sábado, 3 de agosto de 2013

IMPRESSIONISMO: INTRODUÇÃO E CARACTERÍSTICAS


“A busca da imagem ao natural. A impressão do momento.”

I – INTRODUÇÃO:

Foi meta do realismo do século XIX saber ver e representar o que existe ao nosso redor. Porém, nem com muito esforço era fácil chegar às últimas consequências: a uma opção sensorial ainda mais extrema ao ser concebida desde a cerebralidade visual do pintor. Mas, como para homens considerados uma exceção o difícil é um desafio, e desconhecem a palavra impossível, se alcançaria enfim aquilo que podia e tinha que ser seu empreendimento e mais do que uma solução final: o IMPRESSIONISMO.
O Impressionismo foi um movimento artístico que revolucionou profundamente a pintura e deu início às grandes tendências da arte do século XX.
Fruto da tecnologia, o Impressionismo relaciona-se com a fotografia, inventada por Hércules Florence, no Brasil, no final de 1830.
A arte impressionista está associada à história da modernização de Paris, quando Haussmann decidiu edificar uma cidade planejada, expressando o enriquecimento da sociedade, da indústria e da tecnologia.
Os pintores impressionistas procuraram, a partir da observação direta do efeito da luz solar sobre os objetos, registrar em suas telas as constantes alterações que essa luz provoca nas cores da natureza.
Na realidade, não houve nenhuma teoria que orientasse a criação artística desses pintores. Há via apenas algumas considerações gerais, muito mais práticas do que teóricas, que os artistas seguiam em seus procedimentos técnicos para obter os resultados que caracterizavam a pintura impressionista.

II – LOCALIZAÇÃO:

O fim do século XIX e o início do século XX assistiram uma fase de sincretismo artístico, decorrente da interpenetração de elementos realistas e naturalistas, com elementos da reação idealista representada pelo simbolismo. A essa atitude denominamos Impressionismo. Filosoficamente o Impressionismo remonta ao filósofo grego Heráclito: “não podeis percorrer duas vezes o mesmo rio. O rio muda de segundo e segundo, assim como o homem que o percorreu. A vida é transformação incessante. O que é, enquanto é, não é, porque muda.”
Recebe o nome de Impressionismo a corrente artística que surgiu na França, principalmente na pintura, por volta do ano de 1870. Esse movimento, de cunho antiacademicista, propôs o abandono das técnicas e temas tradicionais, saindo dos ateliês iluminados artificialmente para resgatar ao ar livre a natureza, tal como ela se mostrava aos seus olhos, segundo eles, como uma soma de cores fundidas na atmosfera. Assim, o nome impressionismo não foi casual.
A primeira vez que o público teve contato com a obra dos impressionistas foi em 1863, numa exposição coletiva realizada em Paris. Os artistas impressionistas resolveram unir-se, alugar uma sala e criar o “Salão dos Recusados” (cobraram ingressos). Mas o público e a crítica reagiram muito mal ao novo movimento, acreditando que eles queriam era somente “impressionar” através de aberrações e mantiveram fiéis aos princípios acadêmicos da pintura.
O crítico Louis Leroy, na primeira exposição do grupo do café Guerbois (onde os pintores se reuniam), ao ver a obra de Monet, Impressão, Sol Nascente, começou sarcasticamente a chamar esses artistas de impressionistas. Criticados, recusados e incompreendidos, as exposições de suas obras criavam uma expectativa muito grande nos círculos intelectuais de Paris, que não conseguiam compreender e aceitar seus quadros, nos quais estranhavam o naturalismo acadêmico.
Para eles o Impressionismo era algo desprezível, gastaram mais gestos e palavras e, inclusive dinheiro. Essa reação da burguesia, dos intelectuais e artistas parisienses diante dos impressionistas que, misturados com outros de outra índole estética, compareceram publicamente à exposição dos “independentes” de 1874. Debochavam do “borrão” pictório e seus olhos ardiam diante de tanta cor...
O jovem marchand Durand Rirel, filho de um colecionado de arte, tinha visão dos negócios: acompanhou o movimento dos Impressionistas; adquiriu muitas obras por preços baratos e de autores não reconhecidos no mercado das artes; abriu uma Galeria em Londres; fez uma Exposição dessas obras exaltando a origem delas (Paris ainda era o centro cultural na época) e acabou ganhando muito dinheiro com a venda dessas. Portanto, os Impressionistas fizeram fama em Londres e depois em Nova York (Mary Cassatt adquiriu algumas obras e levou para Nova York no final do século XIX), era à força do mercado.
Só na década seguinte é que os impressionistas foram devidamente reconhecidos. Depois de 1945 o governo francês criou, em Paris, o Museu Jeu de Paume, conhecido também como Museu dos Impressionistas. Recentemente as obras dos impressionistas foram transferidas para o Quai d’Orsay, também em Paris.

