sábado, 19 de março de 2016

A HORA DA ESTRELA, CLARICE LISPECTOR


I – AUTORA: CLARICE LISPECTOR (Tchetchelnik, Ucrânia, 1925 – RJ.1977)




“Perdi alguma coisa que me era essencial, que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. ”

                                          Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.

Recém-nascida, veio para o Brasil e desembarcou em Maceió com dois meses de idade, depois fixou-se no Recife durante a sua adolescência.

“Sou brasileira naturalizada, quando, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro. Criei-me em Recife. ”

Em 1934, muda-se com a família para o Rio de Janeiro e em, 1944, publicou sua primeira obra, “Perto do Coração Selvagem”; formou-se em Direito; casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e como embaixatriz, viveu no exterior até 1959.
Separada do marido e mãe de dois filhos, viveu dos direitos autorais de seus livros e da carreira jornalística.
Faleceu em 1977, vítima de câncer.

OBRAS:

Romances:

Perto do Coração Selvagem, 1944
O Lustre, 1946
A Cidade Sitiada, 1949
A maçã no escuro, 1961
A Paixão Segundo G.H., 1961
Uma aprendizagem ou Livro dos Prazeres, 1969
Água Viva, 1973
A Hora da Estrela, 1977


Contos:                                

Alguns Contos, 1952
Laços de Família, 1960
A Legião Estrangeira, 1964
Felicidade Clandestina, 1971
Imitação da Rosa, 1973
A Via-crucis do Corpo, 1974

Literatura infantil:   

O Mistério do Coelho Pensante, 1967
A Mulher que matou os peixes, 1969
A vida íntima de Laura, 1974


II – CARACTERÍSTICAS:

“Era uma mulher de grande liberdade. Uma mulher que vivia uma grande solidão. A solidão era a sua maneira de ser livre. Clarice tinha algumas coisas diferentes, que ela provocava, porque não aguentava a rotina. Acordava ás três ou quatro horas da manhã, porque dormia cedo. Ia pra cozinha, tomava café. Ia para sala, ficava fumando, pensando, com Ulisses, seu cachorrinho. Ouvia também a Rádio Relógio – uma emissora que só dá notícias e tempo. A maior parte do tempo ela ficava quieta, pensando, fumando. Ela se desvencilhava dos fatos o mais depressa que podia:
- Procuro viver rapidamente os fatos, porque a meditação profunda me espera! ”

              Olga Borelli, amiga e companheira de Clarice Lispector


Clarice é a maior representante da temática intimista da literatura moderna brasileira. Já no romance Perto do Coração Selvagem, sofrendo influência de James Joyce, Virgínia Woolf e William Faulkner, encontramos características que estarão presentes em toda a sua obra: a metáfora insólita; o fluxo da consciência e o monólogo interior; a ruptura com o enredo factual; a individualidade; a introspecção das personagens e os questionamentos “do ser” e “do estar-no mundo”.

“Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro”.

“Uma vida completa pode acabar numa identificação tão absoluta com o não-eu que não haverá mais um eu para morrer”.

“O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas. ”

III – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

O Terceiro Tempo Modernista é o período que compreende a geração pós-guerra (1945) até as décadas de 60 e 70, com os Novos Tempos. Porém, deixamos claro que estas datas servem como base para um formalismo didático, com o intuito de melhor visualizar os planos históricos e estéticos da época.
“Entre 1946 e 1964, a sociedade brasileira tentou, de maneira inédita, a implantação de um modelo democrático no processo político da nação. O fim da ditadura do Estado Novo, a vitória das democracias na Segunda Guerra Mundial e a influência do “american way of life” marcaram esse período. ”

Nicolina Luiza de Petta e Eduardo Aparício Baez Ojeda, História – uma abordagem integrada.

IV - FOCO NARRATIVO:

O romance é narrado em 1º pessoa por Rodrigo S. M., que funciona como alter ego de Clarice Lispector. Rodrigo faz-se de personagem ao identificar-se com a protagonista e projetar-se nela e a todo momento intromete-se (intruso) na narrativa, gerando constantes digressões.
O narrador também interfere na vida de sua personagem como um senhor absoluto do destino dela e está presente a tudo (onipotente), mas a verdade que inventa, ele não a conhece e que pretende contar, sem requintes e brilho de estrelas, a história de uma nordestina:
“Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra meus hábitos uma história com começo, meio e gran finale seguido de silêncio e de chuva caindo”.

V - TEMPO:

O tempo na narrativa está voltado para o psicológico, definindo-se a partir do fluxo de consciência das personagens. Trata-se de uma narrativa marcadamente interior, uma vez que as referências externas pouco ou nada preocupam.
Entretanto, é importante saber que a época retratada no romance é a dos anos posteriores a 1950, daí a paixão da protagonista pelas atrizes famosas: Greta Garbo e Marylin Monroe.
O tempo da narrativa é o mesmo dos acontecimentos, como o próprio narrador explica:
“ – Como que estou escrevendo na hora em que sou lido”.

VI - ESPAÇO:

A ação se passa no Rio de Janeiro, delineada por algumas referências de locais como: o quartinho de Macabéa na Rua do Acre, no escritório onde trabalhar, na rua do Lavradio e poucas cenas externas como: no cais, nas ruas, casa da cartomante e uma no zoológico.

VII - TIPO DE DISCURSO:

O enredo não segue uma narrativa linear, uma vez que existem três histórias que se misturam todo o tempo para formar a obra.
Na primeira história, o narrador alterna o discurso direto e indireto para mostrar a trajetória de Macabéa. Porém, as outras histórias paralelas ao tema central surgem intercaladas com inúmeras digressões, onde o narrador, através do discurso indireto, predominantemente no texto, mostra a si mesmo e a obra, tornando a narrativa lenta.

