sábado, 4 de junho de 2016

O TEMPO ACABA O ANO, O MÊS E A HORA, CAMÕES





O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.

Tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro,
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo a tempestade em grã bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.


O tom filosófico é retomado nesse soneto. A efemeridade promovida pela ação do tempo é implacável. Este modifica/acaba com o ano, o mês, a hora, a força, a arte, a manhã e a fortaleza.

O tempo ainda age como fator de isonomia não distinguindo sujeitos por classes – problema cada vez mais frequente desde o Renascimento. O tempo, neste texto, cura a raiva e incita o perdão.

No entanto, o poderoso transformador é impotente diante da tristeza promovida pela negação do amor pela dama. O pessimismo gera vassalagem e, neste caso, quanto maior a dor, maior o Amor. A impotência e indiferença do Tempo em relação aos sentimentos do “EU” continua: o tempo modifica o dia, o prazer, a tempestade... só resta, então, ao eu-poemático, blindar-se para que a transitoriedade não destrua aquilo que é singularmente importante e mantenedor do amor/sofrimento: a esperança. Para isso, basta ter um peito de diamante, elemento duro, resistente, capaz de sustentar a vida e o amor.