alguns generalizados, como a barulheira e o mau cheiro do corpo, outros mais específicos, como a avidez do judeu ou a sujeira e a bagunça dos italianos. O segundo grupo se compõe basicamente de estrangeiros ricos, que vão integrar a elite social: ingleses financistas, franceses do comércio de luxo, portugueses atacadistas. Somente a última nacionalidade é retratada no romance, através dos dois protagonistas e concorrentes, Miranda e João Romão, que representam dois lados da fortuna e, consequentemente, de comportamento e de posição na sociedade. Ambos os conjuntos estão sujeitos a um sistema de transformações. Essas transformações ocorrem num sentido ascendente e descendente, conforme os elementos se identifiquem com as leis da evolução e de entropia de seu universo. Todo esse sistema de transformações é exemplificado por personagens protótipos, que são reduplicados em uma série de outros personagens secundários. Como uma célula que se multiplica por meios e a narrativa vai se reduplicando simetricamente na realização de modelos inspirados na série científica. Dessa forma, o romance “O Cortiço” busca muito mais que compor uma narrativa, mas, projetar as personagens e suas ações numa posição em que os espaços falam por si só carregando toda ideologia determinista de que o homem é produto do meio. Sua língua é mestiça como suas personagens, apresentando a plurivalência de nacionalidades, como o francês, o italiano, o português de Portugal, o falar do cortiço, o falar dos salões, constituindo conjuntos que integralizam a língua brasileira num sentido mais amplo. Ideologia esta que tanto mais se configura quanto mais se sabe que a arte de Aluísio se voltava para o receptor. Sua produção tinha um endereço certo: o jornal, o teatro e uma grande massa de leitores.

 III – MODERNISMO: 
7. “CAPITÃES DA AREIA”, JORGE AMADO


A obra “Capitães da areia” é diferente dos demais romances de Jorge Amado não apenas por sua temática, mas também em virtude de sua estrutura sui generis. A rigor, podemos dizer que o romance não tem propriamente um enredo. É aí que reside sua modernidade, pois o autor rompe com a tradição do romance convencional, que supunha rigorosa organização dos fatos e relações de causa e efeito entre os eventos. A obra é montada por meio de quadros mais ou menos independentes, que registram as andanças das personagens pela cidade de Salvador. Mas não só: ao lado da narração propriamente dita, Jorge Amado intercala também notícias de jornal, bem como pequenas reflexões poéticas. A força da narrativa advém do enredo solto, maleável, que parece flutuar ao sabor das aventuras dos pequeninos heróis. De acordo com a teoria da literatura, há vários tipos de romance e os mais conhecidos são os de ação e de personagem. O romance “Capitães da areia” pertence ao segundo tipo, porque, mais do que desenrolar uma ação, privilegia a existência, a movimentação de diferentes tipos sociais. Dessa maneira, Jorge Amado monta uma galeria bastante ampla de figuras que irão compor o quadro social de uma comunidade. O fato de o escritor se prender às personagens e de montar os quadros soltos não implica, contudo, que o romance deixe de ter uma estrutura mais ou menos organizada. Pelo contrário, é possível perceber uma linha conduzida, ainda que de maneira tênue, por Pedro Bala, que organiza o grupo, determina-lhe a ação, graças à sua coragem e aos seus princípios, e que será uma das únicas personagens a fugir da alienação (juntamente com o Professor e Pirulito). Outro aspecto que chama a atenção, no que diz respeito à estruturação da narrativa, é a divisão em partes do romance. Ao todo, são três, subdivididas em capítulos ora mais longos, ora mais curtos, precedidas de um pequeno prólogo de caráter jornalístico, que caracterizam e mostram diversas visões sobre o caso. 1. Prólogo – “Cartas à Redação”: Jorge Amado utiliza o recurso do prólogo para criticar indiretamente os poderosos por meio da linguagem, examinada em diferentes níveis. Assim, a escrita redundante, grandiloquente das autoridades contrasta com a da mulher do povo. Ao mesmo tempo, o tom da reportagem parece colaborar para a feição realista do romance, como se o narrador quisesse dar a impressão para o leitor de que o que vai contar é absolutamente verdadeiro. 2. 1.ª parte – “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, formada de onze capítulos: Conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães da Areia (o grupo chegava a quase cem, morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes). Essa parte constitui propriamente a apresentação do romance, na qual o leitor se depara com a biografia das principais personagens. 3. 2.ª parte – “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos”, formada de oito capítulos: Sub-titulada de "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", relata a história de amor que surge quando Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia". Essa parte trata mais especificamente da descoberta do amor por parte de Pedro Bala. 4. 3.ª parte – “Canção da Bahia, canção da liberdade”, formada de oito capítulos: Mostra a desintegração dos líderes. Jorge Amado pertence a uma geração de escritores comumente conhecida como “regionalista”. A principal característica de estilo dessa geração foi a de contrapor uma linguagem mais espontânea, coloquial, popular, à linguagem rara, escolhida, herdeira dos vícios parnasianos e representativa da classe social dominante. Seu estilo prima pela espontaneidade, que é atingida graças à fuga da sintaxe de origem portuguesa e à imposição de uma sintaxe “brasileira”, por assim dizer. “Capitães da areia” transforma-se assim num repositório de linguagens populares, pois o escritor consegue registrar com maestria as falas de diferentes camadas sociais.

