segunda-feira, 20 de agosto de 2012

SINA DE SONHADOR



Sonho a vida em poesia,
Verdes matas, maravilhas.
Poeta que tudo sabe,
Beleza, magia e dor.

Sonho, versos sem rima,
Alegoria eleita,
Sem métrica perfeita,
Desabrochar em flor.

Sonho com o embaraço,
Das ondas solitárias,
Sedentas areias bailam,
Lábios carentes de amor.

Sonho com a imensidade,
Deleites e saudades,
Plenitude, penhascos,
Águas salgadas, sabor.

Acordo pra realidade,
Luz real, eu não sou nada,
Descortino a verdade,
A vida é sina do sonhador...







segunda-feira, 13 de agosto de 2012

NOTURNO, 1894, DE RAIMUNDO C. CARUSO



I – AUTOR:


Raimundo C. Caruso é jornalista e professor. Nasceu em Urussanga, a 4 de março de 1946. Criou poesia e prosa; fez algumas reportagens a respeito do Caribe e da América Central. Em 1989, ganhou o 1º prêmio do Concurso Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte”, com o romance “Noturno, 1894”.

II – NOTURNO, 1894

O romance “Noturno, 1894”, ou “Paixões e Guerra em Desterro”, e “A primeira aventura de Sherlock Holmes no Brasil” foi publicado pela primeira vez em 1993, pela Editora UFMG.
Em “Noturno, 1894”, Raimundo Caruso criou uma obra ímpar na literatura catarinense.  A sua originalidade está na medida em que mescla um painel literário de denso teor histórico sobre um momento particularmente tenso da política em Desterro, com personagens e situações entre cômicas e improváveis, chegando a flertar ideias com o fantástico. 
Caruso, assim, além de mexer com a cronologia dos acontecimentos históricos, mescla a criação de personagens ao lado da inclusão, na trama, de vultos históricos brasileiros: de um lado, encontramos Mona Lisa, inspirada na tela de Leonardo da Vinci; Sherlock Holmes (na obra, com o nome do seu criador, o escritor Conan Doyle) e J. Watson, detetives famosos da literatura inglesa; de outro lado, encontramos, entre outros, o Cel. Moreira César, o poeta Luís Delfino, o pintor Victor Meirelles.
O gênero adotado pelo autor é o burlesco, onde a obra se instaura no âmbito da paródia pela dissonância perceptível entre as sombrias estórias de espionagem e perseguições comandadas por um ditador obstinado e cruel, e as passagens satíricas a respeito dos demais habitantes da ilha e de seus hábitos e proezas. E por fim, o evento mais impactante que poderia estar narrado – mas não está − em “Noturno” se faz presente na lacuna que este evento deixa no texto. É não narrando o “Massacre de Anhatomirim” que Caruso evoca a memória da tragédia, que é a força mito-motor por trás da execução da obra.
A caracterização do Coronel Moreira César está relacionada com aspectos de identidade nacional e representação da história: um interventor paranóico que enxerga ligações conspiratórias entre os federalistas e o movimento dos ervateiros do norte do estado, os quais somente dezoito anos depois iriam protagonizar a Guerra do Contestado.
O retrato paródico do detetive traz à tona conflitos relacionados ao complexo de inferioridade dos brasileiros em relação a países desenvolvidos, além de jogar com a noção de um Brasil como paraíso sexual.

III – TEMPO:

A leitura de “Noturno, 1894” leva-nos a uma viagem pelos fatos históricos do final do século XIX, sob a visão ficcional de um conhecedor de acontecimentos sócio, econômico, políticos, nacionais e regionais, relatados exatamente como estão presentes em documentos e obras a respeito da parte significante da história de Santa Catarina, principalmente do Desterro, com o especial cuidado do escritor em citar, “ipsis literis”, o texto histórico e indicar a fonte bibliográfica da qual foi retirado o referido texto. Ao lado, Caruso joga com a ficção e com o tempo, contemporizando fatos históricos de diferentes épocas: a revolta da Marinha (e a Revolução Federalista) e a Guerra do Contestado.

