segunda-feira, 11 de abril de 2016

A ORATÓRIA DE PADRE VIEIRA: “SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO OU DOS PEIXES”


I – VIDA:

“Um homem dividido entre a colônia e a metrópole

Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, e faleceu em Salvador, em 1697. Era filho de Cristóvão Vieira Ravasco, mulato, e de D. Maria de Azevedo. Estava Portugal sob domínio espanhol. Em 1578 o rei D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, na África, onde os mouros derrotaram os portugueses. Não tendo herdeiros, o trono passou para seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que, já velho, morreu em 1580. Filipe II, rei da Espanha, por ser neto de D. Manuel o Venturoso pelo lado materno (Era filho de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano, e de Isabel de Portugal, filha de D. Manuel), assumiu o trono português. O Império Espanhol passou então a incluir Portugal e as possessões portuguesas, até a revolução que restaurou o trono português em 1640.
O pai de Antônio Vieira fora empregado em casa de D. Fernão Telles de Menezes, conde de Unhão, o qual foi tomado para seu padrinho. Em casa dos condes de Unhão havia trabalhado também o avô paterno de Vieira, Baltazar Vieira Ravasco. Esse avô era branco, natural da vila de Moura, mas, quando empregado em casa dos Condes, enamorou-se de uma serviçal mulata da mesma casa, que foi a avó paterna de Vieira. Dizem os biógrafos que o romance motivou que ambos fossem despedidos. Perguntado na Inquisição sobre seus antepassados, mais tarde, com 55 anos, Vieira disse nada saber dessa sua avó paterna.
O avô pelo lado da mãe, Dona Maria de Azevedo, era pessoa influente, Brás Fernandes de Azevedo, cristão velho. Este conseguiu para o genro nomeação para escrivão dos agravos da Relação da Bahia, logo que esse tribunal foi instituído. Isto motivou a vinda do pai de Vieira para o Brasil em 1609. Deixou em Portugal a mulher e o filho, para buscá-los três anos depois, em 1614, estando Vieira com seis anos.
Vieira teve um irmão e duas irmãs: Bernardo Vieira Ravasco, que ele declarou, quando inquirido no Tribunal da Inquisição, ser alcaide-mor da cidade de Cabo Frio do estado do Brasil, e secretário de estado e guerra do mesmo Brasil, solteiro. Nasceu e faleceu na Bahia (1617-1697), foi Comendador da Ordem de Cristo e teve vasta influência na Colônia; Dona Leonarda de Azevedo casada com o Doutor Simão Alves de Lapenha desembargador dos agravos de Sua Majestade e Cavaleiro do hábito de Cristo. Essa irmã morreu com o marido e os filhos em um naufrágio quando viajavam para Portugal, e Dona Maria de Azevedo que ele declarou solteira, mas que casou depois com Jerônimo Sodré Pereira. Esses irmãos eram brasileiros, naturais e moradores da cidade da Bahia.
Teve mais as irmãs Catarina Ravasco de Azevedo, mulher do Sargento-mor Rui Carvalho Pereira, falecida sem descendência, e Inácia de Azevedo Ravasco que foi casada com Fernão Vaz da Costa Dória
Vieira foi educado no Colégio Jesuíta da Bahia. O ensino tradicional jesuítico compreendia retórica, filosofia e teologia. Para aguçar em cada aluno o poder de argumentação os jesuítas estimulavam debates sobre temas os mais extravagantes: o que Deus fazia antes da criação do mundo, se poderia criar outros mundos mais perfeitos que o nosso, se as almas das plantas e animais são divisíveis, qual era a estatura da Virgem Maria, etc. Este tom argumentativo, dialético, permeia os sermões de Vieira como um sestro que ficou dos tempos de estudante. Seu professor de filosofia foi o Padre Paulo da Costa.
Manifestando seu desejo de entrar para a ordem jesuítica, Vieira teve a franca oposição dos pais. Fugiu de casa à noite para o colégio, onde o reitor o acolheu sem hesitação, por saber o que sua inteligência prometia. No dia seguinte, ano de 1623, iniciou seu noviciado, contando então quinze anos. Levaram-no para a aldeia do Espírito Santo onde os padres doutrinavam os indígenas, a sete léguas da cidade, para distanciá-lo da família inconformada.
Vieira ainda era um noviço quando, em 1624, ocorreu a invasão da Bahia pelos holandeses.
Em 1581 a Holanda havia proclamado sua independência, libertando-se do domínio da Espanha. Em represália, Filipe II fechou todos os portos portugueses e espanhóis aos navios holandeses. Essa medida constituiu um violento golpe na economia holandesa, que controlava o transporte, o refino e a distribuição do açúcar brasileiro na Europa. Para superarem esse obstáculo, os poderosos comerciantes holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais para a conquista dos mercados produtores, no caso o Nordeste Brasileiro (Bahia e Pernambuco).
Quando a armada da Companhia das Índias Ocidentais chegou a Salvador o povo fugiu para os matos, grande parte dos habitantes de Salvador se dispersou pelas aldeias dos índios, sob a direção dos padres jesuítas. O governador geral Diogo de Mendonça Furtado foi preso e embarcado para a Holanda. Assumiu interinamente o governo D. Marcos Teixeira, quinto bispo do Brasil, que adotou a forma de guerrilha para combater o invasor.
Essa tática terminou por dar resultado e no ano seguinte, 1625, chegou á esquadra espanhola e retomou a cidade. Os holandeses se renderam e quando, pouco depois, chegou uma esquadra holandesa para reforço, nada mais pode fazer. Todas as propriedades holandesas (navios, ouro, etc.) foram confiscadas e receberam navios e mantimentos apenas, suficientes para partirem de volta para a Holanda.
Vieira contava apenas 16 anos, e já conhecia latim tão admiravelmente que os padres o encarregaram de relatar o acontecido ao Geral da Companhia em 1626, a primeira escrita após a interrupção de dois anos ocorrida naqueles tempos anormais. Relembrando a noite da invasão, diz o jovem noviço:

"Mas quem poderá explicar os trabalhos e lástimas desta noite? Não se ouviam por entre as matas senão ais sentidos e gemidos lastimosos das mulheres que iam fugindo; as crianças choravam pelas mães, e elas pelos maridos, e todos, segundo a fortuna de cada um, lamentavam sua sorte miserável".