VIII - LINGUAGEM:

1. Metalinguagem.
2. Abandono da pontuação tradicional.
3. Digressões.
4. Ironia.
Vocabulário simples, coloquial, apresentando, porém, termos como “mimetismo, efeméride, renda per capita” como forma de ironizar a distante realidade da protagonista.
5. Zoomorfização:

“Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro”.
“Ela ficou de cabeça inclinada para o ombro, como uma pomba fica triste”.
“ – Um dia a pílula te cola na parede da garganta que nem galinha...”

6. Função apelativa:

O narrador anuncia que o livro está sendo patrocinado pela Coca-cola: “o refrigerante mais popular do mundo”. No entanto, soa mais como uma contrapropaganda: “gosto de cheiro de esmalte, de sabão cristalino e de plástico mastigado”.

7. Intertextualidade com o conto “A Cartomante” e “O Espelho”, de Machado de Assis; com o verso de Manuel Bandeira:

“Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse “sido e não fui”.
“A gargalhada era aterrorizadora porque acontecia no passado...saudade do que poderia ter [sido e não foi].
E com a famosa frase de Euclides da Cunha:
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

8. Humor Negro:

“Eu gosto tanto de parafuso e prego...”

9. Erotismo e sensualismo:

“Ela não sabia o que era desejo...ficava faminta mas não de comida, era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios...”

10. Crítica de certos modismos e às normas literárias rígidas:
“gran finale”.

11. Metáforas:
“corpo cariado”; “a vida é um soco no estômago”; “estrelas de mil pontas”; “grávida do futuro” etc.

12. Análise psicológica; monólogo interior.

IX - ESTILO:

As características pessoais de Clarice Lispector renovaram o estilo literário praticado na época. Seus textos afastam-se das técnicas tradicionais do romance, caracterizado como um espelho da sociedade e passa a refletir a mente, registrado através do fluxo da consciência. Rompe-se, assim, a narrativa ligada aos fatos e acontecimentos e emerge uma narrativa interiorizada, centrada na realidade interior das personagens. Não deixando, entretanto, de fazer referência à realidade concreta, organizando a narrativa em ritmo lento, de modo a contrastar com o movimento da vida das grandes cidades, o que leva o homem (personagens) à solidão, alienação e à falta de ligações mais profundas com a sociedade. Estes indivíduos estão comprometidos com a realidade externa e os problemas internos intensificam à medida que se agrava a questão social.
Se houvesse um rompimento do homem com os laços sociais, estaria criado o espaço da liberdade. Existe aí a presença da epifania: marcante em sua obra. A epifania, que é o momento da revelação, de um fato que ilumina a vida da personagem, nasce exatamente da fusão do eu e do mundo, representando a ruptura da monotonia do cotidiano.
A consciência leva o homem à liberdade e, simultaneamente, ao aprisionamento.
No romance, a epifania está ligada à náusea. A revelação de si mesma e do mundo circundante surge em Macabéa na forma, inconsciente, de náusea.
Os textos de Clarice são exemplos do salto para a metafísica e, de certa forma, verdadeiras viagens pelo existencialismo e pela subjetividade.

X - PERSONAGENS:

As personagens da obra representam a situação alienada dos indivíduos das grandes cidades, geralmente tensas e inadaptadas a um mundo competitivo que as despersonaliza. Elas aventuram-se através da imaginação, buscando romper com a barreira da palavra, com o mundo lógico para conhecer o enigma da vida e recuperar a liberdade. Eles mergulham na realidade interior, nas duas angústias e dores, tentando realizar seus desejos e anseios que não se concretizam.
A autora procura despertar a consciência individual misturando doses de existencialismo.
MACABÉA: protagonista. Seu nome é uma ironia, pois é oposto às qualidades do herói épico, já que em nada ela se aproxima da índole heroica dos Macabeus, povo guerreiro na história dos hebreus.
Moça alagoana e humilde, que enfrenta a luta numa cidade grande. Uma “estranha” para seu mundo e desconhece as armas inimigas que a ameaçam, graças a sua ingenuidade e pureza.
Alienada, desconhece sua própria miséria e sua tristeza.
“Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro”.
É virgem, mas tem desejos sexuais; datilógrafa; medíocre; semianalfabeta; calada por nada ter a dizer; feia; não pensa ou age. Deixa-se levar pela vida, gosta de goiabada com queijo e coca-cola.  Sonhava ser estrela de cinema. Receava adquirir doença venérea; contentava-se com felicidades banais; admirava os soldados. Tinha uma índole passiva, o que a tornava uma presa fácil dos muitos produtos da indústria cultural. Ouvia notícias inúteis na rádio e não conseguia emprega-las nas conversas.
RODRIGO S.M.: é o autor-narrador da história de Macabéa. É rico e sente dificuldade para escrever. Morre junto com a protagonista, já que foi “criado” para dar-lhe um destino melhor.
OLÍMPICO: alagoano; operário de uma metalúrgica; ambicioso e pseudo-intelectual. Fingia saber das coisas e queria ser deputado. Um sujeito de má índole – cabra safado. Tinha um dente de ouro, que lhe dava status. Não sabia que era um artista; nas horas de folga, esculpia bonitas figuras de santo e não as vendia.
Queria ser toureiro, admirava a capa vermelha. Gostava de ver sangue. A profissão de açougueiro o fascinava – “o meter a faca na carne”. Passava vaselina perfumada no cabelo.
GLÓRIA: secretária, alegre; narcisista; esperta. Filha de açougueiro; “carioca da gema”.
Apesar de branca e cabelos oxigenados, não esconde sua origem mulata. Colega de Macabéa no escritório; rouba o namorado da colega, mas, em seguida, tenta ajuda-la levada pelo sentimento de culpa e piedade.
MADADE CARLOTA: cartomante; foi prostituta e dona de bordel. Abusa da boa-fé das pessoas lento a sorte. Serve de instrumento de felicidade momentânea para Macabéa.

