quarta-feira, 7 de maio de 2014

CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA


“Num domingo, dia 8 de março de 1500, Lisboa estava em festa. A Armada comandada por Pedro Álvares Cabral, desferrava-se, partiria para as Índias. Ancorada no Restelo, depois chamado de Belém, nas margens do Rio Tejo, zarpava em busca das almejadas especiarias de Calicute e de outros logradouros orientais. Compunha-se de 13 barcos, com 1200 a 1500 soldados, dotados de bom armamento e de poderosa artilharia.”


Em cada embarcação era imprescindível ter um “relator”, um “escrivão”, um “narrador da aventura”, enfim um “cronista de viagem”. Este que gozava de grande prestígio perante a corte.
A carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, iniciada em 26 de abril e concluída no dia 1º de maio de 1500, é composta por 27 folhas de texto e uma de endereços e anotações, foi enviada imediatamente para o rei D. Manuel, o Venturoso, por intermédio de Gaspar de Lemos, anunciando a boa nova da descoberta de terras.


Desconhece-se a biografia de Caminha. O escrivão faleceu em Calecute, em dezembro de 1500, onde se encontrava a serviço da corte.
A carta de Caminha tornou-se a “Certidão de Nascimento” do Brasil, como a chamou Capistrano de Abreu. O documento, no entanto, só se tornou público em 1790, sendo publicada a primeira vez no Brasil em 1817, pelo geógrafo Manoel Ayres do Casal, no primeiro volume da “Corographia Basílica”, porém não em sua íntegra, excluindo-lhe trechos que considerava inoportunos.
Além do comandante-mor Pedro Álvares Cabral estavam a bordo Bartolomeu Dias que primeiro cruzara o cabo da Boa Esperança no sul da África, o “Capitão do Fim” como o chamou Fernando Pessoa; Nicolau Coelho que acompanhara a expedição de Vasco da Gama à Índia dois anos antes; Duarte Pacheco, descobridor de terras na África e na América, e o franciscano D. Henrique, futuro inquisidor, que trazia consigo mais sete outros frades e seria quem oficiaria a 1ª Missa no Brasil. O substituo oficial de Cabral, seu vice-comandante, era um fidalgo espanhol, refugiado na corte de D. Manoel, chamado Sancho de Tovar.
O relato mostra que não houve surpresa por parte da tripulação ou dos comandantes com o “achamento”. Indicam isso, sim, que eles tinham certeza que encontrariam terra em algum ponto do mar longo, que se pode entender como o mar que separa a costa africana da brasileira.
A franja de litoral que lhes coube desembarcar estava, como verificou-se posteriormente, dentro dos limites estabelecidos aos lusos pelo Tratado de Tordesilhas, que a partir das 370 léguas das ilhas de Cabo Verde, dividiu o mundo a ser desbravado entre os dois reinos Iberos, acertado pelo Papa Alexandre VI em 1494.


Na Carta em questão, Pero Vaz de Caminha promete fazer jus à sua honestidade (cf. “não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu”), contudo reconhece a sua incapacidade e ignorância (cf. “para o bem contar e falar - o saiba fazer pior que todos”), para dar conta a “Vossa Alteza” da “terra nova”.
Um dos pontos mais importantes a notar, ao longo da Carta, é a precisão ideológica de Caminha. Em primeiro lugar, esclarece bem o fato de não narrar acerca “da marinhagem e singraduras do caminho” (navegação diária por navio à vela), à semelhança d' Os Lusíadas, de Luís de Camões.
Relativamente à viagem, a Carta informa sobre às circunstâncias situacional e temporal da partida de uma grande armada, treze naus, tendo como capitão-mor Pedro Álvares Cabral. A partida de Belém com destino à Índia teve lugar dia 9 de Março de 1500. Antes de partir, os perigos de uma viagem como esta eram de todos conhecidos. A viagem de Cabral, segundo os registros, foi sem grandes sobressaltos. Entretanto, a nau comandada por Vasco de Ataíde simplesmente desapareceu e apesar das diligências feitas para encontrá-la, durante dois dias de infrutíferas buscas, nunca mais se soube de seu paradeiro. Cento e cinquenta homens tinham sido “comidos pelo mar”. Nessa tormenta, naufragaram as naus de Aires Gomes, Simão de Pina e Luís Pires, além da caravela de Bartolomeu Dias, o descobridor desse “Cabo das Tormentas”. Foi, então, neste cenário de horrores que povoou uma viagem, que viria a ser promissora para portugueses e brasileiros.
Ao longo da Carta, existem breves referências sobre os locais onde passou a armada de Pedro Álvares Cabral, com os respectivos dias de tais ocorrências, sendo esta uma das preocupações maiores de Caminha, ou seja, o rigor do pormenor é uma marca que acompanha toda a sua narrativa.
De acordo com a opinião de Duarte Leite: “Se a Carta nos relata da vida vegetal e animal na terra nova é interessante, muito mais o são os informes etnográficos, que permitem classificar com segurança o homem novo como duma tribo tupi-guarani, tal a precisão dos detalhes e a acuidade das observações, servidas pela ingenuidade primesautière das apreciações, qualidades que conferem inestimável valor a esta magnífica peça.”

