sábado, 17 de setembro de 2016

PINTURA, MÚSICA, POESIA: “Trattato della pittura” (fragmentos), Leonardo da Vinci

   “Conclusão [do debate] entre o poeta e o pintor”.

   “(...) a poesia é de suma compreensão dos cegos, e a pintura faz o mesmo com os surdos, daremos mais valor à pintura que à poesia, pois a pintura serve a um sentido melhor e mais nobre que a poesia. ”
   “(...) quem perde a visão, perde a vista e a beleza do universo. Ele é a janela do corpo humano por onde a alma contempla a beleza do mundo e contenta-se, aceitando assim a prisão do corpo que, sem o qual essa prisão seria seu tormento; a indústria humana deve-lhe a descoberta do fogo por meio do qual o olho recupera o que as trevas lhe tiraram. ”
   “Do olho”. “A perda da audição, implica na perda de todas as ciências que conduzem às palavras, mas consente unicamente para não se privar da beleza do mundo, que consiste na superfície dos corpos, sejam naturais ou artificiais, que refletem no olho humano. ”


“Comparação entre pintura e poesia”:

   “A imaginação não vê com tanta perfeição quanto o olho, porque o olho recebe as imagens ou as similitudes dos objetos e dá-lhes acesso à sensibilidade, e dessa sensibilidade essas imagens dirigem-se ao senso comum e ali são julgadas. ”
   “O único ofício próprio do poeta é criar as palavras das pessoas que falam e essas são as únicas coisas que ele pode apresentar ao sentido da audição como sendo naturais, pois elas são por natureza criações da voz humana; em todas as outras matérias, ele é ultrapassado pelo pintor. [...] Pois, o pintor fará uma infinidade de coisas que as palavras não poderão designar, por falta de vocábulos apropriados. ”


“Conclusão [do debate} sobre poeta, pintor e músico”:

   “[...] o poeta ao descrever a beleza ou a feiúra de um corpo qualquer, o faz membro a membro, em momentos sucessivos, e o pintor o torna visível de uma só vez. Acontece com o poeta a mesma coisa que com o músico que cantar sozinho uma canção composta por quatro vozes, canta a primeira voz, depois o tenor, a seguir o contralto para terminar com o baixo. (...) A música ainda produz com seus acordes harmônicos, suaves melodias compostas de diversas vozes; o poeta não possui o recurso dessa descrição harmônica. Apesar da poesia aceder à sede do julgamento pela via da audição, como a música, o poeta não pode fornecer a harmonia da música.
   [...] o poeta resta, quanto à representação das coisas corpóreas, muito atrás do pintor; e para as coisas invisíveis, atrás do músico. ” (...) o poeta é “um colecionador de bens roubados de diversas ciências, o que o faz um mentiroso composto...”


“O músico fala com o pintor”:

    “O músico diz que sua disciplina pode ser comparada à do pintor, porque ele compõe com muitos membros, e que o ouvinte pode contemplar toda a graça em tantos tempos harmônicos quantos forem necessários ao conjunto para nascer e morrer; e por esses tempos a alma que habita o corpo daquele ouvinte é prazerosamente contemplada. ”
   “Quantas pinturas preservaram a imagem de uma beleza divina, enquanto o tempo ou a morte rapidamente destruíram o modelo natural. ”


“Que a música deve ser chamada de irmã caçula da pintura”:

   “[...] Mas a pintura sobressai à música e a domina, pois ela não morre logo após a sua criação, como a desafortunada música, pelo contrário, ela subsiste e mostra-se a ti doada de vida, o que na verdade nada mais é do que apenas uma superfície. ”


PINTURA E ESCULTURA:


“Diferença entre a pintura e a escultura”:


   “[...] o escultor executa suas obras com maior esforço físico que o pintor; e o pintor executa as suas, com maior esforço intelectual. ”

“Que a escultura é um trabalho menos intelectual que a pintura, e que mais aspectos da natureza lhe escapam”:
   “[...] a escultura é submetida à uma certa luminosidade que vem do alto, e a pintura traz com ela em toda a sua extensão a sua própria luz e sombra. Luz e sombra são, portanto de importância para a escultura, mas o escultor é nesse caso auxiliado pela natureza, isto é, o relevo, ela mesma fornece; o pintor produz a sombra por meio da sua criação artística, nos locais onde a natureza deveria racionalmente, fazê-las. “
   “[...] As perspectivas do escultor não parecem reais; as do pintor parecem estender-se a centenas de milhas além da obra. A perspectiva aérea é estranha à obra dos escultores, (...) não podem representar corpos luminosos, nem o reflexo dos raios, nem corpos brilhantes tais como os espelhos ou outros objetos refletores, nem as névoas ou o tempo sombrio e uma infinidade de coisas que não cito para não entediar. A vantagem da escultura é que ela resista melhor ao tempo; mas a pintura feita sobre cobre recoberto de esmalte branco e sobre esses esmaltes coloridos, e se levado ao fogo para cozer e fundir, dura mais que a escultura. ”
   O escultor poderá dizer que, se ele comete um erro, não lhe é fácil repará-lo...”(...) Se ele tem o controle das medidas, ele não arrancará o que não for preciso. Diremos então, que o defeito está no executor e não na matéria. ”
   A pintura é feita de especulações sutis, a escultura, é desprovida por ser de breve discurso.

“O pintor e o escultor”:

   “Diz o escultor que a sua arte (...) é mais durável, sofre menos com a umidade, com o fogo, com o calor, com o frio que a pintura. A ele responde-se que isso não confere nobreza à escultura, pois essa aptidão à durabilidade vem da matéria e não do artista...”
   O escultor, ao esculpir uma estátua faz apenas duas figuras, uma é vista de frente e a outra de costas...

“Diferença entre a pintura e a escultura”:

   “[...] O pintor deve considerar dez aspectos para levar sua obra a bom termo, a saber: luz, trevas, cores, volume, figura, lugar, distância, proximidade, movimento e repouso. O escultor deve apenas considerar o volume, figura, lugar, movimento e repouso. (...) há menos discurso na escultura e conseqüentemente demanda menos esforço ao espírito que a pintura. ”