III – ESPAÇO:

A maior parte da trama se dá na cidade do Desterro (Florianópolis).

IV – PERSONAGENS:

CEL. ANTÔNIO MOREIRA CÉSAR - interventor militar em Desterro, atual Florianópolis, entre 1894 e 1895.
LA LENGUA, TABORDA E CAVALCÂNTI - poetas que se reuniam no restaurante de nome alemão “Die Schiffbr”. La lengua estava escrevendo um dicionário de sinônimos relacionados à sexualidade humana.
LUÍS DELFINO - poeta catarinense, cujos poemas eram recitados pelos poetas reunidos no “Die Schiffbr”. Vivia no Rio de Janeiro, onde atuava como médico.
PROF. KOENIG - após a morte de sua esposa, o professor, um dos frequentadores do “Die Schiffbr”, vivia da interpretação dos sonhos alheios.
VICTOR MEIRELLES - um dos mais importantes pintores brasileiros era considerado monarquista por Moreira César, o que lhe valeu uma prisão domiciliar.
DR. WILFREDO - proprietário do Hotel do Vapor, local temido pelos moradores do Desterro, porque era considerada casa de fantasmas.
 PADRE ALCÂNTARA - vigário do Desterro.
ARCEBISPO - veio do Rio de Janeiro em visita a Florianópolis. Sua vida teve um final trágico no incêndio do Hotel do Vapor.
MONA LISA - uma linda e misteriosa mulher que vivia numa casa junto à praça XV de Novembro. Muitos homens se apaixonaram por Mona Lisa, inclusive o governador.
CONAN DOYLE (SHERLOCK HOLMES) E J. WATSON - dois famosos detetives, personagens da literatura inglesa, chamados ao Desterro pelo Cel. Moreira César para atividades de espionagem, negam-se a realizar tal tarefa. Foram viver em Biguaçu. Doyle tornou-se amante de Mona Lisa.
CAROLINA - mãe do poeta Cruz e Sousa. Moreira César, ofendido pelo olhar altivo de Carolina quando ela passou por ele na sua chegada ao Desterro, obrigou-se a viver reclusa no palácio, trabalhando como empregada.
GOUVEIA - auxiliar direto do governador Moreira César.
FRUTUOSO - delegado da cidade.
LORENA - capitão da Marinha, Frederico Lorena foi chefe do governo provisório do Brasil no Desterro, que passou a ser, na época, a capital de um governo paralelo ao do Rio de Janeiro.
ALEXANDRINO E MONGE – revoltosos que se uniram a Frederico Lorena contra Moreira César. O monge italiano liderava um bando de jagunços monarquistas, também conhecidos como ervateiros; Alexandrino era um federalista.

V – SÍNTESE DO ENREDO:

A abertura do romance é apresentada com a personagem, o Moreira César, dialogando com o narrador através do tempo e ditando aquilo que deverá ser descrito em um monólogo dirigido ao narrador do futuro:

“─ Exatamente noventa anos depois dessa madrugada de chuva e vento frio, você se senta diante de uma mesa escura atulhada de papéis, livros e jornais velhos, e começa a datilografar, com entusiasmo talvez apenas aparente, minhas primeiras páginas. Começa agora a escrever o que imagina ser a história dos breves meses em que administrei esta remota e controvertida cidade de Desterro, nome que por si só – curioso eco – é mais que o suficiente para a muitos arrepiar e compungir a pele. E, enquanto escreve, sou obrigado a ficar neste terceiro andar de um velho hotel de putas, localizado na rua do Príncipe – pude ler o nome calhorda antes de entrar correndo no saguão - , mudo para o que seria preciso dizer e impotente – eu – para mudar nesta página uma única vírgula.” (CARUSO, 1997, p.7).

