quinta-feira, 10 de abril de 2014

TEATRO POPULAR MEDIEVAL DE GIL VICENTE

                                     1455/1456 – 1536-153

I - AUTOR: GIL VICENTE

   Sabe-se pouco sobre a vida de Gil Vicente. É provável que tenha nascido em 1455/1456, ignora-se a sua naturalidade (Guimarães, Barcelos, Lisboa ou na região da Beira) e possivelmente faleceu em fins de 1536 ou em 1540, conforme documento com o seguinte registro: “Gil Vicente, que Deus perdoe”.
   Acredita-se que ocupou o cargo de ourives da Rainha Velha D. Leonor e prestou serviço administrativo na Casa da Moeda de Lisboa.
   Tendo-se em vista seu amplo conhecimento filosófico, teológico e lingüístico, o autor deve ter tido uma educação privilegiada ou ter sido orientado por alguém do clero.
   Sua primeira aparição deu-se no dia 07 de junho de 1502, em Lisboa. A corte de D. Manuel I e de D. Maria de Castela, filha dos reis espanhóis D. Fernando e D. Isabel, estava em festa, em virtude do nascimento do mais novo príncipe de Portugal, D. João III. Vestido de vaqueiro e acompanhado por um pastor de gado; invade o palácio, aproxima-se do leito da rainha que estava em convalescença e em tom de louvor, saúda o nascimento do “excelente príncipe”.
   Através de um discurso turbulento, alegando ter sido espancado pela Guarda e expondo todas as dificuldades para conseguir lá chegar, faz que entrem outros “vaqueiros” que trazem presentes ao recém-nascido. Aproveitando-se desse motivo, representa o nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos.
   O sucesso foi geral e D. Leonor (viúva de D. João II) contrata-o para reapresentar o monólogo em outras ocasiões natalícias.

 O Monólogo do vaqueiro, como teria sido representado pelo próprio Gil Vicente, de acordo com a visão do pintor Roque Gameiro.

   A partir dessa encenação, designada “Monólogo do Vaqueiro” ou “Auto da Visitação”, Gil Vicente, torna-se o genial criador do teatro popular português.
  Antes da representação teatral de Gil Vicente, só havia meras encenações cênicas em que a palavra literária quase não existia.
   Tornando-se cortesão e gozando de grande prestígio na corte, o autor dedicava-se a produção teatral como instrumento de entretenimento e de crítica à sociedade portuguesa de sua época.
   Sua última representação data-se de 1536, com a estréia da peça “Floresta de enganos”.
   Foram 34 anos de dramaturgia, além de ter colaborado com Garcia de Resende na compilação do “Cancioneiro geral”. Seguramente, Gil Vicente escreveu 44 peças, sendo 17 em português, 11 em castelhano e 16 bilingues. Além de autor, atuou, trabalhou o figurino, o cenário em diversas peças de variados temas e estruturas.
   No entanto a publicação dessas peças é póstuma.
   Seu filho, Luís Vicente, reuniu sua obra, editando um volume intitulado “Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente, em 1562; porém, sem valor documental, pois omitiu peças e alterou alguns textos.


II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL: (1418/1434 – 1527)


Gil Vicente pertence ao período histórico-literário chamado Humanismo, ou Segunda Época Medieval. Trata-se de um período de transição do pensamento teocêntrico medieval para uma visão antropocêntrica renascentista.
   Durante esse período, o homem não rompeu com a idéia criacionista, ou seja, manteve a idéia de que Deus criou a Terra e as pessoas, mas mudou a relação entre esses elementos. O mundo não era mais pensado como um ligar de sofrimento e sim um lugar de delícias, onde o ser humano, a mais perfeita das criações divinas, foi colocado para ser feliz, para usufruir dos benefícios e das belezas de tudo o que o rodeia, inclusive do próprio corpo.
   Esse período foi marcado pela a crise do sistema feudal e profundas transformações: Peste Negra (1348); a Guerra dos Cem Anos (1346 a 1450), a escassez de mão-de-obra e de mudanças sociais.
   O feudalismo já em decadência e a Igreja vivendo uma série de conflitos, chegando a haver dois papas simultaneamente (um em Roma; e, outro, em Avignon, França), dão espaço para o crescimento da burguesia, que já havia conquistado suas riquezas com a exploração do comércio e das atividades bancárias.


