sábado, 22 de março de 2014

HUMANISMO: INTRODUÇÃO E CONTEXTO HISTÓRICO


 1. INTRODUÇÃO:

O antropocentrismo – o predomínio do humano sobre o transcendente – era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de Humanismo. A palavra deriva da expressão latina “studia humanitatis”, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal.



Num sentido específico, tem ainda o seguinte sentido: para o pensador romano Cícero, “humanitas” significa “cultivo da mente”, certo tipo de educação ampla necessária à atuação adequada na vida social; para os gregos, a palavra “paidéia” designava o mesmo tipo de educação; essa educação deveria permitir às pessoas a exploração de todo a trajetória do conhecimento humano, incluindo as ciências e a Matemática, a fim de desenvolver todo seu potencial.
“O homem é a medida de todas as coisas”, frase de autoria do filósofo grego Protágoras que sintetiza o Humanismo.


A fonte original de todo Humanismo foi o estado de espírito que gerou o Renascimento e, num primeiro momento, entende-se como uma retomada do estudo dos autores antigos de uma maneira numérica e qualitativamente mais intensa do que se fazia durante a Idade Média.
A época era de redescoberta e reinterpretação das obras dos pensadores da Antiguidade a partir de seu próprio contexto histórico.
O interesse por esse período da história resultou o Humanismo europeu do século XIV, que consistiu basicamente na afirmação da dignidade e dos valores humanos, desdobrando-se historicamente no Iluminismo do século XVIII, até chegar aos nossos dias, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Deve-se lembrar que no momento em que aflora o movimento humanista a Europa, se encontra por um lado, dominada pela ideologia da Igreja Católica, o Teocentrismo, a serviço da dominação das massas e da manutenção do poder das autoridades religiosas que, normalmente, acumulavam os poderes espiritual e temporal, e por outro, a revitalização das cidades, a formação de redes de comércio entre centros distantes, a consolidação de uma classe mercantil muito abastada, a criação de bancos e a centralização do poder político em torno de cidades ou de reinos.
A principal arma de combate dos humanistas contra o Teocentrismo e seus dogmas foi á faculdade humana da razão, exercida por meio da observação do mundo pelos filósofos. O uso da razão tinha por fim promover o desenvolvimento das capacidades humanas, abrindo novas possibilidades para a humanidade como um todo. Tal concepção de pensamento chamava-se Antropocentrismo. Essa nova perspectiva de ver o universo e a natureza fez com que o homem tentasse explicá-los através da ciência. Desse modo, essa nova atitude implicou o nascimento da ciência moderna e da Matemática nos trabalhos de Giordano Bruno, Leonardo da Vinci, Galileu e Nicolau Copérnico, entre outros.


2. CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

O humanismo é, dentro do revolucionário mosaico renascentista, um nostálgico e sentimental retorno à cultura e às letras clássicas.


Ambrogio Lorenzetti (c. 1290 - c. 1348). A Vida na Cidade. Os Efeitos do Bom Governo (c. 1337-1340). Afresco (detalhe). Siena, Palazzo Pubblico, Sala dei Nove.

O Humanismo surgiu inicialmente nas cidades prósperas da Itália, aonde vieram se alojar, sob a proteção dos mecenas, sábios foragidos da sede do Império Romano do Oriente, Constantinopla, antiga Bizâncio. Tais sábios traziam consigo as obras dos autores antigos, gregos e latinos. Esses autores, pouco lidos durante a Idade Média, começaram a ser novamente divulgados no Ocidente e o interesse por suas obras é que constituirá o Humanismo, movimento preparador do Renascimento.
O Humanismo português vai desde a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434, até o retorno de Sá de Miranda da Itália, em 1527, quando começou a introduzir em Portugal a nova estética clássica.
Torre do Tombo: arquivo do Reino, onde se guardavam os documentos oficiais. A Torre do Tombo foi destruída por um terremoto em 1755, mas o arquivo conservou sempre o mesmo nome.
Situada no Campo Grande, na Cidade Universitária, na zona norte da cosmopolita capital de Portugal, Lisboa, a Torre do Tombo é a designação do arquivo central do País, desde os remotos tempos da Idade Média.
Anteriormente, o arquivo central situava-se na Torre do Tombo do Castelo de São Jorge (de 1378 a 1755), ficando desde aí a sua designação.