Após a derrota da rebelião liderada pelo capitão da marinha, Frederico Guilherme Lorena, que havia tomado a pequena cidade do Desterro e ali instalado um governo paralelo e independente para o país, o Cel. Antonio Moreira César assume o governo da cidade como interventor a mando de Floriano Peixoto.
Em seguida, são narradas à chegada do coronel a Desterro e suas impressões sobre a ilha e os nativos.
Suas atitudes no Desterro constituem uma sequência de atos ditatoriais, que demonstram sua arrogância, prepotência e pretensa onipotência, um ditador cruel que adota medidas arbitrárias para terminar de reprimir e apagar os rastros do movimento federalista e dos revoltosos que porventura ainda conspirassem contra o governo de Floriano Peixoto e como pano de fundo há uma atmosfera surpreendentemente londrina que paira sobre a ilha, onde há sempre nevoeiro e chuva.
Entre as vítimas de Moreira César está D. Carolina, mãe de Cruz e Sousa, obrigada a viver reclusa, trabalhando como empregada do governador, só por ter mantido altivez diante do mesmo, o que o levou a considerar uma afronta pessoal. D. Carolina é morta ainda no Palácio, após tentar assassinar Moreira César.
Outro perseguido é Victor Meirelles, pintor preferido da família real e amigo de D. Pedro II. Em vista dessas ligações no passado, o governador desconfia das posições políticas do pintor e, em consequência, decide mantê-lo numa espécie de prisão domiciliar.
Moreira César pune os revoltosos com a morte e transforma o Forte Santana e a Fortaleza de Anhatomirim em locais de tortura dos prisioneiros.
Sempre preocupado em eliminar os líderes das revoltas contra o governo de Floriano Peixoto, o governador chama ao Desterro dois detetives ingleses: Mr. Conan Doyle (Sherlock Holmes) e James Watson, para que descubram o paradeiro de Lorena e investiguem sobre os revolucionários clandestinos.
Caruso se utiliza de documentos históricos para recriar o clima da cidade, como artigos jornalísticos que versam contra os federalistas e relatórios da polícia.
Diante da recusa dos detetives à prestação desse tipo de serviço, exige-lhes que deixem a cidade de pronto. Os dois detetives, então passam a viver em Biguaçu.
Enquanto os acontecimentos políticos se sucedem na cidade e no país; no Café “Die Schiffbr”, restaurante próximo ao Palácio, reúnem-se, entre outros, os poetas Taborda, Cavalcânti, prof. Koenig, dado a interpretar sonhos de outras pessoas, e La Lengua.
Ali declamam poesias, principalmente do poeta preferido, o Luís Delfino.  La Lengua, famoso por suas conquistas amorosas, traz, a cada encontro, algumas palavras do seu futuro dicionário de sinônimos para os atos sexuais e para os órgãos genitais, as quais ele coleta e divulga nas mesas do café.
Na cidade do Desterro também vive uma bela e misteriosa mulher de nome Mona Lisa, num casarão próximo à praça XV. Ela é uma donzela que desperta paixões incendiárias quando faz aparições esporádicas na janela de sua casa e sobre quem contam lendas de suicídios e duelos causados por amores não correspondidos. Até mesmo o governador Moreira César se deixa encantar pela moça, mas quem consegue manter um relacionamento amoroso com Mona Lisa é o detetive Doyle, que a visita, sempre disfarçado, para não ser reconhecido no Desterro e tornam-se amantes.
Paralelamente aos fatos já mencionados, ocorre no Desterro um acontecimento assustador: no Hotel Vapor, de propriedade do Dr. Wilfredo, diz-se viverem fantasmas que transtornam o funcionamento do local.
Certa ocasião, do Rio de Janeiro vem à cidade do Desterro, o arcebispo, que após sua recepção concomitante com a do poeta Luís Delfino no porto, dirigem-se em comitiva ao Hotel do Vapor, acompanhado do Alcântara, o padre da cidade, e de outras pessoas ligadas à Igreja. Quando estão todos dentro do hotel, o Dr. Wilfredo o incendeia e, sentado na praça, fica a observar o resultado de seu ato (sua aversão a padres vinha da traição de sua mulher com um frei, com quem fugiu).
A grande frustração de Moreira César era não ter ainda estado à frente de uma guerra, pois suas ambições políticas só se concretizariam, a seu ver, se ficasse famoso graças a sua participação em alguma guerra. Sua chance é a de criar o clima propício, aproveitando-se dos movimentos de revolta no sul do país: Lorena, que estava preso já há algum tempo, consegue fugir e a ele se juntam outros dois líderes de revoltosos: o monge italiano, comandante dos jagunços da serra, e o federalista Alexandrino. Os três organizam suas tropas e aproximam-se do Desterro.
Moreira César sente que é o seu momento: prepara as tropas governamentais para o enfrentamento tão esperado – é a sua oportunidade de consagração como herói da pátria.
Momentos antes do combate, Moreira César deseja ir à praça XV e sentar-se sob a figueira, meditar a respeito de como poderá ser seu futuro, a sorte do combate que se avizinha.
No decorrer da narrativa da trajetória de Moreira César e da própria cidade de Desterro, transformada em cenário e ao mesmo tempo em personagem por Caruso, não há referências diretas às execuções em massa na ilha de Anhatomirim. Há perseguição aos revoltosos, delírios paranóicos e megalomaníacos por parte do administrador. Há tiros, passagens sobre a caçada ao líder dos federalistas – Lorena −, ameaças, mas o grande evento traumático da época passa apenas pelo sugerido.
No entanto, as estratégias das políticas do esquecimento aparecem claramente no texto de Caruso quando, por exemplo, Moreira César ordena que o secretário da Cultura e Turismo tome as seguintes atitudes em relação aos nomes das ruas da cidade:

“Quero que o Senhor troque todos os nomes de ruas, jardins, logradouros públicos que ostentem a mais leve referência ao extinto regime. E uma simples passada de olhos me revela um sem-número delas: são ruas do Imperador, Bragança, Áurea, Augusta, do Príncipe, Largo da Princesa, Visconde disso, Condessa daquilo, e inclusive a praça defronte do Palácio do Governo, que se chama Barão de Laguna. Em vez de Frei ou de Padre sicrano vamos colocar agora Engenheiro fulano de tal. No lugar de Visconde, vamos escrever Tuiuti, Lomas  Valentinas ou Voluntários da Pátria. [...] Dar o nome de uma das mais importantes  batalhas vencidas pelo exército brasileiro a um reles bordel de uma ordinária rua do Príncipe é uma afronta que deveria levar o responsável às barras de um tribunal militar, que diabos! Vocês tiveram aqui um tal de Conselheiro Mafra, republicano histórico dos tempos de 1870, e que resolveu, com vantagens para a Província, um problema de limites com o Paraná. Pois o que é que estamos esperando? O Senhor pode então anotar aí a primeira sugestão: de hoje em diante a rua do Príncipe passa a chamar-se Conselheiro Mafra. E o hotel das putas terá o nome mudado para Hotel do Príncipe. Não, não, da Princesa, que assim a emenda fica melhor que o soneto. O senhor tem assinaladas em vermelho aqui no mapa as ruas cujos nomes devem ser mudados. Mãos à obra!” (CARUSO, 1997, p.36).

E posteriormente, por ocasião da efetivação da tarefa ordenada:

“- Amanhã teremos a solenidade da substituição dos nomes imperiais. Não quero encontrar mais um único vestígio monarquista nesta ilha. Nem fotos, nem nomes, nem títulos, nem lembranças, nem saudades, nem nada. O passado está morto, enterrado.”
                                                                                              (CARUSO, 1997, p.51).