OUTRAS PERSONAGENS:
RAIMUNDO DE OLIVEIRA: dono do escritório e chefe de Macabéa e Glória.
MARIA DA PENHA, MARIA APARECIDA, MARIA JOSÉ E MARIA: três colegas de quarto de Macabéa.
MÉDICO

XI - RESUMO DO ENREDO:

As primeiras páginas de A HORA DA ESTRELA iniciam –se com um prefácio, em forma de uma intrigante DEDICATÓRIA, na qual Clarice surpreende o leitor, anunciando que vai se transformar num ser de ficção, abandonar sua pessoa física e tornar-se RODRIGO S.M.
Esse narrador fictício sugere um ser duplo, já que a individualidade da autora permanece.
Ao referir-se à obra, chama-a por “esta coisa aí”, expressão depreciativa que não só indica inferioriza o gênero do livro, como prepara para apresentar a protagonista, um ser também inferiorizado.
Em seguida, propõe uma reflexão desenvolvida através dos verbos “dedicar” (dizer para) e “dedicar-se” (dizer através de si para) e depois meditar, pois:
“...não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada”.
Nesse progresso, a música também desempenha papel fundamental, por isso dedica a obra ao antigo amigo “Schumann e sua doce Clara, que hoje são ossos, aí de nós. ”
Agradece aos músicos (Beethoven, Bach, Chopin, Strauss, Debssuy etc) pela realização da obra “que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas...a ponto de nesse instante explodir em: eu”.

É na DEDICATÓRIA que Clarice recorre ao campo imaginário e também oferece a obra aos entes da mitologia: os gnomos – pequenos gênios que presidem a Terra dos Tesouro; aos anões, que conhecem o futuro; às sílfides, gênios do ar; e às ninfas, que conhecem e dominam a natureza.
Nesse espaço afetivo, Clarice faz algumas DIGRESSÕES, procurando estabelecer uma ponte de diálogo com o leitor:
“Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas um, preciso dos outros para me manter de pé…”

A participação do leitor é fundamental, assim a escritora tem com quem repartir a culpa e a responsabilidade por ter criado a protagonista Macabéa,
Antes de começar a narrativa, o leitor depara-se com uma página em que aparece o título A HORA DA ESTRELA e, em seguida, treze possíveis títulos para a obra, intercalados com a assinatura da autora.

A HORA DA ESTRELA é um romance inovador, no qual Clarice cruzando três histórias, que podem ser tomadas, de certa forma, como estruturas narrativas, conduz o leitor a acompanhar simultaneamente todas elas. Essa multiplicidade pode ser melhor entendida dessa maneira:
1. Narrativa central: Rodrigo S.M. narra a história de Macabéa..
2. Narrativas paralelas:
2a. Rodrigo S.M. conta sua própria história; seu drama pessoal.
2b. Rodrigo S.M. fala da própria narrativa que ele desenvolve, de sua criação e de sua montagem, assumindo um caráter METALINGUÍSTICO.
A obra tem início com uma DIGRESSÃO, quando o narrador afirma que “Tudo no mundo começou com um sim”, refletindo sobre as origens de tudo, sobre as impossibilidades de se saber o começo da vida e que as coisas se criam por um ato de vontade e de afirmação, levando o narrador a dizer: “Se esta história não existe, passará a existir”.
Indagando sobre o ser e o existir, o narrador coloca como única verdade indiscutível as existências individuais, que ele agrupa em “Todos nós somos um”, porém, esta unificação é feita pela carência:
“...e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro”.
Cada ser, portanto, é uma parte de algo, projetando na realidade a sua consciência individual, consciência essa que liberta e aprisiona.
Macabéa, a personagem central, vai surgindo, assim, em uma narrativa que se afirma como uma invenção, porém, o fato de morar no Rio de Janeiro e ter vindo de Alagoas dão-lhe uma base de referencialidade real. 

PRIMEIRA HISTÓRIA:

O narrador apresenta-se como RODRIGO S.M. e pretende contar, sem requintes e brilho de estrelas, a história da protagonista, que surgiu de relance na vida do narrador:
“É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar, de relance, o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina”.
“Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento. ”
A criação, no entanto, não flui com facilidade. Ela transcorre com esforço descomunal, pois escrever é como "quebrar rochas".