Estando em perigo no grande terremoto de 1755, mudou-se o seu importante conteúdo para o Palácio de São Bento onde se manteve até à construção do edifício atual em 1990, pertencendo agora à tutela do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IANTT).


O projeto do atual edifício foi assinado por Arsénio Cordeiro e António Barreiros, ocupando uma área de 54.900 metros quadrados, contando com uma área de arquivo e investigação, outra para a realização das mais variadas atividades culturais e outra para os necessários serviços administrativos. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

VÍCIOS DE LINGUAGEM



A gramática é um conjunto de regras que estabelece um determinado uso da língua, denominado norma culta ou língua padrão. As alterações defeituosas que sofrem a língua em sua pronúncia e escrita devidas à ignorância do povo ou ao descaso de alguns escritores, têm os chamados vícios de linguagem. São eles:

1. BARBARISMO: consiste em grafar ou pronunciar uma palavra em desacordo com a norma culta.

pesquiza (em vez de pesquisa)
prototipo (em vez de protótipo)

2. SOLECISMO: consiste em desviar-se da norma culta na construção sintática.

“Fazem dois meses que ele não aparece.” (em vez de faz; desvio na sintaxe de concordância)
São os erros que atentam contra as normas de concordância, de regência ou de colocação.

Exemplos:
Solecismo de regência:

“Ontem assistimos o filme.” (por: Ontem assistimos ao filme)

“Cheguei no Brasil em 1923.” (por: Cheguei ao Brasil em 1923)

“Pedro visava o posto de chefe.” (correto: Pedro visava ao posto de chefe).


Solecismo de concordância:

“Haviam muitas pessoas na festa.” (correto: Havia muitas pessoas na festa)

“O pessoal já saíram?” (correto: O pessoal já saiu?)


Solecismo de colocação:

“Foi João quem avisou-me.” (correto: Foi João quem me avisou).

“Me empresta o lápis.” (Correto: Empresta-me o lápis).


3. AMBIGUIDADE ou ANFIBOLOGIA: trata-se de construir a frase de um modo tal que ela apresente mais de um sentido.

“O guarda deteve o suspeito em sua casa.” (na casa de quem: do guarda ou do suspeito?)


4. CACÓFATO: consiste no mau som produzido pela junção de palavras.

“Paguei cinco mil reais por cada.”


5. ECO: trata-se da repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.

“O menino repetente mente alegremente.”


6. PLEONASMO VICIOSO: consiste na repetição desnecessária de uma ideia.
“O pai ordenou que a menina entrasse para dentro imediatamente.”
Observação: Quando o uso do pleonasmo se dá de modo enfático, este não é considerado vicioso.

7. ARCAÍSMO: palavras, expressões, construções ou maneira de dizer que deixaram de ser usadas ou passaram a ter emprego diverso.

Na língua viva contemporânea: asinha (por depressa), assi (por assim) entonces (por então), vosmecê (por você), geolho (por joelho), arreio (o qual perdeu a significação antiga de enfeite), catar (perdeu a significação antiga de olhar), faria-te um favor (não se coloca mais o pronome pessoal átono depois de forma verbal do futuro do indicativo), etc.


8. VULGARISMO: é o uso linguístico popular em contraposição às doutrinas da linguagem culta da mesma região.

O vulgarismo pode ser fonético, morfológico e sintático.

Fonético:

A queda dos erros finais: anda, comê, etc. A vocalização do "L" final nas sílabas.

Ex.: mel = meu, sal = saú etc.

A monotongacão dos ditongos.

Ex.: estoura = estóra, roubar = robar.

A intercalação de uma vogal para desfazer um grupo consonantal.

Ex.: advogado = adevogado, rítmo = rítimo, psicologia = pissicologia.


Morfológico e sintático:

Temos a simplificação das flexões nominais e verbais. Ex.: Os aluno, dois quilo, os homê brigou.