Com o passado “morto, enterrado”, a memória da barbárie ocorrida na capital de Santa Catarina durante a revolução federalista fica para ser resgatada pelo “passado que recorda”, ou seja, pela literatura, pela tradição oral, pela lembrança recalcada no trauma, mas cultivada na memória vinculante. O que possibilita que o nome Florianópolis tenha o significado do que “não cessa de doer”, para além de significar ‘Cidade de Floriano’, é a memória cultural que também, está por trás do sentimento de revolta evidenciado no episódio da Novembrada e que, além disso, é a força mito-motor por trás da realização de um romance como “Noturno, 1894”.


domingo, 12 de agosto de 2012

CINDY SHERMAN (1954): MELODRAMA EM FOTOGRAFIAS



Cindy Sherman nasceu em 19 de janeiro de 1954, em Glen Ridge.  Logo após o seu nascimento, sua família se transferiu para a cidade de Huntington, Long Island.
Estudou no Buffalo State College entre 1972 e 1976, onde despertou o gosto pela pintura. No entanto, sua limitação com essa arte, levou-a ao campo da fotografia, que considerava como o meio de expressão apropriado à sociedade, dominada pelos meios de comunicação.

Não havia mais nada a dizer – sobre a pintura”, ela relembrou mais tarde. “Eu estava meticulosamente copiando a arte de outros e então eu me dei conta que eu poderia somente usar uma câmera e colocar em prática uma ideia instantânea.

Em 1976, formou-se em Fotografia, iniciando sua carreira em Nova York, tornou-se uma das grandes expoentes da arte contemporânea.
Nos anos setenta Cindy Sherman começou a desenvolver seu percurso artístico em torno da fotografia como suporte das muitas figuras passíveis de ser retratada a partir de sua própria pessoa, assim, a artista realiza, por meio dela, uma denúncia dos lugares estereotipados de sujeição destinados à mulher em nossa sociedade.
Ainda que, esses auto-retratos assemelham-se a uma atitude narcisista, introspectiva e de sensualidade, a artista esclarece que: “são retratos da emoção personificada e não retrato meus. Tento fazer as pessoas reconhecerem alguma coisa delas mesmas, e não minhas”.
Cindy Sherman empresta seu corpo em prol da arte e trabalha em séries temáticas.

“Tento sempre distanciar-me o mais que posso nas fotografias. Embora, quem sabe, seja precisamente fazendo isso que eu crio um auto-retrato, fazendo essas coisas totalmente loucas com esses personagens, diz, mas seria possível?”

A partir dessas obras, Sherman levantou questões sobre a feminilidade na sociedade, na mídia e na arte. Para criar suas fotografias, Sherman assume várias funções: fotógrafa, modelo, maquiadora, estilista, cabeleireira e com esses apetrechos cria uma diversidade de quadros vivos e personagens perturbadoras.
Uma de suas séries mais famosas, “Untitled Film Stills”, desenvolvida de 1977 a 1980, contém 69 fotografias em preto e branco ou colorido, de personagens femininas sempre representadas pela própria artista. Essas imagens nos lembram de forma indireta as divas cinematográficas hollywoodianas ou pinturas de grandes mestres, dos anos 40 e 50, capturadas em cenas de filmes “noir”, ou então em momentos de descontração na intimidade de suas casas.


Essas figuras aparecem sempre solitárias e nos remetem à sensualidade, ao luxo, bem como ao suspense, a solidão e ao conflito promovido pelas circunstâncias nas quais se encontram.


