sábado, 24 de janeiro de 2015

UNICAMP E FUVEST 2016

UNICAMP divulga lista de livros própria válida a partir do Vestibular 2016, quando deixa de estar unificada com a FUVEST.
A prova de literatura do Vestibular Unicamp apresentará um programa próprio de leituras a partir do Vestibular 2016. Há oito vestibulares a lista de obras estava unificada com a Fuvest. Com a lista própria, a Unicamp passa a exigir a leitura de 12 obras, invés de nove pedidas atualmente. Seis obras da lista atual estão mantidas na lista válida a partir de 2016. A renovação das obras que compõem a lista será sempre parcial, e deve acontecer anualmente, em um ritmo que possa permitir o planejamento do professor e, ao mesmo tempo, acompanhar a dinâmica própria do sistema de ensino, cujo público se renova todos os anos. É importante destacar que para o Vestibular Unicamp 2015, que ocorre ainda este ano, a lista unificada com a Fuvest está mantida.
A lista própria será composta de obras de diferentes gêneros e extensões, podendo incluir romances, coletâneas de poemas e peças teatrais, mas também textos curtos, como contos, crônicas, peças de oratória ou de crítica, a fim de levar o vestibulando a ampliar o seu campo de estudos sem sobrecarregá-lo no volume de leituras. Isso será possível porque, por um lado, esses textos mais breves permitirão abarcar uma maior variedade de autores e gêneros literários e, por outro, porque eles poderão ser substituídos mais rapidamente do que os livros.Além dos autores consagrados na história das literaturas brasileira e portuguesa, a lista do vestibular contemplará também a produção literária mais recente, por meio da qual se pode familiarizar o aluno com a prática quotidiana da leitura.
A ampliação do horizonte de leituras do vestibulando se fará também pela inclusão na lista de autores africanos de língua portuguesa.
Abaixo está o programa de leituras para o Vestibulares 2016 da Unicamp. As obras marcadas em negrito são as que foram mantidas da lista atual.

Poesia:
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo.
Luís de Camões, Sonetos. 1

Contos:
Clarice Lispector, Amor, do livro Laços de Família.
Guimarães Rosa, A hora e a vez de Augusto Matraga, do livro Sagarana.
Monteiro Lobato, Negrinha, do livro Negrinha. 2

Teatro:
Osman Lins, Lisbela e o prisioneiro. 3

Romance: 

Almeida Garret, Viagens na Minha Terra.
Aluísio Azevedo, O cortiço.
Jorge Amado, Capitães da Areia.
José de Alencar, Til.
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Mia Couto, Terra Sonâmbula.

1 Sonetos disponíveis em www.dominiopublico.gov.br.
2 Livro distribuído pelo governo federal no PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).
3 Livro distribuído pelo governo federal no PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).



FUVEST divulga lista de livros obrigatórios para vestibular 2016
Publicado em Vestibular por Redação em 22 de janeiro de 2015 |
Da Agência USP de Notícias

A Pró-Reitoria de Graduação da USP aprovou a lista de obras de leitura obrigatória para o exame da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) em 2016. Não houve alteração em relação ao vestibular passado.

As obras para leitura são:
Viagens na minha terra – Almeida Garrett;
Til – José de Alencar;
Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida;
Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis;
O cortiço – Aluísio Azevedo;
A cidade e as serras – Eça de Queirós;
Vidas secas – Graciliano Ramos;
Capitães da areia – Jorge Amado; e
Sentimento do mundo – Carlos Drummond de Andrade.

Mais informações: email imprensa@fuvest.br

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SEGUNDO MILLÔR, EM “DOM CASMURRO”, FOI BENTINHO QUEM TRAIU CAPITU


De Millôr Fernandes para a Veja on-line
   Publiquei, através de anos, no Estadão, no “O Dia”, e no “Jornal do Brasil” – ao todo aproximadamente dois milhões de exemplares – “pesquisa” sobre “Dom Casmurro”, a obra magna de Machado de Assis. Como minha página era a capa exterior dos jornais citados, e o assunto era picante – se Escobar, “herói” do romance, tinha ou não tinha comido a Capitu, eterna e tola discussão entre beletristas -, devo ter alcançado pelo menos cem mil desprevenidos. Bom, não apenas mostrei que Escobar comeu a Capitu, como, não sei na, acho que tirei “Dom Casmurro” do “armário”.
   Como não sou dos maiores – e nem mesmo dos menores – admiradores do bruxo, fundados da Academia Brasileira de Letras (“a Glória que fica, eleva, honra e consola”, eu, hein, que frase!), não vou discutir a maciça, inexpugnável web protecionista que se criou em torno dele.. Não quero polemizar (falta-me vontade e capacidade) com a candura que os eruditos (com acento no ú, por favor) têm pra relação equívoca entre Capitu, a “dos olhos de ressaca” (que Machado não explica se era ressaca do mar ou de um porre), e Escobar, o mais íntimo amigo de Bentinho, narrador e personagem do livro (evidenete alter ego do próprio Machado).
   A desconfiança básica vem desde 1900, quando Machado publicou “Dom Casmurro”. “Dom Casmurro” é ou não é corno, palavra cujo sentido de humilhação masculina – que ainda mantém bastante de sua força nesta época de total permissividade – na época de Machado era motivo de crime passional, “justa defesa da honra”, e outros desagravos permitidos pela legislação e pelos costumes.
Curioso que, ontem como hoje, o epíteto corna não se grudou à mulher. Ela é tola, vítima, “não sei como suporta isso!”,corneia ele também!”, mas o epíteto não colou.
   “Dom Casmurro” sofre da dor específica umas 50 páginas do romance, envenenado pela hipótese da infidelidade de Capitu. Que dúvida, cara pálida? Capitu deu pra Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado de Assis, só não coloca no livro o DNA do Escobar porque ainda não havia DNA.  Mas fica humilhado, desesperado mesmo, à proporção que o filho cresce e mostra olhos, mãos, gestos e tudo o mais do amigo, agora morto. Bentinho chega a chamar Escobar de comborço (parceiro na cama).
   Não fiz interpretações. Apenas selecionei frases – momentos – do próprio Dom Casmurro/Machado, da edição da Editora Nova Aguillar. Leiam, e concordem ou não.
Pág. 868 Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.”
Mesma páginaEscobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro...Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei, cá ficou...
Pág. 876 Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres.”
Pág. 883Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa...mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas.
   Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado.”
Mesma páginaFui levá-lo à porta...Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver-se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.”
Mesma páginaCapitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
   - É o Escobar, disse eu.”
Pág. 887 “- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração.
   - Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça...Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.”
Pág 899Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não me visse desde longos meses.
   - Você janta comigo, Escobar?
   - Vim para isto mesmo.”
Pág. 900Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo.”
Pág. 901Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou...”
Pág. 902Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos.”
Pág. 913Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.”
Pág. 914A amizade existe, esteve toda nas mãos com quem apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força.”
Págs. 925/26 (Depois da morte de Escobar) “Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória, escrita embaixo, não nas costa do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.”
...
P.S.: Mas, se vocês ainda têm dúvida, leiam a página 845 do fúlgido romance. Bentinho, ele próprio, fica pasmo, e realizado, quando consegue dar um beijo (que dizer, apenas um bicota) em Capitu. É ele próprio quem fala, entusiasmado com seu feito de bravura:
   “De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
     - Sou homem!”