Também o emprego dos pronomes pessoais do caso reto em lugar do oblíquo. Ex: vi ela, olha eu, ó gente, etc.

9. ESTRANGEIRISMO: Todo e qualquer emprego de palavras, expressões e construções estrangeiras em nosso idioma recebe denominação de estrangeirismo. Classificam-se em: francesismo, italianismo, espanholismo, anglicismo (inglês), germanismo (alemão), eslavismo (russo, polaço, etc.), arabismo, hebraísmo, grecismo, latinismo, tupinismo (tupi-guarani), americanismo (línguas da América) etc.

O estrangeirismo pode ser morfológico ou sintático.

Estrangeirismos morfológicos: Francesismo: abajur, chefe, carnê, matinê etc.

Italianismos: ravioli, pizza, cicerone, minestra, madona etc.

Espanholismos: camarilha, guitarra, quadrilha etc.

Anglicanismos: futebol, telex, bofe, ringue, sanduíche breque.

Germanismos: chope, cerveja, gás, touca etc.

Eslavismos: gravata, estepe etc.

Arabismos: alface, tarimba, açougue, bazar etc.

Hebraísmos: amém, sábado etc.

Grecismos: batismo, farmácia, o limpo, bispo etc.

Latinismos: index, bis, memorandum, quo vadis etc.

Tupinismos: mirim, pipoca, peteca, caipira etc.

Americanismos: canoa, chocolate, mate, mandioca etc.

Orientalismos: chá, xícara, pagode, kamikaze etc.

Africanismos: macumba, fuxicar, cochilar, samba etc.

Estrangeirismos Sintáticos:



Exemplos:

Saltar aos olhos (francesismo);

Pedro é mais velho de mim. (italianismo);

O jogo resultou admirável. (espanholismo);

Porcentagem (anglicanismo), guerra fria (anglicanismo) etc.


10. OBSCURIDADE: vício de linguagem que consiste em construir a frase de tal modo que o sentido se torne obscuro, embaraçado, ininteligível. Em um texto, as principais causas da obscuridade são: o abuso do arcaísmo e o neologismo, o provincianismo, o estrangeirismo, a elipse, a sínquise (hipérbato vicioso), o parêntese extenso, o acúmulo de orações intercaladas (ou incidentes) as circunlocuções, a extensão exagerada da frase, as palavras rebuscadas, as construções intrincadas e a má pontuação.

Ex.: “Foi evitada uma efusão de sangue inútil.” (Em vez de efusão inútil de sangue)

11. NEOLOGISMO: palavra, expressão ou construção recentemente criada ou introduzida na língua. Costumam-se classificar os neologismos em:

Extrínsecos: que compreendem os estrangeirismos.

Intrínsecos: (ou vernáculos), que são formados com os recursos da própria língua. Podem ser de origem culta ou popular. Os neologismos de origem culta subdividem-se em:

Científicos ou técnicos: aeromoça, penicilina, telespectador, taxímetro (redução: táxi), fonemática, televisão, comunista, etc.

Literários ou artísticos: olhicerúleo, sesquiorelhal, paredro (= pessoa importante, prócer), vesperal, festival, recital, concretismo, modernismo etc.

OBS.: Os neologismos populares são constituídos pelos termos de gíria. "Manjar" (entender, saber do assunto), "a pampa", legal (excelente), Zico, biruta, transa, psicodélico etc.

12. PRECIOSISMO: expressão rebuscada. Usa-se com prejuízo da naturalidade do estilo. É o que o povo chama de "falar difícil", "estar gastando".

Ex.: "O fulvo e voluptoso Rajá celeste derramará além os fugitivos esplendores da sua magnificência astral e rendilhara d’alto e de leve as nuvens da delicadeza, arquitetural, decorativa, dos estilos manuelinos."