Devagar, buscada nas entrelinhas, vai surgindo Macabéa, personagem nordestina de Alagoas que, por algum motivo desconhecido, vem para o Rio, "uma cidade toda feita contra ela". O narrador, identificando-se com a personagem, envolve-se na narrativa, partilha com sofreguidão o destino que vai traçando para ela, e, culminando num processo de puro êxtase de criação, acaba se tornando ele mesmo um personagem. Faz-se pobre como a personagem, adquire olheiras, não se permite mais prazeres pequenos como futebol, porque se identifica com a situação vivida pela nordestina: escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.
A apresentação de Macabéa se dá aos poucos, para que o leitor possa ter tempo para se acostumar com toda a miséria da personagem:
“Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-na de "panos", diziam que vinham do fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio coitada era melhor que o pardacento. Ela era toda um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar que seu cheiro era murrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. ”
“Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão”, órfã ainda menina, os pais morreram de “febres ruins”, foi criada por uma tia beata, moralista, reprimida, que “não se casara por nojo”, repressora, mas a única parente no mundo.
Mais tarde foram morar em Maceió. A tia castigava-a, dando-lhe cascudos na cabeça e privando-a da sobremesa, sua única paixão, goiabada com queijo. Quando era pequena, Macabéa queria criar um bicho, mas a tia não queria alimentar mais uma boca, então resolveu criar pulgas, pois não merecia sequer o amor de um cão. Não teve infância: recordava as meninas brincando de roda e mãos dadas, mas não participava porque a tia queria que ela varresse o chão.
Entre a singela e a asquerosa, Macabéa aparece órfã, sendo criada por uma tia que morre não sem antes lhe financiar um curso de datilografia. Com rápidas pinceladas, o autor compõe o quadro da infância miserável, de educação precária.
Ignorava porque viera para o Rio de Janeiro, uma cidade toda feita contra ela. A tia lhe arranjara um curso de datilografia e com isso, conseguiu um emprego. Não tinha domínio da escrita e só tinha cursado até o terceiro ano primário, atual ensino fundamental. Não herdara a beatice da tia; depois que ela morreu, Macabéa nunca mais foi à igreja.
Macabéa, agora sozinha, foi morar em um quartinho alugado na Rua Acre, próximo à Praça Mauá, região portuária do Rio de Janeiro, habitada por marinheiros e prostitutas, com mais quatro moças, todas balconistas das Lojas Americanas: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria. Nenhuma delas amiga, apenas companheiras de quarto.
Seu espaço está circunscrito à Rua do Acre, onde mora, e à Rua do Lavradio, onde trabalha, perto do porto que espia no movimento domingueiro.
“Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de joias e roupas acetinadas - só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro. ”
Macabéa estava há quase um ano resfriada, por isso dormia mal, a tosse a perturbava. Tinha 19 anos e:
“Era toda meio encardida porque raramente se lavava. Tinha um cheiro morrinhento, que incomodava as colegas de quarto”.
Antes de dormir, tomava só um gole de café frio e, às vezes, sentia fome e ficava imaginando carne. O remédio era, então, mastigar papel “bem mastigadinho e engolir”.
Nas madrugadas, o passatempo de Macabéa era ouvir a Rádio Relógio, o rádio ela emprestava de uma das colegas de quarto) que dava a hora certa a cada minuto, intercalada com informações de cultura geral e anúncios comerciais.
O tom monótono da rádio casa-se perfeitamente com a vida da datilógrafa que passa a se identificar com o locutor na escassez de atrações, na falta de colorido, na linguagem desnudada, no vocabulário pequeno. A Rádio Relógio é tão-somente um traço exterior semelhante ao esboço de poucas linhas traçado para a personagem.