III - CARACTERÍSTICAS:

. Teatro de transição: Idade Média para a Idade Moderna (teocentrismo para o antropocentrismo)
. Escrito em versos redondilhos
. Oitavas
. Rimas: ABBAACCA
. Escrito em português de seu tempo, utilizando-se da oralidade e do dialeto saiaguês, e o castelhano
. Rompe com a chamada três unidades do teatro clássico (espaço/tempo/ação)
. Alegórico (estratégia simbólica de se dizer uma coisa por meio de outra, ou seja, de representações, por meio de personagens ou objetos, de ideias abstratas, geralmente relacionadas aos vícios e virtudes humanas)
. Ausência de complexidade dramática e de conflitos propriamente ditos
. Fixação de tipos sociais da época e acentuação de traços típicos
. Apesar do estado transcendente que se encontram, seus atos e suas caracterizações são feitos de forma realista.
. Registro de hábitos linguísticos, ditos populares e expressões típicas de cada classe social
. Sucessão de quadros sem uma continuidade necessária (teatro de revista)
. Não há culminação dramática (clímax)
. Cenários e montagens simples, descontinuidade entre as cenas
. Compõe um painel rico da época e do mundo em que viveu
. Narrativas descontínuas, pequenos quadros que se sucedem
. Linguagem poética, efeitos cômicos, elaboração textual
. Características humanistas (mitologia, condenação da perseguição aos judeus e cristão-novos e crítica social)
. Tipos fantásticos (santos, anjos e demônios)
. Personagens planas (sem profundidade psicológica), porém representam as virtudes e os vícios da época
. Auto de moralidade
. Fazer rir dos deslizes alheios como modo de educar os costumes da época
. Privilegia o condenável, a crítica, a brincadeira cruel contra o clero e a nobreza
. Crítica aos comportamentos individuais como o adultério, o jogo de interesse, o furto, a feitiçaria, incompetência, vaidade, ambição, orgulho entre outros.


IV - FASES DOS TEATRO DE GIL VICENTE:

O teatro de Gil Vicente pode ser dividido em três fases:

a) I Fase: (1502/1514): corresponde a sua fase inicial e sofre influência do dramaturgo espanhol Juan Del Encina, autor de peças de caráter pastoril e religioso.
b) II Fase: (1515/1527): ponto mais elevado de sua carreira artística.
c) III Fase: (1528/1536): intelectualização de seus temas, sob influência do classicismo.

Obras:

  • Farsa de Inês Pereira (1523)
  • Auto Pastoril Português (1523)
  • Frágua de Amor (1524)
  • Farsa do Juiz da Beira (1525)
  • Farsa do Templo de Apolo (1526)
  • Auto da Nau de Amores (1527)
  • Auto da História de Deus (1527)
  • Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela (1527)
  • Farsa dos Almocreves (1527)
  • Auto da Feira (1528)
  • Farsa do Clérigo da Beira (1529)
  • Auto do Triunfo do Inverno (1529)
  • Auto da Lusitânia, intercalado com o entremez Todo-o-Mundo e Ninguém (1532)
  • Auto de Amadis de Gaula (1533)
  • Romagem dos Agravados (1533)
  • Auto da Cananea (1534)
  • Auto de Mofina Mendes (1534)
  • Floresta de Enganos (1536)

V - CLASSIFICAÇÃO DO TEATRO VICENTINO:

Durante a Idade Média encontramos dois tipos de encenações: as peças litúrgicas, religiosas ou sacras (auto), que eram apresentadas de início no interior das igrejas (templos) e dividiam-se em: mistérios (representação de uma passagem da vida de Cristo); milagres (vida de algum santo e seu milagre) e moralidade (representação dramática criticando e moralizando algum costume da época) e as encenações profanas, satíricas ou não religiosas (farsa), episódios de caráter cômico, que critica um tipo social ou uma série deles.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