OBS.: O preciosismo também pode ser chamado de PROLEXIDADE.



sábado, 1 de março de 2014

D. PEDRO E INÊS DE CASTRO: PROSA HISTORIOGRÁFICA DE FERNÃO LOPES


purl.pt (acessado em 13/07/2012)


   "Com respeito aos dramas de Inês, considero como tradição histórica não só o amor de perdição do herdeiro da coroa e o seu desenlace sangrento, mas também os seus reflexos de além-tumba." (Carolina de MICHAËLIS)

   O epísódio em torno da morte de Inês de Castro, amante do então Infante D. Pedro, teve, nas palavras do historiador português José Hermano Saraiva, “uma repercussão tão poderosa” que fez nascer uma lenda de amor que acabou por se entranhar profundamente no imaginário do povo português. Tem-se conhecimento de que foi o amor que a conduziu ao fim, à morte.
   Este fato histórico notório no plano de Portugal, foi recuperado várias vezes em produções artísticas, literárias ou não, no plano luso ou universal, assim, verdade histórica e mito tendem a se confundir. Se se levar em conta que a raiz da História, em seus relatos inicialmente orais e depois escritos, reside nos mitos, parece mais natural que surpreendente a forma como é encarada a história de amor e morte de uma mulher que, por seus encantos, teve uma imerecida ruína.
   Durante o período, surge um fato que, tendo um papel de segundo plano no que diz respeito a questões de natureza política, acaba por causar grande comoção nacional.    De certa forma materializa um sentimento que, extensivamente, irá caracterizar o espírito lusitano: o amor, aflorado pelo sacrifício de Inês de Castro.

D. Pedro, ainda criança, foi-lhe acertado casamento com a princesa D. Branca, filha do Infante D. Pedro de Castela, prima do rei Afonso XI e neta de Sancho IV de Castela e D. Maria Molina. Casamento público que se dissolveu rapidamente, pois a jovem D. Branca, aos 14 anos, mostrava-se tão enfermiça que o Infante se recusou a casar-se com ela. Passado algum tempo, D. Afonso IV voltou arranjar-lhe outro noivado, indicando-lhe D. Constança Manoel, filha do grande fidalgo D. João Manoel, cronista e poeta, senhor de várias vilas e castelos. Depois de tempos atribulados e de muitas intrigas pelo meio, D. Pedro e D. Constança receberam a benção nupcial na Sé de Lisboa, com as honrarias devidas a um descendente dos reis de Castela, Leão e Aragão. 
Viera de Castela, na companhia da princesa, uma linda moça, dama de companhia, que se chamava Inês de Castro. Era uma donzela de linhagem fidalga, nascida em Monforte, no ano de 1325, filha bastarda de um notável cavaleiro galego (primo, inclusive, de D. Pedro), Pedro Fernandez de Castro, com a portuguesa Aldonza Suárez de Valladares.
O Infante, no entanto, insatisfeito com uniões arranjadas abandonava a esposa à própria sorte preferindo as caçadas nas terras de Touguia, mais tarde denominadas de Atouguia da Baleia.
A vida de D. Pedro seguia em excessos e ausências até que um dia seus olhos pousaram no da dama de companhia de D. Constança.  

“Linda como os amores e loura como o sol, duma elegância extrema, tais predicados levaram-no a apelidá-lo de “colo de garça” e entonteceram-no de tal maneira que nunca mais a largou...”
                                                                                                