Encerrados os dois anos do noviciado vividos no período da invasão, Vieira fez os votos simples de pobreza, obediência e castidade e passou de imediato ao treinamento pedagógico á que os candidatos às ordens sacras estavam obrigados na Companhia de Jesus.
Em 1627 está em Olinda, lecionando retórica no colégio jesuíta. Mas logo é chamado de volta à Bahia, com certeza, pela falta sentida de seus préstimos. Somente em 1634 seria ordenado padre, e diz seu biógrafo J. Lúcio de Azevedo que nada se sabe do período que precedeu à sua ordenação.
Ordenado padre, as ocupações Vieira são o magistério no colégio e nas aldeias indígenas, e a pregação.
Seu primeiro sermão foi pronunciado na Quaresma de 1633, antes de receber as ordens. Em 1635 escreveu o seu livro "Curso Filosófico" adotado no Colégio todo o século XVIII. Cedo apareceu como erudito e como orador eloquente. Alguns de seus sermões mais enérgicos sobre a guerra holandesa e situação dos escravos foram feitos na Bahia. Em 1638 os holandeses, vindo de Pernambuco, tentaram tomar Salvador pela segunda vez, mas não conseguiram. Com o invasor às portas, em número de 3.400 soldados comandados por Maurício de Nassau, Vieira usou, para o sermão na igreja de Santo Antônio, no dia do santo, o versículo do Livro dos Reis: "Porque eu defenderei esta cidade, para salvá-la, por mim próprio por meu servo David".
O irmão de Vieira foi ferido nas lutas pela recuperação de Itaparica. Após um sítio de 40 dias que logrou impor à cidade, a tropa assaltante teve de retirar-se.
Vieira trabalhou entre os escravos índios e negros até 1641, quando foi incumbido de levar congratulações ao Rei D. João IV em sua ascensão ao trono.
D. João IV (reinou 1640-1656), nascido em 1604, era duque de Bragança. Subiu ao trono na revolução vitoriosa contra os espanhóis em 1640. Pertencia à casa de Avis que reinara antes dos 60 anos de domínio espanhol, fundando assim a dinastia dos Bragança.
O vice-rei do Brasil, tendo de enviar seu filho D. Fernando à Metrópole, a levar a adesão da Colônia a D. João IV, faz acompanhar de dois jesuítas, o Padre Vieira e outro religioso também ilustre, o padre Simão de Vasconcelos, que seria depois afamado cronista da Ordem.
A luta dos portugueses contra o domínio espanhol esclarece Lúcio de Azevedo, fora sustentada por um civismo místico, com fundamento em profecias de Bandarra, um sapateiro inspirado, que desde 1540, em um livro de trovas, consignara os destinos de Portugal. Dos solares dos fidalgos às escolas onde as crianças rudes do povo aprendiam, o Bandarra era o livro de leitura e a bíblia do patriotismo. Nada contribuiu tanto para manter viva a esperança na redenção do estrangeiro. Sua profecia de grandeza esperava-se que se concretizariam com a volta de D. Sebastião, que se supunha ainda vivo, pois ninguém o vira morrer na batalha em África. Porém, torcidas, reinterpretadas, falseadas onde foi necessário, aplicaram-se aos fatos da restauração. O Encoberto, o rei desconhecido de que falavam os vaticínios, podia muito bem ser D. João, o Duque de Bragança.
Assim se preparou o ambiente em que brotou a revolução pela restauração da monarquia portuguesa. Restaurado o trono, ao Bandarra tributaram-se grandes honras. O próprio D. João IV aceitava a designação de "O Encoberto", como sagração de sua realeza pela intenção divina.
A essa crença aderiu também Vieira. Seu companheiro de viagem, o Padre João de Vasconcelos, compunha a "Restauração de Portugal", apologia mística do rei aclamado, coligindo as maravilhas e profecias que justificavam o ato revolucionário.
Nas suas pegadas, Vieira escreveu “Quinto Império do Mundo” e “História do Futuro. ”
Ao cabo de aventurosa viagem com destino a Lisboa, o jovem fidalgo e os dois religiosos foram obrigados a desembarcar em Peniche devido a uma tempestade que desarvorou a nau, e ali um mal-entendido, os levou à prisão, tomados por contrarrevolucionários aderentes do governo espanhol. No dia seguinte, desfeitos os equívocos, partiram para Lisboa.
Recebidos pelo Rei, no mesmo instante Vieira conquistou a simpatia do monarca que, com certeza, percebeu logo o quanto Vieira lhe poderia ser útil. Tinha Vieira não apenas conhecimento dos assuntos do Brasil, como sabia muito da psicologia do inimigo holandês.
Vieira está em Lisboa com 33 anos de idade. Sua fama no Brasil já alcançara Portugal. Começa a pregar na Igreja do seu Instituto S. Roque. Lisboa invadia a igreja para ouvi-lo. Foi convidado a pregar para o Rei, Vieira pregou pela primeira vez na Capela Real no dia do Ano Bom de 1642. O Rei tornou-se admirador da personalidade magnética e segura de Vieira e passou a olhar o jesuíta alto, magro e dinâmico como "o maior homem do mundo".
Cada vez mais íntimo da família real, estimado pela conversação inteligente e manifestamente clara compreensão dos negócios do Estado, em pouco tempo Vieira dava o voto mais autorizado e decisivo em importantes negócios de Estado. A essa ajuda na qualidade de conselheiro, juntava-se outra ainda mais preciosa. Era tão aflitiva a situação do reino que nos sermões cabia alertar o povo sobre tudo que fosse interesse da pátria, pois não havia meios de comunicação senão as prédicas e o que se noticiava de boca em boca.
Vieira pelo concurso de ouvintes e influência da sua palavra colocou-se inteiramente a serviço do rei e até a favor dos impostos chama à responsabilidade os cidadãos.
Fazia sua exortação ao patriotismo paralelamente com a exortação moral em que os negócios mais graves do Estado saiam a lume, e através de alegorias da Bíblia analisava atos do governo e a conduta dos homens públicos. Quando necessário, nem o próprio soberano, figura sagrada para o povo, escapava às admoestações e à censura.

"Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes."

Completados os 35 anos, Vieira ainda não era jesuíta professor. Faltava-lhe fazer o quarto e último voto, o de obediência ao Papa, que, segundo Lúcio de Azevedo, professou em 26 de maio de 1644.
Entre 1646 e 1650 Vieira esteve engajado em missões diplomáticas na Holanda, França e Itália, com os mais variados misteres. A mais relevante foi com certeza a do acordo entre Portugal e Holanda. A Holanda queria uma indenização por ter perdido Pernambuco, mas que intentava reconquistar. Preparou uma nova frota para ir ao Brasil a qual, para felicidade de Portugal, se desmantelou no Atlântico devido á forte tempestade. O ponto dificultoso das negociações era a fiança que haveria os holandeses de pedir pela mora, até se realizar cinco ou seis anos mais tarde o pagamento final.
Aqui se oferece a Vieira ensejo de renovar seu empenho em favor da gente hebraica. Ele havia apresentado em 1643 uma exposição de motivos ao Rei, na qual argumentava que o reino estava em estado miserável depois do domínio espanhol (que não defendera as colônias de Portugal permitindo que a Holanda se apoderasse de boa parte delas) e que era um contrassenso a perseguição aos judeus.

Dizia: "Por estes reinos e províncias da Europa está espalhado grande número de mercadores portugueses, homens de grandíssimos cabedais, que trazem em suas mãos a maior parte do comércio e riquezas do mundo. Todos estão desejosos de poder tornar para o Reino...Se Vossa Majestade for servido de os favorecer e chamar, será Lisboa o maior império de riquezas..."

Acrescentava que todos os países viam a miséria de Portugal. Nenhum país colocara embaixada no Reino restaurado e que o desprezo era tanto que o Papa não recebeu o embaixador português.
A volta dos judeus, além de enriquecer Portugal, haveria de enfraquecer o inimigo que deles se valiam com grande vantagem, porque na Espanha, judeus portugueses estavam cuidando da administração da fazenda real e emprestando ao monarca espanhol milhões enquanto não chegavam ás frotas com o ouro da América.

"E o mesmo sucederá na Holanda, cujas companhias, que nos tem tomado quase toda a índia, África e Brasil, vivem em boa parte à custa da finança judaica portuguesa". E lembra ainda os exemplos da França e da própria Roma, "onde se permite a existência de sinagogas com seu culto".