Ela era extremamente magra e sua dieta consistia de café, coca-cola e cachorro-quente e às vezes sanduíche de mortadela nada mais.
Recebia um salário irrisório como datilógrafa, mas sentia-se orgulhosa com a função que exercia.
O seu único luxo, além de ir uma vez por mês ao cinema e comprar uma rosa (o que ela fazia no dia que recebia seu pagamento), era pintar as unhas da mão de vermelho, que ela roía até o sabugo, por isso desgastava logo o esmalte e via-se o sujo preto por baixo.
O chefe, Raimundo de Oliveira, tinha muitas queixas sobre seu trabalho: criticava a péssima apresentação das páginas que deixava sujas, devido a sua falta de higiene; os erros ortográficos que cometia, pois acreditava que deveria escrever da maneira que se falava, além de copiar lentamente, letra por letra. Por esses motivos, um dia, Raimundo avisou com brutalidade que ela seria despedida e só manteria no emprego a Glória, a secretária.
Macabéa nada argumentou em seu favor e apenas respondeu à agressão com humidade, pedindo desculpas pelo aborrecimento causado, que o chefe foi surpreendido pela inesperada delicadeza e avisou que daria nova chance a ela. Depois do aviso, Macabéa foi ao banheiro para ficar sozinha e olhou-se no espelho.
“Pareceu-lhe que o espelho não refletia imagem nenhuma”.
 O fato de não se enxergar no espelho mostra claramente um momento de revelação existencial. A perda da identidade levaria à busca de descobrir-se, caso não fosse Macabéa totalmente inconsciente.
Macabéa tinha mania de colecionar anúncios comerciais, que recortava das revistas e jornais velhos do escritório. Às vezes, sentia enjoos para comer, porque, quando criança, comera um gato frito e perdera o apetite. Nunca comera em um restaurante, só em pé num botequim da esquina.
Nunca recebeu presentes e um dia cobiçou um livro do chefe “Humilhados e Ofendidos” e chegou mesmo a pensar que nunca a ofenderam. Quando voltava do trabalho, perdia-se na multidão e sentia frio, pois não tinha agasalho.
Aos domingos, Macabéa “acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada”. Nunca se queixava ou se irritava, aliás, nem se conhecia, não se questionava.
Como ela não tinha dúvidas existenciais, uma vez que não conseguia atingir-se em profundidade, desconhecia seu vazio interior e o vazio da sua própria vida.
A rotina de sua vida insosso é quebrada quando ela decide faltar ao trabalho para descansar as costas. Achava que o chefe não acreditaria que suas costas doíam, então, valeu-se de uma mentira, alegando dor de dente. Nesse dia, 7 de maio, ela esperou as Marias saírem para o trabalho e conhece, pela primeira vez na vida, um sentimento precioso chamado solidão. Desfruta intensamente da liberdade de ter um espaço só para ela: dança, num ato de coragem, pois a tia jamais aceitaria isso. Sente-se livre, coloca a música bem alta, faz café solúvel e se dá ao luxo de sentir tédio.
Nessa tarde, sai para um passeio e conhece Olímpico de Jesus, também nordestino, “...bichos da mesma espécie”.
Ele será seu primeiro e único namorado.
Olímpico convida-a para passear, mas como eles não sabiam como se passeava, andaram por muito tempo debaixo de uma chuva grossa.
Olímpico era um sujeito mal caráter, que fugira do Ceará após ter matado uma pessoa. No Rio de Janeiro, trabalhava como operário de uma metalúrgica, mas não se dizia operário. Sua ambição era ascender socialmente, a todo custo, e se tornar deputado.
Adorava ouvir discursos e se interessava pelos negócios públicos.
Depois de alguns encontros com Macabéa, coincidentemente chuvosos, quando chegou a dizer, de forma grosseira, que ela só sabia mesmo chover.
Com o tempo Olímpico mudou o comportamento: mostrava-se cada vez mais arrogante e impaciente com ela.
Macabéa, por sua vez, já o amava e tinha muito orgulho dele, de sua classe social, e achava que formavam um “casal de classe”.
Olímpico dormia de graça, numa guarita de obras, por camaradagem do vigia, conseguindo assim economizar algum dinheiro. Mentiu para Macabéa quanto ao sobrenome “Moreira Chaves” porque só tinha mesmo o de Jesus, que é sobrenome dos que não tem pai.
Macabéa não raciocinava, mas sentia desejos:
“Era assim: ficava faminta mas não de comida, era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios....”
Olímpico tinha vontade de ser toureiro porque gostava de ver sangue e não tinha pena do animal, por isso sentia prazer de ver o açougueiro trabalhar. Trocara um canino por um dente de ouro, o que lhe dava status.
As conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne-de-sol, carne-seca, rapadura, melado, mostrando a completa ausência de assunto, o discurso vazio e a incomunicabilidade que se estabelece entre eles. Pareciam dois irmãos, tão iguais em seus infortúnios.
Macabéa era incapaz de entender o código da linguagem, o que irritava profundamente. Olímpico, que se mostra desprovido de qualquer sentimento de generosidade por ela.
Olímpico sente-se incomodado com a presença de Macabéa: suas perguntas que não tinham respostas; sua humildade; sua mania de desculpar quem a ofendia; sua cara feia e sem graça. Quando ele falava que seria deputado, ela pensava que quando se casasse com ele, seria, então, deputada.
Macabéa não dava nenhuma despesa ao namorado, apenas uma vez ele se ofereceu a pagar-lhe um cafezinho, que ela quis que fosse com leite e ele aceitou, já que era o mesmo preço e ela encheu de açúcar para aproveitar melhor.
Quando foram visitar o zoológico, ela pagou sua entrada e, ao ver o rinoceronte, aquela massa escura, compacta e preta, teve tanto medo, que se urinou e disfarçou dizendo que sentara em um banco molhado.
Olímpico não demonstrava nenhuma satisfação em namorar Macabéa: o silêncio dela, as explicações que ela pedia das palavras que ouvia no rádio, que ele também não sabia o significado.
Ao conhecer Glória, colega de trabalho de Macabéa, mestiça de "bom vinho português e também amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido", Olímpico percebe que ela era um produto de classe, apesar de feia; tinha família; comida quente todo dia, o que fazia dela material de boa qualidade. Quando soube que o pai dela trabalhava num açougue “caiu em êxtase” e ficou imediatamente interessado nela.
Olímpico termina seu relacionamento com Macabéa, afirmando:
“ – Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer”.
Ela ouviu com uma cara inexpressiva e, então, pediu para que ele dissesse logo adeus e fosse embora. Sua reação depois foi rir, por não se lembrar de chorar e não saber usar as palavras.
Olímpico, surpreso, também riu, mas sabia que era de nervoso, enquanto ela não sabia do que ria.
No dia seguinte, Macabéa deu uma festa para si mesma: comprou um batom vermelho e, no banheiro da firma, pintou a boca até fora dos contornos, para que os lábios parecessem com os da estrela preferida – Marylin Monroe – e ficou se olhando no espelho.
Ao voltar para a sala de trabalho, foi ridicularizada por Glória, que já estava namorando Olímpico, dizendo que Macabéa parecia mulher de soldado.
Macabéa responde que ela era virgem e não mulher de soldado. Glória perguntou se ser feia doía e Macabéa disse que nunca havia pensado nisso e quem poderia responder essa pergunta era ela mesma, a Glória. Esta, por sua vez, gritou que não era feia.
Glória, querendo compensar o fato de ter roubado o namorado da outra, convida Macabéa para ir em um domingo à sua casa tomar um lanche da tarde. Apesar da simplicidade da casa suburbana, Macabéa fica impressionada com a fartura de comida e a presença de um telefone.
Comeu tanto que no dia seguinte passou mal e teve vontade de vomitar, mas não o fez, porque não era louca de desperdiçar comida. Sua reação foi a de, humildemente, pedir à Glória aspirinas, que sempre tomava sem água, para curar sua interminável dor de cabeça. A água-de-colônia que Glória usava, causou-lhe enjoos, porém, não disse nada à colega, afinal, ela era a única conexão com o mundo.
Macabéa confessa à colega que admirava a beleza de Greta Garbo, quando moça, que acreditava ser a mulher mais importante do mundo, no entanto, queria mesmo era ser parecida com Marylin Moroe.
Para impressionar Glória, Olímpico mastigou pimenta malagueta sem tomar água. Ela ficou chocada e assustada, passou a obedecê-lo.
Um dia, Macabéa deu-se ao luxo de ir ao médico – um homem barrigudo e frio, que achava a pobreza uma coisa feia e que a atendeu sem interesse.
Assustou-se com a magreza dela e perguntou-lhe se fazia regime para emagrecer e o que comia. Diante da resposta, o médico disse a Macabéa que procurasse um psicanalista, pois essa história de comer só cachorro-quente, uma coca-cola era pura neurose.
Ela sorriu diante da afirmativa, mesmo não sabendo o que era psicanalista. Passou pelo raio-X e o diagnóstico foi um começo de tuberculose pulmonar. Ela também não entendeu o que era e agradeceu.
O médico se negou a ter piedade, mas recomendou-lhe que comesse espaguete, prato que ela também desconhecia. Acabou mandando Macabéa para o inferno. Ela se retirou mansa, sem comprar remédio algum, pois achava que o simples fato de ter estado no médico já era garantia de cura.
Como Glória dissera para a colega que passara a namorar Olímpico, por sugestão de uma cartomante, Macabéa aceitou a sugestão, para ver se assim se consolava e resolvia seu problema.
Aceitou o dinheiro emprestado pela Glória, inventou uma dor de dente para o chefe e até tomou um táxi, já que o dinheiro não era seu.
Madame Carlota, a cartomante, disse que seu guia avisara da sua chegada e, enquanto Macabéa esperava, admirava a sala, as poltronas e os sofás de plástico:
“Plástico era o máximo”.
Madame contou para Macabéa que, quando moço, foi prostituta, cafetina, com o que ganhou dinheiro para comprar um apartamento. Com os lábios pintados de vermelho vivo e com duas rodelas de ruge brilhoso, a cartomante comia um bombom atrás do outro, sem oferecer a Macabéa. Contou também que pegara sífilis, apanhava de um homem que amava, mas gostava e, quando ele desapareceu, para não sofrer, ela divertia-se amando mulheres:
“Entre mulheres o carinho é mais fino”.
Depois de muita conversa, a madame pediu para a cliente cortar as cartas e, pela primeira vez, Macabéa ia ter um destino.
A cartomante assustou-se com a vida horrível de Macabéa.
A cartomante acertou tudo sobre seu passado e, quanto ao presente, que ia perder o emprego e o namorado, porém, o chefe ia arrepender-se.
Quanto ao futuro, seria feliz e harmoniosa ao lado de um homem rico chamado Hans, loiro, “olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos” e iria usar casaco, veludo e cetim.
Macabéa tremia, agora de comoção, pois nunca tinha tido coragem de ter esperança.
A cartomante acrescentou que ela iria engordar e ganhar corpo e deu-lhe, para isso, um feitiço que ela deveria usar dentro do sutiã. Só cobraria pelo feitiço, alegando que o dinheiro era para um asilo, mas que Macabéa não precisava pagar se não quisesse, voltando quando tudo fosse verdade.
Impressionada com as informações, Macabéa a pagou, deu um beijo estalado no rosto da madame e sentiu que sua vida já estava melhorando, pois era bom beijar.
Saiu dali desorientada e feliz, pela primeira vez se dava conta do que fora sua vida. A cartomante lhe decretara uma sentença de vida, e ela sentia-se grávida de futuro. Ao dar um passo para atravessar a rua, eufórica e com vontade de chorar, sentindo que havia chegado a sua vez, foi atropelada por uma Mercedes Bens amarela, que fugiu em disparada.
Achou que a queda não havia sido nada, apenas um arranhão, mas bateu com a cabeça na quina da calçada e ficara caída com a cara enfiada na sarjeta. Ao cair, ainda teve tempo de ver que já começavam a ser cumpridas as profecias da cartomante: o carro era de alto luxo.
Macabéa ficou caída, inerte, na garoa, em um beco escuro.
O narrador ao tecer as características da moça, vai-se distanciando dos fatos que inicialmente constituem sua preocupação primeira e passa a se identificar cada vez mais com a personagem, tanto que acaba por receber as pressões que ele mesmo cria para Macabéa, assumindo para si a morte que se aproxima da personagem. Passando por lenta metamorfose, o narrador deixa transbordar em si o sofrimento de sua "cria" que estranhamente principia miúda, cresce e consegue uma autonomia na narrativa, fazendo o narrador confessar que já não pode influir no destino da personagem.