GÊNEROS DRAMÁTICOS


O Gênero Literário dramático teve suas origens na Grécia Antiga, possivelmente numa manifestação das festas em homenagem a Dionísio. O termo "dramático" quer dizer drama, ou seja Ação. Ele representa ações vividas pelas personagens num determinado espaço-tempo. Um enredo teatral é limitado, conciso, pois não tem narrador. Tudo é dito e compreendido através de ações, falas e gestos dos personagens.
Segundo Aristóteles o gênero dramático apresenta três unidades, limitado ao palco.
a) Ação;
b) Tempo;
c) Espaço.
Esses recursos básicos são complementados com outros como iluminação, sonorização e notações cênicas também chamadas de rubricas, que servem para orientar os atores; correspondem a detalhes anotados pelo autor para conseguir os efeitos desejados durante a interpretação e apresentação no palco pelos atores.
O espetáculo dramático  se assenta em três eixos importantes: o ator, o texto e o público sem o que não há espetáculo teatral.
A simples leitura de um texto não representa o "teatro".
Um texto dramático pode ser em prosa ou em verso. A forma em verso era o mais usado no passado.
Temos as seguintes espécies de teatro do gênero dramático:

1. TRAGÉDIA - que se originou do Ditirambo, canto coral grego. Ele representa ações dolorosas da condição humana, no caso são pessoas comuns. A ação visa provocar no espectador piedade e terror, terminando em geral de forma fatal. O objetivo era provocar a "catarse" ou purificação. Ex." Édipo Rei" e "Antígona" de Sófocles.

2. COMÉDIA - "ridendo castigat morus" - através do riso criticam-se os costumes. É através da exploração do ridículo e das baixezas humanas que procuram levar a uma reflexão sobre o que se passa na sociedade e consequentemente promover uma reforma dos costumes; representa um agente moralizante. Atualmente predomina a sátira e a graça e o teatro do absurdo. A comédia também teve sua origem na Grécia antiga. A ela se refere Aristóteles, na "Poética", como sendo a "imitação de maus costumes, não contudo, de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso que é o ridículo. Ex. "As Aves" de Aristófanes; "Meno-Male!" de Juca de Oliveira; "O Juiz de Paz na Roça" e "O Noviço" de Martins Pena. Há ainda a Opereta, tipo de teatro musicado, leve, debochado, criticando a sociedade. Quando apresenta partes faladas e outras cantadas, temos a comédia-opereta que é a chamada "Burlesca". Ex. "A Capital Federal" de Artur Azevedo.

3. FARSA - É uma peça cômica de apenas um ato que surgiu no século XIV. Com o uso de poucos personagens apela para a caricatura e exageros visando provocar o riso. Ex. "Farsa de Inês Pereira" de Gil Vicente, e "O Fidalgo Aprendiz" de D. Francisco Manuel de Melo.  

4. AUTO - É uma peça de conteúdo religioso ou profano. Em geral é apresentado em verso. Suas origens estão na Idade Média. De conteúdo simbólico, costuma representar entidades como a hipocrisia, a bondade, a avareza, a luxúria, a virtude, etc, mostrando o lado negativo ou positivo dos sentimentos humanos. Ex."Auto da Barca do Inferno" de Gil Vicente; "Auto de São Lourenço" de José de Anchieta.


5. DRAMA - o drama já é uma criação do Romantismo. Ele é uma peça teatral caracterizada pela seriedade ou solenidade em oposição à Comédia propriamente dita.Normalmente começa de forma solene e grave e termina de forma leve e feliz. A palavra "Dramalhão" é uma derivação da palavra Drama, porém apresenta lances trágicos e artificiosos.
Enquanto texto, a obra dramática tem pontos em comum com a narrativa, pois ambas apresentam enredo e personagens. No teatro (miradouro, em grego) não há a figura do narrador. Devido às limitações orgânicas o dramático não se desenvolve em muitos tempos e espaços.