E porque se permitia no reino de Portugal comerciantes protestantes de várias nacionalidades e não se permitiam comerciantes judeus?
A Companhia de Jesus considerava imprudente e comprometedor o empenho de Vieira. O Rei escreveu uma carta (1644) ao Provincial da Companhia recomendando que não fosse maltratado Vieira por motivo de suas ideias.
Seu plano no negócio com a Holanda, como um desdobramento da representação antes feita, era que dos cristãos novos poderiam vir a dar a fiança necessária ao acordo.
De volta de Paris onde fora tentar o apoio do governo francês para as negociações com a Holanda, Vieira deteve-se em Ruão para consultar os cristãos novos portugueses ali residentes. Além da questão dos créditos que buscava para o reino, Vieira empenhou-se com os judeus sobre o projeto de restituí-los à pátria. Naquela cidade florescia então, com o consentimento tácito das autoridades, o judaísmo, e era ela, quase tanto como Holanda, refúgio dos hebreus portugueses.
Uma vez na Holanda entrevistou-se também com os judeus de Amsterdã e lhes fez promessas como aos de Ruão, no sentido de trabalhar para que fossem favorecidos com mercês régias os cristãos novos.
Homem preocupado com todos os assuntos que dissessem respeito a Portugal, Vieira, estava também empenhado em que Portugal reformasse os velhos galeões e adquirisse navios modernos para a sua frota. Aconselhara o rei a comprar quinze fragatas armadas, que em Holanda se ofereciam ao preço de vinte mil cruzados cada uma. Alguns desses navios foram adquiridos por intermédio do embaixador em França e ele próprio levou encargo para outros, quando no ano seguinte voltou à Holanda, para o que obteve de dois importantes negociantes cristãos novos os recursos necessários.
Sentindo o apoio firme de D. João IV, tomou Vieira a iniciativa de defender os judeus contra a Inquisição que lhes confiscava os bens antes mesmo de encontrar-lhes culpa formada.
D. João IV não podia desfazer as penas impostas ao crime de heresia pelo direito canônico, nem intervir na jurisdição do Santo Ofício. Com certeza por inspiração de Vieira, assinou um alvará que solucionava a questão, ou seja, que os cristãos novos não perdessem os seus bens quando detidos pelo Tribunal por culpas inventadas por inimigos seus. D. João se comprometia a devolver aos cristãos novos aquilo que lhes fosse confiscado, pois embora a condenação fosse feita pela Igreja, os bens confiscados destinavam-se ao Estado, deduzido pela Inquisição o necessário para sustento da sua máquina e liturgia.
O Santo Ofício protestou contra tal abolição perante o Rei e recorreu ao Papa. Os inquisidores obtiveram do Papa um breve pontifício restabelecendo o confisco. Quando apresentaram o documento a D. João IV, este argumentou que, como quem ia ficar com os bens confiscados era ele, o monarca, ele podia perfeitamente, como proprietário, devolvê-los aos seus donos. Assim conseguiu manter a resolução.
Ao mesmo tempo foi criada uma companhia portuguesa para exploração das colônias com liberdade para participação de capital judeu. Inscreveram-se os cristãos novos mais ricos. Duarte da Silva, que dera o crédito para os navios de Holanda, e que em seguida fora preso pela Inquisição, estava agora com os bens desembaraçados em virtude da nova lei, reuniu-se a muitos outros, juntando-se enorme capital.
A inquisição, como era natural, revoltou-se, e Vieira estava publicamente comprometido com a o projeto. O caso produziu escândalo em toda a parte no país. Os amigos da Inquisição, que eram os inimigos dos cristãos novos, juntos aos inimigos de Vieira, que eram muitos, não cessavam de publicar a sua indignação. Pode-se afirmar que foi nesse tempo Antônio Vieira o homem mais aborrecido em Portugal. Uns o apodavam de traidor, por que sugeriu ao rei entregar Pernambuco aos holandeses em troca da paz, quando a questão dos fiadores parecera sem solução. Outros o infamavam de herético, por tentar restabelecer as sinagogas no reino.
Ora, o quanto acabrunhado devia andar Vieira é fácil de imaginar. Afinal, era de se esperar que Holanda fosse um país amigo de Portugal, porque também havia lutado contra a Espanha para firmar sua soberania. Se havia atacado e montado um enclave no Brasil, o fizera exatamente porque era um ato hostil à Espanha, herdeira do reino e das colônias portuguesas no processo de sucessão de D. Sebastião. Valia muitíssimo á pena ter novamente Holanda por aliada contra a Espanha, garantindo assim a paz e segurança de todo o império português que se desejava restaurar e fortalecer. Que isto custasse deixar os Holandeses em paz no Pernambuco, havia parecido ao estadista, a certa altura dos acontecimentos, um preço muito razoável. Quanto aos judeus, Vieira estava tão certo que, ainda hoje, não se compreende como pôde Portugal agir com tanta insensatez, expulsado de seu território justamente aqueles que haviam desenvolvido o seu comércio e tinha feito de Lisboa, o mais importante porto comercial do Atlântico.
Os Inquisidores então passaram a reunir "denúncias" contra Vieira: uso de livros proibidos trazidos do estrangeiro; proposições como a da conveniência de consentir em Lisboa, como se consentia em Roma, o funcionamento de sinagogas, e várias repetições, pelos denunciantes, de afirmações muito conhecidas de Vieira a respeito de que se desse tratamento diferentemente a judeus e a judaizantes. Apesar de serem posturas conhecidas, ganhavam com a denúncia o caráter de novidade indispensável para criar assombro e escândalo tardio. Nada foi apurado que realmente fundamentasse um processo, mas as investigações estimularam entre os jesuítas àqueles que não compreendiam Vieira ou o hostilizavam gratuitamente.
Seus adversários em sua própria Ordem acusaram-no de hábitos mundanos, adquiridos nas missões diplomáticas, do vestuário secular que usou em lugar da batina, e de ter a seu serviço um criado que Vieira pagava para lhe facilitar a vida apertada de compromissos por toda a parte. Denúncias e queixas repetiram-se em Roma, e tantas foram que o Geral determinou fosse Vieira expulso da ordem. O Geral, porém, voltou atrás, quando o Provincial em Portugal informou que o rei, determinara que nada se fizesse, pois afastaria Vieira da Corte concedendo-lhe uma diocese. Mais surpreendente ainda a resposta de Vieira ao soberano, dizendo que não trocaria sua batina de missionário nem por todas as dioceses de Portugal.
Apesar de ocupado com os negócios em que era chamado a opinar ou de que era incumbido pôr em marcha, Vieira não abandona o púlpito nem suas obrigações religiosas, nem deixa a morada com os companheiros jesuítas. Sem dúvida lhe custava tempo a preparação de seus apreciados sermões cujas citações a filósofos, à mitologia, etc., lhe custavam estudos. Diz Lúcio de Azevedo que ante a submissão do acusado, e a atitude de franca proteção que adotara o soberano, a sanha dos acusadores afrouxou.
A pena foi suspensa e depois definitivamente anulada.
Exausto talvez de tantos esforços em maquinar meios de garantir a sobrevivência da monarquia portuguesa, mesmo que fosse ás custas de casar o herdeiro português com a princesa espanhola, com a condição de que a capital do reino fosse Lisboa, e dentro da perspectiva de que esse casamento faria o príncipe português herdeiro dos dois tronos, decide que é o momento de voltar ao Brasil.
Não que lhe faltasse a amizade do rei e do príncipe herdeiro D. Teodósio. Recebe ainda uma missão de acompanhar à Inglaterra o novo embaixador português, porém a recusa. Na data de seu embarque para o Brasil, depois de despedir-se do Rei, este tentou sustar sua viagem mandando ordem ao capitão do navio para não admitir Vieira a bordo. Pelo que diz o seu biógrafo sobre os pormenores de seu embarque, esse gesto do Rei possivelmente o lançou em dúvida quanto á realmente seguir para o Maranhão. Mas decidiu-se de vez e embarcou na primeira oportunidade, dois meses depois. Em janeiro de 1653, desembarcou Vieira em São Luís do Maranhão como superior dos missionários jesuítas.
Na caravela em que não embarcara Vieira, haviam chegado antes dele ao Maranhão não apenas os padres dos quais ele seria o provincial, mas também um novo capitão mor que trazia carta do rei alforriando todos os índios da província. Por falta de escravos pretos, eram os índios os escravizados para os trabalhos nas fazendas e na cidade. Aguardou-se a chegada de Vieira para a publicação da lei. Quando o porteiro saiu a apregoar a determinação real ao som do tambor, o povo afluiu à Câmara em protesto. A libertação dos índios causaria a perda econômica que seria fatal para a província. Atribuíram aos jesuítas haverem conseguido aquela lei dada pelo monarca e se indignaram contra os padres, clamando expulsão e mesmo morte, para Vieira e seus companheiros.
Vieira habilmente encontrou a solução que apaziguou momentaneamente os ânimos. Propôs que aqueles índios que eram legalmente escravos fossem assim mantidos, mas aqueles mantidos ilegalmente em cativeiro fossem daí por diante pagos como trabalhadores livres. Como os colonos não tinham propósito algum de pagar, aceitaram satisfeitos a solução e voltaram com seus índios para suas fazendas onde a situação dos silvícolas continuou a mesma.
Desde a chegada desejou Vieira que as aldeias fossem, como na Bahia, entregues à direção dos missionários, e pôs logo seu cuidado em visitá-las. Tarefa penosa, pelos descômodos e fadigas que impunha as muitas picadas de mosquito dia e noite, o que, porém, ele aceitava de bom grado, pelos frutos que esperava de tantos trabalhos e privações. Seu zelo levou-o até o Pará onde, com alguns padres, navegou em canoas com extraordinário risco para avaliar a potencialidade da província a seu cargo para o ministério jesuítico.