“Estou passando por um pequeno inferno com esta história. Queiram os deuses que eu nunca descreva o lázaro porque senão eu me cobriria de lepra.
Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me tiro-me de mim como quem tira uma roupa.
Despersonalizo-me a ponto de adormecer (...)
Vou fazer o possível para que ela não morra. Mas que vontade de adormecê-la e de eu mesmo ir para a cama dormir.
Macabéa por acaso vai morrer? Como posso saber? ”
As pessoas chegavam e se agrupavam em torno dela, porém, ninguém fez nada por ela. Macabéa, ainda viva, mexeu seu corpo até acomodar na posição fetal e, buscando o último sopro, disse uma frase que nenhum dos transeuntes conseguiu entender:
“Quanto ao futuro”.
Pois a cartomante, consultada pouco antes, antecipara-lhe um futuro em que seria amada por um rico e louro estrangeiro. O abraço final, que ela mesma se dá ao assumir a posição fetal para acomodar o corpo, representa a união do amor, da vida a se extinguir e da morte.
Ela, neste instante, sentiu um enjoo no estomago, vomitou sangue e morreu!
O narrador justifica o título da obra A HORA DA ESTRELA: na hora da morte de Macabéa, pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante, estrela de cinema, é o instante de glória de cada um. 
O próprio formato da poça de sangue de Macabéa: uma estrela com várias pontas, alude ao título da obra. A morte dá a Macabéa a oportunidade vital de reconhecer-se como ser humano consciente, à espera do futuro.
“Terá tido ela saudade do futuro? Ouço a música antiga de palavras e palavras, sim, é assim. Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas. ”
O sangue que Macabéa vomitou saiu de sua boca como o batom dos lábios vermelhos da estrela de cinema, estrela inatingível, sublime, assemelhando-se à etérea vida da nordestina, tão breve como um ponto-final.

