sábado, 4 de julho de 2015

CAMÕES E O SAUDOSISMO METAFÍSICO


   No século XVI, as ideias de Platão, que já tinham sido aproveitadas pela mística medieval, e adaptadas, por Santo Agostinho, aos caminhos da vida espiritual, ganharam grande repercussão e passaram a ser transmitidas, através dos sábios gregos, refugiados na Florença dos Médicis após a queda de Constantinopla.


  Constitui-se uma verdadeira Escola Neoplatônica; trechos do “Banquete”, de Platão, escrito por volta de 380 a.C, eram declamados por artistas da Itália e comentados com grande erudição.


   Em Portugal, Leão Hebreu publicou, em 1935, os “Diálogos do Amor”, livro em que expõe sistematicamente a teoria platônica. Camões deve ter meditado bastante esse livro, além da presumível assimilação do Neoplatonismo dos agostinianos.
   Segue abaixo alguns fragmentos de “Commentaire sur le Banquet” de Plaon, traduzido do latim por Raymond Marcel. Paris, Belles Lettres, 1956. [Tradução de Magnólia Costa.]

Primeiro discurso:
IV. Sobre a utilidade do amor

   Quando digo “amor”, deve-se compreender “desejo de beleza”. Com efeito, essa é a definição do amor para todos os filósofos. A beleza é uma graça que na maioria das vezes nasce antes de haver qualquer equilíbrio harmonioso entre vários elementos.
   Existem três espécies de beleza. Há beleza quando várias virtudes se equilibram nas almas; nos corpos, ela nasce da harmonia de diferentes cores e múltiplas linhas; nos sons, do acorde de várias vozes juntas.
   A beleza das almas é conhecida pela inteligência, a do corpo é percebida pelos olhos, e a das vozes, pelos ouvidos.
   Como a inteligência, a visão e a audição são os únicos meios que nos permitem fruir a beleza, e como o amor é o desejo de fruir a beleza, ele sempre se satisfaz por meio da inteligência, da visão e da audição.
   De que servem o olfato, o paladar e o tato? Esses sentidos só percebem sabores, odores, calor, frio, maciez, dureza e outras sensações dessa ordem. Nenhuma delas constitui beleza humana, pois são formas simples, ao passo que a beleza do corpo humano requer a simetria de membros diferentes. (...) Por consequência, o amor se limita a esses três poderes. Quanto ao desejo que se origina dos outros sentidos, a palavra que lhe convém não é “amor”, mas “libido”, ou “raiva”.

Segundo discurso
V. A beleza divina resplandece em tudo e é amada em tudo

   No mais, para resumir muitas coisas em poucas palavras, diremos que o Bem é a existência supereminente de Deus, e que o Belo é um ato, ou seja, um raio que dele emana e penetra em tudo: primeiro na inteligência angélica, depois na alma do mundo e em todas as almas, na natureza e, finalmente, na matéria corpórea. Esse raio torna a inteligência da hierarquia das ideias, enche a alma da ordem de razões, fecunda a natureza com sementes e orna a natureza com formas. Assim como um único e mesmo raio solar ilumina os quatro elementos – fogo, ar, água e terra – um único e mesmo raio divino ilumina a inteligência, a alma, natureza e matéria (...) quem contempla a beleza nestes quatro círculos – inteligência, alma, natureza e corpo – e neles ama o esplendor de Deus, por esse mesmo esplendor vê e ama o próprio Deus.

Quinto discurso
VI. O que se requer para que uma coisa seja bela e para que a beleza seja um dom espiritual

   O que é, afinal, a beleza de um corpo? É um ato, um impulso, uma graça que nele se exprimem por influência da sua Ideia. (...) A preparação de um corpo vivo requer três coisas: a ordem, a medida e o aspecto.
   Por ordem, entendemos as distâncias entre as partes; por medida, a quantidade; por aspecto, as linhas e a cor.
(...)
   Embora esses três elementos estejam na matéria, eles não podem ser nenhuma parte do corpo. De tudo isso se conclui com evidência que a beleza é tão estranha à massa corpórea que jamais se comunica com a matéria, a menos que sofra as tre preparações da ordem incorpórea de que falamos.
No mais, para não nos afastarmos demais do nosso assunto, de tudo que dissemos podemos concluir brevemente que a beleza é uma graça vivaz e espiritual, infundida pelo raio da luz divina, primeiro no anjo, depois na alma dos homens, nas formas dos corpos e nos sons, e que essa graça, por intermédio da razão, da visão e da audição, comove e regozija a nossas almas e, regozijando-as e, arrebatando-as, as inflama com amor ardente.