A questão dos índios não chegava por nenhum dos lados a solução aceitável: nem os colonos desistiam do sistema de escravidão que tinham instituído; nem os jesuítas deixavam o propósito de lhes subtrair, ou pelo menos limitar, o domínio sobre os silvícolas cristianizados.
Achando-se os jesuítas acuados e limitados pelo poder dos fazendeiros, decidiu Vieira com seus companheiros que iria ele a Portugal tratar as questões com o rei.
Em breve visita a Portugal de 1654 a 1655, ele obteve decretos protegendo os índios da escravidão e um monopólio para os jesuítas na proteção dos índios.
Viagem atribulada, o barco enfrentou uma tempestade quando já próximo aos Açores, chegando a virar sobre um dos bordos, salvando-se por reconhecido milagre a tripulação e passageiros. Um pirata holandês os encontrou, confiscando a carga de açúcar que levavam, mas deixando-os em segurança no porto da Graciosa. Com o dinheiro que havia manejado esconder, Vieira comprou roupas e comestíveis para todos e meios para continuarem para Lisboa. Ficou nas ilhas por mais de dois meses até partir para Lisboa em um navio inglês.
Em Lisboa voltou a pregar na Capela Real, com outros pregadores reais. Seu tema era principalmente a corrupção dos políticos, de cujos efeitos, acabavam de sofrer no Brasil. O rei que andara doente à época da chegada de Vieira, em nada se sentiu atingido pelo cáustico moralista, e atendeu plenamente às reivindicações que lhe apresentou Vieira. Foi instituída administração conjunta do Pará e Maranhão, o que deveria minorar os problemas enfrentados pelos jesuítas e, mais ainda para satisfação de Vieira, caberia a André Vidal de Negreiros, herói pernambucano na luta pela libertação de Pernambuco, e que já estava nomeado para o governo do Maranhão, governar conjuntamente as duas províncias.
Reunidos o futuro governador, Antônio Vieira e altos funcionários, assentou-se o regime definitivo dos índios livres, em um estatuto próprio que fixava o quando deveriam receber como salário mínimo pelo seu trabalho, e outras disposições solicitadas pelos jesuítas no sentido de proteger os silvícolas. André Vidal partiu em 1654 e Antônio Vieira algum tempo mais tarde. O rei o proibiu de embarcar, mas tendo Vieira lhe proposto que ouvissem a opinião dos jesuítas sobre ficar ele em Lisboa ou retornar ao Brasil, e tendo esses decididos, por maioria, que seria melhor para a Ordem que retornasse ao Brasil, o soberano aquiesceu em autorizar sua partida.
Em janeiro de 1661, no Pará, a Câmara apresentou aos missionários, pedido com urgência para arregimentar índios no mato, para o trabalho escravo, o que rebateu Vieira.
Nessa época, surgiu novo conflito, suscitado por uma imprudência de Vieira, do qual tiraram seus opositores privilégios. Foi o caso do chefe da aldeia de Maracaná, a cargo dos jesuítas, no Pará. O índio vivia em concubinato com uma cunhada, um péssimo exemplo que os padres queriam suprimir. Vieira escreveu-lhe uma carta amável, solicitando que viesse ao colégio, chegando lá, foi desarmado e preso em ferros em uma cela, passando depois ao calabouço do forte de Gurupá.
Ao protesto dos índios seguiu-se o da câmara, associando-se a ele as ordens monásticas. O escândalo uniu os padres de outras ordens aos colonos e no inquérito a que se procedeu pelo Ouvidor Geral, em São Luís, os prelados do Carmo, S. Antônio e Mercês, que chegavam do Pará, depuseram em concordância com a representação dos índios.
Ao declarar-se a sedição no Maranhão, Antônio Vieira fazia caminho de Belém a S. Luís. Já próximo da cidade, recebeu carta do governador colocando-o a par da revolta e recomendando que não entrasse em São Luís. Pôs se de volta a Belém onde pretendia acalmar os índios para que não fugissem para os matos, assustados com as notícias que se espalhavam.
Menos de um mês passado, também no Pará rebentou a comoção contra os padres. Como em São Luiz, também em Belém o povo assaltou o colégio e pôs em custódia os jesuítas. Antônio Vieira ficou apartado dos companheiros em uma pequena igreja. Uma índia, Mariana Pinto, que depois foi irmã, conseguia passar a Vieira alguma ligeira refeição, até que entre homens armados o embarcaram para São Luís. Da canoa foi transposto para a caravela que, em 1661 levou todos os padres para a Europa. Vieira não descansava nunca; nesta viagem compôs e proferiu um dos seus mais belos sermões, o do “Rosário”, que fez ouvir, no domingo 9 de outubro, a seus companheiros na aventura marítima, gente de bordo e passageiros.
Em 1661, Vieira foi expulso para Portugal. Deteve uma situação a ele favorável na Corte, mas que depois, reverteu-se inteiramente em contrário. Falecido D. João IV em 1656, e porque falecera também D. Teodósio, primeiro na ordem da sucessão, sucedeu ao pai D. Afonso VI, com 13 anos de idade, sob regência de sua mãe, D. Luiza de Gusmão (1656-1683). A rainha regente era contrária a entregar o reino a esse filho por sua notória incapacidade para governar; era a favor de que fosse aclamado o irmão mais moço, D. Pedro.
Vieira encontra seu lugar na corte, como em épocas passadas, mais ainda quando a regente, no embate das intrigas e paixões em que a corte refervia, tanto necessitava do conselho e auxílio de homem tão experimentado como o missionário recém-chegado do Maranhão. Vieira que muito bem conhecia a vida desregrada do jovem príncipe, pois que toda preparação para reinar havia sido dada a D. Teodósio, coloca-se ao lado da rainha.
Porém já no ano seguinte, em 1662, alguns nobres amigos do herdeiro se puseram a seu lado e o levaram a estabelecer seu governo em Alcântara. Diante desse golpe, não teve outra alternativa a rainha senão passar a D. Afonso os selos do Estado. Os partidários de D. Pedro foram punidos, e Vieira que foi desterrado para o Porto.
Nesse mesmo ano, a princesa Catarina de Bragança, irmã de D. Afonso, casou com Carlos II da Inglaterra. Em troca de um rico dote, e de favoritismo comercial, a Inglaterra forneceu armas e soldados para a guerra contra a Espanha. As defesas portuguesas foram então organizadas por um militar alemão, Friedrich Hermann von Schönberg.
Afonso VI era considerado débil mental, e o país governado por Luiz de Vasconcelos e Souza, conde de Castelo Melhor até 1667. Em seu reinado os portugueses, sob o comando de Shönberg, obtiveram várias vitórias contra a Espanha, que em 1668 reconheceu a independência de Portugal. Foi casado com Maria Elizabeth Francesca de Sabóia (princesa francesa) que conspirou com seu irmão Pedro para afastar Castelo Melhor e anular o casamento com Afonso VI. Ela casou com Pedro em 1668, e Afonso VI foi persuadido a passar o trono para seu irmão que poderia ter um herdeiro e foi declarado regente. Desde então o rei foi mantido prisioneiro em Sintra, onde morreu.
No Brasil Vieira havia assentado as bases do que pretendia seria sua grande obra sobre a interpretação dos profetas, que na verdade nunca chegou a publicar. No desterro do Porto retoma seu trabalho intelectual. Faz a revisão de dezesseis volumes de Sermões para dar ao prelo e continua a rascunhar o “Clavis prophetarum”. Era Vieira bem vigiado pelos partidários de D. Afonso aos quais deixá-lo no Porto pareceu inconveniente. Cogitaram de desterrá-lo para Angola, mas se concluiu por deixá-lo preso no Colégio da Companhia em Coimbra.
Por falta de amigos na corte, foi aprisionado pela Inquisição que vinha preparando um processo contra ele havia algum tempo. As investigações sobre Vieira arquivadas no Santo Ofício foram reabertas. O decreto do Conselho Geral ordenou ao Tribunal de Coimbra mandasse ir à mesa o jesuíta e o interrogasse sobre o seu escrito “As Esperanças de Portugal” em que anunciava a ressurreição de D. João IV, e por seu exagerado interesse em favor dos judeus e cristãos novos. Não pode ser ouvido porque estava doente, do impaludismo contraído no sertão amazônico, cujas crises frequentemente o prostravam. Ultimamente os incômodos se agravaram de complicações bronquiais, com hemoptises que faziam temer ao doente a tuberculose, doença vulgar na Companhia, devido às macerações e canseiras da vida missionária, e cujo contágio era facilitado pela vida em comunidade. Em maio os médicos aconselhavam a mudança de ares. Determinaram os superiores fosse o doente para residência do Canal, junto a Buarcos.
Respondeu Vieira que era certo haver feito um papel, em que anunciava a ressurreição de D. João IV, o qual mandara para ser apresentado e servir de consolo à Rainha viúva. Baseava seus dizeres no Gonsalianes Bandarra, a quem todos tinham por profeta, se não em sentido canônico, mas no sentido que era o terem se cumprido as coisas profetizadas. E esclareceu o seu interesse meramente em favor da economia do reino, na questão hebraica.
Apesar de não encontrar nele falta grave, e mesmo antes de ser julgado, determinou a Inquisição sua prisão no cárcere do Santo Ofício, onde ficou por 26 meses até a véspera do natal de 1667. Continuou preso no Colégio da companhia em Coimbra, e mais tarde, por pedido seu, foi autorizado transferir-se para o noviciado em Lisboa. Pouco depois o Provincial da companhia requereu lhe fossem as penas perdoadas, e isto foi atendido ficando em vigor unicamente a obrigação de não tratar o réu das proposições suspeitas.
Sua vida se recompôs. Do palácio lhe veio o aviso de que haveria de pregar na Capela real por ocasião do aniversário da Rainha. Não pregou dessa vez, mas fez vários sermões nos meses seguintes. Magoado, disse em um sermão na Capela Real uma frase que ficou conhecida:

"Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma; mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia?".

Vieira estava, porém, decido a alcançar em Roma a revisão do seu processo na Inquisição. Pronunciou seu último sermão em Lisboa na festa de Santo Inácio, na matriz de Santo Antão, um extraordinário triunfo oratório. O povo, sabendo que ia pregar naquele dia, logo ao alvorecer e antes que se abrisse a igreja já se achava o largo fronteiro pejado de curiosos. Abertas as portas, num instante ficou lotada a igreja.
A fim de lhe facilitar instalar-se em Roma, recebeu da Companhia de Jesus o encargo de tratar assunto de interesse da Companhia, que era o de tratar da canonização de quarenta padres da companhia, trucidados por piratas calvinistas em 1570 quando iam para o Brasil.
Chegando a Roma, alguns padres foram em carros encontrá-lo no caminho, e a esta homenagem se somou à recepção que o Geral e mais padres lhe fizeram. Sua chegada, no entanto, coincidiu com o falecimento do papa Clemente IX e eleição do papa Clemente X, obrigando-o a adiar seu trabalho junto à Cúria.
Os padres da companhia insistiram com Vieira que pregasse. O Geral João Paulo Oliva manifestou seu desejo que aprendesse o italiano e se dispusesse a pregar ante os cardeais e nobreza romana, o mais culto auditório do mundo. Relutante talvez por cansaço, Vieira não teve escolha quando o Geral lhe impôs obediência no assunto. Pregou pela primeira vez em italiano em outubro de 1672 na festa de São Francisco de Assis. Concorreram pessoas notáveis da nobreza romana, alguns prelados e seis cardeais. Seguiram-se vários outros sempre concorridos. Tanto era o interesse em ouvi-lo que, diz Lúcio de Azevedo, tornou-se necessário colocar soldados às portas dos templos onde ia pregar, para impedir que se apossasse o público dos lugares, antes de chegarem ás dignidades eclesiásticas e pessoas de representação. Ao sermão, na igreja de S. Lourenço em Damaso, no ano seguinte de 1673, estiveram presentes dezenove cardeais.
Residia em Roma outra celebridade, a rainha Cristina da Suécia, que havia renunciado ao trono de seu país. Admirada pelo desenvolvimento industrial e comercial que promoveu, sua renúncia súbita do trono sueco causou surpresa em toda a Europa. Patronisa das artes e da ciência convidou importantes intelectuais estrangeiros para visitar seu país, inclusive René Descartes, que lhe deu lições de filosofia e morreu na sua corte, em Estocolmo. Renunciou por dois motivos: porque não desejava casar para dar um herdeiro ao reino da Suécia e também porque havia se convertido secretamente ao catolicismo, religião proibida na Suécia.
Em dezembro de 1655, fixou-se em Roma, acolhida pelo Papa Alexandre VII. Tornou-se sensação em Roma, onde comprou um palácio. Depois de ausentar-se em uma conspiração armada em Paris, em que, com a ajuda dos franceses, pretendia sair rainha do reino de Nápoles, precisou de um perdão papal para voltar a viver em Roma.
Foi amiga do cardeal Décio Azzolino, um líder político dos cardeais em Roma, de quem fez seu herdeiro. Ligou-se aos papas, recebeu uma pensão que, ajudou-a a manter-se com os recursos que recebia da produção de suas terras na Suécia. Em seu palácio em Roma tinha coleções de pintores famosos, esculturas e, o local tornou-se ponto de encontro dos intelectuais e músicos famosos da época. Sua biblioteca hoje faz parte da Biblioteca do Vaticano e seu túmulo (faleceu em 1689) está na Basílica de São Pedro.
Vieira pregou especialmente para a Rainha na quaresma do mesmo ano em que chegou a Roma, e por insistência dela junto ao Geral, que novamente exigiu de Vieira um ato de obediência, tornou- se pregador de sua corte. Estreou com uma série de sermões intitulados "As cinco pedras de David". Incluído em seu círculo, a que chamava Academia da Arcádia para filosofia e literatura, o Padre Vieira travou um debate filosófico que lhe valeu aplausos. Nessa Academia os grandes letrados discutiam os problemas mais diversos e faziam conferências para um círculo seleto da nobreza romana.
Através de farta correspondência, trocada inclusive com D. Pedro, Vieira acompanhava de Roma os acontecimentos em Lisboa. Repercutiu em Roma o novo recrudescimento da perseguição aos cristãos em Portugal, no ano de 1672.
Numa manhã de junho apareceu violado o sacrário da igreja do mosteiro de Odivelas. Crer que fosse a ação de herege, e mais particularmente hebreu, era consequência natural. Exaltaram-se os ânimos na capital e em todo o país. A 25 de agosto foi ordenada a expulsão de todos os indivíduos penitenciados pelo Santo Ofício desde o último perdão geral, isto é, de 1605, pena que abrangia os filhos daqueles que, com veementes suspeitas de heresia, renegaram os filhos e netos dos que tinham confessado, portanto vários milhares de pessoas. Vieira escreve a D. Rodrigo de Meneses, seu amigo, externando sua desaprovação ao decreto de expulsão e informando que a opinião comum era também contrária em Roma e toda a Europa.
Através de cartas, Vieira instigava o príncipe regente a proceder segundo o exemplo de D. João IV que em 1649 concedera aos cristãos novos licença igual à que agora solicitavam para recorrerem ao Pontífice. Todo seu empenho era que a contenda se transferisse para Roma, onde os recorrentes tinham modo de captar os votos e ele meio de cooperar nas diligências.
Afinal, em julho, decidiu-se conceder o que, a troco de apreciáveis vantagens na formação de uma Companhia que daria apoio a Portugal na Índia, os homens de negócio pediam a licença para requerem em Roma a reforma da Inquisição. Vieira deveria escrever ao Pontífice, a recomendar a súplica, e apontando como providência complementar necessária o perdão geral.
Porém, soando então que tinha o Regente acedido ás reclamações dos hebreus, que ia haver sinagoga pública em Lisboa, e que entre os proponentes do negócio da Índia se achavam judeus declarados, vindos de Roma por comissão do Padre Antônio Vieira, os inimigos dos cristãos novos romperam em protestos ruidosos. Alegava-se nos círculos da Inquisição em Lisboa que só das confiscações de bens relativas aos réus então nos cárceres prometia 500 mil cruzados, e para o futuro quantias superiores, para que, pois, a condenável transação com os hereges?
Recrudesceu em Portugal a perseguição aos cristãos novos pelo Santo Oficio. Choviam as delações e acumulavam-se os presos nos cárceres. Nos últimos dias de julho de 1672 foram recolhidos à inquisição em Lisboa alguns dos mais graduados comerciantes da cidade.
Já com 65 anos, Vieira sofria recidivas de seus achaques do tempo dos interrogatórios da Inquisição. Ausentou-se de Roma para se recuperar, em Albano, dos ferimentos sofridos em uma queda na escada de pedra da residência. O clima em Roma definitivamente o prejudicava na sua saúde.
Uma delegação portuguesa chegada a Roma para tratar assuntos da Igreja e particularmente da Inquisição deu a conhecer a Vieira que o rei D. Pedro (Regente de 1668-1683, Rei 1683-1706) desejava que retornasse a Portugal. Vieira hesita. A insistência do Rei termina por convencê-lo a partir, embora receasse o que lhe poderia acontecer com seu retorno, por parte da Inquisição portuguesa, e por achar que nada poderia ajudar mais a seu país.
Em Roma, insistiam em que ficasse. O Geral, que havia antes dissuadido Vieira de recorrer ao Papa contra a Inquisição portuguesa, por temer os estremecimentos que daí poderia resultar, agora, cioso dos perigos que correria Vieira retornando a Portugal, quando foi decidido que regressaria, cuidou de lhe alcançar a imunidade contra o tribunal português.
Em sua defesa Vieira apontava os defeitos do processo e os defeitos da sentença, está lançada de modo a exagerar as aparências de culpa e relevar pouco o que poderia recomendar sua absolvição. Arrolou os maus tratos que padecera: treze meses de detenção; não se lhe consentir em dizer missa, o que muitas vezes ele pedira nem se confessar e comungar, senão uma vez pela quaresma; extorquirem-lhe os papéis em que preparava a defesa, e recusarem-lhe livros inclusive a Bíblia.
Sobre as culpas que lhe apontaram os Inquisidores citou o memorial a favor dos cristãos novos de 1643; a criação, a esforços seus, da Companhia de comércio, de que resultou ser depois da morte excomungado D. João IV e todos aqueles que tomaram parte no conselho onde se resolveu a instituição, por breve obtido sub-repticiamente do Santo Padre sem a declaração das pessoas atingidas; e a defesa da Companhia de Jesus no conflito com a Inquisição ocorrido em Évora, por ter dito na ocasião que "Os inquisidores viviam da fé e os jesuítas morriam por ela".
Acrescenta que havia tomado como pretexto a carta em que afirmava a crença na ressurreição de D. João IV e nos vaticínios do Bandarra, demonstrando que a crença em Bandarra, era forte no seio da Igreja e que muitas de suas previsões tinham se confirmado, como por exemplo: o memorial oferecido pelo Bispo do Porto, Nicolau Monteiro, ao Papa Urbano VIII, no qual as profecias do Bandarra são invocadas como argumento.
Assim, em 17 de abril de 1675, foi isento Vieira para sempre da jurisdição dos Inquisidores de Portugal e seus representantes, e sujeito unicamente à Congregação do Santo Ofício de Roma; conjuntamente absolvido de quaisquer censuras, interdito ou penas eclesiásticas em que se achasse incurso até então.
Em maio Vieira deixou a capital romana onde fora durante seis anos, admirado e prestigiado. No caminho foi hóspede do Grão-Duque em Florença; de lá se passou a Gênova e embarcou para Marselha de onde seguiu por terra para Toulouse e lá embarcou pelo rio Garona até Bordéus. A rainha da Inglaterra, a portuguesa Dona Catarina, o convidara para dali seguir para Londres, mas Vieira, por cansaço ou por pressa de chegar a Portugal, não atendeu ao convite, desembarcando em Lisboa em agosto.
Vieira permaneceu no reino por mais de cinco anos depois que, chamado pelo Príncipe, tornara a Lisboa. Em todo esse período somente uma vez pudera intervir de modo efetivo em negócios públicos, quando convocado em 1680 a participar na junta de Conselheiros do Estado e Ultramarino.
Com a idade avançada, pensa em retornar a sua província no Brasil. Recebeu ainda um chamado da rainha Cristina, encaminhado pelo Geral da companhia, para que retornasse a sua corte em Roma, que recusou, alegando idade e as doenças. Hesitava entre retornar ao Maranhão ou à Bahia. Partiu a 27 de janeiro de 1681 na companhia de outros missionários que iam para a Bahia.
Das primeiras notícias que recebeu de Portugal, chegado definitivamente ao Brasil, foi de uma troça de estudantes em Coimbra, simulando um auto de fé e que os estudantes e a ralé da cidade o queimaram em esfinge aos gritos de "Padre Vieira, vendido aos judeus".
Não parece ter sido de tédio a vida de Vieira, após retornar ao Brasil. Logo que chegou, retirou-se para quinta do Tanque, de propriedade dos Jesuítas nas vizinhanças da cidade. Seu propósito consagrar-se à ascese e à conclusão dos sermões, que ia reconstruindo de fragmentos e notas e da memória, e concluir outros trabalhos literários. Mas esse retiro não foi possível. Não podia desaparecer sem que a curiosidade o seguisse. Eram duques, marqueses, arcebispos, a solicitar aos irmãos jesuítas notícias de Vieira.
Logo está a trocar assiduamente cartas com amigos na Europa, enquanto trabalha na revisão dos seus sermões. É também involuntariamente envolvido num incidente político desagradável, relativo ao seu irmão que vivia na Bahia, Bernardo Vieira Ravasco, e um dos filhos deste, Gonçalo Ravasco. Foi o assassinato do Alcaide, tocaiado à luz do dia e morto perto do Colégio por oito mascarados que em seguida ao crime, refugiaram-se na casa dos jesuítas. Lá estava escondido também o referido sobrinho de Vieira, Gonçalo Ravasco, por uma briga que tivera com um meirinho. Vieira tinha a intenção de reunir seus sermões em 12 volumes, e já publicara 7. O trabalho exigia grande aplicação porque a maior parte das prédicas estava em rascunhos desordenados. A coleção consta de sermões pregados em diferentes épocas, remontando a antes de 1640 na Bahia.
Com as rendas de seus sermões publicados Vieira se mantinha e também a um secretário, e o restante empregava em socorrer as necessidades dos índios nas missões.
O livro que Vieira pensava seria sua grande obra, nunca saiu a lume: “De regno Christi in terris consummato”, ou por outro nome, “Clavis prophetarum”, em quatro livros. Era uma publicação aguardada com interesse. Meditada nos caminhos e rios da Amazônia, começada ao sair da Inquisição, continuada em Roma e Lisboa, era a ocupação em que mais tinha gosto. Por mais de trinta anos ele tinha burilado o texto, e continuava ainda a aprimorá-lo. Agora, perto de nonagenário, fisicamente inválido, possuía ainda clareza das ideias, a agudeza do verbo para concluí-la. Esta obra sumiu-se quase por completo, ficando apenas algumas cópias mutiladas. Supõe-se que foi roubada por ocasião de sua morte.
Tendo a rainha Dona Maria Francisca Isabel de Sabóia falecido, houve grandes homenagens na Bahia. Obedecendo a determinação ao Marques das Minas, o Padre Antonio Vieira fez um sermão, apesar da "falta de dentes e de voz e todos os outros achaques da velhice...", contou ele em carga de agosto de 1684 ao marquês de Gouveia.
D. Pedro II, que ainda não tinha herdeiros, casou-se novamente, em dezembro de 1686, com Dona Maria Sofia Isabel de Neuburgo, filha do Eleitor Palatino Filipe Guilherme de Neuburgo, que lhe deu cinco filhos. Mais tarde, além dos sermões antigos, de que ia sucessivamente mandando os volumes para publicação em Lisboa, preparou Vieira entre 1691 e 1693 um tomo de sermões de São Francisco Xavier, por encargo da nova Rainha, particularmente devota do apóstolo a Índia.
Adoentado, em 1969 Vieira suspendeu sua correspondência com seus admiradores. Repetir-se-ia o acidente de 1673 em Roma: aos 85 anos, já trôpego, caiu de noite por um lance de escada de pedra. Além de ficar molestado em todos os membros, por muito tempo não pode segurar a pena.
Dois anos depois saía da imprensa o undécimo volume de sua coleção dos Sermões, oferecido à rainha Dona Catarina. O último volume, o duodécimo, foi acabado no ano de sua morte, em 1697.
A mesma nau em que viajou o manuscrito trouxe a Lisboa á nova de ter falecido o autor.