SEGUNDA HISTÓRIA:

Esta história surge paralelamente à primeira, na qual Rodrigo S.M. se vale do enredo de Macabéa para sondar o sentido da existência humana, seu drama pessoal e profissional.
Ele apresenta-se como um escritor que, por não ter ainda alcançado o sucesso, deseja produzir uma obra simples. Entretanto, ele será acometido de muitas dúvidas e contradições: “Sou meu desconhecido”, o que leva a obra a ser complexa, contrariando o seu objetivo inicial.
Rodrigo sente um profundo desânimo, pois sabe que é responsável pela precariedade de vida da protagonista, não se conformando com sua miséria física e psicológica. Porém, o narrador sabe que esta falta de perspectiva de vida não é uma realidade individual e sim coletiva, pois há milhares de outras nordestinas que vivem no Rio de Janeiro, que não sabem sequer reclamar sua condição de miséria, já que para elas não há direito do grito.
O narrador, sensibilizado com essa realidade, grita por elas:
“...é dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida”.
Apesar de afirmar que não sente piedade da personagem, Rodrigo envolveu-se com Macabéa e a narração, apesar de muito irônica, é carregada de sofrimento e angústia.
Esse sofrimento de solidariedade social, que se transforma em culpa, é uma obsessão que atormenta o escritor, que se empenha em relatar essa realidade angustiante que massacra o íntimo do homem, impregnado do desejo de viver, mas bloqueado pela mais completa alienação, de si mesmo e do mundo que o rodeia.
Rodrigo identifica-se com a protagonista: “...em menino me criei no Nordeste” e para pôr no nível da nordestina, torna-se um trabalhador braçal, faz-se pobre, dorme pouco, adquire olheiras fundas e escuras, deixa a barba por fazer, anda nu ou em farrapos e abstém-se dos prazeres do sexo e do futebol. Desta maneira, o criador procura cada vez mais identificar-se com a criatura.
O narrador-escritor põe à mostra a sua condição de artista cheio de conflitos:
“Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto”.
Ironiza a dificuldade de inserção do escritor na sociedade:
“...sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu posso desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim”.
Rodrigo também desmascara o preconceito contra a escritora mulher:
“Aliás – descubro eu agora -  também eu não faço a menor falta, e até o que eu escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem, porque escritora mulher pode lacrimejar piegas”.
Rodrigo encanta-se por Macabéa e tem esperança de ainda vislumbrar algum brilho na existência da moça:
“Sim, estou apaixonado por Macabéa, a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total, pois ela não é para ninguém”.
Promete salvá-la, porém, ao relatar o atropelamento, o narrador diz que poderia voltar atrás, mas já foi longe demais para retroceder. Apesar da piedade que sente pela protagonista, Rodrigo não consegue ou não quer salvar Macabéa. Ele diz que poderia matá-la a qualquer momento, mas não quer o caminho intelectual:
“...escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons...Juro que este livro é feito de palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta”.
E como não é um escritor profissional, argumenta que só escreve o que deseja:
“Não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas”.
Para justificar sua atividade de escritor, declara que:
“Escrevo por não ter nada o que fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na Terra dos homens...e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria”.
Indaga, ainda, que captou o espírito da língua, por necessidade e para se compreender e que, “...enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever”. É escrevendo que Rodrigo se sente existindo.
O narrador-escritor insiste na necessidade de tornar a língua mais despojada e mais expressiva:
“É assim que se escreve? Não, não é acumulando e sim desnudando. Mas tenho medo da nudez, pois ela é a palavra final”.
Debatendo-se contra as limitações da palavra, o narrador protela várias vezes o início da história, vacilando em escrever, como se estivesse em busca da melhor forma de conduzir a narrativa:
“Como eu irei dizer agora”; “como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido”; “só não inicio pelo fim”; “escrevo neste instante”; “como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço”; “já que nunca o vivi”. Mais fácil. Ele deseja o pior, a vida:
“Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago”.
Resolve dar-lhe um “gran finale” – a morte, mas Rodrigo sente que a morte não o completa e volta-se contra si mesmo, considerando-se um traidor em relação ao ser que criou:
“Até tu, Brutus? ”
No final do livro, o narrador sente-se tão impotente quanto culpado, por não conseguir modificar o destino da criatura que inventou:
“A vida come a vida”.

TERCEIRA HISTÓRIA:

Intercalando as histórias de Macabéa e o drama do narrador, Rodrigo S.M. também tece as artimanhas da própria narrativa para explicar o ato da criação, do escrever, da montagem e a apresentação do texto, o que dá à obra um CARÁTER METALINGUÍSTICO. É esta história que promove o grande elo entre todas: escrever o livro, escrever Macabéa e escrever a si mesmo.
O narrador procura revelar ao leitor os recursos de que dispõe um escritor para a elaboração de sua obra: devassa sua própria intimidade de artista, deixando às claras as regras do jogo, assim sendo, entra dentro do texto e mostra os recursos utilizados pelo escritor.
O narrador, utilizando-se da TÉCNICA IMPRESSIONISTA, que procura reproduzir impressões, registra emoções e sentimentos, aproxima-a da escrita:
“...escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura”; “agora, em rapidíssimos traços desenharei a vida pregressa da moça”.
Porém, este estilo contraria as propostas iniciais da narrativa, que era só trabalhar com fatos.
O texto também está impregnado de IMPRESSÕES SENSORIAIS, onde a música ao lado das palavras, expressa o sentimento. Isso pode ser detectado pelo violino que acompanha a trajetória de Macabéa:
“Afianço também que a história será igualmente acompanhada pelo violino plangente tocado por um homem magro bem na esquina”, até sua morte – “Apareceu, portanto, um homem de paletó puído tocando violino na esquina”.
Uma outra conexão que se estabelece entre a escrita e o som é indicada em todas as vezes em que aparece a palavra “explosão”.
O narrador critica o desgaste e a impotência da literatura diante das manifestações da vida:
“Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”.
Ainda em tom de crítica, Rodrigo S.M. fala de certos modismos literários que pretendem atingir a originalidade:
“...uma história com começo, meio e gran finale”.
Por isso não selecionará “termos suculentos; adjetivos esplendorosos; carnudos substantivos, verbos esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação”, porque a palavra não deve ser enfeitada para alcançar, com exatidão, a sua autenticidade.
O narrador, nesta parte, oferece ao leitor um estudo sobre a literatura – uma leitura verdadeira da própria arte e sofrimento ao fazer literário, onde a arte parece pouco representar diante da fome, do medo, da dor coletiva dos milhares de humilhados e ofendidos, que percorrem o mundo lá fora.
No entanto, para o narrador, o método de trabalho configura-se como um verdadeiro ritual de iniciação:
“Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Último volume publicado pela escritora, data de 1977, ano em que morreu. De certa forma condensa as experiências até então realizadas pela autora, ao revolver sua principal preocupação - o ato de escrever.
Através das constantes interferências do narrador, o leitor vai conhecendo quão difícil é o relacionamento dele (como autor) com o ato da escritura e, ao mesmo tempo, desvenda seu envolvimento com a personagem que vai gradativamente compondo. Nesse sentido pode-se perceber que a composição da obra serve para amarrar dois pontos fundamentais da ficção: a criação da personagem e a psicologia da composição. Outro ponto a ser destacado é o da linguagem que, na obra adquire uma presença constante, porque é motivo de insistentes investigações por parte do narrador, chegando às raias da personificação, uma vez que a linguagem também enfrenta a "crise" da criação.
“Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-o-que o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas eu não vou enfeitar a palavra, pois se eu tocar no pão da moça se tornará em ouro - e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência”
O narrador passa a mergulhar no problema da comunicação, na esperança de poder traduzir com palavras a historia e combiná-la com a discussão sobre a palavra e a criação.
“Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás - descubro eu agora - também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas. ”
O posicionamento do autor na investigação escrita combinado com a preocupação de se auto-analisar traduz-se no profundo debate entre a finalidade da criação e o veículo da comunicação que é a linguagem. Por fim, ao investigar fragmentos da vida da personagem, isto é, ao confeccionar a narrativa propriamente dita, passando pela investigação dos fatos, a linguagem passa a exercer seus domínios na vida social, indicando, dentre os processos de criação, a interação do elemento bruto (palavra), da lapidação artística (autor) e da transposição social (vida da personagem).