A formosura de Inês atraiu D. Pedro. A convivência com tão bela mulher em pouco tempo cativou o coração do Infante e seus sentimentos tão intensos, ficaram impossíveis de disfarçar. Para contornar a constrangedora situação, D. Afonso IV forçou Inês ao exílio, e esta veio a se alojar no Castelo de Albuquerque, próximo à raia alentejana. Entretanto, nem a distância foi o obstáculo aos dois amantes, visto que correspondiam-se secretamente através de cartas levadas pelos almocreves.
Os desgostos de uma vida amargurada e o desprezo do esposo agravaram o estado de saúde de D. Constança.
Em 1345 nasceu o terceiro e último filho do casal, o futuro rei D. Fernando. Dona Constança morre, logo após, por consequência deste parto.
D. Pedro fica então liberto, mesmo contra a vontade de seu pai, para ir buscar a sua amada. Preso como estava a um casamento que não procurara nem queria, viu na morte da esposa a sua libertação.
D. Pedro traz D. Inês para as terras da Lourinha, instala-a numa quinta em Moledo, nas proximidades do Paço da Serra, encerrando o seu desterro e iniciando uma nova fase da amorosa para os dois.
O quadro português, já tenso, sofre um duro golpe com a proliferação da peste negra (em 1348 a 1349) que apavorava todos. Então, os mais medrosos, diziam ser “mau olhado” e culpavam Inês de todo o mal.
O reino até então própero, começa a empobrecer e o medo invade as populações. D. Afonso IV, para minimizar a crise, promulga e faz cumprir as “Leis do Trabalho”, mas a situação continua complicada. Os campos que tinham sido férteis, encontram-se abandonados e as populações, apavoradas com a morte, fogem sem destino.
Os conselheiros insistem que D. Pedro está dominado pelos irmãos de Inês; a desconfiança alastra e o ódio aos Castros também.
D. Afonso IV ouvia e ficava inquieto, sem saber o que havia de decidir.
Os primeiros tempos do ano de 1355 iam testemunhar uma tragédia de sangue. O príncipe D. Pedro nem presumia o que estava para acontecer quando se despediu da sua querida Inês e seus filhos para iniciar a caça de montaria pelos montes e florestas da Beira, a cavalo, com nobres amigos e escudeiros. Por aqueles dias, D. Afonso IV subiu a Montemor-o-Velho com o seu séquito e ali reuniu os seus conselheiros de Estado, Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, para tomar uma decisão sobre o destino da vida de Inês de Castro.
Os argumentos que ouviu não o convenceram, mas conseguiram, de fato, que a hesitação vencesse e finalmente, determinam pela morte da amante de D. Pedro e pedem ao rei a sua anuência.
Os cronistas apresentam o rei dividido entre a razão do Estado e o sentimento familiar. Mas, acaba por vencer a razão do Estado e no dia 7 de Janeiro de 1355, D. Afonso IV mete-se a caminho de Coimbra, acompanhado de homens armados, para vibrar o golpe na adúltera.
Ao cair da noite, Inês de Castro foi surpreendida pela chegada do rei e dos conselheiros e que, apesar das súplicas da “mísera e mesquinha”, a tragédia desenrola-se, não sem que o rei hesite, angustiado, perante a fragilidade da mulher.
Não houve lágrimas nem gemidos de crianças inocentes que impedissem a execução da vítima. Quando o luar brilhou no firmamento, junto à Fonte das Lágrimas, veio encontrar a pobre Inês sem vida, degolada friamente pelo machado do carrasco.
De imediato, o corpo da vítima foi trasladado para a igreja de Santa Clara.
Nunca, na história de Portugal, houve ou haveria um crime de horror tão inclemente.
D. Pedro ao tomar conhecimento da tragédia reagiu com atrocidade. Unido aos Castros e com um exército considerável, partiu com um desejo mortal de vingança sobre o império paterno, chegando mesmo a impor um cerco à cidade do Porto.
Por intervenção da rainha D. Beatriz, mãe de Pedro, pai e filho acabaram por assinar a paz. Mas o infante ainda tinha ânsias de fazer com que se pagasse pelo mal cometido.
Se o filho perdoou ao pai a degolação de Inês, o amante nunca lhe perdoou. E assim, as promessas de amante, depressa esqueceram, principalmente, quando morreu D. Afonso IV e D. Pedro I subiu ao Trono, em 1357.
D. Pedro I passa a comandar os destinos de Portugal e tem como um de seus primeiros atos, demandar a extradição, para os paços de Santarém, dos responsáveis pela morte da bela Inês, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. E assim fez.
O rei não poupou requintes de horror em sua vingança implacável. Mandou amarrar as vítimas, cada uma a seu poste de suplício, enquanto os cozinheiros de sua Corte preparavam um abundante banquete de cerimônia.
Não se sabe ao certo, mas, novamente segundo o mito, Pero Coelho teve o coração arrancado pela frente, e Álvaro Gonçalves, por trás. Longe de dúvidas mesmo está que o terceiro procurado, Diogo Lopes Pacheco, acabou por fugir para terras francesas. Depois “pediu que lhe trouxessem cebola e vinagre para o coelho” e como sentisse que não bastava à tortura tremenda, ainda teve coragem para trincar aqueles corações que, para ele, seriam malditos para sempre.
Esta cena macabra, a ser verdade, confirmaria a loucura e excessos do rei e levou a que Fernão Lopes escrevesse:

“Muito perde o El Rei de sua fama por tal escambo como este”.

