quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ENTREVISTA COM PEPETELA


Entrevista com Pepetela (1985): recolhida por Carlos Serrano

Pergunta: – Há alguma identificação pessoal com alguma personagem ou estás te fragmentando nas diversas personagens de Mayombe?
Resposta: – Sim, posso dizer que me estou fragmentando. Fragmentado, digamos, compreendendo melhor algumas personagens.
Claro, o “Sem Medo” tem algumas ideias que são minhas, mas de caráter político. Outra personagem que é importante é o “Teoria”. Não me identifico. Aí não sou eu. Mas compreendia perfeitamente. É o problema do mestiço, que me interessou e que eu pretendi escrever como problemática.
O “Mwatiânwa” também tem muito de mim, no aspecto da preocupação com a unidade nacional, e mais do que isso até, dá uma ideia internacional. Há sim. Em algumas personagens há algumas preocupações e ideias que eu tenho. Mas realmente não há nenhuma personagem que seja eu. Aliás, não há nenhuma personagem que seja real.
Todos eles são ficção, ou utilizando por vezes um ou outro dado de uma pessoa existente ali ou fora do contexto que eu conheci, numa versão.
Pergunta: – Serviu-te, enquanto escreveste este romance, a tua formação não só como militante e revolucionário, mas também a tua formação acadêmica como sociólogo?
Resposta: – Eu creio que sim. Creio que isso é importante. Digamos que são duas formações que se completam.
Há uma certa preocupação, por exemplo, em análise social, é evidente.
Sobretudo a análise do fenômeno do tribalismo, no plano social, o que é importante. É o que de uma forma empírica, portanto, eu estudava naquele momento.
É claro que isso vai aparecer no livro que eu estava a escrever naquele momento. É evidente que eu estava minimamente apetrechado para fazer a análise.
A minha formação serviu para levantar problemas. Uma pessoa que não tivesse essa formação talvez não se preocupasse com tal e tal problema e adentrar, ir mais fundo, etc.
Há uma coisa que é característica, eu penso, da Escola Sociológica francesa, que aparece lá, que é a preocupação com o relativismo.
E isso é declaradamente influência de meus estudos que temperaram bastante a possibilidade do dogmatismo que a aplicação do marxismo podia ter no final.
Pergunta: – Por que então escolheste a ficção quando poderias ter elaborado uma análise sociológica do tipo acadêmico? Foi tua posição como escritor ou a forma que encontraste de melhor objetivares os problemas?
Resposta: – É porque realmente eu sou um ficcionista, não tinha nenhum objetivo.
Eu escrevi não para publicar. Escrevi porque tinha necessidade de escrever.
Estava em cima de uma realidade que quase exigia que eu escrevesse.
Escrevendo eu compreendia melhor essa realidade; escrevendo eu atuaria também melhor sobre a própria realidade. Não quanto à obra escrita, mas pela minha atuação militante para melhor compreensão dos fenômenos que se passaram. Mas escrevia também para compreender melhor esses fenômenos. Claro que podia fazê-lo com um ensaio acadêmico, não era essa a minha intenção. Eu vejo a coisa como ficcionista.
Não houve, portanto, nenhum objeto pré-determinado para eu poder escrever sem saber o que ia escrever.
Talvez a melhor medida que permitia ver como ia acabar.
As personagens foram aparecendo, a ação foi-se desenrolando, logicamente, dentro daqueles parâmetros duma situação que existia.
Cenas imaginárias, uma ou outra pode não ser, uma ou outra não é.
Mas de um modo geral é imaginário. É imaginário, mas foi a própria dinâmica das personagens que se foi impondo e deu naquilo. Portanto, não houve nenhum objetivo.
Na época não tinha publicado nada, só alguns contos de juventude, mais nada...
Intervenção: – Desculpa, então Mayombe antecede as Aventuras de Ngunga?
Resposta: – Sim, antecede. Escrito em Cabinda em 71. Pensado em 70 mas escrito em 71. Ngunda foi escrito em 1972 na Frente Leste. Da mesma maneira, Ngunda também tem este tipo de preocupações. Mas tinha outro objetivo, já era para ser publicado. Não como livro, mas como folhas, na escola. Aí talvez se veja melhor, já há uma preocupação didática.
A questão da linguagem já é muito mais cuidada para ser entendida por crianças.
Os temas tratados mais resumidamente. Mais ou menos todos os capítulos ficaram com o mesmo tamanho, até. Havia uma preocupação didática, podiam ser distribuídos.
Aí sim já havia outro objetivo. Aí foi escolhida a ficção por ter maior impacto, as ideias passavam, as crianças e os guerrilheiros também podiam ler, intessar-se-iam porque era uma obra de ficção, complementava, digamos, o texto político que estavam acostumados a ler.