  8.“VIDAS SECAS”, GRACILIANO RAMOS. 


"Vidas Secas" é, sem dúvida alguma, uma obra de arte incomparável. No romance ajustam-se perfeitamente: linguagem, tema, desenvolvimento e objetivos. O fato dos capítulos serem quase independentes não prejudica a unidade da obra. Ao contrário. A vida, a realidade, a própria verdade também são fragmentadas. A ordem dos fatos, das coisas é uma ilusão, fruto de uma convenção (como a própria língua), de maneira que ao escrever um romance fragmentado que pretende retratar ou recriar a "realidade fragmentada" do sertanejo, Graciliano Ramos não fez mais do que adequar a vida à arte. A obra é composta por treze capítulos autônomos, que se encaixam de forma descontínua, com um raro talento artístico. Para alguns, “Vidas Secas” pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos; é formado de cenas e episódios mais ou menos isolados; mas de tal forma solidários que só no contexto adquirem sentido pleno. A continuidade textual explícita somente se opera entre os capítulos 10 /11 e 12/13. Francisco de Assis Barbosa ao vasculhar os originais, comprovaria a ausência de seguimento na narrativa. “Baleia”, o nono capítulo, foi escrito em 4 de maio de 1937. Um mês depois escreveria “Sinha Vitória”, o quarto capítulo. E “Mudança”, o primeiro na ordem de apresentação, só seria escrito em 16 de julho do mesmo ano. Depois de todos os episódios reunidos, Graciliano ordenou-os para a publicação. Por isso, alguns acham Vidas Secas um romance “desmontável”. O sentimento da terra nordestina é o fio condutor da narrativa, materializado nos ásperos e cruéis embates do homem com a natureza da região. Para tanto se encaminhou para descrição e o estudo das relações humanas em sociedade, lugares, paisagens, cenas, épocas, acontecimentos, personagens-padrão, tipos sociais, convenções, usos e costumes do país, criando assim uma tradição literária de mostrar o Brasil, ou seja, ampliar a visão da terra e do homem brasileiro. Entretanto, face a desejada e imposta exigência da verossimilhança nos temas regionais era muito difícil atingi-la, pois “a língua e os costumes descritos eram próximos aos da cidade, apresentando difícil problema de estilização: de respeito a uma realidade que não se podia fantasiar” (Antonio Candido, j.c., p 116), pelo que restou certo artificialismo no gênero. ”A sua paisagem nos é familiar: o Nordeste decadente, as agruras das classes médias no começo da fase urbanizadora, os conflitos internos da burguesia provinciana e cosmopolita”. (Alfredo Bossi, j. c., p. 434/435). Neste panorama, se faz a contextualização de Vidas Secas no quadro da literatura de 30, vez que, a obra com as matizes do regionalismo, faz um retrato real, cruel e brutal das relações sociais, nitidamente, feudais imperantes no Nordeste do Brasil na época, servindo para demonstrar de forma violenta, com traços do realismo, que aqueles fatos embora até aceitos pela sociedade local, causavam graves lesões ao tecido da pessoa humana, por isto há menos tipos, espaços e condições exóticas, todas inerentes e exigidas pela tradição regionalista do século XIX, que assim, ganha novos contornos, onde a realidade sócio-econômica, também passa a ter grande e quiçá maior relevo. Por tais motivos, Vidas Secas é uma obra pela sua formação e conteúdo singular na literatura, embora faça uma análise das condições sociais do Nordeste do Brasil o que é inerente ao contexto da literatura da época. Graciliano Ramos penetra no pensamento, na carne e na alma de cada um dos membros da família de Fabiano, visando mostrar de forma brutal a discriminação, a cultura e a realidade do sertanejo nordestino. O “sentido da vida” ou os porquês de tantas desgraças são os temas pelos quais tudo de desenrola, aliás o próprio título da obra endossa esta tese, vez que seca, na linguagem popular, segundo o Aurélio, tem o significado de “má sorte” ou azar, portanto “Vidas Secas” tem a inteligência de Vidas sem sorte, o que reporta à razão e ao sentido desta existência desafortunada.