Sexto discurso
XVII. Comparação entre a beleza de Deus, do anjo, da alma e do corpo

   A comparação entre esses quatro graus de seres é idêntica à das formas. Com efeito, a forma do corpo é constituída pela composição de numerosas partes, é restrita a um lugar e se perde com o tempo.
   A beleza da alma sofre as vicissitudes do tempo e se compõe de uma infinidade de partes, mas está livre da limitação do espaço.
   A beleza do anjo, em contrapartida, tem somente quantidade, e não se restringe aos outros dois limites.
   Finalmente, a de Deus não passa por nada disso. (...) Deus é portanto a fonte de toda beleza, a fonte de todo amor.
(...)
   Daí a triste sorte de Narciso em “Orfeu”. Daí a calamidade miserável dos homens.
  “Narciso adolescente”, ou seja, a alma do homem temerário e ignorante. “Não olhe o seu rosto”, pois em vão ele considera sua própria substância e seu poder. “Mas ele procura na água a imagem, e se esforça para retê-la”, isto é, ele admira no corpo frágil a beleza que se vai como a água e que é a sombra da sua. “Ele abandona a sua figura e nunca consegue tocar a sua imagem”, porque a alma, quando segue o corpo, negligencia a si mesma e não se satisfaz com o uso do corpo. O que ela deseja, na verdade, não é o corpo mas, seduzida como Narciso pela forma corpórea que é imagem da sua beleza, deseja a sua própria beleza, e como não percebe isso, enquanto procura uma coisa e deseja outra, não pode satisfazer o seu desejo. Eis por que “esvaindo-se em lágrima ele se consome”, o que significa que a alma, situada fora de si e caída no corpo é ao mesmo tempo atormentada por paixões nefastas e corrompida pelas máculas do corpo. [...]

   Há três aspectos da teoria platônica que se refletem na lírica camoniana:

A PREEXITÊNCIA DA ALMA:
  
   Segundo Platão, as almas são criadas pelo Demiurgo. Colocadas no “hiperurânio”, cada uma em sua “estrela”, aí conhecem as verdades eternas, a beleza absoluta, os arquétipos de todas as coisas.
   Para a primeira encarnação humana, o Demiurgo entrega todas as almas aos Deuses da Terra e dos Planetas, que as revestem de um corpo. Guardam, contudo, uma “reminiscência”, uma “saudade”, da contemplação da Beleza e da Verdade absolutas.
   Quando aparecem no mundo, podem nessa primeira encarnação, escolher livremente o seu destino e, no fim dessa primeira vida terrena, se tiverem sido justas, irão para um lugar de descanso; se tiverem sido ruins, descerão até as profundezas subterrâneas para se purificarem. Estas, ao fim de mil anos, encarnarão de novo.


A REMINISCÊNCIA:

   A alma, encarcerada no corpo, só pode espreitar pela janela dos sentidos. De acordo com a doutrina platônica, os sentidos não são “causa”, mas apenas “ocasião” do conhecimento. Quer dizer: o papel dos sentidos é apenas tornar “conscientes” na alma os conhecimentos já adquiridos anteriormente na “estrela” e esquecidos na encarnação.
   As coisas sensíveis, segundo Platão, são imagens da Ideia e nada mais. Tudo o que existe no mundo é “cópia imperfeita” daquele outro mundo em que estávamos antes de nascer.
   As imagens só servem para recordar uma ideia formada e adquirida antes; são incapazes de a criarem.
Uma fotografia lembra-nos o amigo, mas só porque já tínhamos dele uma ideia certa e exata.
É o conhecido “Mito da Caverna”: as coisas sensíveis são apenas “sombras imperfeitas das ideias preexistentes”.
   Para melhor sintetizar as ideias de Platão, recorremos ao livro VII de “A República”, onde seu pensamento é ilustrado pelo “Mito da Caverna”.
   Platão imagina uma caverna onde estão acorrentados os homens desde a infância, de tal forma que, não podendo se voltar para a entrada, apenas enxergam o fundo da caverna. Aí são projetadas as sombras das coisas que passam às suas costas, onde há uma fogueira.
   Se um desses homens conseguisse se soltar das correntes para contemplar à luz do dia, “os verdadeiros objetos”, quando regressasse, relatando o que viu aos seus antigos companheiros, esses o tomariam por louco, não acreditando em suas palavras.

   A análise do mito pode ser feita pelo menos sob dois pontos de vista: o epistemológico (relativo ao conhecimento) e o político (relativo ao poder).

   Segundo a dimensão epistemológica, o mito da caverna é uma alegoria a respeito das duas principais formas de conhecimento: na teoria das ideias.

Platão distingue o “mundo sensível”, dos fenômenos, e o mundo “inteligível”, das ideias.

   O mundo sensível, acessível aos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, e é ilusório, pura sombra do verdadeiro mundo. Acima do ilusório mundo sensível, há o mundo das ideias gerais, das essências imutáveis que o homem atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos.
   Sendo as ideias a única verdade, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que participa do mundo das ideias, do qual é apenas sombra ou cópia.

   Para Platão há uma dialética que fará a alma elevar-se das coisas múltiplas e mutáveis às ideias unas e imutáveis. As ideias gerais são hierarquizadas, e no topo delas está a ideia do Bem, a mais alta em perfeição e a mais geral de todas; os seres e as coisas não existem senão enquanto participam do Bem. E o Bem supremo é também a Suprema Beleza. É o Deus de Platão.
   Mas como é possível aos homens ultrapassarem o mundo das aparências ilusórias? Platão supõe que os homens já teriam vivido como puro espírito quando contemplaram o mundo das ideias. Mas tudo esquecem quando se degradam ao se tornarem prisioneiros do corpo, que é considerado o “túmulo da alma”.
   Pela “teoria da reminiscência”, Platão explica como os sentidos se constituem apenas na “ocasião” para despertar nas almas as lembranças adormecidas. Em outras palavras, conhecer é lembrar.
   Voltando ao Mito da Caverna: o filósofo (aquele que se libertou das correntes), ao contemplar a verdadeira realidade e ter passado da “opinião” (doxa) à “ciência” (episteme), deve retornar ao meio dos homens para orientá-los.