domingo, 7 de outubro de 2012

OS MORTOS DE SOBRECASACA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. 

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
Que rebentava daquelas páginas.
 



O poema “Os mortos de sobrecasaca” enaltece o “soluço de vida”, que o eu lírico destila entre o passado e o presente, a vida e morte, numa espécie de obsessão, uma tentativa de descobrir e redescobrir-se, através de um simples álbum de fotografias de seus antepassados.

O retrato pode ser comparado a um túmulo, porque ali “jazem” os mortos de família, que soluçam seu tempo e o que fizeram dele, enquanto um verme (e não as traças, agente literariamente consagrado da morte, tal como uma segunda morte) rói o que restou de cada um como a lembrança, a existência e a dignidade, encarregando-se de fazer desaparecer uma história que talvez encontre explicação no poema “Confidência do itabirano”: “Tive ouro, tive gado, tive fazendas”.

O álbum contrasta com a ironia daqueles que os observam, em que todos os vivos se debruçavam zombados das fotos da família e suas heranças de domínio (a imponência dos mortos vestindo antigas e estranhas sobrecasacas), sem perceber o imortal soluço de vida que rebentava daquelas páginas.

As sobrecasacas, porém, dizem mais do poder político, da respeitabilidade e por isso são “intoleráveis”; tais fotografias são os vestígios de um tempo, uma espécie de impressão daqueles corpos que se foram, de suas personalidades e hábitos, de seu poder e posse.

O poema estabelece uma tensão entre o estado de fixidez inerente à natureza do objeto fotografado e o movimento sugestivo e peculiar fornecido pela figura do verme que desliza sua concretude formal sobre a imagem química desbotada pelo tempo. O tom de sépia descrito pelo espectador no poema, metáfora recorrente para representar os estragos do tempo no papel "perecível" que registra a "eternidade" do estado de fixidez, sublinha a ideia de que a fotografia, neste caso consequência do rito familiar, fornece a possibilidade de realização de experiências óticas. Ou seja, o envelhecimento progressivo do papel de registro (primeira sugestão de movimento através do tempo) se rebela contra o estado já envelhecido e estático das personagens da fotografia (natural e já registrado / congelado no momento do ato).

Não há como se desfazer do passado, da memória, mesmo que as fotos se acabem um dia.

Observe nos dois últimos versos, a expressividade da anadiplose, figura sintática que consiste na repetição da (s) mesma(s) palavra(s) no final de um verso (ou oração) e no início do verso (ou oração) subseqüente: “...que rebentava/ que rebentava...”, dando ênfase na expressão e conferindo vida e energia ao passado, que insiste em se fazer presente.