 9. “SENTIMENTO DO MUNDO”, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.


“Meu primeiro livro, “Alguma Poesia” (1930), traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. Já em “Brejo das Almas” (1934), alguma coisa se compôs, se organizou; o individualismo será mais exacerbado, mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor. Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume, “Sentimento do Mundo” (1940). Só as elementares: meu progresso é lentíssimo, componho muito pouco, não me julgo substancialmente e permanentemente poeta”. Com tiragem de 150 exemplares, distribuídos entre os amigos, para evitar a perseguição e a censura do Estado Novo, traz 28 poemas produzidos entre 1935 e 1940. São eles: “Sentimento do Mundo” “Confidência do Itabirano” “Poema da Necessidade” “Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte” “Tristeza do Império” “O Operário do Mar” “Menino chorando na noite” “Morro da Babilônia” “Congresso internacional do medo” “Os mortos de sobrecasaca” “Brinde ao Juízo Final” “Privilégio do mar” “Inocentes do Leblon” “Canção do Berço” “Indecisão do Méier” “Bolero de Ravel” “La Possession Du Monde” “Ode no Cinquentanário do Poeta Brasileiro” “Os ombros suportam o mundo” “Mãos dadas” “Dentaduras duplas” “Revelação do subúrbio” “A noite dissolve os homens” “Madrigal lúgubre” “Lembrança do mundo antigo” “Elegia” “Mundo grande” “Noturno à janela do apartamento” Escrito num tempo de discórdias, guerras (o mundo se recuperava da Primeira Guerra Mundial e já se encontrava iminente a Segunda Grande Guerra), os temas políticos, o sofrimento do ser humano, a solidão, o mundo frágil, o pessimismo e a insegurança predominam nessa obra. Drummond a partir de “Sentimento do Mundo” lança-se contra as atrocidades que o mundo parecia aceitar e apela pela solidariedade humana e social. E, se o individualismo evidente nos primeiros livros é mais sutil, não é por isto menor. O mesmo “eu-oblíquo” contempla-se a si e ao mundo; e, se muitas vezes o pronome na primeira pessoa desaparece, o poeta se desdobra em uma terceira pessoa. O poeta, assim, assume uma posição autocrítica que, por vezes, se transforma em autopunição. É uma poesia engajada, mas sóbria, sem grandes esperanças utópicas ou comprometimentos ideológicos.