II – CARACTERÍSTICAS:



“Um homem atuante abrangendo não somente o campo literário, como o social em defesa da cidadania. ”

Missionário jesuíta, orador, diplomata, mestre da prosa portuguesa clássica, teve papel importante em ambas a história portuguesa e brasileira; seus sermões, cartas e papéis oficiais constituem um valioso índice do clima das opiniões no século XVII no mundo luso-brasileiro.


 A vida e obra do Padre Antônio Vieira, figura síntese de sua época, é apresentada sob os seguintes aspectos: sua formação escolástica; sua fidelidade ao absolutismo; seu envolvimento com o problema da perseguição aos judeus e cristãos novos e da escravidão tanto dos africanos, na Bahia, como dos índios, no Maranhão; sua fé romântica típica do sebastianismo; seu problema pessoal com a Inquisição, e seu pensamento filosófico cristão.
Seus conhecimentos de história e filosofia transparecem em milhares de comparações e metáforas nos seus sermões. O pensamento de Vieira é genuinamente moderno, apesar de viver na época em que, não só em Portugal como em boa parte da Europa, ainda domina o aristotelismo e a filosofia escolástica ensinada pelos jesuítas.
Valendo-se da dialética e do dualismo antitético compôs cerca de 200 sermões.
Como correspondente informativo escreveu 500 cartas, relatando seus trabalhos na evangelização dos índios, relacionando Portugal e Espanha e a situação da colônia.
Escreveu obras proféticas (“História de Portugal”, “Esperanças de Portugal” e “Clavis Prophetarum”), baseadas no “Mito do Sebastianismo” (a volta do rei D. Sebastião, D. João IV ou um dos seus filhos tornando Portugal potência).


Os sermões e as cartas escritos pelo padre Vieira revelam a maestria com que utilizava a língua para cativar sua audiência. No seu estilo destaca-se a combinação de trechos marcados pelo aspecto grandioso a outros dominados pela oralidade, valendo-se, muitas vezes, de silogismos falsos, caso julgasse tal recurso necessário para demonstrar uma tese ou um argumento, marcado pelo conflito dos opostos que dilaceram os homens atormentados de seu século.
É importante ressaltar a escolha inteligente de metáforas e analogias, que traduzem para a plateia passagens mais obscuras da doutrina católica. Além disso, as passagens ilustrativas do Antigo e do Novo Testamento, que inseria nos sermões, produziam grande efeito. E como escritor, artista da palavra, Vieira começa por combater os excessos do gongorismo, defendendo, preferencialmente, o jogo de definições ou a maneira de raciocinar conceptista.

“Se gosta de afetação e pompa de palavras, e do estilo que chamam culto, não leias. Quando este estilo mais florescia, nasceram as primeiras verduras do meu (que perdoarás quando as encontrares), mas valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam comecei a ser ouvido; e o começaram também a ser os que reconheceram o seu engano, e mal se entendiam a si mesmos. ”

Apesar de se proclamar conceptista atacando o cultismo, Vieira, entretanto, muitas vezes incorreu pelo estilo que chamava de “afetado e pomposo” em seus sermões, usando antíteses, promovendo a escavação semântica das palavras.

RECURSOS MAIS COMUNS NOS SERMÕES DE VIEIRA:          

- argumentação sutil, desenvolvida por meio de sofismas, silogismos, paradoxos e associações inesperadas;
- sintaxe rebuscada, valendo-se das figuras de inversão (hipérbato, anástrofe), de repetição (anáforas), de omissão (elipses);
- método parenético, pelo qual Vieira pensava todas as possibilidades que poderiam surgir no raciocínio dos ouvintes e as derrubava, antecipando-se às conclusões do auditório e desarmando as possíveis objeções;
- erudição, por meio de citações bíblicas e clássicas e do emprego de expressões latinas;
- observação constante do auditório, com que estabelecia um diálogo fictício, não raro envolvendo a mordacidade e a ironia. 


“Ter nome de pregador ou ser pregador de nome, não importa nada. ”

                              ESTRUTURA DOS SERMÕES DE VIEIRA:
                             
Partindo de um versículo bíblico, em latim, o autor define as palavras principais e, através de uma argumentação cíclica, estabelece de forma apelativa um diálogo com o ouvinte ou com o leitor, remetendo-o a fatos concretos, e envolvendo-o emocionalmente com descrições realistas e tocantes.
Os sermões do Pe. Vieira, inicialmente, propõe um Mote, depois desdobra esta Proposição, mostrando a interdependência de suas partes. Em seguida, levanta uma Hipótese, demonstrando-a ou justificando-a; confirmada a hipótese, esta é transformada em Tese. Vieira ainda dá um reforço, confirmando a tese. Dessa forma, o seu Raciocínio é Circular sempre retomando ao ponto inicial, que se encadeiam, aprisionando cada vez mais o tema dentro dos limites que ele pretende.

 I – TEMA:

 Evocação de uma passagem bíblica que sustente a intenção do discurso e desperte o interesse do ouvinte.

 II - INTRÓITO OU EXÓRDIO:

 Apresentação temática do sermão.

III – INVOCAÇÃO:

O orador pede inspiração. Pe. Vieira, normalmente, dirige-se a Nossa Senhora.

IV – ARGUMENTAÇÃO OU DESENVOLVIMENTO:

 Debate do tema, arguição. A sustentação, no caso, deve ser feita com passagens da Bíblia. O orador pode, ainda, recorrer a encíclicas papais e a doutores da Igreja.

V – PERORAÇÃO OU EPÍLOGO:

 Conclusão; momento em que o orador afirma as verdades morais pregadas ao longo daquele sermão e o convencimento dos fiéis a seguirem as suas teses.


III – ANÁLISE DE SUA OBRA:

                 “SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO OU DOS PEIXES” 


“Nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles”.