Nesse sentido, é possível verificar o entrecruzamento dessas três investigações, todas elas modeladas a partir de aprofundamento pscicofilosóficos que desencadeiam a tessitura da trama do volume. O leitor que esperar um relato linear ou uma história romanesca, dificilmente conseguirá satisfazer seus anseios, pois o volume não é um relato sentimental, nem procura dourar a realidade:
“(...) nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos. ”
Então, por que ler o volume? De certa forma, sua leitura induz a captar o sentido mais profundo da linguagem e a tentar, através da forma, o esboço de um conteúdo. Ler pela necessidade de ler, da mesma forma que se encontra no escritor a necessidade de escrever:
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. (...). Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde, no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela - e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial. ”
Não raro, o processo de produção da linguagem é associado ao processo de produção musical. A composição assume o aspecto da música e a nomenclatura torna-se a mesma.
“(..). As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, rendas, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contra tom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. (...)
Esqueci de dizer que tudo o que estou agora escrevendo é acompanhado pelo rufar enfático de um tambor batido por um soldado. No instante mesmo que eu começar a história - de súbito cessará o tambor. ”


segunda-feira, 14 de março de 2016

LISTA DE OBRAS LITERÁRIAS: FUVEST E UNICAMP 2017

UNICAMP 2017

1. SONETOS, LUÍS DE CAMÕES
2. TIL, JOSÉ DE ALENCAR
3. CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO, CAMILO CASTELO BRANCO
4. MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, MACHADO DE ASSIS
5. O CORTIÇO, ALUÍSIO DE AZEVEDO
6. NEGRINHA, MONTEIRO LOBATO
7. CAMINHOS CRUZADOS, ÉRICO VERÍSSIMO
8. POEMAS NEGROS, JORGE DE LIMA
9. AMOR, CLARICE LISPECTOR
10. A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA, GUIMARÃES ROSA
11. LISBELA E O PRISIONEIRO, OSMAN LINS
12. TERRA SONÂMBULA, MIA COUTO

FUVEST 2017

1. IRACEMA, JOSÉ DE ALENCAR
2. MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, MACHADO DE ASSIS
3. O CORTIÇO, ALUÍSIO DE AZEVEDO
4. A CIDADE E AS SERRAS, EÇA DE QUEIRÓS
5. CAPITÃES DA AREIA, JORGE AMADO
6. CLARO ENIGMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
7. VIDAS SECAS, GRACILIANO RAMOS
8. SAGARANA, GUIMARÃES ROSA
9. MAYOMBE, PEPETELA

CLASSICISMO:
“Sonetos”, Camões (UNICAMP)

ROMANTISMO-LUSO:
“Coração, cabeça e estômago”, Camilo Castelo Branco (UNICAMP)

ROMANTISMO BRASIL:
“Til”, José de Alencar (UNICAMP)
“Iracema” (FUVEST)

REALISMO-LUSO:
“A cidade e as serras”, Eça de Queirós (FUVEST)

REALISMO NO BRASIL:
“Memórias póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis (FUVEST/UNICAMP)

NATURALISMO NO BRASIL:
“O cortiço”, Aluísio de Azevedo (FUVEST/UNICAMP)

PRÉ-MODERNISMO:
“Negrinha”, Monteiro Lobato (UNICAMP)

MODERNISMO NO BRASIL – II GERAÇÃO:
“Poemas negros”, Jorge de Lima (UNICAMP)
“Claro Enigma”, Carlos Drummond de Andrade (FUVEST)
“Vidas Secas”, Graciano Ramos (FUVEST)
“Capitães da areia”, Jorge Amado (FUVEST)
“Caminhos cruzados”, Érico Veríssimo (UNICAMP)

MODERNISMO NO BRASIL – III GERAÇÃO:
“Amor”, Clarice Lispector (UNICAMP)
“A hora e a vez de Augusto Matraga”, Guimarães Rosa (UNICAMP)
“Sagarana”, Guimarães Rosa (FUVEST)

CONTEMPORÂNEA:
“Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins (UNICAMP)
“Terra sonâmbula”, Mia Couto (UNICAMP)
“Mayombe”, Pepetela (FUVEST)


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