“E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha - segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas - os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!”

Numa “terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de Abril” avistaram-se os primeiros sinais de terra. Na quarta-feira seguinte tiveram o primeiro contacto com a mesma, à qual o Capitão pôs o nome de Terra de Vera Cruz. Os contactos entre a “gente de Luso” e os povos daquela “terra nova” não demoraram a estabelecer-se, ainda que, fosse difícil a junção daquelas duas culturas completamente distintas, contudo os portugueses registraram as primeiras aparências.
Na reunião feita a bordo do navio capitania, ancorada na boca do Rio Frade, no estado da Bahia de hoje, decidiu-se enviar para a praia Nicolau Coelho, um veterano que seguira Vasco da Gama. Na sua companhia foi um tradutor, um judeu de nome Gaspar da Gama, por dominar alguma coisa de árabe e outros idiomas exóticos, pois os chegados pensavam ser costa indiana.
Mal o batel encalhou na praia, foi recebido pacificamente por 18 homens, que descreveu-os o escrivão Pero Vaz de Caminha, como “pardos, maneira de avermelhados, nus, sem nenhuma cobertura,....muito rígidos, armados de arco e flechas”.
Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos.  Imediatamente, recorrendo a sinais, trocaram presentes. Os lusos deram-lhes “um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto”, “e um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.”
É importante perceber que não há receio ou surpresa por parte dos portugueses diante da presença dos nativos. Aventureiros, acostumados ao contato com povos desconhecidos pelas viagens já realizadas até a costa africana.


Na sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. [...] Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados á terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.
E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos.
Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitania, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes são feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.”


Aliás, os Brancos encontraram no Brasil grupos indígenas numerosos, do tipo físico dos que habitavam o litoral da Baía e a mais antiga e fiel descrição foi-nos deixada pelo cronista Caminha. Todavia, não foram estas linhas culturais que construíram as possíveis barreiras de contacto, que poderiam vir a existir entre portugueses e índios, porque, efetivamente, não se registraram obstáculos para que o seu relacionamento fosse impedido, como dará conta, com toda a minúcia, Pero Vaz de Caminha a D. Manuel.
A visão que os europeus têm dos nativos é bastante interessante. Note que os parâmetros para avaliar a “nova gente” são sempre os da civilização europeia, nada adequados, portanto, à observação de povos indígenas.
Com precisão minuciosa, a Carta de Pero Vaz de Caminha evidencia a atitude cordial dos índios e dos portugueses. Apesar de ser uma Carta onde transparece uma visão romântica da vida indígena, que posteriormente influenciou Rousseau com a teoria do “Bom Selvagem”, a Carta é a única fonte que nos resta do relato dos primeiros contatos com os nativos.


“O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção á terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, farteis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.
O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.”

[...]

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
[...] E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.”

Observe que outro aspecto importante da Carta além da descrição dos índios é a visão otimista em relação às possibilidades econômicas das novas terras. Deste modo, a chegada ao Brasil teria interesse para os portugueses não só pela sede de conhecer novas culturas e, por isso, novas formas de vida, mas também pela ânsia das riquezas materiais que poderiam ser abundantes por aquelas paragens e que não estavam fora das intenções do povo lusitano, pois o fato de apontarem para o colar do Capitão e de seguida para a terra, bem como o castiçal de prata, foi o suficiente para que os portugueses se apercebessem das relíquias do Brasil.
Para que o contacto entre estes povos se estabelecesse, de forma mais nítida, e para melhor conhecer o “seu viver e maneiras”, o Capitão mandou para terra Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias com dois homens para que esse contacto se tornasse verdadeira realidade. “Um mancebo”, Afonso Ribeiro, foi para junto daquela gente para conhecer os seus hábitos, no fundo, a sua cultura. Este foi também o papel de Pero Vaz de Caminha, na companhia de Nicolau Coelho.


“Ao Domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o Capitão de vir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias - duas ou três que lá tinham - as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.
Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção á terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.”