Agora o Mayombe não tem essa preocupação.
Pergunta: – Mas o material recolhido em “Mayombe” serviu-te, até certo ponto, também para o “Ngunga”?
Resposta: – Sim também. Sobre alguns fenômenos que eram mais ou menos comuns.
Agora, realmente essa questão de que a mesma coisa poderia ser feita como ensaio acadêmico, essa é uma questão importante. Mas eu me sinto muito mais à vontade fazendo ficção. já fiz alguns textos, ensaios, poucos. Mas onde estou mesmo à vontade é na ficção. É essa mesmo a minha vocação.
Pergunta: Uma outra questão é a de tu retomares literalmente o “antigamente” sobre a época do colonialismo. Não te parece que é alguma coisa intrínseca de ti mesmo de fazer uma revisão do teu passado, dos meandros que tinhas com esse momento histórico? Reviver para que te possa servir e reavaliar-te como militante, enfim tomar consciência de ti mesmo neste processo? (Referência a Yaka).
Resposta: – É um pouco isso, embora o próprio livro pudesse ser mais rico nesse aperto. Eu me preocupo muito nesse livro com a possibilidade de alguém vindo da sociedade colonial dar o “salto”. Aparece uma personagem que dá o “salto” e que depois luta contra os sul-africanos, até. Mas não me demoro muito a estudar os fatores que criam esta mudança, esta opção. E, neste aspecto, até podiam ser muitos, não o sendo neste livro.
Há qualquer coisa como uma tentativa de ver pessoalmente. Um “pessoal” que é circunscrito a um grupo. Uma pessoa, mas como outras pessoas que vêm da Resistência colonial e que a um momento dado tomam o partido nacionalista. Existe este aspecto.
A preocupação principal era a seguinte, e que, portanto, tem importância talvez para o futuro, é que me parece, exceto Castro Soromenho, não há ainda na ficção uma análise da sociedade colonial.
Ora, há muita coisa de Angola de hoje e de Angola de amanhã que encontram explicação nessa sociedade. Porque apesar da luta de libertação, apesar da Independência, etc., muita coisa ficou fundamentalmente em termos do que se pode chamar muito genericamente de cultura, incluindo comportamentos sociais, preconceitos, etc. Há uma série de reações que tiveram que são explicadas pela história colonial. Há trajetórias individuais de pessoas que só podem ser explicadas pela educação que receberam em determinado meio. Depois houve a ruptura. A Independência é uma ruptura, um trauma de que se recuperam numa nova sociedade, mas com muita coisa que vem de trás.
Pergunta: – Seria uma “crise de identidade”?
Resposta: – Uma “crise de identidade”, exato, onde as pessoas recuperam-se, mas cada vez mais buscando socorro às ordens da sociedade anterior, e fazendo até comparações com a atual, etc. O que se pode chamar de “saudosismo colonial”. Há uma série de situações deste gênero com pessoas ou personagens de todas as raças, e isso é que é importante. Porque se só fosse circunscrito à raça branca, seria um dado menor. Mas não, são de todas as raças que a um dado momento estavam a “cavalo” entre dois mundos, entre duas culturas, mesmo as populações negras que estavam urbanizadas e que sofreram esta influência preponderante. Claro, este romance não diz isso, para na altura da Independência. Mas é uma tentativa de mostrar: era assim. Havia pessoas que reagiam assim e daí facilmente se pode perceber que hoje pessoas que reagem desta maneira ou daquela, grupos sociais que reagem assim, ou assim encontram facilmente um paralelo com o que era antes. Outro objetivo é que daqui a uns tempos não haverá pessoas que tenham vivido a situação colonial por “dentro”. E toda a nova geração deverá ouvir falar, apenas. Há de haver textos de história sobre o que era o colonialismo, o que era a mentalidade do colono, etc., mas forçosamente texto de história, é uma coisa fria... e as pessoas acabam por imaginar o que seria, mas não compreender profundamente, e aí é o papel do romance, fundamental, para a nova geração conseguir “viver” um pouco o que era a vida antes. Aí há também uma preocupação de registrar para a história. E há pouca gente que escreve, que tenha tido essa vivência. E aí eu pensei, eu tenho essa vivência da sociedade colonial, eu tenho a vivência dos que se opuseram à sociedade colonial, eu sou um dos raros cinco, seis ou dez que possam fazer isso. Eram esses os meus objetivos.
Enfim, é um voltar atrás, mas com os olhos pelo menos no presente...


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