III – CARACTERÍSTICAS:

“Retratar o mundo, belo e mutável, como a luz o molda: essa a ambição que os impressionistas perseguiram, levando seus cavaletes para fora do estúdio, para o ar livre e o campo, onde há sol e árvores, cor e penumbra.”

São duas as fontes mais importantes do impressionismo: a fotografia e as gravuras japonesas (ukiyo-e). A primeira alcançou o auge em fins do século XIX e se revelava o método ideal de captação de um determinado momento, o que era uma preocupação principalmente para os Impressionistas. As segundas, introduzidas na França com a reabertura dos portos japoneses ao Ocidente, propunham uma temática urbana de acontecimentos cotidianos, realizados em pinturas planas, sem perspectiva.
A arte principal era a pintura e a sua função primordial era registrar o real para a memorização, para o saudosismo, relações afetivas, familiares e a expressão, da maneira que o artista vê e pensa o mundo.
A fotografia é o desenho realizado pela luz e que deixa impressa as imagens teoricamente; enfim, tinha a função de fixar o mundo visível. Os artistas impressionistas libertaram a pintura da sua obrigação inicial e técnica de retratar o mundo realista, como forma de cópia ou precisão, abolindo as regras acadêmicas com tamanha ousadia.
A técnica da fotografia desenvolvida naquela época demorava uma média de 10 a 15 minutos para ser executada, não retratava o momento absoluto e somente em preto e branco. A invenção da fotografia é oriunda da modernidade; mas, efêmera, transitória, fazendo parte do “modismo” da época, apresentando “obsolência”.
Na época, a fotografia não mostrava a subjetividade do fotógrafo. Hoje, o fotógrafo pode construir uma imagem e subjetivar o olhar do mundo.
Ao contrário que pensavam os artistas acadêmicos, que a fotografia veio destruir a pintura, os artistas impressionistas preencheram as lacunas deixadas pela fotografia: apresentaram o mundo tal como ele parecia ser e colorido; permitindo romper com o passado, com o mito dos temas e estando livres para mostrar o que eles quisessem. E tudo isso, com uma visão subjetiva, mas dificilmente psicológica (não se faz um comentário sobre o que o espectador está vendo); pois, o olhar do artista é frio e impessoal, porque é fragmentação do real. A imagem não é focada em um assunto e nem numa narrativa, o que importa é o momento fugaz (já passou, foi embora e, portanto, teve movimentação).
Era o “novo” e era instigante, retratavam: a alegria do dinheiro; o prazer; os bailes; os restaurantes; as praias; o lazer, pinturas frívolas com assuntos de nenhuma importância e com imagens que traziam momentos prazerosos.
A técnica Impressionista é da casualidade e do mundo capitalista. O artista podia ser autodidata, compravam o “kit” ponto; não frequentavam as Academias (geralmente, não tinham condições financeiras para ingressarem nas mais importantes academias da época) e saíam em busca de reconhecimento institucional para poderem expor no Salão, pois, o mercado das artes era governado pela legitimidade do Salão (excluindo Renoir, que era filho de artista, todos os impressionistas haviam sido rejeitados do Salão).
Os representantes mais importantes do impressionismo foram: Manet, Monet, Renoir, Degas e Gauguin. No restante da Europa isso ocorreu posteriormente. Ao impressionismo seguiram-se vários movimentos, representados por pintores igualmente importantes e com teorias muito pessoais, como o pós-impressionismo (Van Gogh, Cézanne), o simbolismo (Moreau, Redon), e o fauvismo (Matisse, Vlaminck, Derain, entre outros) e o retorno ao princípio, ou seja, à arte primitiva (Gauguin). Todos apostavam na pureza cromática, sem divisões de luz.
Os impressionistas propunham a observação e a fixação das alterações que a luz produz nas cores da natureza e seus princípios podem ser sintetizados como:

a) COR, LUZ E SOMBRA:
A cor não é uma qualidade permanente da natureza. As suas tonalidades estão constantemente mudando. Pintando no campo, deram conta de que as luzes, assim, no plural, eram extremamente diferentes às enraizadas na mente-visão do pintor e até na do ateliê. A ótica científica tinha dado importantíssimos passos com respeito à percepção humana da cor.
A pintura deve registrar as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar num determinado momento, pois as cores da natureza se modificam constantemente, dependendo da incidência da luz do sol.
Consideravam a luz sob o ponto de vista empírico: conceito químico e científico da luz – prisma (luz de 7 raios de cores que representam tudo o que existe). Cor e luz significam a mesma coisa (escuro é falta de luz). Uma cor não é formada por si própria: o verde – vermelho; amarelo – violeta; o azul – laranja, mas por cores opostas e complementares.
O desenvolvimento da indústria de pigmentos desenvolvido para pintar tecidos, paredes e gravuras e vendidos em frascos com pó (1830) facilitou o trabalho dos artistas. Os pintores misturavam o pó com óleo de nozes ou de linho (portanto, as cores já vinham prontas), colocavam no tubinho e carregando consigo para pintar ao ar livre, passando o dia tentando registrar as alterações da luz conforme o momento, fazendo o que a foto não conseguia.
Descobriu-se e formulou-se a tão aproveitável lei dos complementários cromáticos, de longa data e intuitivamente sabida pelos artistas (já que não vemos a cor em si, colocavam pintas vermelhas e verdes juntas, quando vistas de longe, as duas cores se fundiam, criando uma justaposição das cores, uma ao lado da outra, ao invés de misturá-las
Assim, pois, os impressionistas deram por inquestionável que o primordial era as atmosferas e tintas; pincelaram em demasia; metodizaram seu toque; impuseram os poderes da luz solar nublada ou não; repudiaram a do ateliê; aproveitaram de todas as cores resplandecentes, que custavam pouco, de modo a provocar pouca demanda entre os que pintavam escuro até “asfálticos”. Acertaram ao dosar o sempre dificílimo branco.
As sombras não são pretas nem escuras, mas luminosas e coloridas. São cores e luzes de outras tonalidades e devem ser luminosas e coloridas, tal como é a impressão visual que nos causam, e não escuras ou pretas, como os pintores costumavam representá-las no passado.
Os impressionistas criavam sua arte ao ar livre, rápida, “como um borrão” sob um mesmo e curto lapso de luz.
Os contrastes de luz e sombra devem ser obtidos de acordo com a lei das cores complementares. Assim, um amarelo próximo a um violeta produz uma impressão de luz e de sombra muito mais real do que o claro-escuro tão valorizado pelos pintores barrocos.
As cores e tonalidades não devem ser obtidas pela mistura das tintas na paleta do pintor. Pelo contrário, devem ser puras e dissociadas nos quadros, em pequenas pinceladas. É o observador que, ao admirar a pintura, combina as várias cores, obtendo o resultado final. A mistura deixa, portanto, de ser técnica para ser óptica.

b) LINHA:

A linha não existe na natureza. A linha é uma abstração criada pelo homem para representar as imagens visuais. Os impressionistas eliminaram o traço: o desenho como visível convenção da linha abstrata.
Optaram pela total anulação dos contornos, o que se costuma entender como desenho, apesar de que a pintura de mancha é sólida, nunca deixa de exigir um alto domínio do desenho.
As figuras não devem ter contornos nítidos, pois a linha é uma abstração do ser humano para representar as imagens.
Embora Velázquez tenha aparecido no milagre do século XVII, era muito árduo conciliar cor, atmosfericidade e volumetria. De modo que o Impressionismo viu-se obrigado a sacrificar a “tatilidade” ótica; a capacidade de poder “tocar” com os olhos todo volume, que foi suprida com certa efusão. Porém, desapareceu o tátil na percepção ótica da forma e suas várias texturas palpáveis, pela via tensa do sensorial irrompeu o tilintar musical das tintas, matizes e toques: um modo novo também de sentir e entender a orquestração da cor e das pinceladas. Assim como, em compensação pelo desvanecimento do antigo poder da forma, irrompeu no Impressionismo a fragrância e o sabor do pintar por pintar.

c) FUGACIDADE:

Não interessa a visão objetiva e estática da realidade, importam as impressões perante os efeitos mais fugidios, importa captar a sensação da paisagem, no momento em que ela se dá na sensibilidade do artista.

IV – LITERATURA:
Na literatura, a linguagem impressionista buscava figurar as variedades dos estados mentais com a maior precisão possível. Fazendo uso de linguagem expressiva, colorida e sonora, sugerindo mais do que dizem as palavras.
O impressionismo literário cultivou o “aristocrático prazer de desagradar” às massas mentalmente condicionadas, da sociedade urbano-industrial.
Utilizando-se de sinestesia, prosopopéia, frases nominais, associação “concreto/abstrato”, o refinamento dos impressionistas exige leitores intelectualmente sofisticados.
As emoções e sentimentos despertados no artista; as sensações; a “percepção visual do instante”; a valorização dos estados de alma; a memória; o instável; a cor, a atmosfera e os tons são motivos da escrita impressionista.
Os temas constantes são: o cansaço da vida e na falta de comunicação; o sentimento de frustração; a atração pela decomposição e pela morte; a procura do tempo perdido etc
São exemplos: Thomaz Mann, “Tonio Kroeger”, 1913 e “A morte em Veneza”, 1913; Tchecov, “Tio Vânia”, 1899; Hofmannsthal, “O Louco e a Morte”, 1894, “Salomé”, 1915.
No Brasil, encontramos características impressionistas em autores como: Machado de Assis, Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Graça Aranha, Coelho Neto e, entre os portugueses, Eça de Queirós e Cesário Verde.