Se encontrar riquezas minerais era o desejo “oculto” dos portugueses, o objetivo revelado era outro, muito mais “nobre”. Como já dizia Camões na proposição de “Os lusíadas”, as navegações portuguesas tinham por função dilatar o Império e a Fé. A Igreja precisava de novos fiéis, pois seu rebanho estava encolhendo na Europa e os gentios eram vistos como alvo ideal para a catequização, como almas que precisavam ser salvas pela fé cristã.
À cerimônia assistiram, tanto portugueses como índios. Seguiu-se á hora da refeição, recheada de mariscos, e foi assim que por vontade unânime todos concordaram «em mandar a nova do achamento desta terra» a Sua Alteza ElRei D. Manuel. “A nova do achamento desta terra” incluía um pedido que consistia num «intercâmbio», ou seja, dois índios partiriam com os portugueses e dois dos nossos homens ficariam no Brasil. Entendeu-se que este seria o modo mais fácil de cada um dar conta das vivências das culturas em causa, já que “tantos dos nossos, (e) andavam assim misturados com eles”, apesar de os índios andarem mais «seguros entre nós” do que “nós entre eles”.
A expedição fez-se novamente ao mar no dia 2 de maio de 1500, retomando a viagem para a Índia. Não ficaram mais de dez dias na Terra dos Papagaios, como foi popularmente chamada. Além de dois degredados que aqui foram deixados aos prantos, dois grumetes fugiram de bordo e nunca mais foram vistos. Eram, esses anônimos, os primeiros brasileiros.
A partida começava a aproximar-se para anunciar ao Rei a «terra nova», da qual os portugueses eram, agora, testemunhos da existência de tais vivências.
Os indígenas pareciam de tal modo inocentes (cf. “esta gente é boa e de boa simplicidade”), que facilmente seria fácil convertê-los em Cristãos, basta notar o fato de os dois homens se ajoelharem e beijarem a Cruz, uma realidade que agradaria, de certeza, a Sua Alteza, que lutava para acrescentar a sua santa fé católica. Aqui, será também de notar, a missa final, à qual só uma mulher assistiu e a simplicidade e inocência das suas atitudes. Foi-lhe dado um pano para que ela se cobrisse quando se sentava, mas acabou por não lhe dar utilidade porque a sua ingenuidade não a deixava ver o mal que isso poderia ter, era a sua maneira natural de estar. Por isso, Caminha depreendeu que quem é tão inocente converter-se-á, facilmente, à fé católica. De fato, aquela gente era simples, por isso, o contacto entre as duas comunidades tornou-se simples (cf. ”dançaram e bailaram sempre com os nossos”)!
A terra recém achada foi considerada como uma dádiva divina colocada ao alcance de D. Manuel. A cerimônia religiosa, oficiada por D. Henrique de Coimbra, consagrou-a como espaço a ser convertido e integrado à Cristandade.
Ao contrário da África, onde Portugal deixava seus padrões de pedra (sinal de sua posse), aqui ele deixou a Cruz com as insígnias reais.
A partida era no dia seguinte, dia 2 de Maio de 1500, e Pero Vaz de Caminha fazia a retrospectiva daquelas paragens, onde não tivera visto ouro nem prata, mas afirma que á terra “é de muitos bons ares”, semelhantes aos de Entre Douro e Minho. As águas? Essas são “infindas” e as terras são férteis, todavia, para Pero Vaz de Caminha afirma que o “melhor fruto” a colher por aquelas paragens seria a salvação daquela gente, devia ser, a semente que El Rei D. Manuel podia lançar naquelas terras de boa gente. (cf. “Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar, parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”).
Caminha faz a ElRei as recomendações finais, elevam-se estandartes e bandeiras, retinem e silvam trombetas, atabaques, flautas e rufam tambores.
Por fim, é preciso ressaltar que já no primeiro documento acerca do Brasil começou a ser formada uma imagem desta terra como algo paradisíaco, incomparavelmente belo, e o sentimento de ufanismo ou nativismo, que consiste na exaltação, por vezes exagerada, das virtudes da terra e da gente, fecundará toda a literatura brasileira a partir do Romantismo.

“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos - terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha.”

Em conclusão à sua Carta, Pero Vaz de Caminha pede perdão a Sua Alteza El Rei D. Manuel por se ter demorado a contar tudo «pelo miúdo» e aproveita para deixar um pedido, ou seja, solicita a libertação do seu genro, Jorge Osório, degredado em São Tomé, por ordem de D. Manuel.