Depois desses fatos, os relatos que há em torno das atitudes de D. Pedro I tanto podem soar a verdade como a implausibilidade.
Veras são a trasladação do corpo de Inês do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra a uma bela lápide construída no Mosteiro de Alcobaça, em 02 de abril de 1361 e revelação de D. Pedro I ter-se casado secretamente com ela na cidade de Bragança, em 1360.

De acordo com Fernão Lopes:

“Mandou D. Pedro obrar um muymento de alva pedra, todo muy sutilmente lavrado, pondo, elevada sobre a tampa de cima a imagem della com coroa na cabeça como se fôra Rainha; e este muymento mandou pôr no Mosteiro de Alcobaça, não à entrada onde jazem os Reys, mas dentro da Igreja, à mão direita, junto da Capela Mor, e fez trazer o seu corpo do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde jazia, o mais honradamente que se fazer pode; porque ele vinha em umas andas muy bem preparadas para tal tempo, as quais trazião grandes cavallos acompanhados de grandes Fidalgos, e outra muita gente, e Donas, e Donzelas, e outra muita Cleresia; e pelo caminho estavão muito mil homens com círios nas mãos, de tal sorte ordenados, que sempre o seu corpo foy todo o caminho entre círios acezos; e assim chegarão até ao dito Mosteiro, que erão dalli dezassete léguas, onde com muitas Missas, e grande solemnidade foy posto aquelle muymento. E foi esta a mais honrada Tresladação, que até áquelle tempo em Portugal fôra vista.”

Comprovadas ainda são a bela estátua sepulcral que se mandou erguer em homenagem à rainha, bem como as grandiosas exéquias promovidas pela ocasião do transporte do corpo. No entanto, a lenda também se faz presente. Segundo a tradição, o rei fez colocar o cadáver de D. Inês num trono, colocou-lhe sobre o crânio a coroa real e obrigou todos os nobres a beijar a descarnada mão da rainha morta.
Diz-se ainda que o soberano tivera o cuidado, ao dispor o seu túmulo e o de sua amada no referido mosteiro, de postar as lápides não lado a lado, mas pé com pé. Para que quando tivessem, ambos, de se acordar no Juízo Final, poderiam um olhar nos olhos do outro.
Nunca mais o monarca amargurado teve companhia que lhe fizesse esquecer o grande amor da sua vida. Muitas vezes aconteceu que, nem de noite, tinha repouso tranquilo. Os pesadelos perturbavam lhe o sono e o rei, para esquecer, saía para as ruas de Lisboa, acordava o povo ao redor, ateava fogueiras para a festa e dançava com ele até madrugada. Amiúde mandava matar bois e bezerros, distribuía carne aos pobres e necessitados, com um coração generoso que as gentes da capital e do Reino admiravam e amavam; não só porque era pródigo em dar de comer a quem tinha fome, mas também porque sempre soube fazer justiça, dar prêmios aos bons e castigo aos maus.
Dedicou-se afincadamente aos assuntos de Estado: foram cunhadas novas moedas, desenvolveu o tesouro real, promulgou o “beneplácito régio” e tornou-se extremamente rigoroso na justiça, tocando as raias da crueldade. Por vezes, ao lavrar uma sentença de morte, vinham-lhes as lágrimas aos olhos, mas outras, parecia que até gostava, gaguejava e ria como um louco.
Em fins de 1366, sempre fiel aos princípios de neutralidade que sempre o nortearam, celebrou tratados de paz e amizade com Castela e Aragão. Foi este o seu último ato político.
Em janeiro de 1367, morre em Estremoz, D. Pedro I e assume o Trono português o rei D. Fernando.
No testamento deixado, ordenou que o seu cadáver fosse conduzido a Alcobaça e ali colocado no formoso túmulo que mandara lavrar conjuntamente com o de D. Inês de Castro, em 1360.
Segundo Fernão Lopes, quando D. Pedro I morreu todos choraram e afirmaram que:

“Dez anos como estes nunca houve em Portugal”.