Pregado a 13 de junho de 1654 (dia de Santo Antônio), na cidade do Maranhão, na véspera da partida de Pe. Vieira para Lisboa.
O “sermão de Santo Antônio” é uma continuação ao sermão das “Tentações”.
Nesta época, Portugal tinha recuperado a Independência e passada atenção dispensada ao sermão das “Tentações”, os colonos logo esqueceram a ameaça do Fogo do Inferno, e voltaram a exigir a posse dos escravos, sem qualquer controle dos jesuítas, pelo que o padre Antônio Vieira decidiu deslocar-se a corte de Lisboa, para tentar conseguir do monarca o cumprimento do diploma real.
Antes, porém, achou por bem renovar a tentativa valendo-se de metáforas e alegorias para impressionar as “almas” de seus ouvintes, e obter uma legislação justa para os índios, razão de seu apostolado.
Com uma construção literária e argumentativa notável, o sermão louva algumas virtudes humanas e, principalmente, censura com severidade os vícios, utilizando-se dos peixes como personificação dos homens.
Trata-se de um sermão alegórico estruturado num exercício de raciocínio, que permitem aos ouvintes atingirem mais facilmente o objetivo da mensagem nas respostas à justificação do fato de a terra estar corrompida e na resposta ao que se há-de fazer ao sal que não salga e à terra que se não deixa salgar.
De forma persuasiva, o orador usa argumentos lógicos, sucessivas interrogações retóricas e a autoridade dos exemplos de Cristo, Santo Antônio, S. Basílio, Moisés,  Aristóteles e de St. Ambrósio, todas referidas aos louvores dos peixes. Utiliza articuladores do discurso (assim, pois…), interrogações retóricas, anáforas, gradações crescentes, antíteses, etc.
Para atingir o emocional dos ouvintes, utiliza-se de interjeições e exclamações.

No fragmento em que relata a perseguição de Santo Antônio em Arimino, Pe. Vieira recorre a frases curtas, ritmo binário, anáforas, enumeração, resultando uma relação direta com a entoação. A frase interrogativa termina num tom mais alto, a declarativa num tom mais baixo, etc.
O pregador invocou Nossa Senhora porque era habitual fazê-lo e ainda porque o nome Maria quer dizer Senhora do mar; os ouvintes do sermão eram pescadores que A invocavam na faina da pesca.


 “A primeira coisa que me desedifica de vós – peixes – é que vós comeis uns aos outros. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande e para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos que vós vos comeis no mar”

O “Sermão de Santo Antônio ou dos Peixes” está organizado em seis capítulos, dividido em três partes.

1. EXÓRDIO:

"vós sois o sal da terra" - "Santo Antônio foi sal da terra e foi sal do mar."

A introdução corresponde ao mote do sermão e constitui-se pelo capítulo I. Inicia-se com um Conceito Predicável: texto bíblico que serve de tema e que irá ser desenvolvido de acordo com a intenção e o objetivo do autor "Vos estis sal terrae".
Partindo de duas propriedades do sal, divide o sermão em duas partes: o sal conserva, o pregador louva as virtudes dos peixes; o sal preserva da corrupção, o pregador repreende os vícios dos peixes.
O pregador teoriza sobre a arte de pregar, propondo a primazia do conceito, aproveitando-se do dia de Santo Antônio e tomando como exemplo, a dificuldade do Santo em obter resultados em sua pregação, tendo sido, inclusive, perseguido e ameaçado de morte. No entanto, Santo Antônio não desistiu de sua missão e, mesmo perseguido, ter-se-á dirigido à praia e pregado o sermão aos peixes que o terão escutado atentamente, contrastando com os homens.


2. DESENVOLVIMENTO

"(...) para que procedamos com alguma clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios."
O sermão é uma alegoria porque os peixes são metáfora dos homens, as suas virtudes são por contraste metáfora dos defeitos dos homens e os seus vícios são diretamente metáfora dos vícios dos homens. O pregador fala aos peixes, mas quem escuta, são os homens.
Trata-se da parte mais longa do sermão, os capítulos II, III, IV e V, e através de uma argumentação persuasiva, desenvolve o tema dentro das perspectivas que ele propõe.
No capítulo II, Pe. Vieira observa as qualidades dos peixes em caráter geral, alicerçando-se ao exemplo de Jonas que fugiu ao chamado de Deus, porém Deus está infinitamente determinado a fazê-lo obedecer. Preparou, pois, o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe. Dessa forma, o pregador louva os atributos e comportamentos positivos dos peixes frente ás características negativas dos homens.
·         São obedientes (obediência), ouvem e não falam: "aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor"; "ouvem e não falam".
·         Os peixes não foram castigados por Deus no dilúvio porque não tinham pecado, sendo, por isso, exemplo para os homens que pouco ouvem e falam muito e pouco respeito têm pela palavra de Deus.  
  • Foram os primeiros animais a serem criados: "vós fostes os primeiros que Deus criou";
  • São os mais numerosos e os mais volumosos: "entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores";
·         Não são domesticáveis: "só eles entre todos os animais não se domam nem domesticam". Evidencia-se que os animais que convivem com os homens foram castigados, estão domados e domesticados, sem liberdade.

Dando sequência a louvação aos peixes, Pe. Vieira, em seguida, utiliza-se de quatro peixes (Peixe de Tobias, Rêmora, Torpedo e Quatro-Olhos) para dissertar sobre os seus atributos particulares, comparando-os aos homens.

PEIXE DE TOBIAS:


 (...) Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em ação de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que virtudes tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para sarar a cegueira, e o coração para lançar fora os demônios: Cordis ejus particulam, si super carbones ponas, fumus ejus extricat omne genus Daemoniorum: et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabantur (Tob. VI – 8). Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demônio chamado Asmodeu morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa o coração, fugiu dali o demônio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demônios de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão bom coração e tão proveitoso fel, quem o não louvará muito? Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo Antônio.”
O peixe possui umas entranhas e um coração que expulsam os demônios e simboliza o poder purificador da palavra de Deus, pois curou a cegueira do pai de Tobias.
Esse peixe é comparado a Santo Antônio que alumiava, curava as cegueiras dos ouvintes e lançava os demônios fora de casa.

RÊMORA:


Peixe que quando se agarra e um navio tem força suficiente para conduzi-lo sozinho.
Remora, em latim, é demora, porque lhe atribuíram a faculdade de deter os barcos. O processo se inverteu em espanhol; rêmora, no sentido próprio, é o peixe e, no sentido figurado, o obstáculo. A rêmora é um peixe de cor acinzentada; sobre a cabeça e a nuca tem uma placa oval, cujas lâminas cartilaginosas lhe servem para prender-se aos demais corpos submarinos, formando com ela o vácuo.

"(...) se se pega ao leme de uma nau da índia (...) a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante."
"Oh se houvera uma rêmora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo!"
"(...) a virtude da rêmora, a qual, pegada ao leme da nau, é freio da nau e leme do leme”.

Simboliza o poder da palavra do pregador, guia das almas, que domou a fúria das paixões humanas: soberba, vingança, presunção e sensualidade. As palavras de Santo Antônio representam as rêmoras dos ouvintes, enquanto estes ouviram; quando o não ouvem, são atingidos por muitos naufrágios (desgraças morais).


TORPEDO:



"Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a boia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De maneira que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol, à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador."

Produz descargas elétricas para se defender, faz tremer o braço do pescador e não permite pescar. Os homens pescam muito e tremem pouco.

"Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo Antônio, eu os fizera tremer."

É importante ressaltar que o verbo pescar é também metáfora de guerra; crítica aos holandeses.

"… se tenho fé e uso da razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo".

Os peixes são o sustento dos membros de várias ordens religiosas. Há peixes para os ricos e peixes para os pobres. Esta distinção tem por finalidade criticar a exploração dos ricos sobre os pobres.
Simboliza o poder dos homens e os seus vícios, principalmente, a vingança. Relaciona-se aos 22 pescadores que tremeram ouvindo as palavras de S. Antônio e converteram-se.

QUATRO-OLHOS:


"e como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direitamente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes."

Tem dois pares de olhos, uns para cima e outros para baixo. Simboliza o dever dos cristãos em tirar os olhos da vaidade terrena, olhando para o céu sem esquecer o inferno.
Representa a vigilância e a providência divina.

Em seguida, Pe.Vieira parte para as repreensões aos peixes, primeiramente de caráter geral (Cap. IV) e depois de caráter particular (Cap. V).
No caráter geral, Padre AntônioVieira acusa os peixes de se comerem uns aos outros, recorrendo a um exemplo dos homens para explicar o que eles faziam. Assim, os homens praticam antropofagia social, ou seja, exploração uns dos outros.
O orador faz uma comparação entre a antropofagia ritual dos Tapuias (índios brasileiros) e a antropofagia social dos homens.
O mais grave de tudo é que são os grandes que comem os pequenos, ou seja, são precisos muitos pequenos para alimentar um grande. Acusa-os igualmente de cegueira, vaidade e de terem a maldade.
Estas repreensões são feitas com o objetivo de mudarem os homens, ou pelo menos fazê-los pensar, mesmo que não haja uma mudança rápida.
O orador expõe a repreensão e depois, comprova-a, como fez com a primeira repreensão: dá o exemplo dos peixes que caem tão facilmente no engodo da isca, passa em seguida para o exemplo dos homens que enganam facilmente os indígenas e para a facilidade com que estes se deixam enganar. A crítica à exploração dos negros é cerrada e implacável. Conclui, respondendo à interrogação que fez, afirmando que os peixes são muito cegos e ignorantes e apresenta, em contraste, o exemplo de Santo Antônio, que nunca se deixou enganar pela vaidade do mundo, trocou a riqueza pela simpleza, e assim, “pescou” muitos para salvação.