Cindy Sherman, com essa série, denúncia de forma irônica os diversos estereótipos reservados às mulheres que povoam o imaginário de nossa época, marcado pela influência midiática, dos filmes às propagandas televisivas.
O reconhecimento da artista veio com essa primeira série, como também, a sua popularidade junto ao movimento feminista e prolongou-se durante toda sua carreira.
A força dessas imagens e sua influência na construção das identidades são retratadas sem mencionar de quem se trata, ou em que circunstância. Além de dispor suas personagens em posições nas quais elas parecem estar sendo olhadas e isso implica a co-participação do espectador da obra, encerrando a imagem em si mesma ou se abre para o espectador através do artifício do olhar.
Em suas séries subsequentes, como as “Rear Screen Projections” e as “Centerfolds or Horizontals”, o absurdo atinge o ápice do horror. A artista passa a se utilizar de revelações em grande formato, inspiradas ora nas emissões televisivas com seus cenários visivelmente falsos ora confinadas a um movimento da câmera que as coloca nos ângulos e posições frequentemente utilizados em revistas pornográficas.
Na série “Fashion Photos” encontra-se fotografias inspiradas pelos editoriais de moda, em personagens apavorantes, grotescas, estranhas, loucas e sinistras. É como se retratasse um desfile de horror e a decadência da mulher, destituída de todas as glamourosas imagens.


 Nas séries “Fairy Tales”, “Disasters”, “Civil War”, “Sex Pictures”, “Horror and Surrealist Pictures”, “Masks” e “Broken Dolls” a ironia dá lugar ao horror e atinge à completa dissolução da figura humana, relegados aos dejetos, às excrescências, à carne, ao sangue, à sujeira, ao informe.


Utilizando-se de uma iluminação sombria e da visão de figuras burlescas, criadas com o uso de máscaras sobrepostas em camadas e próteses, aproximou o feminino do grotesco como absurdo, simulacro, revelação da farsa da revelação, automatismo, inumanidade mascarada de humano e tudo o mais que seu desfile de horrores e decadência é capaz de produzir.
Dessa forma, somos reenviados aos cenários e personagens desprovidos de sentido da alusão aos contos de fada em seu viés aterrorizante, de amontoado de bonecos, de monstros e combinação de pedaços de manequins colocadas em poses sexuais, que remetem ao estranho.  



Em “Masks” e “Broken Dolls” o inumano de máscaras distorcidas e mutiladas não esconde mais nada detrás de si. A própria máscara tem vida do mesmo modo como as bonecas despedaçadas e colocadas em posições obscenas também soam absurdas, desligadas de qualquer possibilidade de vinculação com algo da esfera do humano.


Nessas séries não há mais a sedução da figura com seu olhar perdido nas fotografias anteriores. Mantém-se, no entanto, um desconforto, que é aumentado pela artificialidade da composição tão explicitamente revelada quanto o sexo das figuras fotografadas.
Na série “Bus Riders”, a artista apresenta seus personagens com suas vestimentas, sentados em um barquinho, com um disparador da câmera fotográfica nas mãos. O irônico está em que aquelas figuras jovens, velhas, homens e mulheres se desconstroem ante os olhos do espectador desde que constatemos o disparador da máquina.


A ironia em Sherman está em apresentar uma cena e simultaneamente a construção da cena como farsa da composição artística.
Já em “History Portraits” ou “Old Masters”, a artista presta tributo aos grandes mestres da pintura, reproduzindo em suas criações fotográficas aquilo que parecem ser telas de pintores dos séculos precedentes, que aparecem como referência nas formas da composição, no uso das cores e da luz, e principalmente nos motivos ou temas de cada obra: madonas, personagens mitológicos ou nobres com suas ricas vestimentas e adornos.



Em 2004, o brilho irrecuperável das primeiras séries reaparece aqui como cru e franca decadência na série “Clowns”. Nela encontramos figuras mais grotescas do que ridículas, com seus sorrisos assustadores, imagens fantasmagóricas frente a um fundo de cores fortes e marcantes, excesso de vivacidade de onde brotam como máscaras da morte, satirizando uma suposta felicidade.


Os clowns retornam os objetivos principais da arte de Sherman: personificação do grotesco e da ironia, que sorriem para o espectador de forma terrível e ameaçadora.


Em 2011, uma de suas fotos foi vendida na casa de leilões Christie’s por 3,9 milhões de dólares, tornando-se, na época, a mais cara fotografia vendida em um leilão de arte.