O AMOR INFELIZ DE INÊS DE CASTRO E DE D. PEDRO NAS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS:

   Tal foi a comoção nacional despertada pelos acontecimentos e pela aura de mito que em torno deles se criou, que não passaria, a história de amor entre D. Pedro I e Inês de Castro, incólume na produção artística, seja de Portugal, seja mesmo de outras nações européias. De acordo com o historiador contemporâneo José Hermano SARAIVA, mais de 120 composições musicais foram elaboradas, somente na Itália, tendo por tema o caso de amor. Em França, Henry de MONTHERLAND compôs a peça teatral “La Reine Morte”; na Espanha, “Amor, Corona y Muerte” foi o título que Alejandro CASONA deu a sua peça inesiana. Mas foi na pátria do ocorrido, como não poderia deixar de ser, que as obras literárias acerca do tema proliferaram, promovendo-se enfoques que não podiam senão ecoar de forma profunda a alma lusitana.
   Os primeiros textos de que se tem notícia a enfocar o drama do "Romeu e Julieta português" (nas palavras de Alexandra MARTINS) são de Fernão LOPES (1380?-1460?), cronista que conduz a historiografia lusitana a novas perspectivas, ao filtrar as lendas dos fatos. Ansiava por "escrever verdade, sem outra mistura." Supõe-se que suas crônicas abarcassem do primeiro rei de Portugal (D. Afonso Henriques) até o momento histórico vivido pelo autor. No entanto, apenas três desses textos resistiram ao tempo, a saber: Crônica de D. Pedro, Crônica de D. Fernando e Crônica de D. João I. É precisamente a primeira aquela que relata a história de Inês. Serviu-se, LOPES, de historiadores da época do acontecido e de documentos que ao tempo do historiador chegaram.
   Outros historiadores do Humanismo lusitano também se ocuparam da temática, como foi o caso de Rui de PINA (1440-1552) e Cristóvão Rodrigues ACENHEIRO (1474-1536?), que, sobre a reconciliação entre D. Afonso IV e o inconsolável filho, escreveu:

   "E vendo os povos de Portugal os estragos da terra disseram que se conviessem, se não os que não podiam sofrer."

   Em termos propriamente literários, pensando-se em obras pautadas num fim estético, é nas "Trovas à Morte de D. Inês de Castro" que o desaparecimento da amante do infante tem seu debute. Redigidas por Garcia de RESENDE (1470?-1536), a composição é publicada no “Cancioneiro Geral” (1516), obra coligida pelo mesmo autor. É uma recolha de textos líricos, lírico-narrativos e lírico-dramáticos produzidos no âmbito do paço, a chamada poesia palaciana. A composição de RESENDE tende a fundir várias referências literárias, desde elementos da cultura clássica até práticas eminentemente medievais, como no momento em que o eu-lírico se dirige à audiência.      O alçar-se à condição de heroína uma figura histórica é uma das inovações mais significativas que o poeta operou. Seguem três estrofes das trovas. Na primeira, fala Inês, já cumprido o seu destino. Na segunda, um de seus algozes, cavaleiro de D. Afonso IV, detém a voz. A derradeira, emitida pelo eu-lírico, é o desfecho do poema.

Qual será o coração,
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
ua tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor,
ó príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente.

[...]

Â??Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos:
o príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado.
Quâ??agora seja anojado,
amanhã lhâ??esquecerá!â??

[...]

Em todos os seus testemunhos
a declarou por mulher,
e por sâ??isto melhor crer,
fez dois ricos moimentos,
em quâ??ambos vereis jazer
rei, rainha, coroados,
mui juntos, não apartados,
no cruzeiro dâ??Alcobaça.
Quem puder fazer bem, faça,
pois por bem se dão tais grados.