REPREENSÕES EM GERAL:

·         "(...) é que vos comedes uns aos outros";
·         "Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos";
·         "Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."

De caráter particular, Pe. Antônio Vieira usa quatro exemplos de peixes que se referem a tipos comportamentais: o roncador que simboliza os arrogantes; o pegador, que simboliza os oportunistas; o voador, que simboliza os ambiciosos e o pior de todos os outros, o polvo, que simboliza o traidor e o hipócrita, que tem uma aparência de santo e manso e um ar inofensivo, mas na essência é traiçoeiro e maldoso, é hipócrita e faz-se de amigo dos outros e no fim “abraça-os”.
Neste capítulo são usados os exemplos de São Pedro, Santo Ambrósio, São Basílio e o Gigante Golias.

RONCADORES:

 
"É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?"

São peixes pequenos e facilmente pescados. Embora, simples, representam a soberba, o orgulho, arrogância e pouca firmeza.
São exemplos de roncadores: São Pedro quando renunciou a Deus; Golias, Caifás e Pilatos.
Santo Antônio tendo tanto saber e tanto poder, não se orgulhou disso, antes se calou. Não foi abatido, mas a sua voz ficou para sempre

PEGADORES:


"Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram."

São peixes pequenos e pegam-se aos maiores (são frágeis e pegam-se aos poderosos). Vivem na dependência dos grandes e morrem juntamente com eles. Aprenderam a ser parasitas com os navegadores portugueses.
Exemplos de pegadores: Herodes e a sua corte (no sentido negativo); David e Adão e Eva.
Santo Antônio representa os exemplos positivos porque seu parasitismo é com Deus e tornou-se imortal.

VOADORES:


"Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? (...) Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes."

Os peixes voadores foram criados peixes, mas querem voar, tornarem aves (simbolizam a presunção, o capricho e a ambição). Os outros peixes morrem por causa da fome na fisga e no anzol; os voadores morrem nas velas, nas cordas e nas quilhas por causa da vaidade de voar aforismo (são pescados como peixes e caçados como aves e morrem queimados).
Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.
Exemplo de voadores: Simão e Ícaro.
Santo Antônio tinha suas asas: a sabedoria natural e a sabedoria sobrenatural, mas voou para baixo em direção à humildade. Não as usou por ambição; foi considerado leigo e sem ciência, mas tornou-se sábio para sempre.


POLVO:


"E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa (...) o dito polvo é o maior traidor do mar."

O polvo tem um capelo como um monge; tem raios como uma estrela; tem ausência de asas e espinha e é brando. No entanto, disfarçado por uma "aparência tão modesta", que traduz a aparente simplicidade e inocência do polvo, encobre uma terrível realidade e alegoriza a traição, pois ataca sempre de emboscada.
Exemplos de polvos: Judas no sentido negativo – a traição.
Judas apenas abraçou Cristo, outros o prenderam; o polvo abraça e prende. Judas atraiçoou Cristo à luz das lanternas; o polvo escurece-se, roubando a luz para que os outros peixes não vejam as suas cores. Assim, a traição de Judas é de grau inferior à do polvo.
Com a expressão "hipocrisia tão santa", o orador usa uma fina e penetrante ironia: o polvo apresenta um ar de santo, mas encobre uma cruel realidade. Tem a máscara (que é o que quer dizer em grego hipócrita), o fingimento de inofensivo.
O mimetismo é o que o polvo usa para enganar: faz-se da cor do local ou dos objetos onde se instala, para atacar os peixes desacautelados.
O orador refere a lenda de Proteu para contrapor o mito à realidade: Proteu metamorfoseava-se para se defender de quem o perseguia; o polvo, ao contrário, usa essa qualidade para atacar.
Os verbos que se referem ao polvo estão no presente do indicativo, traduzindo uma realidade permanente e imutável; a forma "vai passando" gerúndio perifrástico, acentua a forma despreocupada dos outros peixes que lentamente passam pelo local onde se encontra o traidor; os verbos que se referem a Judas estão no pretérito perfeito do indicativo porque referem ações do passado. Há ainda o imperativo "Vê", que traduz uma interpelação direta ao polvo, tornando o discurso mais vivo.
Santo Antônio foi o maior exemplo da candura, da sinceridade e verdade, onde nunca houve mentira; crítica aos portugueses (fingimento e engano).

3. PERORAÇÃO:

"Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus peixes. E para que vades consolados do sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levítico."

Trata-se da conclusão do Sermão (capítulo VI) com a utilização de um desfecho forte, capaz de impressionar o auditório e levá-lo a pôr em prática os ensinamentos do pregador.
Pe. Vieira retoma aos pregadores de que falava no conceito predicável, servindo-se dele próprio como exemplo, alegando que não estava a cumprir a sua função.
Alega que os homens e os peixes, nunca vão chegar ao sacrifício final, uma vez que os peixes já vão mortos e os homens vão mortos de espírito.
O orador quer que os homens imitem os peixes, isto é, guardem respeito e obediência a Deus.
Padre Antônio Vieira diz que a irracionalidade, a inconsciência e o instinto dos peixes, são melhores do que a racionalidade, o livre arbítrio, a consciência, o entendimento e a vontade do homem.

Conclui-se assim, fazendo um apelo aos ouvintes e louvando-se a Deus, tornando esta última parte do sermão um pouco mais familiar, para que se estabeleça de novo a proximidade entre os ouvintes e o orador.
A escolha do hino “Benedicite” cumpre fielmente esse objetivo, encerrando o Sermão com um tom festivo, adequado à comemoração de Santo Antônio, cuja festa se celebrava.
A palavra Ámen significa "Assim seja", "que todos louvem a Deus".
O quiasmo realizado na colocação em ordem inversa das palavras: glória e graça sugerem a transposição dos peixes para os homens, já que os peixes não são capazes de nenhuma dessas virtudes, sejam-no os homens.
Sugere também uma mudança: a conversão (metanóia), porque só em graça os homens podem dar glória a Deus. Numa palavra, pretende que os homens se convertam.


Alguns recursos estilísticos de Pe. Antônio Vieira neste sermão

1. Antíteses

"Tanto pescar e tão pouco tremer!"

"No mar, pescam as canas, na terra pescam as varas (...)"

"(...) deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima (...) e outros dois que direitamente olhassem para baixo (...)"

"A natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar (...)"

"(...) traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras."

"(...) Antônio (...) o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano."

"Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar!"

2. Comparações

"Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo Antônio."

"O que é a baleia entre os peixes, era o gigante Golias entre os homens."

"(...) com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura (...)"

"As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia (...)"

"(...) e o salteador, que está de emboscada (...) lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas?"

"Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!"

3. Paralelismos e anáforas

"Ou é porque o sal não salga, e os pregadores...;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes...
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores...;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes...
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores...;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes..."

"Deixa as praças, vai-se às praias;
deixa a terra, vai-se ao mar..."

"Quantos, correndo fortuna na Nau Soberba (...), se a língua de António, como rémora (...)

Quantos, embarcados na Nau Vingança (...), se a rémora da língua de António (...)

Quantos, navegando na Nau Cobiça (...), se a língua de António (...)

Quantos, na Nau Sensualidade (...), se a rémora da língua de António (...)"

"(...) com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura (...)"

"Se está nos limos, faz-se verde;
se está na areia, faz-se branco;
se está no lodo, faz-se pardo (...)"

4. Ironia

“Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não prego a vós, prego aos peixes."

"E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa (...) o dito polvo é o maior traidor do mar."

5. Metáforas

"Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rémora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (...) se vêem e choram na terra tantos naufrágios."

"(...) pois às águias, que são os linces do ar (...) e aos linces que são as águias da terra (...)"

"(...) onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes há tantos séculos?!"

" (...) vestir ou pintar as mesmas cores (...)"

"(...) e o polvo dos próprios braços faz as cordas."

6. Trocadilhos

"Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra."

"E porque nem aqui o deixavam os que o tinham deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal."

"(...) o peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua contra os que se não queriam lavar."

7. Gradações
Nau Soberba, Nau Vingança, Nau Cobiça, Nau Sensualidade; "passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador." O sentido é sempre uma intensificação para mais ou para menos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
  • A antítese Céu/lnferno, que repete semanticamente a antítese bem/mal, está ligada quer à divisão do Sermão em duas partes, quer às duas finalidades globais do mesmo.
  • A apóstrofe refere diretamente o destinatário da mensagem e do pregador, aproximando os dois polos da comunicação: emissor e receptor.
  • A interrogação retórica como meio de convencer os ouvintes.
  • A personificação dos peixes associada à apóstrofe e às atitudes dos mesmos.
  • A gradação crescente na enumeração dos animais que vivem próximos dos homens, mas presos.
  • A comparação, "como peixes na água", tem o caráter de um provérbio que significa viver livremente.
O discurso deste sermão, como doutros, é semelhante ao ondular das águas do mar: revoltas e vivas, espraiam-se depois pela areia como que se espreguiçando. Uma das características maravilhosas do discurso de Vieira é a mudança de ritmo, que prende facilmente os ouvintes.
A repetição da forma verbal "vedes", que deverá ser acompanhada de um gesto expressivo, serve para criar na mente dos ouvintes (e dos leitores) um forte visualismo do espetáculo descrito, deixando de indicar uma ação limitada para se transformar numa situação alargada.