   Se Garcia de RESENDE promoveu a estréia de Inês no plano literário, é Luís de CAMÕES (1525?-1580), a grande referência da poesia lusitana ao lado de Fernando PESSOA, que se responsabiliza por consagrar a temática. Em “Os Lusíadas”, grande épico do povo português, o autor inclui o “Episódio de Inês de Castro” (que, longe de catalisar a ação, mostra-se complementar à história das conquistas lusitanas). Eis uma estância (das 18 que há) a enfocar a temática. Está no Canto III de “Os Lusíadas”.

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hua fraca dama delicada?

Contemporâneo de CAMÕES e classicista como este, Antonio FERREIRA (1528-1569) compõe a “Tragédia de D. Inês de Castro”, drama que, sem abrir mão da estrutura clássica, contempla um fato histórico de Portugal. Trata-se, um tal comportamento, de uma renovação do gênero, uma vez que se deixa de lado a mera imitação aos modelos da Antigüidade. A obra de FERREIRA é relevante, ainda, por conferir humanidade às personagens, que longe estão de ser indivíduos de comportamento linear. O trecho a seguir mostra Inês a pedir clemência ao soberano D. Afonso IV. Foi extraído do IV Ato.

INÊS - Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura e livre tâ??esperar,
Em ti e em minhâ??inocência confiada.
Escusarás, Senhor, todo este estrondo
Dâ??armas e cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.

   Durante o período romântico (século XIX), há autores que, embalados pela recuperação do passado nacional, ocupam-se da história da mulher que foi rainha depois de morta. Adepto de ideais simbolistas e saudosistas, Antonio PATRÍCIO (1878-1930) será autor do poema dramático “Pedro o Cru”, que não despreza o episódio de D. Inês de Castro.
   Ainda no plano do Saudosismo (movimento nacionalista que, associado à Renascença Portuguesa, algumas relações manteria com o Modernismo lusitano), destacou-se a figura de Teixeira de PASCOAES (1877-1952) a ocupar-se do tema da morte de Inês. A faceta místico-histórica de Fernando PESSOA (1888-1935), mais que natural, não despreza a temática, bem como farão Jaime CORTESÃO (1884-1960) e Ângelo LIMA (1872-1921), autor do poema "Inês de Castro".
No plano da segunda metade do século XX, cabe destaque à poetisa Fiama Hasse Pais BRANDÃO (1938-), com o seu "Inês de Manto", vindo a lume em 1971. É o adorno daquela que, só após morrer, é reverenciada como merece.

O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era de escarlata

Também de pranto
e vestiram toda
era como um manto
mais fino que roupa.

   Num tempo mais próximo da atualidade, o que só vem a demonstrar a transtemporalidade da temática de Inês de Castro, Augustina BESSA-LUÍS (1922-) publica as “Adivinhas de Pedro e Inês”, de 1986. Num texto que transita entre o literário, o histórico e o biográfico, a autora enfoca o rei D. Pedro I, com referências contínuas, claro está, ao enlace amoroso do soberano com a dama galega. O trecho a seguir mostra João das Regras, personagem histórica, a comentar o suposto casamento entre o infante e a sua amante.

"Mas quanto a D. Pedro ter casado, nunca tive dúvidas; tive só escrúpulos em o afirmar, mas não dúvidas... Eu não provei nada. Limitei-me a calar as bocas, que a política não se faz com murmúrios. [...] Há uma regra que ainda aplico: apoio a tua causa nos modelos estereotipados da opinião popular."

   Objeto de considerável produção artística, Inês de Castro parece não ter morrido em vão. Se não para manter airosos os destinos de Portugal, como ansiavam os seus algozes, ao menos para, fenecendo, eternizar-se como a representação deste sentimento tão português que é a saudade. Nesse processo, a mitificação é capital, e redefine os conceitos de realidade e verosimilhança quando se depara com a obra literária, capaz de reunir todos os discursos num só.